Adriano Lisboa

Adriano Lisboa

n. 1964 PT PT

Escrevo para me ler, leio-me para escrever

n. 1964-10-30, Lisboa

Perfil
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Quero-te minha outra vez


Olho-te do outro lado, camuflado numa coluna. Sempre à mesma hora, em plataformas trocadas. Faz tempo que viajamos em sentidos contrários, como se os relógios rodassem inversos recomendando a mesma hora.

Que aperto no peito sinto quando te vejo de manhã e que raiva quando te revejo à tarde, uma visão tão improvável, mas sempre tão certa. Para onde vais? Como pode ele amar-te mais e melhor do que eu? Como pode ele tocar-te quando jurámos ser só dois? 

Ouves música, será que ainda ouves a nossa música ou também isso mudou? Conheço esse teu gesto, o cabelo curto roça os ombros e os brincos, sempre diferentes, surgem quando com o dedo seguras o cabelo atrás da orelha. Tão sensual, disse-to tanto, já não ouvias. Ficou-te porquê? Conheço todos os teus gestos.

Hoje vestes o casaco vermelho com dois botões. Sinto nos dedos o toque aveludado e o perfume misturado contigo, com o teu cheiro, que me transtornava quando abria os armários. Os lenços... Observo melhor, tanta coisa nova em ti e esse brilho nos olhos que tinhas perdido no nosso caminho. Já se esfumam na memória as curvas do teu corpo que tanto desejei e que agora são doutro. Canalha.

Um dia chamarei a tua atenção e o teu desdém sacrificará os restos do meu amor por ti. Mas não hoje, não ainda. Vou subindo as escadas cabisbaixo por dentro e rude por fora e enfrento mais uma manhã e à tarde vejo-te cansada e maldigo este final que me deixou do lado errado do cais. O teu mundo já não é o meu, mas como todas as pessoas que nos rodeiam aí e aqui, eles cruzam-se e confundem-se.

E porque quando a meu lado libertavas o teu corpo e te vestias suave para dormir, quando te chegavas ao meu ombro e sentia o teu tremor, o meu pensamento em ti era o melhor momento do meu dia?

Aguardando a vida, afago recordações em gargalos de cheiro a uvas ferrais e valdosas...
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Poemas

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A água ecoa no casco



A água ecoa no casco e o murmulhar distrai-me. O Tejo é de prata, e neste dia quente de junho precoce, o pequeno barco levanta nuvens de gotas que fervilham no ar. A brisa acorda-me os sentidos, amainados pelo brilho intenso da água.
Ao longe, a torre meio tombada do piloto do porto, sombria, fiscaliza-me o avanço, pronta para dar o alarme. Dali não se passa, já fui avisado, ali acaba o Tejo e Lisboa e começa o oceano. Mas é mentira, a cidade continua, dá a volta ao mar e conquista-o.
O vento sopra mais forte, rodo no banco, puxo o leme, dou folga à vela. Sem ciência viro-me para a cidade, a ondulação balança-me, eleva-me e Lisboa enfeitiça-me. Ali mesmo à mão, o padrão dos grandes de Portugal olha-me sobranceiro, carregado de heróis e navegantes descobridores, que com desdém veem passar um marujo sem título, de barba mole. Comanda-os o Infante, feito história, perpetuado na pedra branca.
O vento revolta, e ágil, puxo e dou folga. Ali estou de novo virado para ela. Ao fundo o belo mosteiro do rei venturoso, cor de cal, Jerónimos de nome, manuelino de talha, com os algas estranhas e os peixes exóticos que trepam as colunas, esgueirando-se aos cordames de pedra, e que imagino a olhar do fundo do rio para o ponto branco que cá em cima, cruza as águas ao meu comando.
Esquadrias verdes aliviam o olhar, são os jardins por onde passeiam massas de turistas, pintalgadas de lisboetas, que deambulam extasiadas pela cidade bonita, que posa para a fotografia, espreguiçando-se.
Sigo à bolina, para cá e para lá, e sinto que me chama, como as sereias outrora fizeram a Ulisses, o doce aroma pingado de açúcar e canela dos pastéis de Belém. Outra onda passa e do cimo, curioso, entrevejo a porta azul do covil, esforçando-me por imaginar os belos azulejos, ocultos pela fila contínua dos cativados, que aguardam esperançados a oportunidade do deleite.
O sol poente encandeia-me e a sua luz branca faz-me recordar as esquinas alvas da minha cidade, a corda e o leme a girar-me na mão.
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