Carol Ortiz

Carol Ortiz

A minha intensidade vomita existências...

n. 0000-09-18, Campinas, SP

Perfil
67 750 Visualizações

UM CANTO PARA A MORTE

Se a morte é sorte
que seja forte
quem vivenciá-la

porque encará-la
mesmo com coragem
supõe a bagagem
de ansiedade
incredibilidade
e medo
de achar que é cedo

tudo não tarda
e antes que parta
é bom se perder
nas entranhas da vida
que tão resumida
entrega-se à morte
que, cá entre nós, seja forte


2021
Ler poema completo
Biografia

Nasci em Campinas, SP. Morei em muitos lugares e voltei para mesma cidade para envelhecer. Sou casada e mãe de cachorros e crianças que precisem de colo. Essas poesias foram escritas durante toda a minha vida e em épocas diferentes. Algumas foram publicadas em coletâneas e outras não. Para quem gosta e quer passar u tempo em contato com a literatura, boa leitura :)
Se quiserem se corresponder, e-mail: [email protected] (posso demorar para responder, mas sempre respondo). Acessem meu canal no youtube sobre livros:
 https://www.youtube.com/channel/UCOj_DssoWp0_1HO7VCXgRcA?view_as=subscriber

Poemas

50

O PÁSSARO

Infelizmente eu vi um pássaro
que não sabia voar
tinha bico, tinha asas,
mas não sabia cantar
Era triste, como era!
Ver que tudo existia
mas meu pássaro...
não sabia amar
Como eu queria
vê-lo voando,
cantando
pra mim
mas, embora esteja perto
não sabe outra coisa
senão mentir


ANO: 1999
106

DA SERPENTE À MAÇÃ: QUAL O PECADO CAPITAL?

                                                                     ATO 1
   (Loucura e Sanidade conversam em um quarto escuro e abafado)

Sanidade: Que me responderia se eu te perguntasse aonde vais?
Loucura:   É simples, pois diria que para todos os lados, todas as partes. Cerco rios e pontes, vou ao céu e ao inferno, porque sou a sanidade que não tem cura, sou o real, sou a Loucura!
Sanidade: De todo o modo, por onde vás estarei presente, pois sou o real sou o concreto, sou um tudo em um deserto, o que todos vêem, o que todos sentem, a loucura sem liberdade, sou fiel ao que tu vês, sou a Sanidade.
Loucura: Ora, pois, Sanidade?! Como dizes ser sã, se és louca como eu?
Sanidade: Louca? Como posso ser louca se tua única salvação sou eu? Se, modestamente sou a única cura? Se todas as coisas estranhas sou eu quem as transforma em realidade?Sou a única forma saudável de ver o mundo!
Loucura: Tudo o que é grande você reduz a quase nada, todos os ângulos de enxergar as
coisas você subtrai. Como, ainda, podes dizer que és a única salvação que existe? Só um louco para acreditar em tal coisa!
Sanidade: Ah, então afirmas que um louco acreditaria na verdade? Tens consciência de que ao afirmar isso, nada mais dizes do que concordar que tu dependes de mim?
Loucura: Agora tu te deste mal! A minha suposta dependência pode ser comparada com um pássaro que se alimenta de formigas. Os pássaros precisam de insetos para viver. Se  elas morrem, eles também morrerão. Porém, vós, insetos, também precisais de nós, predadores. Compreendes? Tu precisas da minha existência para existir.

(Saem Loucura ou Sanidade e entra o Amor)

Amor: Onde estou? Qual minha identidade? Sou Loucura ou Sanidade? Preciso finalizar minha  eterna busca do doentio dos apaixonados, de outro está a calmaria dos amantes. Estou sem explicação. Que dizer? Que fazer? Posso não me enquadrar nesse mundo, mas não sou louco, nem tenho razão. Os que amam estão doentes ou doentes são os que petrificam o coração?

