Definição de Esperança

Definição de esperança 


Breve, o dia em que decidi ser alguma coisa,
Espuma de mar cavado na sarração do vento.
Acordo no meio de uma conspiração d’ondas e horas
E dedico os últimos minutos a tentar definir o tempo
 
E lembro-me de não querer ser capitão d’coisa alguma
Sobretudo no dia de hoje que acabará d’manhã bem cedo,
Ainda me pus a olhar o futuro, sem solução à vista ou relógio d’pulso
E, na vigia baça da embarcação, abocanho um curto sonho,
 
Um sonho em vão, de quem espera horas e horas o fio,
Mas breve, breve como as ondas no bojo preto deste navio
Cargueiro. Vi passar o rápido, das nove e um quarto,
Branco, branco…Tinha na face, a expressão da glória antiga,
 
E eu aqui no porão, como um rato num ínfimo labirinto,
Hostil e angustiado sob o peso da máquina universal do atraso.
Ah, se eu estivesse atrasado dezoito horas na vida,
Começava tudo outra vez, à meia-noite e vinte em ponto
 
E seria mais um livro, posto na prateleira, sem paciência
Pra ser lido, contudo, sinto-me vivo como um nado-morto,
Embalado pelo dever de viver, ao lado de cada dia, de cada segundo,
Sem força para detestar tudo o que me é imposto,
 
Pela absurda tripulação de estibordo.
Ah, se eu tivesse ambição, provocaria um motim de praças
E partiria de malas feitas, por esse mundo sem fim,
Decerto seria alguma coisa, com mais sabor que não engodo
 
De peixe balão, batata de sofá, asceta gordo de time-sharing
Ou marajá da sanita. Descubro que sou, metade, tempo perdido,
Metade, escrita ilúcita e imaginação no intervalo, mudo de cor,
Ao estilo de camaleão do campo… sem título.
 
Breve, o dia em que decidi ser, coisa alguma,
Um zero, num fim metafórico de cena, uma réplica de sino,
Uma causa pequena, onde o vento, faz tempo não sopra
E dedico os últimos minutos, A TENTAR DEFINIR A ESPERANÇA.
 
Joel Matos
(01/2011)
http://namastibetpoems.blogspot.com
14 Jorge Santos (namastibet)

Mad’in China






Quarta-feira ,17 Maio de 2013 em Setúbal 


(40.003,2 quilómetros de diferenças, não só horárias)
O perímetro da Terra..

Viajar é sentir as diferenças entre culturas e reconhecer os valores de cada uma, por muito díspares que sejam; é sentir a enorme riqueza que a diversidade cultural e étnica dá à humanidade. Viajar é pairar e vaguear no meio de outras culturas e gentes, evitando locais onde o turista ofensivamente opulento e “caridoso” ensinou a mendicidade às crianças, promoveu o furto nos adolescentes e corrompeu a ingenuidade dos adultos.(Alberto Korda- fotógrafo)
 
 
 
Apenas sei que Passarei por lugares onde ainda não respirei,passarei por locais onde ainda não passei nem toquei, onde ainda não senti na pele o calor e o pó e os pulmões a arder,Nas multidões eu estrangeiro serei mais um só, num lugar entre vários, onde poucos ocidentais passaram devagar, eu respirarei dessa liberdade que há tão pouco, num mundo tão pequeno quiçá hostil ou ameno, mas do qual nada sei…Apenas sei que passarei por locais que serão a minha cabeceira e cama e por algumas semanas serão eles pra mim o bom e o avesso do travesseiro… 

Será a primeira vez que irei percorrer um tão grande número de quilómetros e em tão poucos dias, pelas minhas contas 4.500 em trinta dias, quase a distância de lisboa a Moscovo num mês, ou seja, terei de percorrer 150 quilómetros por dia sem descanso durante esse espaço de tempo.
Comecei por pedir a aplicação do visto para a China no passaporte (disseram-me na agencia de viagens onde comprei o bilhete de avião que não seria necessário visto para o Quirguistão) demorado e burocrático foi este visto, fazendo-me sentir como seria difícil o percurso num dos maiores países do mundo.
As próximas fases serão o fazer listas o mais concisas possível dos objectos a transportar, arrumá-los e ir retirando tudo, mas mesmo tudo quanto não for absolutamente necessário a sobrevivência diária, a roupa, à parte os calções almofadados de ciclismo, será comprada nos mercados locais para me parecer o mais possível com os habitantes de cada região ou cantão (cada um destes do tamanho de países como a França, a Espanha ou a Polónia)

Lembro-me, apesar de terem passado tantos anos, de uma série de televisão que me iludia os olhos e aquecia como a areia das dunas, a minha alma e, apesar de ainda ser a preto e branco lembro-me dela como se fosse já a cores.
Ah …e aquela música de Kitaro ,emocionava-me pela magia do som dos guizos e dos cascos dos camelos, (chamava-se “The silk Road”)
Kitaro era o musico Japonês que compunha a banda sonora da serie e teve aquela musica a faculdade de um despertar para o oriente e para a mítica rota da seda, algo que era, nesse tempo, tão longínquo, como ainda o é hoje.
As cidades chinesas e todas as outras como Samarkand ,Antioch ou Aleppo, ao longo desta rota milenar modificaram-se mas espero ver ainda um ultimo vestígio das imagens com que aprendi a conviver faz mais de 30 anos, na serie que esperava fielmente ver no minúsculo ecrã de televisão, um aparelho ligado a uma bateria pois não possuíamos electricidade em casa.
Isso era coisa de meninos ricos e a minha casa era no campo, quase sem um caminhos nem agua canalizada ou casa de banho como hoje talvez dificilmente consigam imaginar.
Lembro-me da inveja que tinha dos outros meninos da escola, falavam de ouvir música num gira-discos e eu nem sabia o que era tal coisa.
Talvez por isso sinta mais afinidade com estas civilizações do que com o ocidente dito civilizado e homologado.
Talvez por isso reconheça estes povos como meus familiares e sinta maior segurança no meio destes, que numa mega-metrópole de 10 ou 20 milhões de almas sem os sonhos ligados aos meus e entre eles próprios.

Xi’an / Bishkek 2013 (Mad’in China)

Quando entrei no aeroporto de Lisboa, no dia 30 de Maio de 2013, numa meia tarde quente, sentia-me inseguro, transportava comigo um enorme embrulho contendo uma bicicleta meio desmontada e o que eu considerava ter de coragem, a metade bastante para tentar atravessar a grande China pedalando.
Revelou ser uma tarefa para a qual ainda não me encontrava preparado, a monotonia infinita do planalto tibetano e a paz que não levava comigo no pequeno alforge, revelaram-se-me avassaladoras.
Perguntou um polícia quando entrei na área internacional do aeródromo,
– qual é o seu destino?
respondi com vigor exagerado
– para a China!
respondeu ele que para lá não iria de forma alguma
retorqui eu que sim, era sem dúvida alguma o meu destino,
respondeu ele de novo,
– não há voos entre Lisboa e Pequim
Disse-lhe finalmente que faria escala em Istanbul e deixou-me passar com um ar astucioso, peculiar em todas as autoridades de todos os países.
– // –
Ao aterrar em Xi’an de madrugada, não supunha o redemoinho de acontecimentos e contrariedades que este imenso pais me reservava, aguardava-me o táxi que me haveria de levar ao “youth hostel les 7 sages”.

Chovia e as ruas pareciam encantadoramente Asiáticas e fantasmagóricas junto daquele paredão escuro.
Xi’an parecia toda uma cidadela medieval sequestrada por um colosso demasiado ocidentalizado de betão, alcatrão e ferro que era o continente Asiático; mesmo o hotel, aproveitado das antigas cavalariças do corpo de elite das tropas do imperador Xin, fazia recuar o tempo no interior dos muros da cidade, fora a China mostrava as verdadeiras cores, invicta e esventrada dos seus gloriosos e ancestrais ídolos e sendo preenchida com a pestilência de um fumo horrível.

Pelo menos aqui falava-se inglês, se bem que tivesse que me adaptar ao sotaque. Reconstruí a bicicleta no quarto, aos pés da cama, tomei um banho quente e mais parecia um zombie ou uma máquina controlada por piloto automático que repousava das 20 horas de jornada. naquele colchão rente ao chão e nos únicos lençóis brancos de toda a viagem, nem os sonhos adivinhavam o meu futuro na China.

Sete da madrugada e pergunto na receção onde posso adquirir um mapa de estradas Chinesas, uma imprescindível ferramenta, senão a mais importante para continuar para Ocidente na direção do Deserto do Taklamakan e do Quirguistão.
Apontou-me o mercado ao lado da estação não muito longe do albergue, para onde me dirigi; aqui foi a primeira noção da Ásia total que me envolveu nesta viagem, as ruas das prostitutas importunando possíveis clientes, a fealdade dos becos pejados de lixo, a pobreza extrema estampada nas feições mas na alma a nobreza própria de quem protagonizou a Historia da humanidade, respondiam sempre no mesmo tom e repetiam as minhas palavras quando dizia que queria comprar um “Map of China”, continuei durante cerca de uma hora questionando os transeuntes que me pareciam saber algum inglês mas ingloriamente, nem um único termo compreendiam nem um gesto, nada…
Dado Xi’An ser uma cidade construída dentro e em volta de uma muralha quadrangular nada mais sensato me ocorreu senão seguir junto ao muro, para Oeste, talvez isso me levasse de uma forma mágica, ao meu destino próximo, a cidade de Lanzhou, pois nem o nome dessa ou de outras cidades eu era capaz de pronunciar em Chinês.
Senti-me completamente perdido no meio do “smog” e com uma vontade de voltar, de não estar ali, a alimentação futura não menos que a fome atormentava-me, o mito ocidental, que os chineses comem todo o tipo de insectos e animais deixava-me aterrorizado tanto que durante este primeiro dia decidi não comer nada para me habituar a ideia de me alimentar d’alguma coisa.
Foi agradável a visão de postal dos campos cultivados, das árvores beijando a estrada, dos praticantes de tai-chi nos jardins, ao som de diferentes instrumentos e finalmente na rota que me levaria ao Ocidente, a “Rota da Seda”
Havia pedalado pouco mais de cem quilómetros sem me dar conta do “jet-leg” e da fome, pareciam mais pesadas as pernas e a bicicleta, as pequenas subidas afiguravam-se a montanhas íngremes e a mochila nas costas pesava como chumbo.
Um grupo de camiões, num dos muitos locais artesanais de lavagem, fez-me pensar que talvez fosse bom tentar provar do acolhimento deste povo, ao principio, riram-se dos meus gestos quando sugeri colocar a bicicleta dentro da galera alta e vermelha de transporte de carvão.
Fiquei contente quando o condutor me levou pela estrada, em ziguezague, sempre tentando fazer conversa, oferecendo-me tabaco, comida ,bebida e o telemóvel onde a esposa ou a filha perguntavam com umas tímidas palavras em inglês, para onde ia e o que estava fazendo na China, inclusivamente parou junto das bilheteiras do exercito de Terracota do imperador “Xin” para que o traduzissem questionando para onde ia eu, ficou com um ar de puro espanto quando lhes anunciei a pretensão de atravessar a China.
Mais tarde durante a viagem com cerca de 80 /100 km, pelas minhas contas, mostrei a foto de família que trazia comigo e tive dificuldade em fazê-lo entender que não era para oferecer, mas recordação da família que transportava comigo quando viajava.
Como que era guardado pelos colegas, cada um que passava acenava-lhe e perguntava algo que eu entendia como sendo ”pra onde levas esse branco ? ” ou “que fazes com ele aí dentro ? ”
Algumas dezenas de quilómetros depois de apeado e agradecer ao agradável motorista do camião, aconteceu o primeiro furo …
Não tardou em aparecer um jovem com cerca de 20 anos, com roupas de ciclismo, parecia um normalíssimo ocidental em fim de semana , montado numa bicicleta de montanha nova,
entendi que ia na direção de Lanzhou, transportou a câmara de ar até uma “oficina” improvisada, ali perto, junto ao passeio, consistia numa bacia com agua, alguns remendos e uma bomba de ar manual, apesar da minha insistência este recém chegado amigo não me deixou pagar o arranjo, senti-me aliviado por isso, tinha acabado de chegar a este país (diferente de muitos outros) e ainda não confiava na honestidade que comprovaria mais tarde e me entregaria de alma e coração a estes maravilhosos povos da China.

Não nos separámos, durante as 48 horas seguintes, nem para respirar. Sufocava-me e penso que também ele sentia isso, pela azáfama que demonstrava em procurar alguém que falasse inglês, nas escolas básicas onde não obtínhamos grande ajuda, nem sequer por parte dos professores, com um inglês muito primário, apenas nas universidades conseguia manter alguma conversação com os docentes, que manifestavam uma curiosidade enorme pelo ocidente e pela minha viagem, mas apesar disso, nunca consegui compreender o meu jovem amigo, acerca do que ele desejaria comunicar-me, pensei até que não me queria como companheiro de viagem mas, quando eu me afastava propositadamente e também porque ele pedalava devagar, este pedia-me para abrandar, de forma que fui afrouxando a minha vontade de fazer muitos quilómetros e as horas passavam-se sem que diminuísse a distancia à cidade mais próxima.
Pernoitei no minúsculo “bivouac” azul, (também o meu amigo chinês transportava uma exígua tenda) no meio de fenos empilhados, numa aldeia antiga e depois de termos solicitado aos locais para descansar.
Foi uma festa para os miúdos, não estavam habituados a ver estrangeiros e seguiam todos os meus gestos sem incomodarem, estava habituado noutras paragens a ser atacado literalmente por enxames de crianças, pilhado até com a indulgência dos familiares, nada disso se passava na pacatez desta China simples e rural.

No dia seguinte, muito cedo detivemo-nos numa pequena vila, apenas com uma rua bastante poeirenta, serviam-se refeições sob frondosas árvores, fui obsequiado com um pequeno almoço, servido a preceito num saco de plástico pousado uma málaga jamais lavada, soube bem estar sentado em plena rua sorvendo, como é habito nestas paragens, aquela sopa picante, adivinhava-se o sabor pela cor avermelhada e objetos desconhecidos, repugnantes pairando no caldo, mas foi aconchegante, tinha fome e fosse qual fosse a refeição, era bem vinda.

Adivinhavam-se as feições tibetanas em alguns peregrinos à medida que me ia aproximando do elevado “plateau”, pareciam-se com os caminhantes de Santiago de Compostela que conhecera noutros tempos, numa geografia de rostos distintos.
Era noite quando chegámos à descomunal cidade de Lanhzou e de novo à poluição, o caos no trânsito exclusivamente automóvel, as ruas apinhadas de gente que me olhavam como se fosse eu um extraterreno saído dalgum “OVNI” em talhe de bicicleta.

Esta, como todas as cidades Chinesas que conheci, parecia cintilar de tanta luz e néon vista de longe, reparei nos rostos franzinos dos camponeses encostados aos vidros embaciados dos autocarros, boquiabertos com tanta ostentação, diz-se por aqui “para inglês ver”, neste caso será mais para uso doméstico, porque nas ruas detrás, no mais central lugar da cidade mas escondidas aos forasteiros, eram o mesmo amontoado de escombros, lixo, falta de esgotos e ruas sem asfalto, cada morador tem de usar lanterna para não cair numa vala cheia de ratos, num buraco onde é queimado diariamente o lixo ou num vazadouro de esgoto caseiro.
Exibiu-me aos estranhos amigos “teenegers” e a uma irmã que felizmente falava bem inglês, trabalhava na versão Chinesa do Kentucky Fried Chicken, eu sabia previamente não haver esta marca de franchising na China, mas a imitação era perfeita, além disso eu detestava frango, 
Disse-me que não viviam juntos, depressa compreendi porquê, os pais eram separados e o rapaz ficou no “dark side of the moon”, com um pai sempre alcoolizado, numa casa de duas divisões e extremamente suja, discutiram durante algum tempo,ela tentava, penso eu, convencer o irmão a procurar um hotel para mim em lugar de me levar para casa dela,
A resposta foi arrogante no primeiro hotel onde entrou pedindo informações – não pode de forma alguma, ficar em hotéis para Chineses, foi então procurar um hotel exclusivamente para estrangeiros, saiu impressionada e com as mãos na cabeça, o preço por cada noite era escandaloso, 350 yuan’s,( 35 Euros) quase o terço do salário de um mês de trabalho na China.
Resolveram que ficaria na casa do pai dele, ofereceram-me jantar numa esplanada em plena rua, espetadas de carne de cão no churrasco, acompanhadas de cerveja, muita cerveja, sentia-me vulnerável e ainda mais bebendo assim tanto, depois de um dia inteiro em jejum, mas confiei neste bando de jovens que anunciavam nos tradutores dos telemóveis como sendo Hackers (perguntei-me se entenderiam o significado do termo)
Viviam sozinhos, em pequenas lojas de 4/5 metros quadrados apenas com um computador, um LCD na parede, caixas usadas de comida pré-cozinhada, amontoadas a um canto, despedimo-nos tarde e fui para a casa do meu anfitrião.
Ainda tentei lutar contra o sono, estava sozinho e indefeso numa casa anónima, numa incógnita cidade do interior da China, onde poderia desaparecer sem deixar rasto.

O rapaz dormiu no sofá e cedeu-me uma cama coberta de uma esteira em bambu, muito mais tarde é que descobri que a cama tinha duas utilizações, era usada como mesa quando vazia dos moradores noturnos, sendo assim, sem retirar a esteira, eu dormira em cima da mesa.

Acordei cedo e foi como um bálsamo a partida de novo e sempre para Ocidente, desta vez em comboio como me foi “imposto” pela irmã do jovem que me cedeu a cama para dormir, fui em direcção a Xining, capital da província de Quighai e terras dos grandes lagos sagrados e salgados.

Fez-me esta prometer que não iria de bicicleta subir aquelas montanhas tão íngremes que se avistavam do cento da cidade, dizia, apontando os penedos escuros, ao que eu concordei, faltavam, (pensava eu,) muitos quilómetros e nada melhor que o conforto de um comboio.

Os jovens são imensos na China e o vagão estava apinhado deles, viciados em telemóveis, ainda mais que no ocidente, d’entre estes salientava-se especialmente um pelo entusiasmo radiante e a facilidade com que chamava a atenção das belas raparigas, de quase todas elas, pensei que se conheciam mas mais tarde descobri que eram apenas companhia de ocasião.

Quando saí do comboio veio correndo ao meu encontro e coloca-me um pin com uma ave pernalta desenhada dizendo ser da “sua” organização, que eu soubesse todas as “organizações” na China são governamentais, mas não voltei a pensar no caso, não fosse voltar a encontra-lo por mais duas vezes nos cerca de 2.500 quilómetros que palmilhei deste país, coincidências? …
A vila de Daotanghe situa-se numa encruzilhada de duas estradas sempre com a tradicional e monumental praça ornamentada com alguma obra de arte arrogante, regimental e naturalmente desprovida de sentimentos.

As vendedoras na rua puxavam-me os cabelos das pernas quando passava, apeado da bicicleta, junto ao lago Quinghai, uma jovem vem ter comigo e passa-me a mão pela cara para sentir a minha barba eriçada, algo que não estavam habituados a ver ou sentir, nem eu a ser assediado desta forma por quem recusava um simples beijo de despedida quando eu por vezes tentava ser simpático com o sexo oposto.

