Biografia
Poemas
3MINHA TERRA DESOLADA (trecho)
"O que nasce dessa terra?
Nada nasce,
Nada cresce
Nessa desolada terra.
EU quero acordar a vizinhança
Para ouvir meus berros pela madrugada
Mas, eles não escutam nada,
Não escutam nada que acontece na madrugada.
Eu jogo nas ruas minha música,
Toda minha poesia e frases feitas
Mas eles não entendem nada,
Ninguém entende o que acontece na madrugada.
Eu ando pelas ruas vendo vitrines,
Crianças sujas em seus trapos podres
E choro junto pelos que têm fome,
Não sei por quem choro nem bem quem amo.
Eu abraço os pobres de espírito
E escuto todas suas pobres histórias,
Esses pobres e patéticos de alma pobre
É meu encontro certo nessa madrugada.
Eu passo por ruas e vielas úmidas e escuras
E escuto um choro de criança,
Um repetitivo e desgraçado choro de criança
Que é o pior de todos os refrãos.
Eu vejo as pessoas e seus passos apressados
Em todos os cantos, todos os lugares,
E temo que sigam meus rastros
E apresso meus passos por essa cidade.
Eu ouço as sirenes berrando nas avenidas
Se misturando ao som das discotecas lotadas
E o barulho do metal retorcido
Criando um novo contraste, outro tipo de grito.
Eu canto com você quase todas as noites
E, algumas vezes, me pergunto: cadê você
Que partiu tão cedo e me deixou aqui...
E agora acordo sozinho!
Deus, eu tento e não consigo entender
Razão que justifique esse viver.
Sou peão em jogo que não se vê
Toda a madrugada até o amanhecer.
Algo comove todo o meu ser,
Algo que não compreendo e nem tento entender,
Algo que surge todos os dias quando acordo
E me persegue até o anoitecer.
Algo acontece,
Algo comove,
Algo incompreensível,
Um novo amigo?
Dizem que estar é quase que viver
E viver é o limite do que se pode querer.
De fato, algo acontece que se queira aqui estar,
Porém, nem de todo esse desejo almejo.
Nada mais é suficiente
Quando não se sente mais o aroma das flores,
Quando as cores já não mais emocionam
E não podem ser vendidas ao olhar.
Destes-me tão raros momentos
Que alimentam o futuro ainda que no Presente,
Mas, a vigília que fazes em todos os meus passos
Tira-me o sabor das coisas mesmo em pensamento.
Na minha nobre e pobre terra eu vago
E me alimento das lembranças dos mentirosos,
Embebedo-me com alegria e gozo
E caminho insistente na terra dos leprosos.
Na minha humilde terra vago,
Hora sou soberbo, hora ignorante.
A fome que me cerca é desmedida,
A carne é fraca e a alma idem.
Peco tanto quanto o pior dos pecadores,
Desperdiço um tempo que não mais tenho,
Não diferencio o certo do errado,
Compartilho a ceia com meus detratores.
Não sinto mais o gosto do vinho,
Não reconheço um sorriso,
Não me recordo dos abraços,
Finalmente estou só!
Peso minha consciência na balança de um açougue
E o açougueiro me fita com olhos de rapina,
Não há acordo algum sobre o preço dessa carne,
Nem se é de primeiro ou de segunda.
Deus, tu que és dono das idades,
Conceda-me das horas o seu minuto final
E faça com que o mundo inteiro saiba
Que o miserável partiu, afinal.
Conceda logo esse desejo
E termine de vez com essa obra,
Livre das cidades esse infeliz
Que insiste em saber o que ninguém sabe.
Quando há febre, não faz mais diferença,
Há tempos o sangue é veneno.
O vermelho é a cor da cólera e do pecado:
O poeta sabe quando está condenado.
Se há mesmo poesia nessas avenidas
Tão iguais em diferentes cidades,
Que seja reconhecida
Em prol dos que perseguem a vida.
Enterro na memória mais profunda
As gigantescas torres de concreto,
As grotescas estruturas de vidro
Que imitam uma nova artéria.