                                                                ATO II

Em um bosque da Grécia Antiga, entram, conversando, de mãos dadas, Orfeu e Eurídice:

Orfeu: Oh! Como estás tão formosa, minha Eurídice! O sol, que hoje brilham ao se entrelaçar ao teu suave charme, é para mim o pedaço do Éden. Todas as canções que sei são para ti e, em nome de Zeus, só usarei minha voz para te amar. Sou um mero mortal aprisionado em teu amor.
Eurídice: Meu doce Orfeu, como é bom olhar para ti e ver teus olhos brilhando. Amo-te tanto,  que nem o canto do mais belo pássaro, nem a mais formosa flor poderão expressar tal sentimento.
Orfeu: Eurídice, Eurídice, como é bom ouvir tais palavras e crer em tudo isso!
Eurídice: Nosso amor é tão real que a loucura está distante de alcançar nossos sonhos.
Orfeu: Tudo o que posso dizer-te, usando minha lira e minha humilde voz, é que te amo...

(entra a Serpente)

Orfeu: Eurídice, cuidado! Atrás de tua beleza, um monstro te persegue!...Oh, não! Eurídice!!!

(Serpente ataca Eurídice)
(Eurídice cai inanimada. Orfeu abraça-lhe o corpo)

Orfeu:Eurídice, como pode?! O que aconteceu contigo, minha amada?! Fala comigo! Dá-me, ao menos, um sorriso!...Juro pelas minhas lágrimas e pela minha voz que hei de ter-te novamente em meus braços. Juro por meu pai Eagro, o deus-rio, e por minha mãe, a musa Calíope, que te terei de volta! Juro que quando o sol surgiu novamente no horizonte de minha alma, estarei contigo ao meu lado e serei capaz de cantar e ver todo  o brilho dos nossos planos e sonhos surgirem novamente em nossas vidas. Poderei  dar-te todo o meu amor e assim poderemos juntos enxergar todas as coisas do   mundo da forma como fazíamos...Eurídice!

(Aproxima-se a Serpente)

Serpente: O veneno do ser humano mostra-se na hora de dor, de desespero. O homem pode até ser bom em dias de sol, em dias de glória, mas quando surge a angústia, aí sim é que ele mostra sua face sombria e seus gestos se tornam hostis, na busca desesperada e muitas vezes inútil de obter algo valioso de volta. Seus dias se transformam em horas vazias e sem sentido, sua vida fica oca e ele é reduzido a nada. A realidade o invade de tal forma que a loucura começa a persegui-lo. Todo o seu desejo de vingança torna-se o único motivo para agir. Ah, Orfeu, tu não serás diferente do resto dos mortais! Vais sofrer, desesperar-te, maltratar-te e, enfim, a realiade terá tamanho peso que a loucura o alcançará. Serás como o pior verme que  já habitou o mundo.

                                                      ATO III

(Novamente no quarto escuro conversam Loucura e Sanidade)

Loucura: Orfeu ficou louco! Orfeu ficou louco!
Sanidade: Presta atenção ao desfecho da história! Orfeu não enlouqueceu porque se entregou  à realidade!
Loucura: Estúpida, ele enlouqueceu porque fugiu de ti!

(Entra o Amor)

Amor: Acalmem-se, meninas! Orfeu adoeceu de amor, vocês foram mera consequência.
Loucura e Sanidade: Verdade?!
Amor: Observem que a cada caso de loucura, a causa principal foi um forte sentimento por alguém ou algo. Isso se chama amor mal resolvido, logo, vocês são apenas um acessório do amor.

(Humilhadas, saem Loucura e Sanidade. Entra a Serpente)

Serpente: Sabes, Amor, descobri teu segredo.
Amor: Ora, já era tempo, afinal, alguém teria que saber que sou o melhor e mais profundo    sentimento!
Serpente: Engana-te, medíocre! Tu não passas de um amador. Finalmente descobri que da maçã à serpente, do Éden ao Inferno, tu és o pecado capital.
Amor: Vais morder-me e espalhar o teu veneno, monstro bestial?
Serpente: Jamais sujaria meus lábios em ti, pois meu pior e mais letal veneno seria mais  limpo que teu caráter.