Nessa noite fico num hotel mas inutilmente procuro pelo chuveiro ou o banheiro de que tanto precisava, o quarto tinha apenas o tamanho do minicolchão e do meu corpo semiencolhido , na casa de banho pública havia uma pirâmide fecal petrificada e nauseabunda sob o respetivo buraco, nas traseiras da aldeia onde toda a população fazia as necessidades quase a céu aberto.

Se havia ascendido por uma estrada interminável desenhava-se para os dias seguintes o pior cenário possível, descobri tarde demais que me tinha enganado no itinerário por não ter comprado mapa, em vez de usar o percurso da direita (Oeste) em direcção ao lago Quinghai, atravessei algumas centenas de Quilómetros de montanhas para Sul (para Gonghe), mais outra poeirenta e desagradável cidade.

Continuei por dias consecutivos, dormindo em “bivoac” e pedalando por subidas abruptas em altitudes de perto de 4.000 metros, agarrado á traseira de camiões, carregados de asfalto e pedra, para a construção das imponentes vias de acesso vitais a China, talvez nem tanto ao povo “Uigur”, maioritário ainda na província de Xinjiang (por poucos anos) auto-estradas sem tráfego significativo, a não ser tanques de guerra, carros antimotim e policia, muitos polícias…

A fresquidão das madrugadas e os espaços sem termo do altiplano eram um calmante para a alma, embora de resto, os dias quentíssimos, tendo como única sombra a que eu próprio criava, os sons do tráfego, as omnipresentes buzinadelas nas cidades e o calor torturante da altitude tinham um efeito negativo que eu tentava contrariar, antecipando um final bucólico para esta odisseia, nas serras do Quirguistão, em Aslam, com cascatas e jovens brancas e graciosas, tomando banho nuas nas águas geladas das montanhas em Aslam, nas mágicas florestas da Ásia Central.

Substituíram nesta área as duas únicas estradas existentes (uma em direcção a Kashi e outra para Golmud e Tibet) por autoestradas, sem maneira nem forma de circular sem passar por camaras de vigilância, muitas vistorias policiais e portagens colocadas estrategicamente para controlar toda uma vasta região que deseja tão só e simplesmente a independência da DURA tirania Chinesa.

Acerquei-me da pior maneira possível do lago Quinghai, tinha percorrido uma distância três vezes superior à necessária para o avistar, mas foi uma felicidade grande ao ver esta enorme mancha azul-clara que eu pensava ser água doce.

Mais uma vez o meu provisional “anjo-da-guarda” apareceu: era o mesmo, sempre presente chinês gorduchinho e afável do comboio em Xining, apontou o “pin” colocado por ele próprio, alguns dias antes, nessa mesma t-shirt; era fácil não me separar dela, pois tinha comigo apenas duas camisolas, a de mangas curtas que tinha vestida e outra de mangas compridas para ocasiões mais formais, jantar num restaurante, por exemplo.

Impressionou-me a avistamento de iaques pastando nas margens deste lago que parecia mar, nómadas como os seus guardiões, em coloridas tendas, de rosto e corpo completamente tapados devido a intensidade dos raios solares, alguns espreitando no fundo dos panos e todos eles vindos dos confins dos séculos continuavam iguais a si próprios.

Vi peregrinos mandando ao ar papeis com cavalinhos de vento
impressos, monges que se deliciavam quando me sentava gesticulando, no meio deles, tive encontros casuais com estrelas, dormindo na erva de vida breve mas depois vinham as angústias dos espaços preenchidos de nada
e a incerteza dos percursos sem fim, tive a sensação de voar nas descidas dos planaltos de estepe até ao inicio dos desertos cinza ou de fazer parte das admiráveis pinturas chinesas quando as árvores nas estradas tocavam o chão e os pavões se passeavam pelas tradicionais aldeias.

Hexiang, a cidade das bicicletas e encruzilhada das estradas, 109 para o Tibete 315, para ocidente.

A segunda escolha revelou-se depois errada apesar de ser a cidade mais próxima e onde poderia ter acesso a dinheiro corrente dado que o único banco além dos serviços postais Chineses desta localidade me negarem trocar ou levantar em ATM.

Averiguei no multibanco, precisava de seis dígitos em lugar dos normais quatro, do código secreto, na parede dos bancos em letras vistosas mostravam os cambio do euro e do dólar, mas era proibido a estrangeiros, apenas no banco da China era permitido e em mais umas poucas entidades certificados e vigiados pelo estado.
Avistei no outro lado da ruas, três transeuntes, um rapaz e duas jovens, pareciam estrangeiros pela roupa lavada e por usarem mochilas, falavam inglês, vinham de peregrinação desde Lhasa e foi com eles que voltei a tentar cambiar euros, foi a mesma resposta,- não temos autorização para cambiar moeda a estrangeiros.

Comecei a ficar preocupado, disseram-me que na próxima cidade a cerca de 80/100 km pela estrada 315 haveria um banco com ATM onde poderia fazer o cambio ou levantamento de yuanes em ATM.
Este acolhedor grupo de peregrinos de Lhasa aliviou-me da fome com mais uma refeição gratuita num simpático restaurante, depois continuei a minha viagem na direção que me tinham indicado como sendo a mais próxima para conseguir “cash”.
Jamais teria seguido pelo caminho da direita, não fosse esta emergência, mas como algures esses dois percursos entroncavam numa única via em direção a Kashi, pelo coração do deserto do Taklamakan, foi por esta que continuei rumo ao final abrupto da viagem.

Halihatu ou Haixi eram as localidades a alcançar nessa tarde na região autónoma de “wulan country”, a questão era a de vencer 100 km numa tarde que já ia avançada, percorri uma maldita estrada 315 com “up grade” de autoestrada,
perguntei na portagem monumental, se poderia passar de bicicleta, falávamos por gestos, como era habitual assim como era a já banalizada foto, que os portageiros e polícias de serviço lhes apeteceu tirar comigo, vinham um por um, perfilavam-se em pose e com o tradicional “V” de Vitória feito com os dedos indicador e médio espetados , triunfo o deles, fracasso o meu.
Ainda não percebo o significado deste gesto mas tornou-se trivial um pouco por todo o mundo, não creio que neste pais, tenha alguma simbologia próxima ou longínqua ao filme homólogo. ou mesmo com um outro gesto de um só dedo, neste caso o médio bem levantado, perante os agressivos e importunos apitos sem me parecer que conhecessem por aqui o alcance deste gesto.

Não me parecia muito mundano o sitio onde decidi ficar, numa placa castanha dizia : Dulan Temple
Eram seis da tarde e ameaçava chover, por essa razão fui perguntar por refúgio e uma refeição quente, na pequena subida em terra batida que dava diretamente acesso ao mosteiro fui abordado por um individuo que eu julgava ser um monge sem a tradicional veste bordeaux e amarela.

Perguntei por gestos se podia dormir no mosteiro, questionou se possuía algum dinheiro e quanto ao que eu respondi que tinha muito pouco, apontou que deveria seguir a estrada e escreveu no chão a distancia até á cidade mais próxima, mostrei-lhe apontando o céu, que ia chover e não poderia continuar
Pousou um braço sobre os meus ombros, parecia dada e sincera a ajuda e vieram-me as lágrimas aos olhos nesse momento.

Encaminhou-me para a entrada única do mosteiro onde se podia ler “POLICE” e mudando de semblante inesperadamente, mostrou que queria a minha identificação, apresentou-me um pequeno cartão, com uma estrela vermelha num canto, talvez revelando o seu estatuto na nomenclatura do estado.
Ficou de mão estendida numa atitude agressiva, olhando-me nos olhos e esperando que lhe apresentasse o passaporte.

Revistou-me a mim e a toda a bagagem, entretanto comecei a ser rodeado de mais autoridades. todos sem fardamento, principiou um, mais jovem por usar o tradutor do telemóvel, convidou-me amavelmente para visitar o mosteiro enquanto ia fazendo perguntas, estranhamente não ultrapassámos as primeiras escadarias do templo, fiz algumas fotos deles que depois foram apagadas assim como todas, onde figuravam militares, fotos do Dalai -Lama em quadros de parede obtidas noutros mosteiros ou material bélico e estranhas “ambulâncias” (com o sinal da cruz vermelha) com canhões de água no topo, que circulavam nas estradas a caminho de Xinjiang.

Olhei as queimaduras profundas nos braços e nuca de alguns monges, pareciam feitas com tições ou cigarros acesos, fiz gestualmente um reparo, mas não obtive explicação, eles depressa se cobriram, pareceu-me ver medo nos seu olhos provavelmente devido a minha presença.

Não obtive qualquer visita guiada, quando voltei ao austero gabinete da esquadra, mandaram sentar-me, perguntaram várias vezes se estava sozinho, se tinha fome (nunca trouxeram comida tal como o povo Chinês) e o que fazia ali…sempre com grandes gestos e uma inquietação que eu não compreendi a razão, como se fosse algum convidado inoportuno, pareciam não saber o que fazer comigo.

Examinaram o visto cuidadosamente talvez julgando tratar-se de falsificação.

Começou a chover e foi sob chuva, com muitos relâmpagos que me colocaram num carro, pareceu-me um “Lexus” castanho, num modelo diferente dos europeus, sem matricula.

Saímos para o ATM na cidade, a fim de levantar algum dinheiro, tive medo ao usar o cartão rodeado de tantos agentes (possivelmente da polícia) mas foi um alívio ter acesso a divisas correntes, 
No regresso detivemo-nos numa esquadra, aí confirmei serem polícias sem uniforme, falaram durante uns minutos enquanto me olhavam pelo canto dos olhos e perguntei em inglês :
-“Am I arrested ?”
Responderam com o tradutor do telemóvel
-“not yet !”
Escreveu que tinham vindo confirmar o meu visto mas um relâmpago tinha caído diretamente em cima do computador da esquadra
Por fim escreveu o jovem polícia no telemóvel tentando ser simpático:
-“you’re good !”
Não entendi se teria havido engano na tradução, ou queria transmitir que eu era boa pessoa, com bom carácter ou apenas um homem de coragem, audácia que me faltou pouco depois.

Voltámos ao mosteiro onde o porção de polícias tinha aumentado substancialmente, estavam na pequena sala cerca de doze pessoas entre fardados e não fardados, isso dividiu-me.
-sentir-me-ia apavorado ou se alguém finalmente havia reconhecido da minha importância.-

As atitudes tinham-se tornado mais agressivas, por cada tentativa minha para me erguer da cadeira colocada no meio desta chusma de gente era empurrado pelos ombros e reprimido, obrigado a ceder perante a violência visível nos rostos destes homens, encostavam os olhos aos meus numa postura de “posso e mando”.
Abriram sem pedir autorização a mochila vermelha onde transportava todos os meus bens assim como o saco cama que examinaram cuidadosamente procurando algo que estivesse escondido, pegaram na maquina fotográfica tendo eu descoberto posteriormente que haviam apagado algumas das fotos tiradas a porta do duvidoso “mosteiro” e a veículos militares que tinha visto pelo caminho e me chamaram a atenção por serem veículos humanitários ainda com o símbolo da cruz vermelha ( não o crescente vermelho como na restante Ásia )transformados em carros de combate a manifestações e tumultos.

De novo as mesmas perguntas, se estava sozinho etc, nesse momento entra uma jovem que me disse em inglês- não ser bem vindo em Xinjiang,
– Iria ser transportado, para minha segurança para um “hotel de turistas”,
ás minhas custas e no dia seguinte iria ser posto num autocarro para ser extraído (foi essa a palavra usada) desta província.
Insurgi-me com vigor e levantei-me e ergui a voz dizendo:
-tenho autorização oficial, dada pela embaixada em Lisboa para atravessar este território, o meu voo está reservado em Bishkek no Kirguistão, esta é a única via de acesso da China ao Quirguistão.

Não serviu de nada e só piorou a minha delicada posição, houve alguns berros que não entendi, nem a tradutora lhe apeteceu devolver-me o significado
Disse-me simplesmente:
“-Aqui governamos nós”
“-podes ir para o Tibete mas não te é permitido continuar nesta estrada em direção a Kashi”
Sabendo eu da dificuldade de passar sozinho, sem fazer parte duma viagem organizada com “guia oficial” para o Tibete, restava-me voltar ao ponto de partida, a Xi’an….
Mas os imprevistos não acabavam aqui…

(O regresso)

Chovia sem cessar quando parti do mosteiro de Dulan, cerca das 23 horas, no carro da polícia, devidamente identificado e com matrícula, acompanhavam-me a tradutora e um jovem polícia fardado com afinco, ainda se notavam os vincos da goma na farda cinzenta.
Encetei uma conversa casual com a tradutora, esta fingiu-se pretensamente indisposta, talvez para não dar azo a más interpretações da autoridade que nos acompanhava ou por não querer falar com desconhecidos, remetendo-se ao silêncio…
O hotel em Wulan, onde obrigatoriamente dormiria essa noite tresandava a novo e parecia de outra dimensão, sofás imaculadamente brancos de nunca usados, assim como o quarto jamais utilizado, perfeitamente intacto, assim era o Inglês para o pessoal do hotel dito “turístico”.
Pediram através da tradutora o meu passaporte e o equivalente a trinta e cinco euros, pagos antecipadamente, mais uma caução do mesmo montante a qual recusei pagar, afinal era quase todo o dinheiro que tinha retirado da caixa automática, com a ajuda dos primeiros agentes de segurança, pagava caução onde era forçado a ser hospede, a rececionista olhou para o delegado da autoridade e bastou um leve aceno de cabeça afirmativo do jovem polícia para esta ignorar o absurdo deposito, ficando apenas com o salvo-conduto.
O quarto com duas camas imensas almofadadas na cabeceira em vermelho Maoísta e toda a decoração do quarto lembrava um decadente bordel.
Sentia-me perdido nos confins da China e não ousei implorar que ligassem a água quente, teimava em assomar na torneira uma gota de água, insuficiente mesmo para uma lavagem de gato.
Abri devagar uma fresta da porta para confirmar o que supunha, a subtil presença do guarda sentado num dos sofá brancos do átrio, o quarto posicionava-se num corredor de fácil observação para o “hall”, sem outra saída que não fosse rente à minha previdente escolta, a qual achou por bem instalar-me de manhã cedo no lugar “VIP” do velho autocarro, atrás do motorista e após uma curta troca de palavras com a revisora.
Paradoxalmente sentia-me aliviado perante a incógnita que representava a travessia do deserto do Taklamagan, por um lado desejava atravessá-lo mas por outro receava-o sem ser capaz por “leitmotif” de desistir
De regresso a Huangyuan, cidade que tinha visitado dias antes, comodamente sentado no autocarro avistei por uma última vez o suposto “Mosteiro de Dulan,” mirei os gestos e rostos dos passageiros e vi que nenhum descobrira a cabeça ou balbuciara os “Mantras” como estava habituado a presenciar em passagem por outros locais sagrados, admirei-me desta atitude por parte dum povo tão devoto ao Budismo tradicional.
Encontrava-me perto da fronteira Norte do Tibete, no altiplano de feição Gelugpa, (tradicionalmente conhecidos por chapéus amarelos) próximo das comunidades muçulmanas “autónomas “de Uygur’s, do ancestral Turquestão Oriental, dos focos de rebelião, dos separatismos e da “Primavera Árabe (à chinesa) ”, à qual a “Grande Muralha” não escapava, ainda que as notícias não transgredissem o “Status Quo” imposto pela asfixiante ditadura, que aos olhos dos governos ocidentais parecia mais cor-de-rosa do que encarnado vivo, mais capitalista; a prática USA já conseguia vender hamburgers e Starbucks de Beijing a Shangai.
Em HuangYuan resolvi mudar de transporte e usar o comboio, foi uma tarefa espinhosa numa cidade em obras, como quase todas na China, não me conseguia fazer entender imitando os sons do comboio típico, o qual esta China montanhosa nunca conhecera, passaram a época do fabuloso furgão “Tch-Tch-U-uuuuu-pouca-terra-pouca-terra” para as locomotivas elétricas e modernas, consegui finalmente que um taxista entendesse a minha linguagem gestual e colocasse a bicicleta, meio dentro, meio fora do porta bagagens, no minúsculo táxi amarelo.
Voltei ao mesmo dilema na caixa do banco, esta não aceitava os meus quatro dígitos, no interior da instituição financeira não cambiavam Dólares ou Euros e era difícil mesmo mostrando o referido cartão, fazer entender uma pretensão tão simples como era encontrar o “bank of China” a palavra Bank não funcionava e China também não.
Os Yuans eram em quantia suficiente para comprar o bilhete de comboio para regressar a Xi’an e a incerteza financeira e logística aumentava não tinha forma de regressar , o meu retorno era pela antiga Republica Russa do Quirguistão, cada dia mais e mais distante,
Dentro, a grande gare estava repleta de militares que iam e vinham do Tibete, era o centro das atenções, uma jovem próximo demonstrou por sinais que iria na mesma carruagem e na mesma direção, como tal fiquei descansado.
Surgiu o meu perpétuo acompanhante, aquele que me havia agraciado com um crachá na camisola suja, havia duas semanas, tinha sempre aparecido como“do ar”, junto ao Quinghai Lake e na vila de Heimaha Exiang, onde me interpelou, de novo agora, na gare, mostrou-se ainda mais amigável, abraçou-me entusiasticamente e perguntou (pareceu fingir não saber) -porque estava regressando a Beijin, expliquei-lhe apesar de desnecessário, vi fechar-se-lhe o rosto assim que me referi à hostilidade das autoridades, demonstrava que não lhe interessavam as minhas desventuras.
Entretanto aproximou-se um sujeito magro, com cerca da mesma idade, afirmou pertencer à “Geographic Society of China”, mostrou-me uma identificação qualquer, logicamente escrita em Chinês e pareceu interessado na minha viagem, tirámos uma foto de grupo, pediu amavelmente para observar no meu Visa se haveria limitações de acesso a Xinjiang ou a qualquer outra província da China, disse não ver nenhuma.
Ultrapassado o tempo previsto para embarcar, perguntei apontando o relógio, à moça que anteriormente tinha afiançado ir na mesma direção, mostrei-lhe o bilhete, esta pediu-me desculpa e mostrou-se pesarosa pois tinha-me induzido em erro e eu havia perdido o comboio.
Por instantes entrei em pânico, sem dinheiro, nem para comer e sem transporte afigurava-se o pior, felizmente trocaram o acesso na estação tendo efetuado a viagem de quase 20 horas de regresso a Xi’an, sem qualquer alimento.
Nesta ultima cidade aumentava mais a minha angústia na dúvida de conseguir regressar, os muros não mais me pareciam históricos e belos, a cidade transfigurara-se numa prisão…

(continua)

Jorge Santos (Namastibet)
56 Jorge Santos (namastibet)

Embriaguem-se porra.