Uma nova artéria,
Um novo estilo de vida,
Uma nova companhia
E uma precoce parada cardíaca.
Como os carros que se beijam nas avenidas
Encontro a companheira perfeita
Que me fala ao pé do ouvido:
"_Me aceite como a definitiva!"
Finalmente, o medo percorre minhas veias
E alimenta um sentimento esquecido,
Uma vontade absurda de ver o próximo dia
E tentar outra saída.
Todas as ruas estão congestionadas.
Uma favela inteira acaba de ser incendiada
Enquanto alguns moradores tentam salvar
O que resta de uma vida inteiramente falida.
Há uma reviravolta
Em torno desse humilde coração,
Um carnaval,
Quase que uma provocação.
Todas as veias são velhas e fracas,
Há melancolia em tudo.
Mesmo sem haver poesia,
E vice-versa, há vida em tudo.
Essa cidade é apenas tijolo,
Metal, suor, concreto e vidro,
Cimento preso a sentimento
Muitas vezes belo e muitas vezes feio.
Essa cidade é areia,
Concreto e sentimento,
Tristezas e alegrias,
Poesias jogadas ao vento.
Tem gente que aprende cedo, outras não -
Vivem a vida dia sim e dia não.
Alguns dançam conforme a canção,
Outros se perdem antes do refrão.
Alguns sempre têm razão, outros não -
Muitos se perdem em ilusão.
Enquanto alguns correm, outros dormem
E todos buscam alguma direção.
Alguns sonham o fundo do poço,
Outros sonham com o fundo do rio.
Alguns buscam independência,
Outros são a exceção.
Tem gente que ganha,
Tem gente que se perde,
Tem gente que se torna o problema
E outros pensam ser solução.
Divago sobre o tempo
E sobre os "tipos" que encontro nessa vida.
Perco uns segundos nesse tempo perdido
E, mesmo com tão pouco sentido, quão raro é o momento!
Se você não faz ideia, tampouco eu sei.
Talvez a fome que me consome consuma a você também.
Talvez o vício que afeta os iguais
Seja algo que surja somente entre anormais.
Eu me vicio com os seus tapas
E em cada gole de sua taça,
Cada carinho exagerado oferecido
Em troca de alguns trocados.
Eu me sujo com as tuas mentiras
E assimilo a água das suas sarjetas,
Aprendo atalhos novos em cada caminho
E apago os rastros dos meus próprios passos.
Eu te persigo em cada Igreja e cada casa
E me abasteço da tua ironia,
Visito cada idoso
E faço amizade com os internos do hospício.
Até onde chega a tua maldade
E a quantos abraça a tristeza alheia?
Pode a maldade ser tão inspirada
A ponto de a própria surpresa ser esperada?
Vida que deixa sangrar do lado esquerdo do peito
Os filhos do mundo que o mundo não quer,
Espalhe a novidade que a tristeza tem cabelos
E olhos castanhos mais castanhos que os meus.
Percebo requintes de crueldade
Nesse masoquismo urbano
Onde a pobreza não tem mais idade
E a mentira tornou-se apenas uma vaidade.
Eu me transformo
Em tudo que mais abomino,
Eu surjo no espelho
Como meu próprio assassino.
Eu sufoco e amarro no escuro do meu quarto
Almas pequenas ameaçadas de extinção
E atiro no lixo os sonhos de quem
Acreditou piamente um dia fazer parte da realidade.
Eu ainda sinto na pele marcada por fogo
A marca que machuca, a marca da verdade
E peço que um dia cessem as buscas
E que tudo se torne uma futilidade.
O combustível da felicidade
Corrói e esvai-se aos poucos
E aos poucos me contento
Com o equilíbrio que me sustenta.
Quando olho para meu próprio rosto, dói.
Eu exalo do corpo o resto do medo
E tento não ver como é estranha a linha da verdade.
Procuro o caminho que leva à liberdade.
Disfarço os meus desejos
E reprimo meus absurdos,
Abraço cada pesadelo
E mascaro meu lado mais obscuro.
