IX - Da eutanásia ao suicídio
IX
Da eutanásia ao suicídio
nenhuma falência
é desumana
quando toda queda
é espontânea.
A vida é um erro de percurso
que tentamos consertar.
(Bernardo Almeida)
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VIII - Histórias? Contem-me algumas
VIII
Histórias? Contem-me algumas
das quais esqueci - preciso sonhar
antes de dormir
com indecências rubras, vívidas
tímidas experiências lúbricas e inadvertidas.
Histórias? Contem-me algumas
que me façam gozar antes de acordar.
É preciso saber viver com a certeza
de que o amanhã não virá.
(Bernardo Almeida)
VII - na esperança da sorte que nos surge
VII
na esperança da sorte que nos surge
como promessa, aceitamos aguardar,
pela dispensa, antes da deserção,
intuindo a precipitação de dias melhores;
inventamos a temperança, convidamos
os mentores da solidão para nos convencer
a compreender a importância
de retroceder como invenção poética
estética, atemporal - extrusão
que se concretiza, tal qual uma incógnita,
sem representação, na imanência
perene e irrefreável da eruptiva rebelião
dessa construção insólita e inacabada
(Bernardo Almeida)
VI - É para contestar
VI
é para contestar que
autenticamente nascemos.
Vivemos para ser vis
enquanto hostilizados
permanecemos
(Bernardo Almeida)
V - Nego o que me condena
V
Nego o que me condena
a seguir em frente
honrando a renúncia
com rescisões de difíceis decisões.
Mas, digna - inclinas-te
entretanto, pela indefinição
neste mundo rasteiro, rareia
a visão da queda e do chão
corrompendo os olhos - sem função?
(Bernardo Almeida)
IV - Recuar, com sofreguidão
IV
Recuar, com sofreguidão
faz recrudescer a posterior
força da resistência - insurreição
(Bernardo Almeida)
III - Fugaz é a mágoa irrisória
III
Fugaz é a mágoa irrisória
da derrota: desistência iminente
penitência convalescente
mas, quase sempre, obediência
reverente - como na escravidão
(Bernardo Almeida)
II - Pastoreio a demora
II
Pastoreio a demora
Que corrompe a memória
Nela reverbera a ausência
De consistência inodora
Na consciência ilusória
E impermanente
Do tempo presente
(Bernardo Almeida)
I - Há um mar que nos derrete
I
Há um mar que nos derrete
Na decomposição dos dias
Há um ar que nos devora
Na demolição da aurora
No oceano em que me escondo
Há secura, imprudência e gozo
Corro para não chegar...
(Bernardo Almeida)
Volúpia errante
Navegar é ir de encontro
Ao som inaudito do verso
Ainda a ser concebido
É uma tara, um manifesto
Contra a homofonia
De tudo que já está mapeado
Visto, lido e digerido
É partir em busca de si próprio
Lançando-se ao desconhecido
Sob o risco de encontrar-se
Emaranhado nas rédeas soltas pela loucura
Lendas, mitos e estrofes - o mar a desferir golpes
Para o navegante não triunfar
Inconsequência, eis a arrogância do desbravador
Ah! A pequenez de governar
Deixo aos monarcas de todas as eras
Corruptos, medíocres, medrosos
Dos tronos, escravos irreparáveis
Eu quero é desbravar!
Entrar para a história por uma outra porta
Que já existia, mas estava oculta
Até antes de eu chegar
(Bernardo Almeida)