 Embriaguem-se, de orgulho puro, da quilha à proa, de estandartes retalhados
Embriaguem-se de verbos duros , como se fossem mortalhas de curtumes,
Embriaguem-se lá fora, no beco, na rua, embriaguem-se… “porra”,
Embriaguem-se com a alegria, das crianças, mesmo sem côdea e sem tecto,

Embriaguem-se e, se porventura pensarem perder–se da razão
Embriaguem-se repetidamente até que de novo se encontrem , nos olhos chãos,
Dos inocentes, nos bairros pobres ou dos lunáticos e utópicos.
Embriaguem-se da vergonha vesga e da solidão, dos nossos subúrbios cercos,

Nos Ghettos da gentalha, nas mantas dos sem-abrigo, aos milhões,
Embriaguem-se, em noites de estrelas roxas e ideais barbudos.
Incendiai, segai pavios, dai às mãos dos gentios, a metralha,
Embriagai-vos de liberdade e que as vossas mães derrotadas jamais sejam violadas,

Nos trabalhos mal pagos, nos degraus dos parlamentos e das opressões,
Nas arcadas dos ministérios, das esquadras, dos grilhões
E das algemas, encerrem as masmorras com as pedras arrancadas na calçada.
Embriaguem-se, contra as governações, testas de ferro

Dos saqueadores e da corrupção, da escuridão e do medo,
Contra os ferozes e os algozes de serviço, dos gordos coronéis,
Destes reinos beras de genocidas a soldo, bem mais que os cruéis,
D’outrora, embriaguem-se e cantem, excluídos e esfolados,

D’agora, cantem sem descanso, até caírem pro lado,
Enquanto bebem, o vício de serem livres, em lugar de acossados,
Por crime d’ajuntamento, até caírem os ferrolhos e as paredes dos cruéis,
Dos bancos, com capitéis d’ouro e caixas fortes, dele acumulado,

Quando acordarem, por fim, os perros dos arrecadadores, será tarde
A bebedeira será global  e... transmissível,...soará a corneta
Dum tempo novo, fundado plos bêbedos, deste mundo esguelha.

Pois que vertam, sangue e vinho, na sarjeta e no soalho nobre, do rico...
Embriaguem-se Porra…EMBRIAGUEM-SE ...

Jorge Santos (12/2013)

http://joel-matos.blogspot.com
96 Jorge Santos (namastibet)

GR 11 (2009/2012)  O Transhumante Ou “Versus de Montanya Mayor”







GR 11 (2009/2012) 


O Transhumante

Ou “Versus de Montanya Mayor”

Sud-express , embalado , em lençol deslavado,o Transhumante adormece
rapidamente . Nos beliches próximos Hamid, gordo e seboso que dizia em mau Inglês
ter como destino o Cairo , e um estranho sujeito, de olhar magro , detrás dos
óculos redondos ,com poucas palavras em que dizia vir do Alaska .
Na escuridão do compartimento apenas o foco de luz da lanterna frontal lhe permite escrever, seria A sua Luz, sua companheira nos momentos negros , pelo Pirenéu “nos versos de Montanya mayor”.
Na Primeira noite , ficou em plena floresta, em Elizondo, no bosque furioso ,onde o vento o fustigou uivando como um lobo toda uma noite sobre aquele pequeno e frágil refúgio , azul e negro (o bivac) da cor da potente tempestade.
Virando-se para trás, fitou na manhã seguinte, um esquiço de Pirinéu que não
esqueceria jamais, tinha-se perdido e desistido nesse mesmo local, em idos de Junho , doutro
tempo, por defronte, bem alto, enfrenta um rasgo de Pirinéu mais tosco, tentará desafia-lo e rasgar o medo de ser solitário.
Seguidamente e Já em Urvallo ,numa pequena e típica cabana de caça, Pako e família ,partilharam com ele uma generosa refeição inundada a vinho que o reabilita e insta ,os quilómetros seguintes foram divertidos e relaxados,instalou-se nele a confiança,
Até encontrar um holandês , que o considerou louco , por cantar em voz alta ;
Mas…quem se poderia considerar são, naquelas intermináveis danças, com árvores e
pedras. Pensou em Saramago , no “Memorial do Convento “,”completamente louco , varrido, numa terra , varrida de loucura.”
Veio então Burgette,outra pequena aldeia de montanha ,mais alguns km.de
pista e encontra finalmente os primeiros peregrinos de Santiago, inconfundíveis
, no aspecto medievo; poncho, cabelos compridos, chapéus de cabedal e
também de emoções diferentes , ainda não partilhadas por ele , homem pouco dado
a epifanias, pelo menos até aquele momento.
Chove constantemente, mas mãos bem assentes , em cumprimentos efusivos dos peregrinos sobre os seus ombros como que o protegem .
O trilho, apesar de difícil,fluía perante os seus olhos, sob os pés demasiado cansados,rumo a mais um colo de outras florestas.
Um belo arco-íris em Mendilaz,outra aldeia , nada fazia prever , perante aquela imagem , o tsunami que essa noite iria cair, felizmente o “fronton”,(recinto de pelota basca)
coberto , evitou males maiores, conseguiu dormir seco.
Enfim , Ochagavia e Isaba ,e depois da tempestade a bonança , fresca , com cheiros benignos e resinosos ,acompanhou-o , na respiração rápida e ofegante de caminhante feliz , Col de Somport e Candanchú aproximavam-se depressa,Venceu-se horizontes
e espanta-se que , as novas vistas , sejam diferentes , apesar de iguais , e
assim progride , diariamente , tentando ver o que está por detrás do monte,por
detrás dos novos e iguais horizonte.
Os grandes estradões gastos, antes de começarem os caminhos empinados, permitem-lhe escrever enquanto caminha rápido ,o tempo , demasiado calmo, anuncia a nova tempestade, nas tardes certas ,sempre em tempo certo.
Imensos esquilos fugindo, alguns veados e cavalos , quase o empurram, o céu tinge-se de negro, rugindo forte , ao som das trovoadas.
“Valle do Ecco” …escrito no mapa molhado , um Vale, onde nem os próprios pensamentos consegue ouvir.
Encontra Ascencion e Angel,foram companheiros por algumas horas e repartem com ele batatas cozidas,acompanham-no poucos kilometros , mas logo ficam para
trás .
Apenar os nomes destes,Angel e Ascencion , não se enquadram com o local onde os encontrou,Valle do Erro (vale dos Cavalo),seria engano ,estaria errado de novo? (como em 2007) Desacertado encontro com Anjos,mais tarde haveria de pensar nesse acontecimento. De novo alcança protecção, na escuridão de Isaba .
Terceira noite adormece apesar de fortes dores num pé torcido de quando caiu de uma
ravina sobre um colchão de folhas podres , foi a mochila que felizmente amparou a
queda.
Depois disso viu (ou pensou ver) o que pareceu “O S. Miguel,” na porta
do mosteiro do século doze,como uma miragem , mas foi só ele que o conseguiu ver em doze séculos , foi um sopro de esperança , na realização da difícil etapa e e no finalizar do percurso. Coxeando muito, arrastava o corpo cansado em direcção de Zuriza e Aguas Tuertas , depois e porventura acabaria chegando a Candanchú ,coll du Somport, quase doze horas de marcha tarefa árdua , mas pensava conseguir chegar, estava bastante animado.
Acordou ainda era noite fechada,tinha de esticar o passo em direcção ao desfecho, iria percorrer um terreno muito mais difícil de montanha, com trilhos pouco definidos e sem mapa, já que, quando partiu de Irun,(local da foto acima) , não pensava chegar
tão longe ,a neve , fora de época e pendurada nos picos de Penha Forca ,incomodava-o, teria de atravessar,com ténis , uma zona de progressão mais técnica e difícil.
Encontra então o derradeiro Miguel,quem sabe, talvez o S. Miguel da porta da Igreja do século doze (,aquela figura dúbia que apenas a ele ,doze séculos depois do carpinteiro a talhar lhe parecia mostrar o S.Miguel estilizado na porta de madeira velha)
Miguel nunca tinha pisado a Montanha tão seriamente , condutor de autocarro, resolveu uma semana antes atravessar esta rota ,assim e sem mais , nem menos… .
mas foi Graças ao apoio mútuo que chegaram
ao coll du Somport,Candanchú.
Miguel continuará ainda caminhando, entre os caminhos dos peregrinos e outros,
nos “Versus da Montanya mayor” em busca de outros viajantes solitários em perigo.
Ele ,”O Transhumante” ,regressará de novo em outros dias de outros Junhos , noutro tempo ( por sinal este ano de 2010 a 6 de Junho),na tentativa de chegar a Andorra ,até ao Mediterrâneo em 2011 ou 2012, e mais além….Talvez, (porque não Istambul ?)

Jorge Santos/Transhumante
05/2010

O Silêncio do Nada
2ª etapa (Coast to Coast) Atlântico /Mediterrâneo
3 dias (Canfran/Viadós)
O dia estava morno e ventoso enquanto calcorreava as escadinhas de Alfama, ao fim do dia despediu-se da companheira o do filho no Museu da água e um táxi levou-o ao aeroporto, opção que se revelaria incómoda, apesar da rapidez deste meio de transporte em relação ao autocarro habitual (Lisboa /Madrid costumava demorar cerca de 9 horas).
Estava animado pelo sucesso do ano anterior, tinha percorrido 250 km em quatro dias e meio, ainda não tinha recuperado completamente do pé torcido (talvez nunca recuperasse), mas nada o detinha na tentativa de atravessar do Atlântico ao Mediterrâneo, desta vez começaria em Canfran, perto de Candanchú, (coll du Somport) onde tinha finalizado em 2009,Canfrac era uma linda estação de caminho de ferro, monumento de outras épocas mas tristemente abandonada junto á fronteira com a França, esperava ainda os comboios que não mais chegariam, por estúpidos motivos políticos.
Eram 13:27, hora de almoçar e lançar-se montanha dentro apesar da chuva forte e da neve em quantidades recordes nas portelas e cumes, percorreria 18 km até ao anoitecer em Salent Galego
Ao chegar a Fuerte Col de ladrones, uma pequena fortificação de portagem medieval, já está encharcado até aos ossos e tremendo de frio, sob a pouca roupa que tinha consigo, afinal era verão e tinha de carregar o mínimo de peso para conseguir alguma velocidade num terreno tão inclinado como era aquele com passagens pelos 2.500 metros e desníveis consideráveis.
O xisto cinzento parecia fazer crescer um céu tormentoso quando chegou a Formigal, uma Dantesca estancia de ski, teve de apressar-se ao sentir os típicos sinais de resfriado provocados pela neve e gelo e o esgotamento dos cerca de 20 km feitos numa única tarde, quando chega finalmente a Salent Galego entra na primeira porta e nem negoceia o preço da noite, tinha pressa de secar e dormir, a última noitada tinha-se passado esperando transporte no terminal rodoviário de Zaragoza, dando voltas à enorme estação para conseguir manter-se acordado, sabia que o perímetro demorava uma hora a completar, em passos lentos e foi assim contando as horas de uma noite difícil, mas era preferível a acordar sem nada como já tinha acontecido fazia tempo
De manhã acordou as 7 horas, mas sai do hotel as 8 horas em ponto, com céu limpo espelhando-se na barragem de Sallent a caminho de Panticosa mas fê-lo pelo caminho fácil, tinha-se informado previamente da viabilidade de outro caminho mas a neve continuava intransponível, além disso este estradão ia directo até ao balneário de Panticosa, outra aberração Pirenaica, uma estação Termal cinco estrelas inaugurada e logo abandonada, este atalho permitia-lhe aumentar substancialmente a velocidade média do percurso por ser feito numa estrada e não num caminho sinuoso e difícil como a maior parte do percurso.
Olha para o relógio, eram 11 horas e estava já em Panticosa, percorrera 20 km em 3 horas e esteve animado nos restantes 17 km até Bujaruelo onde chegou pelas 5 horas da tarde,a tempo da primeira refeição do dia e recuperar fôlego para os próximos 18 km até ao Parque natural de Ordesa (Cabana Suaso).
Pela primeira vez encontra uma alma viva no trilho, assusta-o o rastilhar do mato, era um corredor de longa distancia que aparece repentinamente, ia na mesma direcção e mais tarde protagonizaria com ele o abandono do GR depois de se perderem juntos em Goriz.
Foi um dia longo, percorreu 56 km, já tinha anoitecido quando se aconchega frio e molhado na Cabana Suaso cheia de centenas senão milhares de inofensivos ratos, no Parque Natural de Ordesa e Monte perdido, o pé voltou a resvalar numa pedra e foi dolorosamente que se arrastou a ultima centena de metros e de novo sob chuva forte, a chuva constante de todas as tardes Pirenaicas.
Mas renova-se de energias no terceiro dia pela excelente paisagem de canyons e florestas densas da zona, Goriz e Anisclo eram agora as metas e seria talvez no Refúgio de Pineta ou a aldeia de Parzan sua próxima meta,ainda não sabia ele que chegaria a Parzan sim, mas no carro de apoio do John ,o incontornável corredor de montanha.
O trilho escondeu-se sob a erva muito alto, (de novo devido à meteorologia extrema do ultimo inverno) as confortáveis marcas brancas e vermelhas desapareceram, esperando por ele mais à frente estava John, o referido colega de percurso que lhe fazia lembrar uma lebre sendo ele a tartaruga, o outro corria, e ele, com algum peso às costas (além da idade, que começava a pesar também, apesar de Transhumante) tentava deslocar-se o mais rápido que podia.
Foram horas que passaram na busca do trilho e de “Fuen Blanca”um manancial que indicaria ser por ali o trilho que desceria pela vertente, não podiam inventar, só aquele trilho os levaria ao vale e ascenderia depois ao colado Anisclo, uma das subidas mais íngremes de toda a viagem.
Foi decepcionado que o Transhumante desiste do projecto pelo qual esperou um ano , saíndo do percurso, alcançá-lo de novo implicava um dia de marcha e as condições anímicas não eram as melhores nessa altura para lhe permitirem retomar o caminho.
Baixa para a aldeia de Nerin onde felizmente o aguarda John e o transporte que o coloca de novo na continuação da marcha, desta vez mais á frente, na pequena aldeia de Parzan, a poucos quilómetros do túnel de Bielsa, pensa que talvez assim consiga chegar a Benasques , abandonada de vez a vontade de alcançar Andorra. O aneto, próximo de Benasques marcava a metade do percurso Gr11, costa a costa e seria suficiente nesse ano ,regressaria mais tarde onde se tinha perdido para averiguar melhor, por agora estava conformado e cansado,terminou o dia com uma derrota de portugal face a Espanha no Mundial da África do Sul de 2010 e jantando na única taberna da Localidade, servido por uma imigrante do Brasil, ironias do destino.
Tem 40 km para percorrer, o pé inchado dificulta-lhe a marcha, de novo Jonh passa a correr e despedem-se:-até Benasques, Pensam encontra-se novamente no final mas não conseguiria lá chegar, ao meio da tarde e feitos apenas 20 km, desiste na cabana “refúgio de de Viadós”, consegue boleia na aldeia de Plan, haveria de voltar de novo no ano seguinte, esperava ele , e com melhores condições atmosféricas, talvez com menos neve nos cumes e menos chuva nas tardes curtas.
Recorda-se do ano anterior(2009) e do Miguel ,o S. Miguel do convento do século xII ? ou simplesmente um condutor de autocarro, este ano tinha comparecido diante dele um Deus alado, O Mercúrio determinado e com asas nos pés ,qual seria no ano seguinte o personagem que o acompanharia, tinha curiosidade em saber e doze meses para melhorar do entorse ,talvez não fosse má ideia usar botas na próxima vez, em lugar dos usados ténis , apesar destas lhe diminuírem consideravelmente a velocidade.
Em Ainsa ,depois de Plan ,apanha uma outra boleia boleia (fazia-o recuar aos tempos em que viajava de boleia pela Europa) desta vez deixa-o na estação de autocarros na cidade de Barbastro, com destino a Saragoça , Madrid e Lisboa, soube-lhe a pouco os três dias e meio no silencio do nada (120 km) e depois aquela interminável viagem de autocarro de 900 km, mas sabe que regressará no ano seguinte…
Por agora resta-lhe voltar A Burgos para finalizar de bicicleta o “caminho de Santiago” até Finisterra, 600 km de trilho e ele ainda pode pedalar,o movimento dos pedais não o incomoda demasiado,como treino tentará fazer a estrada mais longa do país ,a N2,com 900 km de Faro a Chaves ou ao Cantábrico,tão distante para alguns mas tão perto para ele, pensa no seu amigo Idílio,( http://bacalhaudebicicletacomtodos.blogspot.com ) a pedalar do pólo Norte ao pólo sul e como gostaria de o acompanhar ou talvez não,está tão habituado a estar só que encara como natural esse estado,esse silencio…esse nada…

Jorge santos
http://namastibetphoto.blogspot.com

Junho de 2010

Transhumante Parte 3 (Diário de um Louco)