Eu tento ver algo além do abismo,
Encontrar algo a mais além dos muros,
Transcrever todos os anseios
Escondidos por detrás de cada sonho.
Eu sou eterno,
Sinistro,
Terreno e fraterno
Enquanto dure o mundo.
Há nesse peito um coração dividido
Criado praticamente entre dois mundos,
O mundo que há dentro do abismo
E o que se vislumbra por detrás dos muros.
O meu canto está perplexo
Como também a voz pequena e incerta
Do pequeno que se esconde do outro lado,
Meu outro lado desse mesmo muro.
O que contam em outros cantos
Também contam nesses lados
Mas, o que vale nesses cantos
Também rima em outros vales.
Luzes fortes incomodam muita gente.
A escuridão alimenta o inconseqüente.
Muros altos com grades de bronze reluzentes
São contrastes em pintura de uma tela sem cor.
Flores urbanas são tão surpreendentes
E essa depressão é tão estimulante.
Os sorrisos são amargos e carentes
E a dor casada com juras de amor.
Esses edifícios são tão interessantes,
Onde as ruas molhadas na noite reluzem como diamantes,
Onde transitam os justos e honestos
Que mastigam vaidade e rancor.
Os carros passam e iluminam tanta gente,
Brancos, negros e crianças sem cor.
Poetas são tão metidos a irreverentes
Que assimilam a dor e tudo o que for.
Vejo vidas que traçam um mesmo plano,
Gerações de alegria por engano,
Marcas de época que são puro desespero
Traçando juntos um futuro incolor.
Vejo rostos repletos de esperança
Queimar em público por causa de sua cor,
Os que vivem sem nem mesmo perceber,
Uma pintura fria que escorre sem por que.
Corpos que dançam de altos parapeitos
Quase sempre se vão tão cedo
Desafiando teorias e conceitos
E ignorando todo tipo de amor.
Meus passos são tão lentos
E os movimentos tão intensos,
Os rostos são sempre os mesmos
E espero novamente o sol se pôr.
A justiça que se encarregue de dar clemência
Aos supostos inocentes
Que transitam nas ruas
Espalhando esperança e amor.
Eu quero ter a chance de ver o nascimento de Vênus
E a anunciação em plena primavera,
Quero ser como Santo Agostinho
E ler as sagradas escrituras à luz de velas.
Quero ser como Van Gogh e pintar girassóis
Mesmo que em dezembro a tinta seja vermelha.
Quero ter de novo jardim florido no quintal
E que o beijo que sai de meus lábios não seja nunca mais acidental.
Basta querer algo apaixonadamente
Mesmo estando tão cego e só?
Que o adeus seja digno
E que tudo retorne, finalmente, ao pó.
Surge a idéia de repente
De festejar como um analfabeto,
Aprontar uma mesa e convidar
Apenas os que passam fome.
Todo esse tumulto,
Todo esse protesto,
Todos os roubos
Dessa legião dentro de mim...
Melancolia sempre teve seu espaço,
Amor, tristeza e regressos amargos,
Sentir-se só e ser como sombra na multidão
E abraçar a própria escuridão.
Achar que é romântico sofrer
Por dor que reconhece, dor que sempre se vê
É mais que uma doença, é um caso de amor
Por tudo que machuca e o que causa dor.
Eu deixo que pensem que fui derrotado
Com os ataques inesperados
Dos que bradam gritos de vitória
E esqueceram-se de ser enterrados.
Eu deixo que joguem em minhas costas
A culpa de todos os culpados,
Deixo que queimem toda minha história,
Não importa tanto assim.
Meus lábios correm em busca de palavras
E meus olhos correm em busca de beleza,
Desenho sentimentos mentirosos
Que calam todos os sinos ao redor.
Palavras saem como lâminas
Na voz rouca que sai de minha boca
Desse outro eu que me aborrece tanto
E desafia tudo à primeira vista.
Nas manhãs de primavera as folhas dançam
Ensaiando seus balés desde o nascer do dia,
Será isso vida?
_Será isso o que chamam vida?
