António Amaral Tavares

António Amaral Tavares

n. 1964 PT PT

n. 1964-04-01, Coimbra

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SEIS ESTROFES EM CONSTRUÇÃO

1.

A boca é às vezes o deserto

vem da serra o ar como um clarão matar a sede

às pontas queimadas do silêncio.

2.

Obscuras palavras

que por promessa atravessaram

de corpo mudo a noite.

Luzem.

3.

Uma letra

uma sílaba que lhes falte

e as palavras assim prenhes de mistério

terão na tarde o seu florir.

4.

A solidão procura as árvores longe do mar

a pele seca queimada pelo frio

do vento ninguém saberá domar as vagas.

5.

Ainda do vento:

levou para o exílio as minhas mãos

cartas chegam de lá contando tudo sobre o rapto

foi tudo plano do esquecimento.

6.

Como se chovesse e o entardecer

não soubesse que a noite que vem

não é a que ele esperava.

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Poemas

1

AVEIRO REVISITADA

Não sei se algum dia saberei polir esta pedra

polir uma pedra é vestir de branco as palavras

nestas ruas de água como se vive? quero dizer

como se apanha do chão

o silêncio em que se embrulha o tempo?

como cortar com arestas de luz os cabelos


por secarem na rocha triste em que se estendem?

quero dizer como se caminha entre duas luas

tão idênticas reflectidas na água que repetimos

as palavras assim que as vemos?

e como beber as vogais dos edifícios manter a cabeça

fora de água procurando a altura das chaminés?

pergunto como se vive nestas ruas de água

no gume de prata polida de um espelho? ou seja como se caminha

e atravessa a cidade e se morre ao atravessar uma rua

com o sentido da água a propagar-se nos pés?

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