Os primeiros orvalhos do Outono já se faziam sentir nas planícies madrugadas de Espanha e vestiam-se de ruivo nas espigas e nas vistas da janela do comboio/Hotel Lusitânia. O Transhumante despertava de uma noite mal dormida em solavancos e guinadas para mais uma etapa nos Pirenéus, depois de chegar a Madrid ainda teria de percorrer outras estações e outros comboios mais modernos e rápidos que o levariam até onde tinha terminado no ano anterior, em Ainsa, S. Joan de Plan/Biadós.
Um táxi colectivo despejou-o já noite, no fim da estrada de alcatrão que tão bem conhecera no ano anterior (2010), sabia a distancia que iria percorrer a pé até ao refúgio, (cerca de vinte quilómetros) mas não, se estaria aberto dada a proximidade do inverno e, para aumentar a incerteza não tinha comida para essa noite nem para se lançar nos caminhos costa a costa do GR 11.
Ainda ponderava na lucidez do seu estado mental e no que o levava a fazer este disparate de atravessar os Pirenéus do Atlântico ao Mediterrâneo quando as luzes de um veículo-tod’o-terreno iluminam a estrada, iam na mesma direcção e tinham uma valiosa informação – O refúgio estava aberto -já tinha transporte e também onde “senar” e dormir nessa noite, começara bem esta aventura de loucos.
Acordou “com as galinhas”, mal se avistava já os caminhos ténues da montanha mas felizmente o bom tempo presenteava ainda um doce fim de Setembro que mais parecia primavera e nas pernas do Trashumante, as primeiras horas decorreram gloriosas, corria como um louco, esquecera tudo quanto deixara para traz, respirava o silencio do nada numa terra inundada de loucura.
Recordava as manhãs longínquas de quando iniciou dois anos antes em Irun esta rota e lhe parecia estar tão distante do final, no Mediterrâneo em Cap de Creus, mas afinal já tinha feito metade, estava agora percorrendo a parte média ou central, mas também a zona mais alta da cordilheira Pirenaica, onde as tempestades poderiam ser mais perigosas e as etapas mais dolorosas com desníveis consideráveis(entre os 900 e os 2.700 metros).
Conhecia grande parte destes lagos de montanha e parques naturais paradisíacos, melhor que o resto da cordilheira, mas durante todos os anos que deambulou por aqui, nunca imaginara que pudesse passar um dia correndo de Norte a Sul ainda menos como lobo ou urso solitário, quase sem roupa para mudar, sem comida para as jornadas nem apoio logístico ou mesmo transporte próprio para fazer, depois de terminadas as jornadas, os 1.100 km que separavam a montanha, do conforto da casa e da família, da normalidade.
Era uma rematada loucura estar correndo os 800 km da rota Pirenaica não sendo um habitante local, habituado e melhor conhecedor da região, para estes bastavam oito dias, como lhe disseram ser o “record” da travessia, mesmo assim estava determinado a usar apenas 12 /13 dias, talvez poucos o conseguissem.
Na porta do refúgio de Estós, num papel escrito a pressa, dizia que o guarda voltaria próximo do meio-dia e meia hora, tentaria almoçar mais tarde, apesar do estômago já o avisar, esperava não perder o trilho ou perderia também a refeição do dia.
Quando descia o interminável valle de Estos interrogou uma família de camponeses locais que se encontravam colhendo “setas” (cogumelos), perguntou se estaria na direcção certa para Andorra e mais uma vez ficou desassossegado perante a resposta, segundo eles estaria completamente fora de rota e era uma loucura aventurar-se assim em distancias tão absurdas e sem saber onde estava nem por onde ir, diziam eles que Gr 11 eram todos os GR’S, pois todos tinham o mesmo nome GR 11.1,GR 11.2 etc.
Revelou-se mais uma vez ser desnecessário pedir informações a quem não entendesse as razões de outros para quebrar as próprias peias mentais.
A meio da tarde um oportuno “camping” ainda aberto nesta época, junto da estrada principal que conduz a França pelo túnel de Bielsa, proporciona-lhe a tão desejada refeição com cerveja para pacificar a sede, já se faziam notar no céu as nuvens negras da trovoada que aí vinha.
Um estradão largo e monótono condu-lo durante toda a tarde a uma portela que tardava em chegar até que, pelas 17 horas encontra duas jovens moças, Ivone e Elena a porta de um refúgio não guardado, acompanham-no e ajudam-se mutuamente a superar o medo da tempestade e dos sonhos em que um urso dourado, o devora devagar até de madrugada.
Tal como noutra etapa em que Miguel, o S. Miguel “da porta do convento”, foi um considerável apoio depois de um pé torcido, aqui Ivone e Elena, tiveram também um efeito reconfortante perante uma noite feita dia com os “flashes” de tantos e tantos relâmpagos apenas com um mero segundo entre a luz e o som, nos intervalos via aparecer perfilados “hobbits“ ,”brujas” e outras personagens surreais.
O dia seguinte ainda seria mais alucinante que a noite, o ar estava límpido como sempre fica na bonança depois da alguma tempestade e a correria pelo monte abaixo embriagava-o, o vento fustigava-o no rosto transpirado e continuava a correr indiferentes as dores nos joelhos, as bolhas nos pés, ao cansaço de todos os músculos, alguns até que nem ele sonhava existirem.
A meteorologia adiantava neve para os próximos dias em cotas acima de 2.500 metros e ele tinha de ser rápido pois apenas teria o dia seguinte para chegar o mais próximo possível de Andorra.
Tentou alcançar o refúgio de Colomers, já seu conhecido mas em vão, ao chegar a “Restanca”, de novo os guardas do refúgio o tentam convencer do perigo grande que é continuar, de noite e sob a tão terrível tempestade regressada novamente durante a tarde e num caminho mal balizado nessa zona. Ele convence-se a deixa-se ficar perante uma promessa de jantar, cama seca e do primeiro banho em muitos dias.
Mais uma vez acorda com pesadelos, noite cerrada, para tentar fazer render o último dia antes do nevão, das pistas de montanha ficarem tapadas pela neve. Surpreende-se da forma física que tem aumentado desde que chegou e da vontade anímica de correr por entre os caminhos tortos dentro do parque de Saint-Maurici/Encantats.
Chega a Espot ainda cedo, resolvido a não continuar mais além, o céu prometia neve mas sentia a sensação “Dulce” de dever cumprido. Andorra era já ali ao virar, no total das 3 etapas tinha percorrido 2/3 dos 840 km que separavam o Atlântico do Mediterrâneo pelo trilho do Gr 11, recomeçaria no próximo ano por Esterri D’Aneu, agora já por Barcelona/Manresa, mas de avião, a viagem de 24 horas comboio/autocarro para superar os 1.100 km entre casa e o objectivo era mais cansativa que a travessia da montanha grande.
Tinha um sonho por realizar entretanto, pedalar 13.000 km de Xi’na a Istambul por entre etapas e alucinações, desertos e visões de outros mundos mais ou menos paralelos.

http://joel-matos.blogspot.com
Jorge Santos (09/2011)
Fantasmas e javalis ou um poema de longo curso

Dormira acarinhado pela noite amena, ali próximo, a poucos quilómetros de Andorra, agora era acordado pelos grunhidos dos Javalis, o Transhumante assustou-se ainda um pouco mas não demorou muito a lembrar-se onde estava; voltara ao GR 11 para tentar terminar o que começara quatro anos antes, no ano de 2009, em Irun .
Dava agora mais valor que há anos atrás às pequenas ocorrências diárias, talvez a falta de acontecimentos o fizesse valorizar mais os sons os cheiros ou os encontros casuais com os escassos caminhantes ou montanhistas.
Actualmente encontrava-se no Vale de Madriu, muito perto de Andorra e à sua volta os javalis esforçavam-se por manter o terreno chafurdado como era seu hábito.
Demorara cerca de cinco horas desde a partida de Lisboa em avião, fez escala em Barcelona na manhã quente de sábado,15 de Setembro de 2012 e ainda fazia calor apesar de cair a tarde, estava um calor abafado e sem vento quando chegou a Andorra de Autocarro, tempo apenas de comer no primeiro bar de comida rápida, ainda tentou recomeçar onde tinha finalizado em 2011,em La Guingueta D’Aneu, mas em vão, o próximo bus apenas seria na segunda-feira, dois dias depois.
As grandes cidades não lhe despertavam muito interesse, mesmo aquela magnífica “Babel” com as torres de Gaudi.
Lembrava-se bem do vale de Madriu, isso sim, já tinha passado por aqui com um amigo o J.J. Portela há bastantes anos atrás, mas ainda se recordava d’alguns pormenores do percurso, onde tinha tirado uma ou outra fotografia, dos lugares e fontes onde bebera uma boa água, cristalina como diamante, lagoas de azul-turquesa, lembrava-se todavia das montanhas que não mudam muito, mudam-nos a nós…e muito essencialmente por de dentro.
Uns grupos de escaladores Catalões (pareciam escaladores pelo aspecto) na cabana “dels esparvers” recomendam-lhe de uma forma pouco simpática que procure outro refúgio pois aquele encontra-se lotado, a resposta foi igualmente fria e este disse-lhes que não precisava de tecto para dormir, qualquer recanto da floresta seria a sua casa nos próximos dias.
Perguntaram-lhe o que estava fazendo ao que o Transhumante respondeu que tencionava acabar o GR 11 em quinze dias; a resposta foram gargalhadas, pois que isso não era possível já que o ídolo da Catalunha e quiçá mundial e amigo pessoal destes, Kilian Jornet o havia feito em sete dias e os quinze, seria até mesmo assim impensável, até para um fantasma e os Pirenéus estavam pejados deles…de fantamas e intrujões.
Ficaram mais aliviados quando lhes disse que todos estes Quilómetros, os estava fazendo mas em suaves etapas anuais.
Era noite quando alcança finalmente o refugi Engorg’s e acende uma fogueira, cerra a porta e deixa-se adormecer pela segunda noite na montanha alta.
Mais uma manhã magnífica fá-lo lembrar que o tempo estável em montanha não pode durar muito, sabe que em breve terá borrasca e ele está demasiado exposto aos elementos e sem qualquer apoio para menosprezar a segurança.
Pernoita seguidamente no enorme mosteiro do vale de Núria,chega muito tarde e cansado ao meio de muitos turistas que o miram, tinham subido no trem de cremalheira desde Queralbs, estavam limpos e perfumados ao contrário dele, mas o banho merecido limpa-lhe a alma e é um novo Transhumante que se faz ao caminho na manhã seguinte por um caminho denominado “via dos engenheiros” onde o perigo espreita bem lá no fundo da falésia, tinha de não olhar para baixo.

Nesse dia um sol admirável e uma madrugada mansa, limpam-lhe a mente e o caminho até Malnu (onde viveu Kilian Jonet) alcança Puigcerdá mas não consegue chegar até planoles nesse dia, planeava dormir num camping aí existente mas de novo encontra lugar entre os seus amigos javalis no Bivoac “azul – cor-de-tempestade” mas numa benévola floresta de pinheiros e acácias recordava-se do trajecto de outros anos e das tempestades nesta serrania que podem assustar o mais arrojado dos homens e mesmo os Transhumantes não estão a salvo dos fantasmas do medo.
No dia seguinte, entre Dorria e Planoles mais um encontro, desta vez com um caminhante sobrecarregado, pergunta-lhe o Transhumante da razão de ir tão pesado; a resposta foi imprevista, disse-lhe que iria passar muitos meses na montanha fazendo o percurso inverso dele, começara em Cap-de-Creus e iria terminar não em Irun mas noutro lugar da península Ibérica , talvez Finisterra ,ou Núxia através do Caminho de Santiago francês ou mesmo Lisboa ou Faro, perguntou ao Transhumante qual a sua opinião sobre o melhor percurso, este disse-lhe que pelas Astúrias, o chamado “Camiño del Norte”, seria uma melhor opção pela a beleza da paisagem embora de inverno fosse de muito difícil progressão devido à neve e nevoeiros intensos.
Depois de Almoçar bem em Planoles num bom restaurante ( o referido camping estava fechando)ainda consegue alcançar Núria no fim de dia, corre atrás do sol que teima em esconder-se por detrás dele e projecta uma sombra de onde não consegue sair por mais que corra, e que suba naquele horizonte árido e maravilhoso, estava junto ao ponto mais alto da catalunha “o Puigmal” ,o ponto mais elevado do, possível mente mais jovem país do mundo,”A Catalónia” ou Catalunha. Para os “amigos”.
Distingue-se ao longe uma primeira grande massa escura de nuvens, como que atraídas por ele, espectros negros que o perseguem vindos de outras épocas de guerras civis, Hemigway’s e contrabandistas.
Para o trasnhumante, assim como para os fantasmas não havia fronteiras nem parerdes, a vida fluía e era como um poema de longos discursos com ele mesmo…e com os emboçados fantasmas.
Ao fim da manhã estava em Setcases com os sinais de tempestade mais próximos, mais tarde resolve sentar-se com os velhos e velhas na taberna da aldeia, conversam sobre rituais antigos e praticas de transumância há muito abandonadas mas que não esquecem pela liberdade que usufruíam na montanha.
Dizem – lhe também ser muito perigoso continuar naquelas condições, contam-lhe do ultimo inverno em que morreram de frio num mesmo local onze alpinistas no mesmo percurso que ele iria iniciar, ainda tenta durante a tarde continuar, mas regressa à cavaqueira de café a as historias da transumância até cair de cansaço numa cama de “hostal” no virar da esquina
Foi calorosa a separação, com os velhos transumantes que de manhã cedo estavam pousados no mesmo sítio no mesmo sonho e começa, já em passo de corrida o que até aí tinha feito em passo rápido, confiava mais no pé direito que tinha torcido um ano antes e muitas vezes torcia com dores terríveis mesmo enquanto corria ou andava simplesmente a pé, depressa chega a aldeia de molló.
Depois foi Beget com uma linda igreja Românica e Albanyá foi o próximo ponto de passagem com Sant Aniol d’aguja no centro de uma vegetação tropical e uma humidade de cem por cento, de perder o fõlego, mas recupera-o depressa a poucos quilómetros de Albanyá, na vertiginosa descida duma interminável estrada de cimento, é quando vê pela primeira vez o Mediterrâneo, pondera ainda se não terá chegado a hora de terminar aquele sofrimento físico, segredam-lhe de manso no ouvido para continuar mas ele inutilmente mira sobre o ombro tentando ver sombra ou espectro mas nada, apenas a floresta, agora bem mais seca e amarelada pelo inicio de Outono.
Almoçou na casa de um camponês que escrevera na porta em letras toscas “servimos bebidas e refeições”,
Regara bastante bem a “botifarra,” o feijão branco e a salsa com um bom vinho caseiro, sentia-se tonto quando passou por ele,pouco depois um casal de ciclistas (faziam o percurso contrário tentando chegar a Irun num percurso por vezes paralelo quando não o mesmo, mas mais propício para bicicletas de todo o terreno ) perguntam-lhe se estava bem , sim; respondeu :
-estava melhor que nunca e continuou sorrindo de satisfação enquanto se afastava cambaleando em direcção ao “mar-do-outro-lado”.
Era tarde de quinta-feira e o voo de regresso seria no domingo seguinte, bem cedo; havia que fazer concessões e em boa hora o pensou porque uma boleia para Lançá o deixa mais confortavelmente próximo de Cap-de-creus e do destino, do ponto de encontro com os ancestrais que o perseguiam desde Irun, desde que começou caminhando no mar-de-cima.
Compreende agora por que razão este foi o ponto de encontro escolhido, a paisagem é torcida e retorcida, esburacada até, pelos ventos e marés, criando uma súbita catarse de estilos e sentidos que não tem igual no mundo,
Lembrou-se de uma frase de Platão, “só os mortos conhecem o fim do mundo” e aqui parecia-lhe o mundo do fim do mundo e perguntou-se: -“se não estaria morto”.
Em Port-de-La-Selva conheceu um simpático casal que o acompanhou, falavam demais e interromperam as conversas que vinha fazendo consigo mesmo, ao longo do caminho todo desde Irun,
Sentia-se incomodado mas deixou correr os acontecimentos, afinal era assim que decidira viver, como Trashumante, ao sabor do ar e das torrentes do tempo, domando criaturas e paisagens. Umas mais rústicas e pacatas e outras mais céleres e aladas como aves gritantes.
Foi um individuo aliviado que chegou finalmente a Creus e a Cadaqués a povoação escolhida por Dali, Picasso, Gaudi e muitos outros para tertúlias sazonais.
Sentia pouco profundo, o apenas ter feito um trilho comprido, nada mais, apenas um comprido e inestético poema sem métrica.
Os fantasmas não compareceram ao encontro, ficaram pelos montes com medo da “tramutana” (vento norte desta latitude que afasta as tempestades vindas do Pirinéu Catalão) esperava senti-los mais próximos da pele noutro continente, em Xi’an, quando iniciasse a rota da seda em bicicleta ou talvez nas tempestades de areia do deserto do taklamakan, que costumam soterrar estradas, caminhos e viajantes oportunistas.
Provavelmente o Transhumante ficaria nos Pirenéus e regressaria de novo a Irun ou Hendaye pelo mesmo trilho mas agora a sós, não me agradava a ideia de voltar a percorrer com ele outra e outra vez o mesmo cenário os mesmos calhaus e precipícios e os mesmos sonhos extintos.
Prestou ali mesmo, no farol do cabo de Creus, homenagem aos homens que conduziam o gado dos pontos mais altos dos Pirenéus no inverno até as planícies da erva, “os Transumantes “, A transumância foi uma prática há muito finda, para dar lugar a uma mera indústria turística que flagela as encostas desta soberba serrania com um excesso de pistas de esqui e uma paisagem lunar de dar medo até a um Transhumante, como tinha orgulho em se considerar …( EU TE SAÚDO TRANSUMANTE )

Jorge Santos
(Setembro 2012)

Joel Matos
115 Jorge Santos (namastibet)

Seda negra.




Negra Seda 


Lanugens de jovem em cadências de pele acastanhada e levemente rosada evolucionam gradualmente e finalizam em deleitosos montículos, que se elevam tesos em amendoim tostado. Melindrados, sentem-se inchar ao toque subtil dos lábios, pelo menos na febril imaginação de Emílio repassava esse sentimento.
Procedendo da elegante linha de cintura forma-se um delta bem negro, num profundo, algo intangível lago fundo onde assentavam longas pernas em seda preta clara e luzente.
Toda uma elegia voluptuosa enquadrava um delta, onde um vórtice umbilical se espraiava em harmoniosos declives.
Deslumbrava-o o esplêndido corpo de menina moça sentada ao seu lado na pick-up amarela cor de milho e deixa-se conduzir num cosmos paralelo e sem culpados de negras sedas e encarnações de volúpia incontida.
Surge uma penugem densa no decote de Cíntia, estende-se progressivamente ao fundo de um lago mudo e uma outra linha carnuda assoma debaixo, ladeia e distingue-se suavemente um, dois montículos rígidos, mais claros que os culminam e se vêem sob a blusa fina.
Em cada gesto dela sente-se equilíbrio, o corpo desfila num sem fim sensual de ténues curvas magnificamente produzidas em tons de seda prata,
Longos fios, como cascatas em torvelinho ladeiam um rosto discreto em castanho de voracidade branda.
Sons macios de seda e cetim expressam-se nos sentidos de Emílio ao menor movimento dela.
O Colo elevado e levemente inclinado, permite que a catarata de cabelos repouse sobre um dorso modelado e enlace com as nádegas fixas do corpo negro e delgado da jovem.
Ao lado dela viaja mudo Emílio que sente a tensão sexual aumentar ao ponto de quase explodir ao mesmo tempo que imagina o corpo nu da jovem companheira sentada ao lado, invade-o a sensação de predador face à corça e decide atacar …
– Cíntia debate-se falsamente e por curtos instantes, depois deixa-se ir ou antes, deixa-se ficar, Emílio não era velho nem muito mal parecido, camponês dos três costados, pai mãe e avós, caboclos de mãos calosas e mente também ela calejada pelo sol e pelo seco sertão.
A renda branca da cueca de Cíntia cedeu como “teia-de-aranha” às mãos de Emílio que apesar da violência tenta dizer ao ouvido de Cíntia algumas palavras no seu entender sensuais mas que soam a obscenidades, às quais não estava habituada mas que, em lugar de a deixar desconfortável incrivelmente excita-a,
Sentia-lhe os dentes a mordiscar devagar e com gentileza os mamilos cada vez mais inchados e volumosos.
Rendeu-se á investida grotesca deste homem que mal conhecia, talvez com medo das consequências mas por outro lado à descoberta de outra Cíntia 
Sentiu-lhe a língua a percorrer cada nesga de pele castanha /negra e esbelta ficando atrás uma sensação de querer mais e mais o corpo rijo maciço e roliço dentro dela o mesmo que ela sentia teso rolar de encontro ao ventre e nas virilhas e depois navegar por ela dentro sem pedir licença nem permissão pra entrar, primeiro roçando levemente os lábios, a boca e penetrando depois devagar na boca mal aberta inicialmente como depois por entre os lábios vaginais rubros de tanta esperar pelo prazer prometido por Emílio. 
A imaginação de Emílio ficara aquém da real feminilidade daquela mulher que se dava a ele tal qual uma mansa gazela aos dentes da fera brava.
De tronco dobrado à mão gigante pela cintura com força muscular bruta ele sujeita o corpo dela de encontro ao seu como que gerando um outro na pressão sexual e símia de dois seres opostos e de origens diversas,
Arrasta-a pró meio do capim macio de cheiros a hortelã-pimenta e rosmaninho como se fosse a recompensa de onça,
Ela sente o órgão rijo mas macio de Emílio como se fizesse parte dela, preenchendo-a fundo
E de tal maneira que não queria que terminasse esta avassaladora viagem de auto-descoberta, essa tesão que desconhecia ter tão alerta dentro de si.
Também ele não queria deixar de habitar ou possuir o corpo belo da jovem, não queria mais sair de dentro dela, como se fosse pertença única e exclusiva de macho Alfa, despojo de guerra, nesse momento dá-se a explosão de ambos, tal pirotecnia quando vários jactos de esperma morna e o lascivo, dilacerante orgasmo deles que se conjugam num grito tal o de Ipiranga.
Libélulas pousam nos fenos e cigarras cantantes calam-se por custos instantes retomando a actividade enquanto repousam exaustos estes protagonistas súbitos dos prados
Deslumbra-se ele de novo perante o corpo cansado de menina adulta deitada ao seu lado na pick-up amarela cor de milho…negra seda,
Cíntia descobrira o natural poder de ser menina e mulher sob um céu em azul topázio e safira …