Eu quero encontrar a palavra perdida
Entre os afazeres do dia a dia
Que seja tão profana
Quanto proibida.
Quero ir de encontro a uma nova estação
Que me traga uma sensação de alívio,
Procurar o que chamam felicidade
E talvez aprender o que seja isso.
Uma epidemia,
Uma leucemia,
Rimas que ilustram
Um eterno melodrama.
Não se pode ter tudo!
Nem sempre belos são os nossos dias
E continuamos acordando.
As rosas não falam, mas, também estão vivas.
Há fome de amor!
Há fome e o que será?
Há fome nesse lar?
Se há fome, então, há.
Há tempo para tudo!
Há tempo pra sorrir,
Há tempo pra chorar,
Há tempo pra partir.
Eu quero fugir de casa sem deixar aviso,
Correr entre os campos de trigo
E deixar todos aflitos
Tentando entender o que teria acontecido.
Eu quero causar confusão,
O mesmo tipo que trago em meu coração.
Quero molhar todos em volta
Com a tempestade dentro de mim.
Eu quero acordar os que dormem
E os que nunca acordaram,
Quero descobrir quem são eles
E espalhar quem somos.
Amantes dessa dor,
Sedentos sem saber
Onde mais se ter prazer,
Onde mais chamar de "lar".
Eu desvio o meu olhar
Com todo o ódio desse mundo
De todos os maltrapilhos e vagabundos
Que me reconhecem em um segundo.
Eu quero quebrar essas correntes,
Riscar paredes,
Promover a anarquia
E aprisionar o meio-dia.
Eu quero que chova canivetes
Enquanto rasgo minhas roupas,
Corto meus pulsos
E conto todas as gotas.
Um dia pode ser
Que algo aconteça
E faça que cesse essa tristeza sem fim
E tudo mude, enfim.
Então perco a ingenuidade
Do que ainda resta dessa madrugada
Vislumbro o absurdo de que tudo o que vejo
Ainda seja algo a ser lembrado.
Quem sabe um dia
A poesia se faça cantar
E a brisa leve o canto
A todo lugar.
Eu quero buscar um mundo perfeito,
Eu quero amar o que tem defeito,
Eu quero explorar meu próprio quarto,
Fazer contigo outro trato.
Eu quero te sacudir com violência nesse caixão
E mostrar onde estão todos os ratos,
Incendiar cobertores velhos
Que ora foram belos.
Eu quero te mostrar que te amo
E também te odeio,
Que posso viver só,
Mas, não também não vivo sem você.
A minha loucura é produtiva
E ao mesmo tempo, destrutiva:
Machuca uma multidão
E satisfaz a multidão dentro de mim.
Eu me recuso a fazer parte da matilha
Que passeia em supermercados,
Fingindo uma paciência tão desmedida
Quanto sofrida.
Eu como restos,
Coleciono poeira,
Faço inimigos,
Cultivo sonhos.
Eu troco constantemente de identidade
E perco a noção de realidade,
O meu estado é doente
E eu sou terminal e descartável.
Eu participo desse jogo,
Dessa novela em decadência
Desse repugnante teatro de horrores
Onde somente os cegos são honestos.
Eu sou minuciosamente escravizado
Enquanto me privam do privilégio da escolha,
Enterram nossa vontade
Na cova mais profunda.
O muro que nos separa é baixo
E andamos pulando de um lado para o outro,
Muitas vezes ambos existimos
E, outras, apenas eu existo.
Somos uma freira e uma prostituta
Que traçam uma eterna disputa
Entre os dois lados da moeda
Pra decidir quem foge e quem luta..."
O DESMATAMENTO DA ALMA (trecho)
"Hoje estava difícil de pegar no sono,
Quem diria uma vez mais enfrentar a estrada.
Calejada é a alma e o dom da palavra;
Quem diria; antes tudo hoje não diz nada.
Ouço vozes que partiram no vazio,
Vejo rostos que traziam novas histórias,
Tomo vinho numa taça e parece água,
Toco o corpo da amada que já foi embora.
