aleomar_fbi

aleomar_fbi

n. 1971 BR BR

Mora em Brasília-DF. Gosta de escrever crônicas.

n. 1971-11-23, Nascido em Olho d’Água PB

Perfil
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A VIAGEM


A VIAGEM
Hoje, precisei fazer uma viagem muito longa. Viajei para o interior do meu ser pra visitar algumas pessoas que lá vivem e outras que ainda nem conhecia. Assim que cheguei, deparei alguém que, embora se chamasse Tristeza, de forma antagônica, tinha, estampada em seu rosto, uma alegria de causar inveja, pois foi a ela quem mais procurei nos últimos anos. Logo à frente, avistei outra pessoa, de rosto erguido, bem vestida e confiante. Então lhe perguntei seu nome ao que me disse sem titubear: “Como podes não lembrar de mim? Arrogância é meu nome”.
Não tão longe dessa, vi outra, que era muito gorda, quase a se explodir, a qual tomava bastante espaço no estreito caminho e, antes que eu perguntasse, foi logo me dizendo: “A mim já conheces bem. Meu nome é Impaciência.”. Mais alguns passos, e vejo alguém toda maquiada e vestida em uma bela roupa, mas algo era estranho: tinha terra sob as unhas, e os dentes alvos deixavam precipitar as facetas expondo seu amarelo natural. Então, sem que olhasse direto nos meus olhos, respondeu-me ao ser indagada: “Meu nome é Mentira, lembras?”.
A partir daí, enfrentei um longo trecho de estradas difíceis. Subi morros, atravessei vastas colinas, mas notei que a pouca luz que irradiava ia ficando cada vez mais intensa. Enfim consegui enxergar alguém ao longe que, desesperada, acenava pra mim. Ao me aproximar, disse que estava a me esperar havia algum tempo, pois achava que eu já não iria mais procurá-la. E com um sorriso amedrontado, temendo não me agradar, me disse: “Olá! Sou a Humildade. Quanto tempo...!”. Mais ao alto, quase inalcançável, encontrei uma que estava encolhida, semideitada, cansada de me esperar. Essa já não falava mais e pra se identificar escreveu no pó que cobria o chão: ”Meu nome é Empatia.”.
Notei, então, que quanto mais longe eu ia, mais difícil ficava o caminho e menos familiar me eram as pessoas que encontrava.
Chegando ao fim da viagem, um senhor que estava à porteira, de pés rachados e beiços estalados me indicou um caminho mais curto pra voltar. Disse que se eu fechasse os olhos para o que é feio na estrada e olhasse somente aonde ela pode me levar, eu jamais teria que ir tão longe pra atingir o que está bem perto. Que se eu me abaixasse de vez em quando pra ouvir aqueles que penso estarem abaixo de mim, talvez encontrasse respostas para as perguntas que carrego sozinho lá em cima. Disse que se eu usar sempre a verdade como fundamento para os meus anseios, obterei resultados reais e mais duradouros pra minha vida. Disse, ainda, que quando eu achar que não careço mais daquilo que os outros carecem, não terei de novo a deliciosa sensação do atingir, a menos que eu supra a necessidade de alguém que ainda nada tem. Então me despedi e perguntei: “E a ti, como te chamam? De onde vens?”. Ele então me respondeu com um sorriso que me fez sentir como o tolo que procura, desesperado, o chapéu que sombreia a própria cabeça: “A mim, só me chamam Mestre e estive aqui o tempo todo. Nunca me vias porque estiveste sempre lá em cima do pico que nunca existiu, do pedestal que criaste para ti próprio.”.
Então, envergonhado, voltei.
Aleomar Tolentino
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Biografia
Mora em Brasília-DF. Gosta de escrever crônicas. Atualmente está trabalhando em uma obra a qual relata o drama de um advogado bem sucedido que, após duas trágicas perdas, e, diante de uma iminente terceira, se revolta por não poder usar do seu maior dom - sua habilidade com as palavras - para levar Deus ao banco dos réus e ter a chance de provar que Ele é, além do criador, um criminoso, segundo sua visão humana. Sua vontade desenfreada é atendida por Deus de uma maneira que não será revelada agora, mas ao final do julgamento, ele percebe o quanto a sabedoria divina supera a humana.

Poemas

2

ATO SUJO, ALMA LIMPA


ATO SUJO, ALMA LIMPA
Da janela do seu escritório, no vigésimo quinto andar de um luxuoso edifício, Dr. Edson Fattori, empresário do ramo petrolífero, vê a chuva bastante intensa cair sobre uma cidade que ele considera ter em suas mãos, enquanto aguarda os participantes de uma reunião que está prestes a começar.

Lá embaixo, dos buracos de sua lona, dona Francisca das Chagas Medeiros, moradora de rua, vê os carros passarem, carregando seus donos e suas histórias, enquanto aguarda o fim da chuva para voltar a pedir.

Carros luxuosos entram na garagem do edifício e, deles, saem pessoas bem vestidas e com maletas intrigantes, os quais sobem, para o alívio da espera do Dr. Fattori. Como se ele precisasse, seus colegas de reunião lhe trazem presentes tal como dotes de um casamento muçulmano: vinhos caros, um relógio suíço, uma gravata italiana e até uma joia para sua esposa. Depois de tanta pompa, eles vão logo ao que interessa: as malas são abertas e o jogo é apresentado. Membros do governo trouxeram as malas vazias para que voltassem com elas carregadas de dinheiro que alimentaria um grande esquema de corrupção. A empresa do Dr. Fattori ganharia algumas concessões milionárias e, em contrapartida, cederia um pequeno percentual para a campanha eleitoral de alguns candidatos na eleição daquele ano.