Joel Matos (07/2017)
http://joel-matos.blogspot.com
126 Jorge Santos (namastibet)

State of a Dream (From Oracles to Shamans )




Serei eu, é a questão e o universo"il faut démonter"



I
State of a Dream

(Vinte de Janeiro de 2017)
Era o sorriso de uma mulher resignada, não expressava alegria mas contentamento, mansa e bela, cruzara as pernas e fumava um cigarro, sabia-os enrolar moderadamente bem, dir-se-iam de argila, não presumíssemos de imediato que fosse tabaco, uma verdadeira ciência, transformar simples papel de arroz numa mortalha iluminada a névoa silenciosa como se fosse uma Xamã.
Tinha um suposto cansaço na pose como quem adormece uma sensação doce de sem-remédio que só os frutos saborosos contêm.
Vestido negro e um decote que os homens têm direito a olharem uma só vez e guardar no íntimo sob pena de excomunhão ou condenação.
Envolvia-a aquela aura de castidade e resignação que algumas mulheres possuem sem darem por isso, como se fosse o desejo algo inútil apesar de útil senão urgente senti-lo!...
Do outro lado do balcão castanho, corrido sentia-se uma sensação cliché comum em filmes, na figura do barman, erecto, limpando copos com um pano velho frente à misteriosa mulher de negro e o olhar deste, fixo num limitado ponto do espaço, como se tentasse ver algo para além do que mais ninguém vira.
O lugar, vazio de clientes, possuía uma solenidade desgastada, assim como o saxofone de Miles Davis tocando “Blue In Green” na juke-box junto à entrada, estranho lugar, mesmo para uma cidade preenchida a bares como New Orleans, pensou ele depois de cruzar a porta, vindo da rua.
Olhou num relógio caro que se distinguia da camisola gasta, Cinco da tarde dum dia quente, ainda que não fosse verão e a hora menos suspeita para dois estranhos se encontrarem num bar, calçava sapatos desportivos, com andar ágil dirigiu-se à mulher sentada ao balcão que não reagiu, embora sentisse que alguém estava ocupando o banco elevado ao lado dela.
Não a cumprimentou imediatamente, antes disso fez um discreto sinal ao empregado do bar apontando com o olhar na direcção de uma garrafa de Bourbon-Whiskey ainda meia, depois fez um sorriso ajustado aos lábios o qual foi correspondido por ela, não se supunha na linguagem corporal ou outra se já havia conhecimento anterior ou seria a primeira vez que se encontravam.
Roça com a mão esquerda, num gesto agradável o ombro desta, como que animando alguma contrariedade e ali ficaram lado a lado durante cerca de uma hora e alguns minutos sem trocarem qualquer palavra ou gesto, suspensos na atmosfera gasta deste bar de new Orleans ao som do Jazz de fundo do saxofone de Miles Davis.
Antes de se deslocar do balcão em direcção à porta da saída, a mulher vira-se devagar para o homem ao seu lado, olha-o com os olhos maduros, negros-azeviche, diz-lhe um nome em voz baixa -“Tália”,ao que ele responde também e em voz ainda mais baixa “Gerome”...
Tália deita a mão delicadamente ao interior da minúscula bolsa, retira dela um papel dobrado em dois que lhe entrega e despede-se de uma forma desprendida e leve como só uma mulher de alta classe social aprende a despedir-se e é como se voasse que alcança a porta, apenas com som dum roçar a setim, sai deixando no ar aquele perfume raro e caro com fragrâncias de açafrão e pimenta verde, dava todavia a sensação doce de odor a mel quando fazia movimentar o ar em redor dos ombros.
Ele apressou-se a sair rápido, parecia furtivo supostamente nervoso enquanto dobrava religiosamente o bilhete que ainda não tinha lido no cinto das calças, tremiam-lhe as mãos ao retirar uma nota de dez dólares para pagar a despesa do bar, Gerome aparentava ser calmo e recatado mas intimamente possuía uma imaginação fértil, ilimitada, sujeito a mudanças de humor e de convivência difícil. 
Por isso talvez fosse ele especial e pessoal a explicação que dava a certos pormenores a que chamamos sinais que para outros são simples acontecimentos, normais, triviais até, como se visse algo para lá da visão de todos os outros, como um oraculo, assim como o barman do bar de onde saíra há poucos minutos também ele "via" para além da pele do mundo.
Sentia-se em casa, as ruas faziam lembrar a cidade onde nascera assim como a exuberância de flores, o ambiente antigo e romântico que já não possuíam as cidades francesas actuais, pois embora ainda aparentasse juventude já tinha idade para recordar a beleza das antigas cidades, conhecia-as quase todas na Europa, embora fosse a primeira vez que pisasse o império do Norte como gostava de lhe chamar, quando falava consigo próprio.
Tália não ia ainda muito longe quando de súbito um carro pára e ela é com rudeza puxada para o interior, ainda a ouve gritar por socorro na língua mãe, Italiano e a origem do nome Tália,
Gerome leva instintivamente a mão ao cinto onde guardara o bilhete dobrado e respira de alívio pois tinha sido essa a razão da sua deslocação ao sul da América do Norte, país que detestava visceralmente e acima de tudo; preocupava-o o destino de tão bela mulher, sem dúvida que sim, mas o seu propósito estava salvaguardado em si próprio e o ansiado bilhete ficaria ao alcance dos seus entusiasmados olhos em breve, assim conseguisse chegar a porto salvo, ao quarto de hotel distante um quarteirão ou dois dali, na mais insuspeita rua, que em New Orleans havia.
"State of a Dream" era a lacónica mensagem da missiva, acompanhava um símbolo exótico desenhado à mão, além de uma outra frase curta em formas cuneiformes qual não fazia parte o mutuo convénio entre Gerome e a linguística .
Teria de pedir os espíritos para o ajudarem, proteger e orientar, faltava-lhe um último estagio de alteração de consciência pra se poder considerar Xamã e fizesse todo o sentido aquela mensagem na demanda a que dedicou Gerome quase uma vida inteira de auto descoberta, desde que conhecera a Dra Marcela, mãe de Tália e sua professora favorita de física no liceu, em west Berlin depois de terminada a II guerra, quase uma segunda mãe, sentava-se à mesa da cozinha dela, depois das aulas, durante horas estudando que esquecia onde estava , divagava, navegava entre átomos e fórmulas...







II

“May the force be with you”

Nove de Novembro de 1989, a grande Praça-Vermelha encontrava-se escura, mergulhada em sombras, parecendo ser perfeito aquele pacto com o cinzento frio do céu; assim como quando os espíritos se separam da vida, caminhava Tália impassível para um destino não menos sombrio que Moscovo de madrugada.
Podia identificar-se na expressão do olhar o cansaço por ter voado directamente de florença e vindo até esta grande praça, non-stop e com escala em Varsóvia visto ter comprado o bilhete à última hora, era imperativo encontrar-se com o seu tio, Arcebispo de Moscovo Pavel Pezzi, na catedral metropolitana nesta cidade e na mesma manhã em que chegasse à Rússia, sem demoras tal como ordenara o pai, Gianfranco Bonelli, embaixador de Itália no Vaticano apesar de arqueólogo por formação e compulsivamente afastado do cargo que ocupara durante uma década.
O pai tinha-lhe dito antes de partir para a sua mais recente "obsessão" em Göbekli Tepe no sudeste da Turquia onde este julgava estava situado a ruína do lendário jardim do Eden, ou o portal do conhecimento humano - o click que possibilitou ao homem olhar pra dentro dele próprio e ver o universo ao espelho, ou assim julgava Pappa Franco, como lhe chamava de uma forma carinhosa Tália, a formosa filha deste e fruto do casamento com a Dra Marcela Gleiser, Física, astrónoma e actual responsável pela investigação no "CERN" acerca de uma nova partícula subatómica, designada popularmente por partícula Maldita ou a famosa "partícula de Deus".
Assim como os espíritos, a massa deste estado ínfimo da matéria também a tornava imponderável ou fantasmagórica, como se existisse nesta nossa "realidade" e numa outra ou outras desconhecidas divisões ou salas de multi-universos ilusoriamente empilhados.
A Catedral era imponente por fora e por dentro, como quase todo o recorte histórico que esta grande metrópole possuía, numa entrada lateral semiescondida por abetos e crisântemos via-se a entrada com um caramanchão de uvas brancas, indícios de latinidade e que servia a residência oficial do tio Pavel, onde o pai se refugiava quando queria estar longe dos afazeres ou estudar algum antigo manuscrito, coisa que podia levar semanas de recolhimento e reclusão do mundo real, citadino e puritano. 
A Dra Marcela Gleiser, mãe de Tália confiara-lhe um grosso envelope que só poderia ser aberto pelo pai, quando e no caso de o encontrar vivo, não poderia sequer confiar no tio, dissera-lhe esta quando a beijou à despedida no aeroporto aquando da partida para Moscovo, foi uma comovida Dra Marcela que não queria deixar partir a filha tão querida para uma missão que poderia revelar-se suicida ou o mudar o consciente de uma espécie, pela segunda vez na história humana.
Tália sorriu troçando da angústia da mãe e lembrou de quem lhe tinha despertado a imaginação para as histórias de Stanley Kubrick acerca de monólitos e descobertas nas luas de Júpiter e de todas aquelas sequelas de 2001 Odisseia no espaço, disse-lhe que também ela tinha uma imaginação fértil mas iria seguir tudo à risca e prometia ter cuidado apesar de não levar muito sério aquilo dos destinos e evolução da humanidade estarem em jogo e ela, uma simples mulher ser enviada como mensageira por causa duma tola fantasia dos pais como se fosse um género de "Obi-Wan Kenobi" de saias, talvez o pai tivesse perdido o telemóvel ou se encontrasse nalgum lugar da Síria e estivesse privado de comunicações devido à guerra. 
Deixa-a com a frase da Guerra das Estrelas “May the force be with you” e o gesto épico de desferir um golpe de espada no vazio do ar, comédia ou ficção pensou Tália indecisa quanto ao género de narrativa que se via forçada a representar e qual a actuação como personagem principal, se drama-falso ou farsa/comédia. 
O Arcebispo possuía tanto as qualidades de orador quanto a força e convicção de um concílio pode ter, num só homem a força de uma gigantesca instituição, no rosto uma amabilidade extrema. 


III

(Le café des sept colonnes)

22 de junho de 1940 , la Bastilhe 


Gianfranco Bonelli Sentia vontade de abraçar, beijar e amar fisicamente todas a mulheres com que se cruzava nas ruas cheias de gente feliz mas procurava apenas por uma, aquela mulher especialmente bela, a bela Marcela.
Os afectos transbordavam nos rostos, mesmo nos pobres, famintos, mendigos e a quem a simples carícia tinha sido negada, apagados deste mundo filhos maridos ou esposas, até mesmo as pegadas descalças se haviam afastado das praias para dar lugar a botas, fardas e a corpos, aço e minas.
Fora finalmente assinado o armistício, as árvores eram mais verdes, agitavam os ramos, agradeciam o dia e a trégua concedida depois de lhes terem espetadas sete vezes no peito sete facas e outras que viriam a caminho, secretas, terminais, finais.
Intelectualmente sentia-se atraído por Marcela mas o grande magnetismo provinha daquele corpo airoso elegante, amava-a não só pela lisura da pele do corpo, dos seios em forma de colina, mas pelo brilho da mente.
Havia sido encarregado pessoalmente por Goebbels, apesar da sua ascendência francesa, de procurar indícios da assumida supremacia ariana entre as montanhas de Tauros e o lago Van, local onde, ao tempo, se convencionava falsamente ser a nascente do rio Tigre. 







(cont...)

http://namastibet.blogspot.pt/
147 Jorge Santos (namastibet)

S'isto que tenho dito, fosse verdade ao menos ...



S’isto que tenho dito, ao menos fosse verdade,

S’isto que tenho dito ao menos fosse verdade, pois “de-verdade” nem eu sou, de cortiça antes, de prego e ferro, fezes de cavalo são meras frases, ditas por mim “Icónicas”, mestiças como todas a partes abaixo da linha de cintura minha o são, chamo-lhe uma corrente de ar ou corda, cabresto, mas simplesmente sou eu o “não” o anão espalhando-se pelo chão, descrente de pensamentos e expressões; não me fluem com o o equilíbrio e inteligência que usava, como o galo do quintal do vizinho para me anunciar num simples poleiro empoleirado a verdade e toda a verdade sobre a existência dele próprio quando cantava de galo antes de morrer na panela.

Se fosse de verdade ao menos e o quintal noutro mundo, eu deixava acender o restolho e aí as ideias copulavam, mas fui varrido pelo desencanto, folha morta no furgão do lixo.

S’isso ao menos fosse verdade, pois se tudo quanto sei e dou me voltou em dobro, era cuspo e culpa por não ter dito, eu que pensava ter da vastidão exéquias, recebo feijões anémicos, cicuta e terr’inculta.

S’isto fosse um elo real ferro podre ou ralo de esgoto, eu desfilaria através dele até ao escroto de um deus minúsculo que fed,e porque ele o criou assim, como me fez criado sorridente, escravo de uma necessidade com grades que me segura prende, fede e arde…

Há o Homem que pensa que eu sou esse entre eles, não sou!
Não há meio de pensar que serei o Homem que o pensar soube ser, se Rei ou senhor do mundo, não servente mas hei…de ser sempre e pra sempre, delito em gente,prezo tudo quanto sinto e diferente desse outr’homem que’bem sei não ser, sou o genoma do futuro, o cabo do mundo, a verdade não existe, nem se comprova, não me comprovo eu.

A varanda é de grades. os antípodas e o horizonte tão curto, quanto eu para entender as luzes, serem eternos sinais com o instinto preso neste quintal suspenso, malditas frases espetadas nestas grades…

Houve um jardim quando não havia regatos e eu me ria nos espaços abertos, meu agora coração parado não ouve o tempo misturando-se e a vantagem da angustia é não ter fim, assim houve um jardim em mim e meu coração não ouve o fim do fim do mundo, ouve escutando o que pensa ser a capacidade de sofrer em fazer e o ser humano fecundo, o universo e tudo…a arte é o mundo e a nitidez crescente em mim…a verdade que suporto.

A capacidade de criar torna-me mais intenso, aceso mesmo quando não estou pensando em nada e mais em que tudo é íntimo, quando estudo um modo de dizer que me transcende e aí ouço o passar do tempo como num carrossel acelerado, chamo-lhe ar corrente e ao tempo o intervalo em que disse isto e por isso sei que existo em tudo, nesse momento acordei, acordo e sou tudo, perco-me da visão e a emoção é uma morada semelhante a álgebra numérica magma e espaço, filamentos e galáxias-heras.

Hei-de ser, ouço em mim esse poder de pensar fundo que trago e sigo há séculos e séculos …um mundo presente aquém e além da minha morte depois, a verdade é isso, intemporal e futuro

Joel Matos (05/2018)
http://joel-matos.blogspot.com
148 Jorge Santos (namastibet)

O azedume no vinagre ou rumo a Centauro-A





O azedume no vinagre ou rumo a Centauro-a











Somente à esterilidade de interesse que desperto e à vã utilidade do meu pretenso e super-tedioso saber terreno e terrestre, se pode dever a auto-falência e debilidade como filósofo, sábio e/ou pensador estelar, não tenho falácias supra que atravessem redes e vedros muros, pontes e sejam a salvação do Homem puro, dos espíritos mais rudes, dos mais endurecidos obscuros e azedos, nem gozo intimamente e seguro de pragmáticos sofismas que aumentem ou enalteçam a minha credibilidade como ser consciente, é vital um deve/haver sanitário saudável; possuir-se de Y, e despertar em X ou alfa, um sentimento de valência quase platónica e entusiasmo em redor do trigo, para que agite ao vento as espigas, o valimento ou invalidade epistemológica é uma variável indefinível, imaterial e etérea, efémera, como silencioso e solene é o trigo sem vento que o abane, a textura é secundaria, como do azedume no vinagre se fazer vida, qual não se quer num bom vinho de colheita de barrocal, assim é o meu sentimento perante a vida, a sensação interminável e inefável, que me arranca da realidade demasiadas vezes quando uso da doença inteligente da qual tenho de fugir, que é o pensar sem vitoria nem renuncia simbólica à vida, devo abster–me ou protagonizar expressões teoréticas plásticas de qualidade superior, ou apenas apostar na prosaica criação humana menos dolorosa e desprovida de sentimentos e de esforço, com que cada um, cada qual, pode sentir-se talentoso e reclamar percepção artista da mais solida estrutura possível, gerada num universo geracional, multi-dimensual verdadeiro e não falso, como este onde me encerro escrevendo, no azedume quântico do vinagre, no cafelo da parede branca, na ignorância quase orgânica destas pacatas quatro paredes de cela em papel paisagem, em nau difusa ou carruagem -"Wagon-lit" do - "Lusitânia Express" a prumo com Centauro a...b…c.
Os conceitos célicos divinos, dividem-se no matriz gestacional da mãe-Terra e dividem-me a nível subatómico assim como uma antiga ponte, por onde ainda ninguém passou e os vazios territórios em pousio, que havemos de acariciar, porque são nosso destino e não duvido, ser nosso também, o privilégio de olharmos continentes novos e navegar rios remotos, em eternos planetas frios, voar em solenes céus de outras áreas da Láctea galáxia.
A austeridade de palavras não me representa tão bem, como a ambiguidade caótica e nonsense das aparas de amável cortiça gerada no sobreiro ou carvalho soalheiro, representam para a verde azul, garrafa “Terra”, do ponto de vista da rolha ou na fortuita oportunidade, talvez avara de nos tornarmos galácticos, os juncos nas margens dos lagos para os peixes serviram de limite e ao escualo marítimo "de olhos vesgos" , simbólicas simbioses, perspectivas raras de "solha" e paisagens surreais servem as minhas sensações, como se fosse eu a decoração e o espaço astral, extra preenchido por algo inesperado, na "visão-de-lado", "e-de-fora", peixes lúcidos e espaciais, solhas verdes-ervilha pejam a minha alma de vida e formas místicas, químicas, tal como eu as sinto, claras, nítidas e unidas como que por um elo quântico "nonsense" físico e astral, assim foi o nosso passado e será assim o nosso futuro planeta Taurus, de solenes céus e agradáveis cearas ondulando ao vento forte... 







Joel Matos 03/2019
http://joel-matos.blogspot.com
150 Jorge Santos (namastibet)

Todos os nomes que te dou, são meus ...