Sinto-me bandeira em dia de domingo -
Baioneta pronta pra uma nova luta armada,
O hino que desfila em cada corda atrai vitória
Que é certa como o circo que já foi embora
E transforma o menino em homem feito e vivo,
Cada acorde é sentido e subentendido,
Toda letra é espelho do que já foi feito
Nessa terra que um dia sonhei ser perfeita.
Quem dera vida ser baile de sexta-feira,
Ter par certo esperando na hora marcada,
Perceber em cada flor aroma de desejo,
Em cada pétala roubada novo aprendizado
Mas, a lição que a vida emprega é cruel e triste:
A fatia desse bolo não é para todos,
O tiro muitas vezes sai pela culatra
E o ouro desejado é ouro de tolo.
Nesse teatro o palco quase sempre está lotado
Cada cor tem seu papel e nobre espaço,
Na platéia todos querem ser estrela,
As cadeiras vazias anunciam o fim dessa bonança.
Os tijolos dessa Igreja ainda estão quebrados,
Cada linha do teu livro soa tão amarga,
A confusão que se procede à verdade assusta,
Quero uma bailarina que me conduza.
Mostre-me que todo amor supõe ser verdadeiro,
Todo sangue derramado não é por acaso,
O suor que escorre lento da testa dos justos
É esforço que no fim será recompensado.
Mostre-me que ser honesto ainda é virtude,
A bondade é cobertor e ainda aquece.
Mostre-me que a justiça é cega e liberta
E que essa liberdade não é para poucos.
O que é que queima mais que gasolina?
1
De repente fui tomado como por acaso,
Mera introdução de algo errado.
Queria ser final feliz de ato insensato
Mas, sou estilhaços de vaso quebrado.
Não me diga que "o certo rima com o errado",
A tempestade de hoje é obra do acaso,
Há poesia em todo canto e o canto é sagrado...
Não há nada que conserte algo tão incerto!
Se o incesto que ocorre é proibido
E o aborto da questão, sopro do pecado,
O que diria da palmeira ao vento na avenida
E o sonho de sereia amaldiçoado?
Das noites claras e obscenas quase sem sentido,
Dos amigos e "amigos" cheios de favores,
Do veneno servido em taça de cristal
Produzido e engarrafado em fundo de quintal?
A voz que sai é presa, seca, lenta e tenta tanto
Produzir algo de bom em todo encontro,
Mas quis a vida que o banquete fosse dado aos ratos
E o tolo se servisse das sobras do prato.
O tempo toma tanto tempo e nosso tempo é curto,
Um mudo xinga um soneto e só um surdo escuta,
Cruzar a linha do absurdo é tão perigoso,
Improvável que se possa ver o outro lado.
Plantaram árvore em terreno que é condenado,
Condenaram a verdade a pegar atalho,
A falsidade se esconde em cada sorriso,
Cada abraço, cada ato feito ao acaso.
Feliz de todo estado que somar cidade,
Achar que tarja - preta é necessidade,
Descobri que falsificam tanto sentimento
Em prol da massa unida, a massa do momento.
Diga-me que cada gesto é abençoado,
Todo desejo puro será realizado,
Cada passo no asfalto não será em falso,
Cada tombo, cada soco é parte do passado.
Diga-me que quem perdoa será perdoado,
Todo jogo só termina no último ato,
Diga-me que foi fiel quem; na beira do abismo,
Abriu os braços e pagou por todos.
Quem é que dança mais que bailarina?
2
Ainda espero como espera alguém pelo trem
Que nunca vem e quando vem já está lotado,
Que entendam que não posso viajar sentado
E não espero que aplaudam ao estar calado.
Não leve tão ao pé da letra os cacos do espelho,
Nunca diga tudo num Confessionário,
Não comece a segunda com o pé esquerdo,
No domingo o orgulho estará machucado.
Muito tarde pra mudar o sobrenome,
Virar santo, ter um filho e morrer de fome.
Muito cedo pra nadar em poço de petróleo,
Ser vendido, ter vizinho e já saber o nome.
Todo o gado está marcado e foi alimentado,
Toda raiva faz sentido e o gosto é caro.