Dona Francisca recebe a graça da companhia de outro andarilho que lhe pede abrigo em troca de alguns dos pães que carregava. É motivo de festa, pois ela e seu netinho de seis anos já não sabiam se iriam comer novamente caso a chuva não passasse.
Para comemorarem, Dr. Fattori e seus comparsas abrem alguns champanhes e se servem a sorrisos largos como se o mundo todo estivesse feliz naquele momento.

Ao final, aqueles homens, que parecem boa gente, voltam para os seus carros e, na volta, passam pela pista cuja barraca de dona Francisca margeia. Dona Francisca insiste em olhar pelos buracos, ao que um dos carros não desvia da poça de lama e “fuzila” seus olhos com água suja. Mas aquilo se torna motivo de risadas por parte dela e do seu novo amigo com o qual saboreia uma bela janta repleta de quase nada. A felicidade do seu netinho, com um pão inteiro só pra si, o qual se torna enorme naquelas mãozinhas tão pequenas, faz dona Francisca ficar grata por tanta sorte que tivera naquela noite.

A chuva passa e o dia chega. Dr. Fattori teve uma noite de sono muito agradável, e, numa espécie de agradecimento a sabe-se lá quem, passa em uma padaria, depois pede ao motorista que pare o carro em frente à barraca de dona Francisca. Desce do carro e vai ao encontro dela carregando algo em sua mão esquerda. Olha para ela e diz:

- Toma! É para senhora e para o garoto.
Sai de lá aliviado e achando que se todos fossem bonzinhos como ele o mundo seria bem melhor.

Dona Francisca abre o embrulho e, com uma cara de quem deixou de ser invisível, fala para o seu netinho:

- Come o pão e deixa a mortadela pra mim.
Aleomar Tolentino
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AS DUAS FACES DA INTERNET


AS DUAS FACES DA INTERNET
Falarei sobre a história de dois mundos que se chocaram. Cada qual com sua visão das coisas diferente da do outro. Dois mundos que se convergiram por meio de uma tecnologia avassaladora chamada Internet. Essa é a história de Pedro e seu filho Thiago.
Enquanto Pedro, aos vinte e dois anos, viu a internet surgir, a internet, aos vinte, viu Thiago nascer. Enquanto Pedro aprendia a usar a internet, esta aprendia a usar Thiago. Ao passo que Pedro tentava descobrir as vulnerabilidades da internet, ela buscava explorar as fraquezas de Thiago.
Pedro, até então, estava limitado aos programas de TV, jornais, revistas e às fofocas que rolavam na vizinhança. Não imaginava que estaria por vir um canal que possibilitaria a ele ter o mundo em suas mãos dentro de sua própria casa. Mas aquilo o assustava, pois não tinha mãos grandes o suficiente para carregar o mundo. Tudo era muito novo e deveria ser usado com cautela.
Thiago nascera em um mundo aberto e não conheceu as linhas do limite nem o confinamento das regras.
Pedro viu que aquele novo mundo podia lhe trazer inúmeros benefícios se o agregasse às faltas que o mundo velho carregava, mas, também, conseguia enxergar o perigo que poderia representar se viesse a utilizá-lo de maneira errada e imprudente.
Thiago só conseguia ver uma coisa: sua vida só seria possível se estivesse ligado à internet. Tudo tinha que vir dela ou ir para ela: Facebook, Twit, Instagran, Snapchat, entre outras mil coisas que ele não poderia deixar de visitar. Sua vida não tinha mais um dono, todos participavam dela. A solução para todos os problemas era encontrada sempre de forma fácil e rápida na internet. Não precisava pedir conselhos aos seus pais sobre nada. Para a formação do seu carácter, eles eram inúteis.
Pedro conseguiu ganhar prestígio em seu trabalho usando os recursos que a internet disponibilizava. Procurou aprender a fundo o máximo que podia sobre esse fenômeno tão poderoso. Desenvolveu sites para grandes empresas e instituições, e, com isso, ganhou muito dinheiro. Ele conseguia distinguir o que era bom do que era nocivo na internet. Por isso, se limitou, tão somente, ao que acrescentaria alguma coisa de bom em sua vida e na vida dos outros.
Porém, a tempo, Thiago se sentiu curioso em saber como era o mundo na época em que seu pai ainda era jovem. E numa conversa que tiveram, pôde fazer muitas perguntas e tirou várias dúvidas, muitas delas nem sabia que tinha. Após essa conversa, Thiago descobriu que, mesmo sendo bastante jovem, deixou de viver muitos anos de sua vida só se dedicando à internet. Então, Pedro e Thiago passaram a trabalhar juntos em um projeto só deles. Mas como se estivessem manuseando explosivos, com muita cautela e responsabilidade, fizeram da internet o seu passaporte para um mundo melhor.
Aleomar Tolentino
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Comentários (3)

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evelinbast

Quando estamos sozinhos e desconectamos nossa mente desse mundo, ela viaja para vários lugares. Os pensamemtos podem nos sufocar e trazer dor ou podem nos dar prazer e alegria, podem nos levar a várias dimensões dentro de nós mesmos. Quando não guarda somente para si seus pensamentos e partilha com o mundo, podemos ler sua alma e encontrar uma conexão, identificação e compreensão de que somos todos um só.

Evelin
Evelin

Texto muito sábio, faz a gente refletir sobre as escolhas e caminhos que tomamos na vida e sobre nós mesmos.

Lia
Lia

Uauuuu! Sucesso! Tem um filme com esse título é muito interessante. Traz a lenda de que prisioneiros judeus em Auschwitz fizeram um julgamento no qual Deus é o réu e o seu crime é de não ter mantido o seu pacto com eles.