Escrever é uma das coisas belas da vida, faço-o fluente e excelentemente, com a exagerada consciência tópica, própria de um cego e também a de um louco utópico, moderadamente creio, tenho uma razão sensível encastrada na ponta dos dedos, na língua, nos dentes e outra, dentro das orelhas, nos típicos ouvidos, falo discretamente com a alma a linguagem primitiva e divina dos templos acrósticos, escrevo nas paredes o idioma académico dos corrimãos "grafitados" para que todos entendam e será breve o que digo, pois sou órfão dos olhos e tenho de ser rápido a dizer, já que a sensação é forte e cheia de fé nos sentidos quando escrevo o que penso e digo, também porque escrever "a fio" é bom, faz bem à alma, porque não o fazer assim é banal e vazio, sem tino, só tem inconvenientes, por isso eu dito da consciência o que vale a pena ser tido em conta e apenas digo, se valer a pena ser contado, é o meu modo existencial e excepcional, refiro-me a braços e pernas, todas essas coisas que me não pertencem para sempre, assim é a escrita, a última dimensão sentida da alma, a melhor divisão da casa, onde me reúno comigo, renuncio à vida e pronuncio expressões invulgares, que já não me pertencem, o caso destas agora e de todos os nomes que lhes dou, de que lhes dei, poesia é a mais provável alcunha de todas as coisas, desde as mais simples e leves que a vida, embora nem tão belas nem tão ocultas, quanto a luz devassa contaminada com o escuro breu e o ouro puro, quando mutuamente se cobiçam e se culpam pela cupidez mundana nos olhos fracos dos humanos seres, qualquer semelhança com os deuses é comédia e farsa, desonra é pintura, poesia de poetas, alcunhas para os que se confessam decorativos servos da luz do dia e das trevas da noite, esguios anjos, caídos da guerra no pó da Terra, na lama simples, mas que dá vida, poesia é o apelido de tudo isto e do que ainda não foi dito apenas vislumbrado pela miopia humana, cegueira, amargura e a fome e a sede.
Defino-me como a excepção, não entendo os outros nem pretendo ser entendido por todos, não ajo nem ando como a maioria das pessoas que nem me sentem culpadas, por não me fazerem entender, é uma questão de consciência, não uma tragédia. A fome e a sede são insignificâncias perante a existência de cada um, mas concorrem e especializaram-se, assim como a hipoxia, cada uma à sua maneira e forma para o triunfo da mente humana e para que as palavras falem às vezes connosco e as entendamos.
A noção simples de existência é esmagada pelo desconforto da sede e da fome sobretudo, mais que pela miséria insana, embora sejam uma trindade. Já o que me costuma manter vivo é um desejo de comer e beber, absurdo para alguns e para outros, compreensível, regra “Sine qua non”. Defino-me como a excepção não pela inteligência ou habilidade, mas pela simplicidade, como água de uma fonte ou um pedaço de pão na mão de um miserável esfomeado, mas autentico, não pseudónimo de fraco, assim sou eu e sempre, prefiro o desconforto, pois é este que me faz pensar naquilo em que creio, conquanto produz em mim um sentimento de libertação, pois acredito na constituição de uma sociedade indivisível. 
A Propósito de dizível, no seu teorema mais básico e como fiel de balança, é missão da escrita mais pura a confissão da loucura e esta consiste na exponencial capacidade de cada um em incestar termos, palavras/verbos, inventar temas, escrever novas frases, fundir em poemas inovadores ferro e magma, signos tão finos que brilhem no conteúdo e no escuro, que treinem os nossos corações atletas e os mais profundos medos, emoções, metas na condição de amanhecerem na lua, do lado magro e a sermos exímios maestros, mestres magos, gregos tanoeiros, não só mas também, nos nossos humilhantes fracassos e crassos erros. Insistamos, incestemos almas, matérias-primas e espíritos! Não há caminhar outro, suave e louco, embora o caminho não seja curto, crio (criamos) um longo e magno paradigma, não importa que nos indiciem de loucos e ansiosos; a minha, a tua ambição é amanhecer na Lua, do lado magro, nós outros longos, largos de ombro a ombro, o espaço infinito e vasto, debaixo de um só braço e o comando noutro.
Brinquei tanto ao homem legível e dizível, com iminentes faixas brilhando em tule de catedral, joguei com as palavras enquanto era "bem-visto" por todos os números menores que eu e divisível por dois, como se fosse eu protagonista do que conto, pois que agora, vista o que vista não me encontro mais no "Grand Palace" de cristal, nem na vitrina da “Cartier", desisto do outrora brilhante fato de caxemira branco e preto, sou invisível na plateia até por um mero espectador sentado quer na coxia, como na plateia, a orquestra pode continuar a tocar, monótona e igual, apagada como todos os dias, nada me salvará da morte permanente, assim fui eu sempre, a propósito de indizível, eu hei-de um dia descobrir o que digo quando escrevo, meus olhos nasceram em greve, meu entendimento é breve e leve, quanto um cometa inédito, segue e some, some e segue, assoma-me a loucura quando escrevo, assola-me o que escrevo e quando o faço assemelho-me a um louco, sendo ele, eu próprio noutro ...noutros. Acredito no silêncio e no amor quando posso, Pois que na posse não há amor nem silencio, impor é pro amor como o azeite para a água ou o vinho na comunhão das almas puras, falso e vicioso o som que faz um padre se o vaso é apenas vaso e a água apenas água e fraude.
Trago em mim dentro um mundo de inteiras frases, a poesia expõe-me e todavia explica-me pelas sensações e grafias mais profundas e subliminares, não se aplica o mero entendimento nela, ele é aparente podendo ser falso, ilógico, xeno frásico, bem melhor seria e é imitar-me a mim, eu próprio, elevando a dois, multiplicado pelo melhor exponencial, o conhecimento que tenho a menos, pois os poemas são como as tabelas periódicas, que nunca estão completas, há sempre um elemento em falta e uma órbita que o complementa, um planeta, uma lembrança assim como "valência literária" pode ser alcunha, quando a leitura não é assim tão pura, nem tão bela, a minha não é, sofro numa mistura de desapego e querer, faço na minha vida o que a ciência ainda não provou possível, reduzo os tolos sorrisos doutros, nas silabas e os modos com que cobrirão mil dos meus livros e às cinzas os mortos.
É difícil explicar a um demónio a dor da chama e o que pensa e sente um santo em forma da mula dos infernos ou a um “Semper Fidélis” des crente, perante a morte eminente, a pira do santo ofício e a orgia de sentimentos que o poeta sente, quando escreve e sabe que se está condenado ao purgatório, pelo que diz sem que importe, ele escreve com a expressão no rosto do demónio, qual tem dentro e que dói, numa dor de noite permanente, do desterro de ser gente, tão difícil de explicar por números primos e embora as opiniões nunca fizessem florir uma amendoeira, mas na minha cabeça, o centro fica em flor como que por encanto, quando penso, da própria dor parecer não tenho, nem tento dar opinião, nem tento, sorrio por outros motivos além de não gostar de estar sério, não ter inimigo nem senhorio nem presídio (mesmo que esotérico), aliás a nossa semelhança com os deuses é real, tão natural e antiga que às vezes me parece mentira e doutras parece que o beijo é sério, não é fé nem mistério. Nunca soube julgar tão bem como fui julgado por jogar mal com as palavra " melhor e bem", bem melhor é imitar-me a mim, eu próprio, elevando a dois, multiplicado pelo melhor exponencial, o conhecimento que tenho a menos e vejo crescer mais alto em mim o que digo, do que o que penso, o coração faz peso pra um lado, embora procure o equilíbrio, desabo na sátira de mim próprio, será a poesia o caminho errado, a alegoria não é um sentimento, sonhar não é uma anátema nem uma oferenda, é sonhador quem sonha por si, não por ver sonhar outro, com a alegria passa-se o mesmo, é como no luto, no opróbrio, no desalento.
Embora as vaidades nunca fizessem desabrochar uma figueira mas na minha cabeça invadem-me de aptidões em forma de raiz, o centro fica em nata de figo, como que por encanto quando penso, da dor opinião não tenho nem tento dar opinião, nem tento, sorrio por outros motivos além de não gostar de estar sério, não ter inimigo nem senhorio nem presídio (mesmo que esotérico).
Somente à esterilidade de interesse e inutilidade do meu entusiasmo se pode dever a falência como filósofo, sábio e/ou pensador, não tenho falácias que atravessem vedos, redes, muros e sejam a salvação dos espíritos mais endurecidos e obscuros, nem gozo intimo seguramente de pragmáticos sofismas que aumentem a minha credibilidade como ser consciente, é vital haver, possuir-se e despertar um sentimento de valência e entusiasmo em torno do trigo, para que agite ao vento as espigas, o valimento ou invalidade epistemológica é uma variável indefinível, imaterial e etérea, efémera, como silencioso e solene é o trigo sem vento que o abane, a textura é secundaria como o azedume no vinagre que não se quer num bom vinho, assim é o meu sentimento perante a vida, a sensação interminável e inefável que me arranca da realidade demasiadas vezes quando uso da inteligente doença da qual tenho de fugir que é o pensar sem vitoria nem renuncia simbólica, devo abster – me ou protagonizar expressões teoréticas plásticas de qualidade superior ou apenas apostar na prosaica criação menos dolorosa e desprovida de sentimentos e de esforço com que cada um cada qual pode sentir-se talentoso e reclamar percepção artista da mais solida estrutura possível gerada num universo geracional e bi-dimensual como este onde me encerro escrevendo, no azedume do vinagre , no cafelo da parede, na ignorância quase orgânica destas quatro paredes de cela em nau difusa ou carruagem "Wagon-lit" do "Lusitânia Express", não sou um solitário geriátrico, solitário é ter sangue novo, como um Simbad, ter talento de marinheiro de verdade, sangue azul cobalto de um místico asceta, título monástico de Conde varão de Monte Cristo ou ser apenas solidão, parecida a peste, marca comercial reles, rótulo de Sonasol gasto, decadente, detergente industrial, inferior a preço de sabão macaco em azul desalento, limão verde, amarelo e velho, suco gástrico e mijo, serventia de mata-borrão, azulejos de crematório em bege, solidão de velho, descrente !
Escrever é uma das coisas belas da vida, esquecer é outra coisa, embora possa ser uma lição de vida, quando nos relembramos do mal que nos fez aquilo ou isto, este ou aquele outro, pois do bem basta lembrar um bocadinho para apreciarmos o que sobra do resto do dia e o que somos, não o que fomos, esquecido, pois bem, escrever está certo e não é peso morto, recordar com a memória que nos emprestam não é, nem fará todavia do longe, o aqui perto, nem é realmente pouco, excepto pra quem viveu e morre, espiritual e estritamente cego na sua relação consigo próprio e comigo mesmo, e é relativo a "todos os nomes que te dou", por serem meus e estarem imponderadamente certos.


(Excerto de "Do que era certo")







Joel Matos 03/2019
Http://joel-matos.blogspot.com
161 Jorge Santos (namastibet)

JOEL MATOS



JOEL MATOS
por
Jorge Santos
Capítulo 1

 

Conhecemo-nos numa certa tarde de outono, no caminho do Liceu de Oeiras/Paço de Arcos, chamava-se Sebastião “Silva e mais qualquer-coisa”, perto de Lisboa ou seja entre Cascais e Lisboa, sou muito mau a fixar nomes de sítios, pessoas e coisas; creio que foi numa área de residências de luxo muito antigas, típicas casas senhoriais do antigo regime, pintadas de amarelo e branco; lembro-me que não era muito longe do quartel militar onde Joel Matos, como mais tarde vim a saber o nome; disse que cumpria serviço militar, nessa altura de 1982, em outubro, era um dia já tardio, igual a outro dia qualquer, realizávamos a pé, desde Paço de Arcos a Oeiras, o mesmo trajeto, já nos tínhamos avistado noutras alturas mas nunca tínhamos começado conversa; aparentou-se-me despretensioso e tímido, vestia farda verde seco demasiado larga e ainda maiores as botas, davam um ar cómico de pinguim andante ou Charlie Chaplin sem bengala nem bigode, a boina mal ajeitada e o sentimento de haver sido deslocado no espaço e no tempo que quase todos os soldados do serviço militar obrigatório aparentavam por mais que o tentassem esconder quando perseguiam com olhar e mãos, as raparigas da terra, fartas de soldadinhos imberbes mas atrevidos dentro das cómicas fatiotas esverdeadas, vazias.
Lembro-me particularmente desse ano por uma situação singular, foi aquando da visita do Papa que nessa época era João Paulo II a 12 de maio no Santuário de Fátima, dia em que foi vítima de tentativa de atentado por membro de uma outra religião; saiu ileso dizia-se na altura – por milagre “divino”. O papa perdoou-o em visita à prisão onde se encontrava detido, poucos dias depois do inconveniente episódio. 
Assemelhou-se a algo assim estranho também aquele encontro, mas prefiro usar a palavra invulgar como adjetivo para uma ligação que ainda dura mais de vinte anos depois e para alguém tão pouco comum tal como o Joel Matos, surreal até.
Germinámos parceiros e parecidos no mesmo ano de 1961, temos a mesma idade, embora Joel tenha surgido em mês e dia par e eu em impares ambas as datas, dia e mês.
Nessa noite as aulas passaram tão rapidamente que nem dei por terem acabado, tão determinado estava em desenhar o mistério deste personagem que parecia conhecer irmãmente ou assim como a mim próprio, mas que, por algum motivo de desassemelhava em tantos e importantes aspetos comigo.
Era sombria a áurea que nos rodeava, quase esquisita, e o Joe, pensativo dava aquela aparência de quem não quer receber visitas fosse a que horas fosse, de dia ou de noite. Falámos sem trocar palavras e entendíamo-nos como os mudos se entendem, sem dizer palavra, diminuindo as sílabas vocais. 
Corrosivo e caustico, acabava sempre por pedir desculpa apesar de conscientemente sentir que usufruía como certas as opiniões que tinha além das oportunidades mais honestas deste mundo.
Os dias passaram e nós dois também passámos mais ou menos discretamente de afeiçoados um ao outro a confidentes íntimos, inseparáveis até ao osso e à medula óssea.
Eu podia ter parado, sentia que deveria parar este influenciar mutuo, tive a sensação de proximidade com Joel por diversas vezes antes desse dia e ao longo dos anos embora sempre rejeitasse e repelisse semelhante ideia pois a achava sintomática de esquizofrenia ou loucura, mas ali estava ele finalmente; nós frente um ao outro como irmãos apenas separados por hélio e formas diferentes de ler o nosso próprio conteúdo.

Capítulo II
Incomoda-me ainda hoje, decorridos tantos anos, o nome que atribui a si mesmo esta personagem que sempre e esporadicamente me povoou e se desenvolveu em mim, perante mim e se desenrola agora na minha expressão dramática sem ser necessariamente distinto ou distinta, mas seguindo um instinto separado, não paralelo. Incomoda-me a facilidade de argumentos e o “dark soul”, o modo impulsivo explosivo e compulsivo com que raciocina e a compreensibilidade lógica subjacente e independente, par.
Disse-me um dia Joel em nome de um grande homem que admira “Basta existir-se para ser completo” tomando como princípio que existe ele mesmo e ao qual eu respondi olhando-o nos olhos verdes, lembro-me tão bem, sentados na guarita da Arrábida no Sírio de Maio, 
“Tod’a fraqueza é possível quanto dura for a pele, tu não és fraco, és puro Joel, nada te coíbe de ser inteiro”

(cont)

Jorge Santos (Namastibet)
163 Jorge Santos (namastibet)

Em geral



Em geral

Em geral, somos criaturas miméticas que se prendem nos gestos uns dos outros e aprendem por imitação dos sinais do rosto embora aprendamos devagar e com gestos lentos, desde como fazer balançar o berço até ao contar pelos dedos, a tabuada dos nove, em galego, (nove’s fora nada, nada igual a zero, por gestos) quer a comunicar com os ombros dizendo eles da nossa equidade em Basco, ainda mais que nós mesmos “por boca” lograríamos transmitir por sílabas gástricas, intestinais, o estalar dos dedos é linguístico e tão universal como a palavra “TAXI”, não tenho vontade ou necessidade de justificar o gesto de um só dedo, partilhar os meus costumes a outros ocupantes deste “Taxi espartilhado”, nem justificar convívios, conluios; nem necessidade de justificar o que conluio finalmente como tendo real valor, a minha sensibilidade e versatilidade, está para o meu entendimento assim como o erro para Descartes, mantenho a cabeça na pia baptismal e afasto, separo as emoções dos pensamentos embora as minhas alterações comportamentais não sejam, nem sigam uma linha recta, mas a distancia mais curta entre o que me apaixona e o que penso ser correcto parecendo nebulosa à distancia e na consistência e desvio múltiplo, de facto não o sendo; é o que me influencia vindo do exterior, o mundo qual gera justamente a minha ideia de verdade, originalidade e ideal, justiça.
Em geral, sou como uma criança que aprende com o que conheceu ou aprendeu numa conversa a dois com os cotovelos, aí chego a uma conclusão e passo-a a limpo com os dedos das duas mãos, apesar de muitas vezes colher da erva alta flores de cardos, viscosas, terríveis, espinhosas, por serem de uma realidade que às vezes dói, a própria vida nem sempre é constituída por viçosas flores de jardim, mas por associações destas e outras ideias, a ironia e o sarcasmo são espécies entre muitas e uma indicação aguda de atitude espiritual por vezes injustamente condenada como bastarda e indigna de se considerar flora.
Confio nos polegares opostos, na instituição que é ser “Humano” e embora não me vista de Xiita, admito-os e admiro todos os trajes, são as oficinas que tecem os trajes, que por sua vez moldam o pensar do polegar e o entrelaçar constante de dedos é um dom, um mérito, o ligar fio com fios; o aspecto, uma trama cerzida ponto por ponto.
O encanto da liberdade é dizer o que quero a outro, passar por onde quero, ter dois ou mais poleiros para cantar de manhã cedo e escolher o que quero usar dentro da capoeira, apesar de acabrunhado e sonolento quando acordo a doer-me a bexiga, alivio-me desse incomodo antes de cantar de galo pela fazenda do meu dono e fazer de novo um berreiro daqueles que se ouvirá da França ao Reino Unido, supondo que o galo fala francês, já que de lá é oriundo e não da loja de algum chinês.
Em geral somos criaturas de hábitos, temos pés de barro que embora possuam outra utilidade também servem para quebrar canelas e joelhos de diferentes jogadores em diversos jogos, provocar dor; habitámo-nos a usá-los para andar, para correr, para cheirar de modo que sintamos que estão sujos ou com o síndrome de pé de atleta em estado avançado, nauseabundo.
Não costumo cheirar os pés dos outros, nem o peçam por favor, cada um tem de sentir a que cheira de facto cada palavra e acto e a morada íntima da alma não pode exaurir demasiado fedor, sob pena de perpétua condenação, vem descrito no Apocalipse de Patmos como exemplos de males sem cura, quer o pé-de-atleta assim como o mau hálito de boca e as dores de cotovelo ou de cabeça congénitas.
A fome e a sede são generalidades, aprende-se cedo a enfrentar assim como o medo e o modo de embalar com o abanar do corpo e a dar movimento ao pequeno berço.
Defino-me como a excepção à aprendizagem em geral, não sou aprendiz de coisa alguma; como mestre de mim mesmo, não entendo dos outros o que não sei por “Leitmotif”, nem pretendo ser entendido por todos, não ando nem falo como a maioria das pessoas, nem me sinto culpado por não me fazer entender, é uma questão de consciência não uma estratégia nem uma tragédia. A fome e a sede são insignificâncias perante a existência de cada um, mas concorrem e especializaram-se, cada uma à sua forma para o triunfo da mente humana e para que as palavras falem às vezes connosco e as entendamos. A noção simples de existência é esmagada pela sede e pela fome mais que pela miséria insana, embora sejam uma trindade. Sinto a liberdade a definhar no trânsito da cidade, na fila dos semáforos urbanos que me obrigam a parar, nos anúncios de pasta de dentes e no IKA dos móveis, nos impostos que me obrigam a pagar, já o que me costuma manter vivo é um desejo grande de comer e beber, absurdo para alguns e para outros compreensível; a regra “Sine qua non”.
Geralmente não tenho sede de água, pouco bebo a não ser nos regatos quando caminho nas florestas doutros reinos, defino esses momentos como genial excepção, não pela inteligência ou habilidade de me acocorar nos regatos, mas pela simplicidade, pela fuga de espírito, como água de fonte fresca, maleável à mão, um pedaço de pão na boca de um miserável esfomeado, com o estômago colada às costas mas autêntico como uma floresta, assim sou e sempre fui, serei.
Termino esta dissertação da maneira mais genial e generalista que me ocorre, como o hábito geral de nos transfigurarmos em tudo o que nos une e nos normaliza como seres miméticos e sociais, sociabilize-mo-nos q.b.
– Carpe Diem –

Joel matos 07/2018
http://joel-matos.blogspot.com
164 Jorge Santos (namastibet)

Antes de tud’o mais ...