O perfume é barato e o rosto, lindo.
A vaidade é vendida em uma estrebaria.
Que esnobe o meliante que não aceita restos
Do que vendem de melhor nessa casa nobre!
Quantos cegos necessita no seu castelo
Pra que veja que o escravo almeja a sua terra?
Quantos dias têm seu mês e como gasta as horas?
Quantos nomes desconhece e quantos fazem falta?
Quantas pontes já cruzou e quantas cruza agora,
Quantas portas, quantos becos pelo mundo afora?
Quem dera ter da esperança endereço certo
E; por pura coincidência, ser perto de casa
E entre as casas não haver cerca que separe,
Mas; onde os carros passam não nasce mais nada.
Toda ofensa nessa tribo gera algum desfalque,
O traje usado na alvorada é um imenso ultraje,
A convenção dessa matilha foi iniciada
E hoje a fome é desmedida na maçonaria.
Se soubesse o que era espinho no meio da estrada
Pegaria outro caminho na volta pra casa.
Quem sabe dessa dança o seu passo certo
Dança até de salto alto e corre de chinelo.
Ainda espero ser visita e ter tapete persa,
Ser desenho e ter motivo pra mostrar sorriso.
Faço prece que a lágrima seja entendida,
É presente e foi passado para uns e outros.
O que é que brilha mais que diamante?
3
Valorizo o enlatado desse supermercado,
Vem em engradados de grandes possibilidades.
Tudo nessa fábrica vem com código de barras
Ou com marca de nascença, tudo planejado.
Busco sentido no insensato,
Dou espaço ao ingrato,
Se razão em manicômio é dissonante,
Desperdiço a sanidade de forma insensata.
Tudo soa original
Ao mal-acostumado,
Tudo soa secreto
Ao despreparado.
Tudo o que era mensagem foi apresentada
Ao delegado do bordel alado
E a passagem do sonho foi desvendada
Ou o delegado está enganado?
Esperam sentados os que sabem tudo,
Supõe-se que nasceram predestinados.
A arquibancada está vibrante com os pés de barro,
Com toda a ração doada pelos abastados.
Já vão longe os que se acham donos
Dessa terra onde o cordeiro foi sacrificado.
Do pecado que escorre pela montanha
Nada é mais valioso que o sangue novo.
Assunto velho em jornal velho!
Será velho o assunto se mudar a capa?
Tudo o que foi falado é escrito,
Tudo o que foi noticiado é relatado.
Escrevo o que vejo,
Grito porque vivo,
Vejo o que sou,
Sou o que escrevo.
Tenho agora semente do que era sonho
E quase sei o resultado da nova etapa.
Toda busca é sacrifício e é necessário
Que se aprenda a levar tapa mais do que se bata.
O indigente se alegra com a jaqueta nova,
A meretriz se contorce na calça de couro,
O bêbado se afoga com café quente
E todos fazem parte agora do mesmo corpo.
O que é mais quente que o corpo da amante?
4
Ansioso de fim de mundo,
Analiso vitrais de casas abandonadas.
Manequins são isentos de culpa,
Únicos a emocionar esse vagabundo.
Os quadros mais caros foram rasgados,
Os bordéis mais baratos estão lotados,
Os sonhos mais lindos foram esquecidos,
Os passos mais largos foram dados.
O que assola essa cidade é o seu estado
Que transforma qualquer coisa com o toque.
Que força responde a um estalo
O que é belo, mas já não mais ncomove?
Achar que é magia é heresia,
Achar sentimento nesse momento,
Achar saída no fim do dia
É quase apaixonar-se pelo sofrimento.
Como criança com brinquedo novo
Costuro o meu dia e imagino um acordo,
Procuro nas esquinas o sonho
Prometido durante meu sono.
O que é que se esconde há tanto tempo?
O que é que se permite há tanto tempo?
O que é que mata sem ressentimento
E ainda propaga todo o esquecimento?
Comoção não se vende com facilidade
E a ilusão é inimiga em qualquer idade.
