Hei-se
Chegas-me Outono
a saber a Setembro,
a despedir-me
dos estios grávidos de luz,
que me bronzeiam a pele desnuda.
Chegas-me Outono
em coisas perdidas,
na incerteza dos dias,
incerta a vida,
incerto o Inverno...
Sorvo-te Outono,
sôfrega,
enquanto o meu corpo é dia,
noite o meu sonho,
enquanto no meu regaço
couberem as folhas
que se me desprendem do manto.
Hei-de deleitar-me
com as aves últimas,
sobreviventes à queda da folha,
molhadas pelas primeiras chuvas
e resistindo aos crepúsculos.
Hei-de aconchegar-me ao Inverno,
sentindo as cores do Outono...
Dói-me
Tenho a mão vazia
Aberta
Como pedinte
Sem esmola.
Prostrada
Inerte
Dos gestos
De despedida
Doem-me os dedos
De tão cansados
Dói-me a alma
De tão aberta
Dói-me a mão
De tão vazia...
O barco é meu leito
O tempo é corcel
troteando a vida
em sinuosos caminhos.
Há um rombo do tempo
no barco a sangrar
e há a gaivota perdida
sem mastro a chorar.
Chora alvoradas
em que os cios das águas
despertavam marés
e sente-lhe as mágoas
a rebentar o convés.
O barco é corcel
o barco é meu leito.
E o tempo tão célere
foge-me dos horizontes
em inúteis esperas
de melhores marés
no corcel do meu peito.
O barco a afundar...
E a gaivota esvoaça
no cimo do mastro
doutro barco a passar.
Não sei
Não sei
se o que avanço é com os passos
que as minhas pernas autorizam
ou se, pelo contrário,
elas entraram em colapso
e caminho
com a inércia dos passos caminhados.
Esmago
a fúria contra os rochedos
dum oceano revolto,
aperto o peito,
sustenho o respirar
para que nos olhos
não cresça a raiva,
em vez de lágrimas.
Suspeito
que o mundo onde me largaste
não é o meu mundo,
o campo onde me movimento
não é o meu espaço.
Ó céus,
para quê tantas estrelas cadentes,
tantos meteoritos a incendiar a terra
e a cavar fossos
cada vez mais profundos
entre as gentes?!
Ó terra,
vendida por mercadores,
hipotecada ao futuro,
sem garantias,
com promessas de Éden,
não deixes!!
Não sei se quero avançar
neste estádio acabado,
ou antes regredir,
voltar a larva
e assim ficar.
Não sei
se caminho
para este futuro incerto
ou se paro,
semente perdida
num deserto!...
Na paleta
Às vezes
Há uma paleta a que faltam pigmentos
Cores que talvez não identifique
Não procure, ou
Procurando não encontre
Mas avanço
Há vazios
Que permanecem incolores
Onde a tinta não agarra
As palavras não dançam
A música não vibra
Tudo pára
Nada alcanço
Depois
Completo a paleta
A tela enche-se
As fontes brotam palavras
Os sons produzem melodia
E eu
Danço, danço
Há palavras
Ha palavras que são gelo
outras sol em glaciar
Há palavras que fazem rir
Outras que fazem chorar.
Há palavras que ficam
presas na sílaba mais profunda
e há palavras que saem
livres
sempre a saltar.
Há palavras
que são lanças
duma guerra que não querem
Há palavras que são gritos
cansadas de seu penar.
Ah,
mas há palavras que são olhos,
mãos, pele,
deleite
e doce mel
duma nascente a brotar...