Antes de tud’o mais …

Antes que tudo, desfaço a minha barba com a Gillette, a mais perfeita e bem-feita do mundo e depois de levantar de manhã-cedo, o leito ainda aquecido e marcado pela fixa posição corporal; como uma praxe, faço a cama quando sou o último a levantar, ponho as “orelhas dos lençóis num ápice por cima das almofadas” , a chávena de leite amornado no micro-ondas com a substancial aveia e antes de qualquer outra coisa do dia e no princípio de tudo, de todos os acontecimentos que não serão cerimoniais tanto quanto os da manhã e do café, além de trabalhar das oito e pouco- às sete e tal, olhar na rua o escasso movimento habitual, a apatia dos transeuntes e a simpatia do vizinho da frente que comparece na loja a horas e minutos fixos e certeiros para dizer bom dia, comentar o jornal da véspera e os acontecimentos da periferia, além disso traz por vezes ameixas ou damascos para o lanche ou melancia da quinta que cultiva nem sei onde. 
A meio da manhã com a vinda do carteiro, as facturas da luz e da água forçando-nos a pensar que só pode ser assim, a realidade a deixar-se fazer sentir. 
Música por “background”, “Dark Blues” ou “Motown Jazz” sempre igual a sempre, assim também a falta de respeito habitual quando pedalo pra cá e pra lá de bicicleta, pela berma da estrada como manda a segurança; faço todos os dias uma silenciosa digressão para a urbe com os carros colando em mim como um estranho “chiclete” de banana com maracujá, uns pegando a outros, como peste; a minha indignação sempre presente, a título de “karma” ocidental e pungente, quase como uma bofetada a frio de “dia-a-dia” é o que acontece quando dou por mim na cidade das más vontades quotidianas, do massacre e da ignomínia, dos cidadãos sem honra nem tino apesar da pressa de alguns; parecendo ser abastados a julgar pelas máscaras fechadas e imponentes e no que diz respeito a carros e a cigarrilhas de saquetas douradas dobradas amarrotadas, atirados com desleixo e ainda com morrão aceso, com ou sem intento, (suponho que não), para a berma mesmo que esta esteja seca, restolho de pirotecnia, incêndio; ruidosas procissões de gentes escravas de uma missão que não entendem e as transcende deixando elas próprias de fazer sentido … 
Antes de tudo, Sou um ser indignado por defeito embora o meu feitio seja feito de boas vontades saudáveis e intrínsecas como o salmão e o seu óleo qua tanta falta faz a uma boa, equilibrada dieta, excepto o óleo da batata frita embrulhada, que na ausência me não faz pesaroso ou triste, excepto a um “Mc Donalds” rico, untuoso, obeso e prejudicial, meu rival de peso no que diz respeito ao colesterol que não controlo nem consigo controlar apesar do esforço e da intenção.
Ainda assim e antes de tudo respeito o “laissez-faire” dos outros, além as parcas boas vontades de um sistema global e globalizante, castrador da firmeza individual, legível até na escolha gastronómica das filas diárias e intermináveis de consumidores, nem firmes nem filiformes, em veículos perfilados, cada um com o som do rádio mais irritante que do outro da frente ou no detrás, do sofisticado look de marca nos óculos, da arrogância egocêntrica e automobilística de enfileirado de um e de outro lado nos “drive-ins”, como se fosse aquele o melhor petisco e manjar da Terra e do céu juntos na mesma receita, lado a lado, pão com pão, carne com carne, ambos de duvidosa origem, mercado pra’ apáticas bocas, fácil digestão, chiclete-gástrica.
Antes de tud’o mais, cometo a ignomínia de me regalar com as palavras-minhas desde que chego ao trabalho até que me escapo e quando posso, por vezes parece uma manta de retalhos o que s’crevo ou um labirinto sem saída, sei isso e sinto mas o fio quando se parte da meada numa mais é fio contínuo e os nós se enredam dando uma sensação de trama mal acabada, mal alinhavada, como se fosse um pintor chinês pintando paisagens da Holanda de Gogh em aguarela.
Compõe-se a linha da beleza artística de uma fina camada de sensações das mais longínquas proveniências e até no fazer da barba se define o que será o dia e a semana e a emulsão analgésica do creme de barbear prepara-me a face e o espirito, absorve-me e observo no espelho a consciência separando-se como uma espécie de publica instituição física e intuição profética e poética profunda, criadora. 
A missão é não desejar, não triunfar, embora o quisera eu interiormente; em privado ainda assim triunfo, liberto-me de ser escravo embora na realidade não deixe de o ser, natural é o que sempre fui e sou desde que faço a barba de manhã cedo, arrasto os lençóis da cama sobre as almofadas e persuado-me de que tudo é uma narrativa que estico sem o menor esforço. A calçar e descalçar é que experimento o melhor sapato, o que faz menor peso ou melhor passo.
Antes de tud’o mais seduz-me o que é reduzível ao absurdo, a interpretação dos sonhos, a apreciação das acções dos outros e o modo de exprimir que se desenrola do meu polegar erecto à expressividade côncava do que tenho pra dizer na palma da outra mão, astucia ou dom de camada fina.
Antes que tudo, desfaço a minha barba com a Gillette, depois vem tudo o que consegui ser, a repetição dos movimentos da mão destra, nem estrelas mestras nem cometas, o universo inteiro para mim é uma brecha sem conteúdo flui pela minha vontade sem que agarre senão a sensação inútil de repetir os mesmos gestos na orla onde as estrelas começam, a floresta escura.
A missão não é desejar puro, sublime e sem corpo, nem a imaginação se mede na pele dos outros, aos palmos,nos pulsos ou com um termómetro, a única maneira é reconstruir tudo, algo novo, um mundo, pra admitirem que temos isótopos do dom que é sonhar como uma medida real, escudo pra tudo e até contra o tempo, a fluência é um mito urbano, o desapego um medicamento contra nós mesmos, acção pode ser desencanto como a emoção é analgésico, a emulsão do creme de barbear prepara-me a face e o espirito como substancia especial que reage ao exterior e ao submundo, o oculto.
Profetas são os que observam na sonolência dos outros o mistério do sono absoluto, supremo e simbólico, deles próprios assim como a emulsão dum creme de barbear, na pele do rosto…

Joel matos 07/2018
http://joel-matos.blogspot.com
166 Jorge Santos (namastibet)

Conto …




Conto …

Conto de um, dois, três, quatro e cinco e seis, dezasseis …até trinta e seis, esquivo-me a agir, reduzo a acção, supero o deve e o haver, sobra-me o que não disse e continuo a viver da arte das expressões e emoções já não tanto à flor da pele como uma coroa do sol e o papel a arder quando se aproxima e afasta a lupa dele repetidamente concentrando a luz, concentro-me na lua, em que não há, não pode haver fogo, não há ar e o meu trono é de ar e povo, pai e rei do mundo, imagino-me e é tudo, as revoluções e as guerras continuam por todo o lado, não são estéticas, causam horror, não valem o som que fazem aos ouvidos, de boneca de louça quebrando, de bebé chorando; eu potencio o repouso e conto um e dois e três, até trinta e três sabendo que é um jogo, um exercício, o da concentração da luz numa lente e o haver fogo e o que posso fazer é saber e faço de sábio sem o ser, inevitavelmente conduz-me a estupidez por entre mortos e feridos embora não haja reino por que valha ser ferido.
Conto um, dois, três, dezoito, vinte e oito pelos dedos, peço o recibo ao taberneiro, sempre solicitei contas com boas maneiras; um pobre, ridículo acrobata de circo no fim da rua, porta com porta em frente à minha, lembra-me os meus falhanços, a minha incompetência endémica que me faz confiar na habilidade de faz-de-conta tal como o palhaço que ri na rua do-tudo-por-nada. 
Conto e continuo a contar que, sob as más-caras há e sempre haverá humanidade e o hábito, elevado ao expoente máximo que um processo mental básico alinhe o inapto de sonhar com o sonhador devoto, surpreendo-me constantemente com quem passa por mim e se apega à matéria da negação como forma de existir suprema, transfiguro-me numa outra realidade, conto e continuo a contar sem me misturar, daí a habilidade em seguir vários caminhos sem me envolver com a rua e o palhaço que representa os meus falhanços e a estupidez humana das almas todas incluindo a minha, a chama, a luz concentrada de uma lente, o sol; concentro-me na lua e conto, cem, cento e muitos impulsos de todo o meu sangue Germânico, abrandando até sarar … 

Joel matos 06/2018
http://joel-matos.blogspot.com
168 Jorge Santos (namastibet)

“From above to below”





“From above to below”
 
 
(Dali por mim) 

 

Quando a facilidade de escrever se insubordina, escrevo e escrevo e escrevo; transformo-me em caudilho do que digo, converso conversas sem contexto quando a ocasião não me facilita a escrita, como agora de certeza, nada me ocorre que valha a pena ser escrito ou conversado, nem me convenço do que afirmo ter uma ordem certa, alfabética.
O labirinto é o fauno e uma única tarefa imortal só na alma e na do poeta o fio da meada.
A fome e a sede são circunstâncias.
Defino-me como a excepção intuitiva, não entendo os outros nem pretendo ser entendido por todos, não ajo nem ando como a maioria das pessoas.
Não me sinto culpado por não me fazer entender, é uma questão de consciência, não uma tragédia.
A fome e a sede são insignificâncias perante a existência de cada um, mas concorrem e especializaram-se, cada uma à sua forma para o triunfo da mente humana e para que as palavras falem às vezes connosco e as entendamos.
A noção simples de existência é esmagada pela sede e pela fome mais que pela miséria insana, embora sejam uma trindade, uma trilogia, outra palavra em voga e em moda; Já o que me costuma manter vivo é um desejo de comer e beber, absurdo para alguns, para outros, compreensível ou a regra “Sine qua non”.
Defino-me como a excepção não pela inteligência ou habilidade, mas pela simplicidade e pela intuição, como água de uma fonte ou um pedaço de pão na mão de um miserável esfomeado mas autêntico, assim sou eu e sempre, serão a sede e a fome também autênticas quanto o Jonas e a Baleia.
Basta-me ver rosas, beber vinho e uma conversa com a cabeça ou o estulto projecto de a manear assim como um mundo.
O vinho ajuda a reparar injustiças e o esplendor da beleza feminina, uma dádiva da natureza, um requinte, uma arte, um conforto.
Quando a finalidade ao escrever é de desvendar territórios remotos temos que contar com a nossa competência de aventureiros mas também com a capacidade das lanças hostis, a disciplina de falanges nómadas ou do açoite do deserto na lona das caravanas, a bigorna do sol-rei nas têmporas das hostes guerreiras, os pórticos inúteis no coração da Mongólia guardados por fiéis disciplinados e profecias que a história nega aos de hoje.
Quando a facilidade de escrever se insurge da rotina dos meus hábitos, surgem-me pensamentos nos nós dos dedos e nos actos mais tacanhos ou mesquinhos, sendo a distracção um contraponto, a abstracção uma costureira e a teia, forma o que penso, o fio da meada ou reverso da moeda.
A bebedeira é um profundo bem-estar e podemos encontrar a nosso carácter atrás dele, em longas taças, em pequenos goles.
Para mim a vista é o julgar que se vê, o crer que se vê sem ver; o paladar, um ritual degustativo, quando chega ao palato o sabor do chocolate derretido na língua assim como o café junto com o açúcar, inseparáveis quanto o charuto dispendioso e o fumador rico, anafado, o sultão de Constantinopla com o séquito do harém, todas com longas tranças e a fumaça das mil e uma noites.
O excesso de recordações é uma contrariedade infinita, torna-me suspeito de incompetência e incapaz de viver “do novo”, sem encontrar soluções no “atrasado”, “From above to below” sujeito apagado e cerimonial do que assumi como sendo igual ou equiparado a genial, sendo absurdo isto tudo, esta ida “non Stop”nesta ideia de vida.

 

Joel Matos
169 Jorge Santos (namastibet)

Jaz por terra...





Jaz por terra…
 

 

Jaz na Terra o sossego e a negação do belo,
Jaz por Terra a noite e a ferida em cal-viva,
A ventura que é sorrir e também chorar gelo,
Jaz na terra o trono e um dono senhor de tudo,

Jaz por terra um templo que abandonei e que
Descuido, por não ter uso nem deuses, esses novos,
Infecundos e impostos para mal do homem feudal,
Homens deuses, a quem a calma e o ódio Deo-opus

De-graça, como se fora eu sacrossanto ermitão,
Em “Cristos Bay resort”, jazz por terra o meu ego,
De campeão dos detestados feios de braços, 
“Sou tido” como demente por sentir tudo,

Até quando chuva quando cai na Terra quente, 
O meu coração me desmente e me desdiz, 
Jaz na Terra o sossego e a negação do belo,
Jaz por Terra a noite e a ferida em cal-viva,

A ventura que é sorrir e também chorar gelo,
Jaz na terra o trono de um dono, senhor de tudo,
Apesar de tudo isso sou tido como pouco são, 
Por sentir mais que tudo e tod’esta gente,

Quando a chuva cai em meu coração não mente,
“Sou tido” como demente por sentir tudo,
Até granizo quando cai na Terra quente,
No meu coração d’pedra faz frio de geada,

Jaz nele a terra, o céu e o abismo sem fundo,
Jaz na Terra o sossego e a negação do belo,
Jaz por Terra a noite e a ferida em cal-viva,
A ventura que é sorrir e também chorar gelo,

Jaz na terra o trono e um dono senhor de tudo,
Apesar de tudo isso sou tido como louco,
Por sentir mais que tudo e toda a gente,
Quando a chuva cai em meu coração dormente,

Como se fosse real e sentida, credível talvez,
Embora nem sempre…

Jorge Santos 07/2018
http://namastibetpoems.blogspot.com
172 Jorge Santos (namastibet)

“From above to below”



Quando a facilidade de escrever se insubordina, escrevo e escrevo e escrevo; transformo-me em caudilho do que digo, converso conversas sem contexto quando a ocasião não me facilita a escrita, como agora de certeza, nada me ocorre que valha a pena ser escrito ou conversado, nem me convenço do que afirmo ter uma ordem certa, alfabética.
O labirinto é o Fauno e uma única tarefa ou entrada imortal só na alma e na do poeta, o fio da meada.
A fome e a sede são circunstâncias.
Defino-me como a excepção intuitiva, não entendo os outros nem pretendo ser entendido por todos, não ajo nem ando como a maioria das pessoas.
Não me sinto culpado por não me fazer entender, é uma questão de consciência e de princípio não uma tragédia.
A fome e a sede são insignificâncias perante a existência de cada um, mas concorrem e especializaram-se, cada uma à sua forma para o triunfo da mente humana e para que as palavras falem às vezes connosco e as entendamos.
A noção simples de existência é esmagada pela sede e pela fome mais que pela miséria insana, embora sejam uma trindade, uma trilogia, outra palavra em voga e em moda; Já o que me costuma manter vivo é um desejo de comer e beber, absurdo para alguns, para outros, compreensível ou a regra “Sine-Qua-Non”.
Defino-me como a excepção, não pela inteligência ou habilidade, mas pela simplicidade e pela intuição, como água de uma fonte ou um pedaço de pão na mão de um miserável esfomeado mas autêntico guru, assim sou eu e sempre, serão a sede e a fome também autênticas quanto o Jonas e a Baleia. 
Basta-me ver rosas, beber vinho e uma conversa com a cabeça ou o estulto projecto de a manear assim como um mundo.
O vinho ajuda a sanear injustiças e a reparar o esplendor da beleza feminina, uma dádiva da natureza, um requinte, uma arte, um conforto.
Quando a finalidade ao escrever é de desvendar territórios remotos, temos que contar com a nossa competência de aventureiros mas também com a capacidade das lanças hostis, a disciplina de falanges nómadas ou do açoite do deserto na lona das caravanas, a bigorna do sol-rei nas têmporas das hostes guerreiras, os pórticos inúteis no coração da Mongólia guardados por fiéis disciplinados e profecias que a história nega aos de hoje. 
Quando a facilidade de escrever se insurge da rotina dos meus hábitos, surgem-me pensamentos nos nós dos dedos e nos actos mais tacanhos ou mesquinhos, sendo a distracção um contraponto, a abstracção uma costureira e a teia forma o que penso, o fio da meada ou o reverso da moeda.
A bebedeira é um profundo bem-estar e podemos encontrar a nosso carácter atrás dele, em longas taças, em pequenos goles.
Para mim a vista é o julgar que se vê, o crer que se vê sem ver; o paladar, um ritual degustativo, quando chega ao palato o sabor do chocolate derretido na língua assim como o café junto com o açúcar, inseparáveis quanto o charuto dispendioso e o fumador rico, anafado, o sultão de Constantinopla com o séquito do harém, todas com longas tranças e a fumaça das mil e uma noites.
O excesso de recordações é uma contrariedade infinita, torna-me suspeito de incompetência e incapaz de viver “do novo”, sem encontrar soluções no “atrasado”, “From above to below” sujeito apagado e cerimonial do que assumi como sendo igual ou equiparado a genial, sendo absurdo isto tudo, esta ida “non stop”, nesta ideia de vida, “Non invicta Rúmen est”.