Tudo o que um dia foi vantagem
Foi vendido com a própria virgindade.
Vou furar os olhos em homenagem
Dos que se foram pelos outros.
Vou escrever uma canção e exaltar a guerra,
Esperar que reconheçam os corpos
Que apodrecem nesse imenso campo
E todos os entes queridos e seu pranto.
Aos poucos se perde todo o encanto,
Tudo o que era pra ser santo!
O que é que me provoca terremoto?
O que é que me corrói todo por dentro?
O que é que desmorona o meu mundo,
Tudo em apenas um segundo?
O que é que pesa mais que todo o ouro?
5
Enquanto alimento idéias em meu sofá,
Fumo lembranças de um passado.
Invento tragédias inteiras no meu caderno,
E aprendo; na marra, a dançar tango.
O cemitério só acolhe o cliente certo,
Os mortos sempre acham que estão no salão errado,
A tumba que se fecha com certo atraso
Leva embora todo tipo de ira e descaso.
A mentira é moradia do covarde
E mais fácil de ser disseminada,
A distração preferida entre os sem-teto
E também daqueles que não tem mais nada.
Um aviso do síndico, nesse momento, é dado:
O tímido é besta e cínico,
Cola frases pelo teto e todos os lados
E espera ser justificado.
Volto agora ao tema que freou meu sono,
Não espere que eu seja limitado.
Pode-se beber aos poucos pelo gargalo,
Não deixe que escoe tudo pelo ralo.
Já não faz mais diferença essa idade,
Já não há vaidade,
Já não há espaço na sociedade,
Nem ao menos data de validade.
A educação do infeliz deve ser testada
Para que não espalhe a piada errada.
A noção de realidade ainda é exata
E o preferido da dona-de-casa é comida em lata!
Escolhas feitas podem ser desfeitas,
Caminhos podem ser evitados,
Cada exemplo serve de aviso,
Cada trilha tem o seu perigo.
O pastor que prepara o jantar noturno
E oferece a própria cadeira ao convidado
Honra o nome que lhe deram
Todos os justos e os desviados.
Nosso problema foi solucionado?
O início da aliança foi abençoado?
O tributo está pra ser mostrado,
O sol que nasce hoje é fruto disso tudo.
O que é que vale mais que um tesouro?
6
Meus olhos, nesse instante, vão à deriva
Vasculhando os escombros desse espaço
Na esperança tênue de chegar à tua ilha
E desbravar teu mundo nesse mapa
De valiosas possibilidades,
Sinceras raridades,
Grotescas vaidades
E famosas disparidades.
O barco está em mar aberto
E não sabe bem qual o rumo certo.
Passa longe a vontade de pedir socorro,
A ousadia é combustível dos outros.
A linha torta no oceano não se discute?
O ponto cego no vazio que me perdoe!
O que anda atrás da linha do horizonte
É desenho de algo que se esconde.
Se houver algum sinal que oriente,
Mostre-me o caminho do Ocidente,
Acompanhe esse desacostumado
A navegar sem bússola nesse mar imenso.
Meus olhos estão doentes
E a cegueira de espírito é permanente.
Dores no corpo são persistentes,
Não há palavra para o que se sente.
Não há ilha, não há lado,
Não há salvação, não há lodo,
Não há nada, não há lama
Não há mais Dalai-lama.
O que resta da viagem é sobra,
O que resta na bagagem, resto,
O que resta já não faz falta
E todo o resto sobra.
As ondas são seguras,
Batem com violência nesse casco.
A única certeza é o naufrágio,
A tempestade põe o barco à prova.
Esse mar é inimigo,
Esse mar é inimigo do ar que respiro,
Esse mar que me sacode sem aviso
É meu amigo, meu próprio inimigo.
O que é mais amargo que o sono da verdade?
7
A festa teve início
E o salão, no momento, está lotado.
Os olhares indiscretos, furtivos
Dançam junto aos desajeitados.
O trigo apodrece na sala ao lado,
Corvos dão sutilmente o seu recado,
A ceia é servida após a meia-noite
Para que celebrem todos os fantasmas.
