Ana_Pereira87

Ana_Pereira87

n. 1987 PT PT

Inspiro-me para que os outros se deixem levar pelas palavras e digam o que lhes vai na alma.

n. 1987-04-08, Viana do Castelo

Perfil
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A fome continua

Deixa-se a pele

pendurada no cabide.

Esvazia-se o corpo.

Reza-se a missa

de corpo presente.

Enterram-se os corpos

nas valas comuns:

lençóis areados.

Ficam as memórias:

perfil sem voz

atrás do espelho.

Capturadas a cores.

Vivas no flash.

A morte ganha vida.

Reduzimos a distância

no encontro dos corpos:

desvio e embate

para o orgasmo.

No final,

deixaste o melhor de ti.

Vieste-(te).

Nada é negativo.

As pessoas morrem

e a fome continua.

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Poemas

4

Impressão digital

Abro os caminhos

ladrilhados pelos passos

que não dei.

Mantenho a verticalidade

mas permaneço na perdição.

Para onde vou, não sei.

Ultrapasso os muros

que me cercam.

Num passo em falso,

sei da robustez do chão.

Fico a seus pés.

Da terra posso ver as estrelas

e as pedras choram por mim.

Suportam o peso

e o que sou.

Fico à distância do estender de mão.

Amparo-me

na impunidade

que se mantem firme.

Não subo degraus.

Elevo-me

para ficar vertical.

Foge-me a língua

para os olhos.

Vejo a serenidade

quieta da existência.

Deixo o sorriso sofrido

enroscado nos murmúrios

das ruínas

do meu corpo

retorcido.

Não voltei a pisar

as pedras da rua

que me possuíram

e onde deixei a minha

impressão digital.

1 134

Foge de mim

Foge de mim.

Não queiras saber do que não vês.

Os espelhos estão sonolentos

e não refletem o que sou.

Não queiras saber da nudez da pele,

nem da luz da carne.

Lembra-te que quando a noite cai,

fecho os olhos dentro das pálpebras

e enterro-os debaixo do sono.

Não me perguntes

pelas nuvens de algodão

que carrego aos ombros.

Não procures explicação

para o orvalho perfumado

que trago na boca.

Não há!

Não ouças os passos

que me levam a imagens passadas.

Não te conduzem a lugar algum.

Não procures o sol que ilumina a terra

e se infiltra no interior da pele,

pois descobrirás a sombra

que me acompanha.

Foge de mim.

A inspiração é tão profunda

Que faz doer os pulmões.

Foge de mim.

É possível que aqui

percas a respiração.

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Contra todos os riscos

Está tudo fora.

Eu envidraçada.

Não há aves no céu.

Estão presas do outro lado

da janela.

Roubei-lhes a melodia

e aprisionei-as

nos ouvidos.

Embalei-me nas notas

e compassos.

Esqueci a fome.

Fiz ponto de embraiagem.

Fugi de mim.

Não é possível suportar

a minha alma gémea.

Procurei o ponto de incisão.

Cheguei ao ponto de saturação.

Cortei os veios.

Nada fiz para reter o interior.

É o que conta.

Lubrifiquei o caminho.

O destino é o lugar

onde o medo não cabe.

(Re)nasci no desejo

das horas mortas.

Agora,

guarda para ti o que viste

aqui.

É uma loucura.

São memórias arriscadas.

Por isso,

segura-te

contra todos os riscos.

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A fome continua

Deixa-se a pele

pendurada no cabide.

Esvazia-se o corpo.

Reza-se a missa

de corpo presente.

Enterram-se os corpos

nas valas comuns:

lençóis areados.

Ficam as memórias:

perfil sem voz

atrás do espelho.

Capturadas a cores.

Vivas no flash.

A morte ganha vida.

Reduzimos a distância

no encontro dos corpos:

desvio e embate

para o orgasmo.

No final,

deixaste o melhor de ti.

Vieste-(te).

Nada é negativo.

As pessoas morrem

e a fome continua.

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