Joel Matos (06/2018)
http://namastibetphoto.blogspot.com/
174 Jorge Santos (namastibet)

-O corte do costume, se faz favor –




-O corte do costume, se faz favor –



“ – É o costume?” – Digo eu, perguntando como sempre faço, embora sem esperar pela resposta, como se fosse um ritual castiço – O costume, se faz favor – é a réplica espontânea, mesmo nas tascas das s’quinas ou no restaurante onde se almoça quase todos os dias do ano e na taberna do copo de três, que infelizmente já não existe ou apenas nas historias do “era uma vez”.
“ – É o costume!” Costuma servir de resposta e é lançado como um dado, prontamente e na primeira frase, depois do cliente sentar lento e logo a seguir ao bom dia ou à boa tarde, ditos como numa praxe que nos habituámos no ocidente.
São fundamentais estas palavras que trocamos com qualquer cliente conhecido numa qualquer e normalizada oficina de barbeiro e também a frase mais comum, rotineira até à exaustão e dita no local onde trabalhamos eu e meu pai desde que me lembro, tenho cinquenta e poucos anos, ele oitenta maduros e muitos mais de sagacidade, a memória mais activa e infinita do mundo, enquanto a minha, a imediata me basta pois é dele, em si mesmo como homem bom, que me lembro desde sempre, do meu atencioso pai, atenciosamente atendendo clientes acostumados à sua cadeira de barbeiro, bem ao lado da minha, apesar de não falamos muito somos “unha com carne” desde sempre; houve um tempo em que eramos três, três cadeiras sendo a do meio pouco usada ou foi usada por um curto espaço de tempo, agora apenas duas, sendo menor o número de clientes “do costume”, menor o vulgar protocolo cliente/ barbeiro-de-bairro. 
Faço a viagem diária do costume, tomo o pequeno-almoço do costume, janto o jantar costumeiro com a família com que costumo sem excepção, partilhar as minhas refeições à beira, os meus humores e as minhas ralações costumeiras, não me costumo desacostumar de um casulo que me proteja do exterior e dos outros, pois tenho sempre os mesmos costumes seja qual for o dia a semana o mês ou o ano, sou um ser naturalmente enfático sem ser autista, assim como qualquer outro normal ser humano de costumes ditos fixos. 
Tenho um cliente autista profundo, com o qual troco apenas meia dúzia de palavras ou nem isso, não costumamos falar demais nem demasiado, nem posso, não exagero no que digo nem quando afirmo serem meia-dúzia as palavras com que conversámos faz até esta data mais de vinte anos, vinte anos em que é e tem sido cliente habitual; fui e sou das poucas pessoas em quem ele confia para trocar certas curtas palavras e para lhe prestar ou proporcionar um serviço mensal ou bimensal dependendo da ápoca dos meses e do anos serem menos quentes, mais húmidos ou mais frios.
Também ele se protege num casulo invisível, indivisível e bidimensional, à sua medida e à do mundo exterior, cria rotinas talvez para subverter a ânsia que é sobreviver numa “super-colectividade” de ansiosos eficientes, não dizemos as palavras da rotina, “é o costume” ou o “está um dia de sol”,” como vai a saúde” etc. Entende-nos o tempo que nos conhecemos, igualmente sem palavras, assim como nós os dois, dirimidos intérpretes, dirimidas actuações sem conversas do – O costume, se faz favor – como sempre, perdurará noutra gente, noutros tempos “como-de-costume”, autistas ou não, pais de filhos, filhos com pais, tal e qual como sempre.
Se faz favor, etc e tal …qual e tal gregos na liturgia papal Romana ou da antiga Pérsia, ainda não Otomana e no sal do mar, que habitualmente sabe muito a peixe.


Joel Matos (2018 Junho)
176 Jorge Santos (namastibet)

Convenço, convencei, convençai…




Convenço, convencei, convençai…

A catarse da vida é tudo o que há de mais puro nas ilusões, a perca de ilusões é o cataclismo simbólico, a catástrofe, o fim de tudo que, inconscientemente nos anima, nos dá alma e brilho ao espírito, o cenário, o quarto da Alice brilhando no escuro, no breu.
“A ida”, na viagem, é uma desses enganos magníficos, maravilhosos, em que a nossa inteligência nos cede endomórficas estaminas, tal como numa aventura a dois, de recém- apaixonados ou casados, ainda com a tinta fresca e as latas a arrastar ruidosos, no asfalto, traços descontínuos a perder de vista, um “Buick” branco conversível, nas estradas do Arizona, regressado à estrada, como novo, depois do casal fazer 60 anos de casados, incutida a genial ideia de que isso era a felicidade conjugal suprema, há muito tempo perdida e a depois miraculosamente redescoberta; coisas da publicidade comercial de “Cable- TV” , que tanto pode vender cigarros para um infeliz cowboy, sentados na garupa de um cavalo malhado no meio do deserto de Sonora (apesar de ter morrido de câncer no pulmão, alguns anos depois) assim o medo por tubarão de filme, nas séries da Net-Flix, sem enredos, apenas medo e mais medo das águas cálidas, pacíficas do meio oceânico.
Vendem-nos Pepsodent-herbal, para a cárie nos dentes tal como a cabeleira de Donald-Trump despenteada, quão admirável presença na sala oval, não fosse gato-morto, fedorento ou escalpe/ troféu de cinturão de índio, no Far-West Americano ou ainda quando se vende como autêntica necessidade, uma chaleira de água quente com apito, a um beduíno no deserto, sem corrente eléctrica nem luz na tenda, música anti-stress, a um monge dos Himalaia, em recolhimento por 120 anos, numa gruta a mais de 5.150 metros de altura, apesar deste viver-nas-nuvens.
O fígado e os rins são excepções, não consigo e acho que ninguém consegue, fazê-los mudar de funções, mas penso que funciona no marketing e em quase todas as nossas acções.
As nossas escolhas não são monólitos negros, estruturas decanas, ancestrais, mas sim espuma, plasticina-plástica, matérias mutáveis, alteráveis, estranhas simbióticas e tacanhas as nossas mentes, pois acreditam em tudo quanto lhes impingimos, quer seja banha de cobra ou sabonete de ervas para a celulite e para a tinha-seborreica.
Usada benevolentemente, a nossa capacidade de convencer pode, pela persistência, dignificar a esterilidade ou dar importância a um individuo nulo, de olhar fixo e lentes graduadas, tornar pertinaz o filosofo e metafisico algo ou alguém cuja importância e existência, seja pouco mais que física e que se reconhece ele próprio como ser meramente decente e próprio para uma digestão monogástrica, mono-fágica. Uma tragedia, a decadência humana, se não ousarmos sonhar, sonhemos, acreditemos, convençamos alguém que a lua é feita de vidro verde e o homem objecto de porcelana da China, nada é o que parece mas tudo o que parece pode ser e é, cabe-nos acreditar.
O mecanismo da inteligência dá-nos clarividências que podem ser genéticas, apesar da nitidez maior ou menor com que as possamos usar ou usufruir, pode ser sublimada, alavancada por peças exteriores a ela e estas, se usadas da forma mais generosa, podem fazer conquistar muitos e nobres propósitos ao ser humano em geral e à humanidade, como se fossemos um cardume de anchovas livres e felizes, num mar sem redes ou tramas menores, convençai…conversai …

Joel matos 07/2018
http://joel-matos.blogspot.com
185 Jorge Santos (namastibet)

“Semper aeternum”



“Semper aeternum”

É tão difícil encontrar alguém que acredite quando se diz que se ama visceralmente ou que se entende cada cor e cada pincelada na pintura exótica e extravagante de Paula Rego, o mesmo da água tónica sem limão nem gelo, quanto da voz rouca dum Tom Waits tão ofegante quanto bêbado, diz ele que atrai mosquitos pois estes são atraídos pelo azul dos seus “blues”e não p’los olhos “marron”, assim como os camelos pela água, ele por old whisky mesmo estando podre e estagnada a água dos dromedários do chá verde e amarelo, assim como as areias do deserto se movem as mulas do “far-west” americano são fascinadas pela voz improvavelmente bela do cantor de blues.
Quem gosta de ser interrompido pelos filhos entrando no quarto quando faz sexo, surpreendido pela voz do parceiro ou da parceira na cozinha, “não faças assim o cozido, faz deste ou d’outro modo”, é tão difícil que alguém acredite que se gosta do sabor amargo da cerveja assim como do “brain freezing” quando se bebe uma soda “super-gelada” habitual nos “franchisings” do costume ou da gasosa com soda ou o blody mary a meio de um meeting de veggies ou sobre alterações climatéricas num dia de verão extremamente frio ou à luz da vela, numa tropical noite de“banana moon” a beber champanhe na cachaça, ambas juntas a flutuar com raspas de lima verde e sabor a hortelã-pimenta.
Há quem acredite que os Americanos foram à lua ou que os futebolistas lutam pelas cores das bandeiras nacionais nos mundiais de futebol, na copa do mundo como dizem os brasileiros; que a Terra é plana é um exemplo da pouca fé humana na ciência ou que a lua é verde quando não estamos a olhar ou quando a vemos sem “a ver”.
Eu falo para as árvores, que estas ouçam não sei, (I Talk To The Trees) acredito que sim, é uma atitude que me percorre desde a raiz do cabelo até ao acabar dos dedos um a um e todos, o mindinho.
É tão difícil encontrar alguém perfeito? Não creio; tal como não acreditava vir a gostar de Tom Waits, receio, sinto e sei de uma estranha mágoa dentro de mim, parecida a uma pequena “ervilha de cheiro” ou será apenas melancolia de passageiro que se diz apaixonado pelo caminho sem o ter feito, como se fosse uma doença incurável ou um contratempo encontrar-me eu comigo e a sós, “semper aeternum”, comum e imperfeito,“Finale”. Não creio num armistício, cansei-de lutar viúvo contra baleias brancas e ao vivo.

Joel matos 06/2018
http://joel-matos.blogspot.com
187 Jorge Santos (namastibet)

Despido de tudo quanto sou...





Andei distraído procurando o que não via
Nem vejo, visto que sou pequeno, 
Viro o rosto pra de onde venho 
E não pra onde fui posto, 
Vejo nas estrelas o rosto, 
Não da morte mas do oposto, da vida
Pra'lém do percurso que fui, fiz nesta Terra

Outrora bela, soberba ...
Outrora viva,
Andei por aí buscando o repouso,
Não via nem vejo, a fonte do limo, 
O álamo esguio,
O negrume do teixo, da terra preta o apelo,
Das folhas mortas,

Abdiquei de ser rei,
Pra ser jardineiro "por conta própria",
Sem reino nem terreno pra arar,
Podei as rosas dos quintais dos outros
E observei pardais nos ninhos,
Nas sombras os olivais dir-se-iam deuses mortais,
Não contei quantos, mas muitos, muitos.

Há muito que desejo desertar,
Mas as pernas na beira da estrada, 
Estão sempre fora de mim e o meu coração ... lento,
Lento não dá pra fugir por aí de rastos
Admito não ter dormido todo o tempo do mundo,
Mas mesmo assim penso como se fosse madrugada
E domingo, cada vez que me levanto

Sem vida e me mudo pro outro lado da cama,
Na mesma fronha que uso desde que vim ao mundo,
Sinto um ritual de vencedor num corpo derrotado,
O que muda são apenas os sonhos que persegui
Sem sucesso ao longo do tempo
E ainda sonho sonhos que não sigo,
Acatei a derrota,

Sinto um ritual de vencedor nas asas
E nas pernas o símbolo das coisas
Que me pegam ao chão terreno,
"Rocket-man", visto que
O meu território é de ar,
Balouço-me na fronteira do tudo e do nada,
Qualquer um desses reinos me conforma,

A memória passa sem se ver, sem se dar
Sonhar é não estar presente em nenhum Destes países
Pra sempre,
Duvidar é dar liberdade ao voo ...
O plano é adormecer descrente,
Desnudo de tudo o que sei,
Despido de tudo quanto sou.














Jorge Santos 11/2018
http://namastibetpoems.blogspot.com
194 Jorge Santos (namastibet)

Caminho, por não ter fé ...



Segundo o Endovélico, é privilégio da fé individual de cada ser, tomar um lugar sagrado como lugar religioso ou tornar um legado, religião instituída, depende da empatia pessoal e fiduciária do Xamã, mais que da energia dispensada por uma simples vela barométrica ou do binómio gozo/usufruto e não tanto do clima e da energia despendida e experimentada nesse nevrálgico e frágil ponto que pode ser ubíquo, omnipresente em qualquer parte ou domínio consciente, lugar onde nos predispomos a aceder o divino e onde não há razão para duvidar e para deixar de sentir omnipotente, o universo como peculiar ou particular em nós e exclusivamente.
Uma corrente humana não passa disso mesmo, de um mega-elo verbal e metafísico e a exposição ou predisposição pretensamente panteísta desse elo, podendo ser ortodoxo ou heterodoxo (embora tente convencer-me do contrário) pode ser balizado por argumentos não actuantes, distintos da função onde assentam os meus princípios e a missão humana que serve de orientação das minhas emoções funcionais vitais mais primárias e dominantes.
Essa subjacente emoção, traz consigo o que se pode considerar um selo empático, se o individuo puder explicar-se pelo pensamento e não por acções que redundam a realidade de um mal social maior, que define determinado paradigma, como amoral entre entes imorais, em que uma palavra define outra e outra, assim por diante, como um ser se define definitivamente e infinitamente como inferior ou superior, pela educação ou a irreparável falta dela, se aplicada irracionalmente, com todas as consequências. 
Justifico-me plenamente pela religião, pelo que ela comporta mais que pela verdade evidente, reduzo-me até ao mínimo absurdo, mas primo pelo direito de conservação da minha racionalidade espiritual e conceitual, excluindo os outros, a partir de um certo ponto, apago-os da minha existência, da minha condição de residente nos elevados subúrbios, embora viva a simplicidade das flores no quintal que cultivo. 
O que me distingue e á minha tese panteísta, é a função de esgaravatar buscando por almas humanas também elas na busca de outros desses eles, nos locais mais recônditos e isso implica abdicar de determinados conceitos estéticos, que vejo sendo abduzidos e reduzidos, a uma trama sem carácter, à qual não tenho outro remédio, senão disciplinarmente me afastar e conscientemente denunciar a coarctação de pensar -liberdade e o direito inalienável - de me conspurcar de todos os desmandos possíveis e imagináveis á luz da verdade, liberdade, excepção e bom gosto.
Sou contra quem me erguer defronte um muro, em nome da liberdade, senão contra mim que seja, e não procurar um eclectismo intelectual, talvez ilusório e teatral, revoltar-me contra mim até, se for o caso e sair deste marasmo em que me sinto tolhido e sem argumentos aumentativos, confinadamente assentes e com sentido, é este o primeiro passo para o meu progresso mental poético e argumentativo.
Sempre criei poesia de base zero, anuindo natureza a dois números primos, com a hipótese de, dentro do meu espírito, o colorido tinte uma polícroma dimensão, não digo geométrica, mas volumétrica que pode ser tocada por quem do-lado-de-fora também tenha uma designação não convencional, para as duas linhas separando os olhos, servirem de interlocutor lúcido ao queixo em baixo.
Sobra-me finalmente uma tristeza que é não ter eco de vozes incógnitas, ou quórum de querubins sem sexo, fazendo piruetas, mas porque havia de ter, sendo de única via a estrada que trilho e o tino igual à distãncia que me separa deles, externos a mim, salada em geral insone, insonsa e genericamente incomoda, que não gosto de ver nem sentir, tudo depende da minha marcada objectividade, mascarada de manufacturadas realidades, por não precisar de melhor e, deixar de escrever, não é deixar de escrever, já que o meu phatus, ou sentimento de imensa paixão não é feito de papel pardo ou faca, nem é jornal de forrar parede de caixote de lixo.
De facto não me merece respeito quem não me respeita, nem os meus sinais e até rejeita esta grainha rejeitada e a relatada redacção, é a básica matéria-prima que possuo, nesta cara fria por fora e por dentro limão, e é-me tão ou mais cara que o preço de um café, sorvido apressadamente ao balcão.
Falta-me qualquer argumento que qual, ainda não sei qual, mas dou-me por satisfeito e retiro-me com estas divagações redigidas à pressa, para que a vossa desatenção ou a atenção parcial não desbote, já que sobriedade não tenho, nem peço aos periféricos deuses por tal, pois perfeito é desumano e eu não desconsidero a aproximação ao sublime.
Adoramos o que não podemos ter, e eu ouço a respiração da natureza como um Endovélico Dom, ou um efeito alterado da percepção imaginaria, não como uma vantagem de quem mora um andar mais alto e elevado, mais que a maioria dos inquilinos desta cidade mal parida, mas que deixou de ser refúgio sacro para mim.
Os pensamentos surgem-me nas mesquitas, às esquinas, nos cotovelos presentes em mesas, cadeiras e chávenas de café quente e quando menos reparam em mim, em nós outros, passageiros das passadeiras brancas e pretas, olhando no fixo do olhar vazio dos nossos semelhantes, de quem nem vê quem lá anda, quem lá passa de manso.
Sinto uma inveja profunda da realidade e de imensas coisas que tornam monótona a contemplação do mundo exterior a mim, como uma paixão visual, manifesto-me pela escrita argumentativa e na poesia não decorativa, o que diminui ainda mais o efeito ilusório da realidade, sensação congénita em mim.
As coisas que procuro, não estão em relação a mim, quanto eu em ligação a elas; encolho os ombros e caminho devagar, por não ter cura para este mal-entendido com a realidade e retiro-me com o pressentimento de não voltar eu próprio, por via de me ter tornado outro mais puro e poroso, por fim magnânimo, ao ponto de nada ser igual ao que era, quando volto a cabeça e olho para trás, sobre o ombro... 



Jorge Santos, aliás Joel Matos
8 Abril 2019
200 Jorge Santos (namastibet)

Pax pristina



Deus é de lata e nata e o homem doença incurável, ser que mata por matar e se mata, eu acredito no silencio do mato e no amor quando posso, pois que, na posse não há amor, nem silencio, impor é pro amor como o azeite para a água ou o vinho na comunhão das almas puras, falso e vicioso o som que faz no altar ao levantar o cálice um frade sacristão, se o vaso é apenas vaso e a água apenas água e fraude.
Cresce mais alto em mim o que digo, do que o que penso, o coração faz peso para um lado, maldigo-me embora procure o equilíbrio, desabafo e desabo na sátira de mim próprio, será na poesia o caminho errado e as minhas palavras abrasem sem queimar, sem nada impor, o que não foi por mim dito em voz alta não terá contradição, nem eu sou de jesuíta servo, nem ajuízo as minhas sensações, embora veja nítido, oculto por vezes o som do que penso, não passo de uma especulação ao vivo, sem fundo, brilho ou realidade e a propósito de nada, faço da minha vida o que a ciência ainda não provou possível, deduzo nos tolos sorrisos as silabas que cobrirão mil dos meus "hocus-pocus" livros, é tão difícil explicar a um demónio a dor da chama viva e o que pensa e sente um santo em forma de diva e mula dos infernos ou um "Semper fidelis" crente perante a morte eminente na pira do Santo Ofício e a orgia de sentimentos que o poeta sente quando escreve e sabe que se está condenando em vida ao purgatório, pelo que diz sem que importe, ele escreve com a expressão no rosto do demónio que tem dentro e que doi numa dor de noite permanente, do desterro de ser gente, tão difícil de explicar por números, muito embora as opiniões nunca fizessem florir uma amendoeira mas na minha cabeça, o centro fica em flor como que por encanto quando penso. Da dor, opinião não tenho, nem tento dar opinião,nem tento, acredito no silencio e no amor quando posso, pois que na posse não há amor nem silencio, impor é pro amor como o azeite para a água ou o vinho na comunhão das almas impuras, falso e vicioso o som que faz um padre se o vaso é apenas vaso e a água apenas água. Sorrio por outros motivos além de não gostar de estar sério, não ter inimigos nem senhorios nem presídios, mesmo que esotéricos e imaginados por espíritas malignos dos infernos, a alegoria não é um sentimento, sonhar não é uma anátema nem uma oferenda, é sonhador quem sonha por si, não por ver sonhar outro, com a alegria passa-se o mesmo, é como no luto, no opróbrio, no desalento e em mim próprio embora cresça quando dito ao sonho, o ingrediente fatal que deveria conter o que não foi dito mas pensado, a eternidade é falsa, Deus é de lata, implorar um vício, fraude quem idolatra os mortos ...

JS/JM
201 Jorge Santos (namastibet)