Os espelhos não refletem nada,
E os cacos passeiam pela sala,
O sangue que gela minhas veias
É o que aquece toda a corja.
Nada que diga,
Nada que tente,
Nada que faça,
Nada adianta.
Começa agora o ensaio da loucura,
Tudo o que, um dia, detestava.
Considere ridícula a tentativa
De tornar verdade uma mentira.
E se quero que me veja...
E se quero que me escute...
E se quero que me entenda...
Que a chance não me abandone.
Do soro dessa seringa
Eu já sou da família.
Eu sou o "acaso" de todas as festas
E sempre o último convidado.
E se o soro acaba como é que fica?
E se o soro estraga, como é que fica?
E se o soro é vida, vem com demora
E é assim que me namora.
Não deixo que o sabor de derrota
Camuflada com menta e, às vezes, hortelã
Ache quarto arrumado nessa casa
E seja visita indesejada e constante.
Que seja tudo escrito,
Que seja bem-feito,
Que seja outro caminho,
Que seja bem-vindo.
O que é mais justo que a própria liberdade?
8
Agora tempo é puro desperdício.
Vem cobrar cada centavo a cavalo,
Chega mansinho, pedindo abrigo
E conta os passos já dados.
Que sirva de elixir o marasmo,
Seja aviso-prévio o recado,
Sirva de conselho o boato,
Asilo político nos meus braços.
Já não há tesouro quando aperto o passo,
O relógio foi enterrado.
O remédio era tão fraco, nesse caso.
Toda tosse é prenúncio de resfriado?
A doença fez efeito?
A pobreza é defeito?
Há proeza no consenso
Que loucos têm sobre bom-senso?
O recado foi passado e eu me acuso
Que desse crime sou culpado.
Mas, compaixão e algum cuidado
Pelo iniciado em todos os pecados.
Há algo pior nesse mundo
Que a sorte ser prima da morte?
Há algo que realmente valha a pena?
Talvez lucidez, alma serena.
Agora assaltam meu direito de respirar
O pouco ar que ainda existe nesse parque,
E assegurar promessas e poemas
A alguém que venha a ler; quem sabe, um dia.
E o sono já me ataca!
Estraga-me, sinceramente, o dia
Em que se rebelam os desejos
E o resultado é a sarjeta.
E se a madrugada é piada,
O palhaço está de folga essa semana.
A dureza dessa carne é acostumada
E faz hora extra em casa mal-assombrada.
O que ocorre na penumbra é a mordaça
Que me cala e cala o mundo e ameaça
Com desaparecimento de celacanto
Quem confunde barítono com soprano.
O que é mais doce que o gosto da vingança?
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Se me abraça desejo de ser desenhado,
Rabisco em paredes de concreto,
O incêndio é criminoso
E não há quem apague o fogo.
Ainda os mesmos desejos
E, claro, os pecados.
Estranhos os ensejos
Que levam ao acaso. Acaso?
Pago o preço da passagem
E convido pra jantar um esfomeado,
Assino com o nome de um desconhecido
A conta do homicídio nesse ninho.
Que brilhe o canto,
Seja encanto,
Domine o espanto,
Não seja reles por enquanto!
Talvez seja engano
E a (in) certeza, um erro.
Talvez haja mesmo movimento
Em prol do ego no momento.
Dos nomes em contexto,
Nomes usuais antes do surto,
Rimei obsessivo-compulsivo
Com pedinte, vagabundo.
Não há perigo antes do tema,
Nem pecado antes do ato,
Nenhum soluço,
Tudo é perdoado.
Pecado é o medo de ser
Livre, inusitado.
Medo de engolir a seco,
De trazer sujeira ao lago.
O desfile dos filhos bastardos
Que fugiram de casa
Começou antecipado e se tornou surpresa,
O arrependimento foi em massa.
A palavra foi entregue
Deturpada,
Receita em becos
Onde o desespero fez do medo, reino.
O que é mais forte que um fiapo de esperança?"
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CARTA AO IRMÃO DISTANTE (trecho)
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