Alexandre Rodrigues da Costa

Alexandre Rodrigues da Costa

n. 1972 BR BR

Alexandre Rodrigues da Costa possui graduação em Letras pela UFMG (1997), mestrado em Letras pela UFMG, e doutorado em Letras pela UFMG.

n. 1972-01-25, Belo Horizonte

Perfil
20 492 Visualizações

O FIM DA HISTÓRIA

Caros amigos,
a história acabou.

O último que sair,
por favor, apague a luz.

Sim, sei, não
houve motim
e todas as ordens
foram seguidas à risca.

Mas é algo que não
dá para mudar.

A história acabou,
e ninguém furou
os próprios olhos
ou disse
“o resto é silêncio”.

Não, não há nenhuma
“waste land”
ou comédia
para alegrar os tolos.

Evitem fazer perguntas
tão maldosas.

As tvs continuam
ligadas. Então por que
o desespero?

Esqueceram, sim,
corpos
ao longo da praia.
Talvez quisessem
deixar algum sinal
ou enigma
para aqueles que nunca
passaram por aqui.

O latido dos cães
continua a incomodar?

Mas isso não é
nenhum enigma.
Há sempre alguém
que se distrai
com o latido de cães,
quando nada existe
para se escutar.

Cuidado, fizeram
um longo desvio à frente

e dizem que depois
da última curva
há um grande abismo.

Não, não e não.
Quantas vezes já disse:
não podemos olhar
para dentro dele.

Em breve chegaremos
lá, não no abismo, mas

depois dele, onde teremos
todo o tempo
do mundo e se acaso
nos cansarmos de fazer
nada, aí, sim,
poderemos ao menos
nos espancar
Ler poema completo
Biografia
Alexandre Rodrigues da Costa possui graduação em Letras pela UFMG (1997), mestrado em Letras pela UFMG (2001), e doutorado em Letras pela UFMG (2005). Em 2010 e 2011, desenvolveu pesquisa sobre as obras poéticas de Georges Bataille e Samuel Beckett como pós-doutorado na Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG. É autor de Objetos Difíceis (7Letras/Funalfa, 2004), vencedor do Prêmio Cidade de Juiz de Fora 2003; Fora de Quadro (7Letras, 2005), vencedor do Prêmio Vivaldi Moreira da Academia Mineira de Letras; Peso morto (7Letras, 2008), Corpos cegos (7Letras, 2012), Bela Lugosi no ateliê de Kandinski (7Letras, 2013), Prêmio Barueri de Literatura - categoria Livros Já Editados, A mímica invertida dos desaparecidos (7Letras, 2014), Acidentes de Leitura (Editora do autor, 2015), Como assistir a um road movie em pé (7Letras, 2016), Do outro lado sedimentos, ou até onde a vista alcança (7Letras, 2018), A transfiguração do olhar: um estudo das relações entre artes visuais e literatura em Rainer Maria Rilke e Clarice Lispector (EdUEMG, 2019). Organizou e traduziu Poemas de Georges Bataille (Editora UFMG, 2015) e Corpos labirínticos: textos de Hans Bellmer (Editora Gramma, 2019). É professor de disciplinas teóricas da Escola Guignard (UEMG) e do Programa de Pós-Graduação em Artes (UEMG).

Poemas

5

ATE ONDE A VISTA ALCANÇA

Insistia
que meninas
cegas
lhe prestassem
serviços,

elas, com
os pés
queimados,

os corpos
ancorados
à margem
do olho,

vindos de
não se sabe
que fundo
falso

ou coração
enterrado
na lama.
511

O ENIGMA DE OUTRO MUNDO

Em O enigma de outro mundo, o riso rasgando a carne expõe
o fracasso não apenas da ciência, mas do ser humano em lidar
com sua própria insuficiência. Essa insuficiência surge, no filme,
no momento em que os indivíduos, na base, são confrontados,
de várias maneiras, com o que revela a fragilidade da espécie
humana, como ocorre, quando presenciam o informe que a
coisa articula, suas manifestações labirínticas, sua paródia do
corpo humano. Mas a insuficiência aparece também como o
vazio de uma luta contra o nada, pois, em seu embate com
aquilo que desconhece, o ser humano enfrenta a  si mesmo,
para perder-se, no labirinto de suas próprias vísceras, como um ser
acéfalo. Seus medos, seus fantasmas, se projetam naquele que
está à frente, à medida que o desfazem e sobra, como espelho,
uma face que se revela, ao mesmo tempo, dele e desse outro.
Assim, as últimas palavras do filme, “Por que apenas não
ficamos aqui, por enquanto? Ver o que acontece.”, referem-se ao
eu não como uma entidade autônoma, mas à mercê sempre do
outro. Sob a condição de também ser monstro, o ser humano
deve lidar com esse outro, ao se deixar levar pelas hipóteses que
elabora sobre ele e ao saber que nenhum conhecimento, agora,
nada vale. É necessário a renúncia de si mesmo, abraçar o
vazio, para que no auto sacrifício, ironicamente, haja alguma
chance, ainda que não se saiba para quem ou o quê.
484

O FIM DA HISTÓRIA

Caros amigos,
a história acabou.

O último que sair,
por favor, apague a luz.

Sim, sei, não
houve motim
e todas as ordens
foram seguidas à risca.

Mas é algo que não
dá para mudar.

A história acabou,
e ninguém furou
os próprios olhos
ou disse
“o resto é silêncio”.

Não, não há nenhuma
“waste land”
ou comédia
para alegrar os tolos.

Evitem fazer perguntas
tão maldosas.

As tvs continuam
ligadas. Então por que
o desespero?

Esqueceram, sim,
corpos
ao longo da praia.
Talvez quisessem
deixar algum sinal
ou enigma
para aqueles que nunca
passaram por aqui.

O latido dos cães
continua a incomodar?

Mas isso não é
nenhum enigma.
Há sempre alguém
que se distrai
com o latido de cães,
quando nada existe
para se escutar.

Cuidado, fizeram
um longo desvio à frente

e dizem que depois
da última curva
há um grande abismo.

Não, não e não.
Quantas vezes já disse:
não podemos olhar
para dentro dele.

Em breve chegaremos
lá, não no abismo, mas

depois dele, onde teremos
todo o tempo
do mundo e se acaso
nos cansarmos de fazer
nada, aí, sim,
poderemos ao menos
nos espancar
507

A TORTURA DO MEDO

Fazia com que elas
assistissem às suas próprias
mortes.

Armara o espelho
sobre a câmera,
encaixara
a navalha no obturador.

A partir daí,
jamais se renderia ao medo,
pelo contrário,
o ofereceria
como gratidão por todas
as imagens
que recebera,

e, no momento oportuno,
não seria diferente
de nenhuma de suas vítimas,

se entregaria ao seu reflexo,
correria
até ele,
de forma a encontrar
o que nunca tivera.
258

NOTAS SOBRE AS DISTÂNCIAS DA MIOPIA

O olho pode não estar ao avesso,

mas sobre ele se espalha
uma ou outra mosca

a nos dizer que o espaço
é insuficiente e lidar com rostos

não é a mesma coisa
que afugentar fantasmas.

Basta quebrar com os dentes o gelo,
para inserir entre eles

o lado de fora, que se faz dentro,
quando menos se espera,

e dá ordens enquanto
permanece em silêncio.

Nada tão imprevisível
quanto as raízes

que a luz alcança,
ao se despedaçar sobre a retina.
233

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Thaís Fontenele

Sua construção poética é de fato encantadora, estou embriagada por sua poesia, simplesmente bela!