ADALBERTO DE QUEIROZ

ADALBERTO DE QUEIROZ

n. 1955 BR BR

Poeta e empreendedor.

n. 1955-02-05, 0502

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Nosso amor

Nada importa menos ao nosso amor
que a ingênua rima em flor - rosa nomeada.
Pouco importa, ainda que um soneto -
pouco importa a forma exata, a rima
ao nosso amor pouco importa.

Nada importa, amor, se lhe dou forma
no leito, em lugar e fora de hora
se cedo ou tarde, não importa,
se madrugada clara ou à nona hora.

Nada importa menos ao nosso amor
o tempo que sem cessar conforma
o outro ao desalento, ao desamor -
ao nosso amor pouco importa.

Ao nosso amor nada importa

menos. Pois, sem cessar, ele se conforma
ao leito como o rio ao que a chuva forma.

Ao nosso amor pouco importa o som
dos outros, a balbúrdia, bailado ou alaúde
pois a todos ele contorna: ao amor, à paz
volta-se; ao aconchego sem alarido; e amiúde
nosso amor pouco se importa
com o que se passa lá fora...

Nada em nosso amor seja triste
pois que à lágrima opor-se-á o vento -
no silêncio de nossas madrugadas estelares.

Só nós dois, amor, resistimos sob a chuva
ao frio e ao calor - entrelaçados, sim;
não importa - nada - amor, nem goteiras

de um telhado antigo e sob a chuva;
um pistilo se anunciando calmo,
um que duas estalactites soam:
plânctons, íons, átomos de um só.

Pouco importa ao nosso amor a morte.

./.

(c)Adalberto de Queiroz, 2017

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Poemas

1

No túmulo de Herberto Helder

"A brancura dos ossos e o esquecimento"
T.S.Eliot, "Quarta-Feira de Cinzas"

A brancura dos ossos e o esquecimento
abrem a porta indesejada e nadamos:
ao incontornável rio Letes chegados;
rosa como alta cabeça, peixe rabanando.

Quem deveria esquecer o pecado é o que foge.
Na oposta margem, alvos como a neve, movem-se,
lavados que foram no rio largo - longa margem.
Ah! Que a memória à lama imprecisa se apega.

De um corpo - em letra de música - fácil seria
lembrar-me; mas um soneto se anuncia e o haicai
segue-se à memória diluída do que foi um dia.

Vem o povo todo ouvi-lo; os brancos ossos rever:
até que ponto o punho e as finas unhas se lascam;
no túmulo do poeta, outro chora desconsolado.

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