(Serpente esfaqueia Amor, matando-o. Fecham as cortinas)


ANO: 1999


465

DETALHES DE UMA VIDA

Estamos voando
anormalidade já não é anormal
como um sono, tesão
seus lábios são as portas
para um lugar de prazer
além de palavras
assim viajamos, voando
onde anda o amor?
se é que existe
o que valem palavras
onde tesão e desejo
estão interligados
são fortes?
existe amor?
ou só desejo temporário?
o que é a dúvida?
um ítem?
não existem regras
capaz de suprir
um mundo vasto
o errado começa
quando inventamos o certo
estamos voando
na verdade
realidade 
que é mentira


ANO: 1996
145

DOCES SONHOS DE UMA GAROTINHA

Ela dormiu como a muito tempo não fazia. Deitou-se levemente sobre as cobertas e acolheu-se num mundo só seu. Era tão bom ficar só e não precisar entender o mundo, sentir que tudo era só seu e que nada lhe faltava. Era uma vício.
        Fechou os olhos e sonhou. Como era bom, longe das gritarias e neuroses da vida, ver e sentir o que era carinho! Vínculos que jamais teve antes.
        Virou-se de lado. Estava entrando na zona proibida. Viu a realidade que nunca vira: pessoas lhe falavam coisas, um abraço apertado, uma imensidão de sentimentos bons preenchendo todo aquele vazio. Sentiu-se querida e superou seus traumas que antes ninguém dava atenção. São tão egoístas as pessoas! Tudo bem, continuou sonhando.
        Entregava-se, agora, às sensações. Via-se distante de tudo o que sempre foi. Todo aquele sentimento de que estava sendo a mais, de que estava atrapalhando, foi embora. Perdeu, por um instante, a mania de ferir-se. Perdeu o jeito de machucar-se.
        Andou, de novo, por essa terra mágica e encontrou uma criancinha: linda garotinha, sem traços dos antepassados, brincando calada, sufocada pela mentira. Ficou distante, observando. Então sentou e pensou "será que estava sendo injusta ao sentir tudo aquilo?" Então ficou com medo de ter ido além. Era, agora, uma traidora, uma louca, insana.
        Uma lágrima percorreu seu rosto. Calou-se, como era de costume. Tinha medo de magoar pessoas. Então, acordou e levantou-se.
        Tudo estava igual a antes: caos. Até quando iria continuar? Talvez até que a loucura ou egoísmo absoluto chegasse.
        Teria solução? ...Não, não pense besteiras, minha garotinha. Não perca o único vínculo concreto com a lucidez.


ANO: 1998
334

SOU CULPADA

Sou culpada pelo mundo
pela falta de existência
sou culpada por mim
pela pouca inocência
pelo medo, ignorância,
preconceito, pelas palacras
Sou culpada,
única culpada,
pela tristeza, por não ser nada
por mim mesma
sou culpada...
Sou culpada pela ausência de vida
pela frieza
pela escuridão
pelas lágrimas
pela imensidão
sou um monstro
anti-social
sou culpada
uma espécie animal
sou eu, só eu
Sou culpada e mais ninguém
o preço é a vida
pro sol brilhar
pago o preço que for
por não me calar
Sou culpada
irracionalmente culpada
eternamente
culpada


ANO: 1995
328

ESTRELAS

São brilhantes e ofuscantes
solitárias e longínquas
intocáveis
Prefiro ser uma formiga
tão pequena e forte
rodeada
comum
feliz

A formiga comeu
um pedaço de estrela,
ou a estrela
fugiu da solidão
e deixou-se
ser
devorada?


ANO: 2000
111

EU?!

Dói dentro de mim, um coração
cansado de bater por solidão
vago por entre sonho e ilusão
me perco num mar frio, sem paixão
bonecos predestinados a ter tesão
enlouqueço, quieta, sem razão
flutuo, sonolenta, na escuridão
em que frio consome a imensidão
sinto uma vontade, um desafio
e nada do que vejo tem cio
0s gestos e palavras vêm vagando
e eum desgovernada, saio andando
todos os personagens num vazio
me enganam, me traem, me põe no fio
será etapa e é assim?
ou eu sou nada,
ou nada está em mim?


ANO:1994
117

TRANQUILIZANTE ANÔNIMO

Tranquilizante anônimo
criatura cega
viagem incógnita
suave selva
transparência oculta
lembranças úmidas
vibrações recentes
balanço ardente
tranquilizante anônimo
relaxamento impostor
ambíguas visões
antiga dor
julgamento inferior
balada superior
alegria e soro
tristeza e choro
náusea aterrorizante
explosão constante
corpos aos pedaços
eterna anemia
anônimo tranquilizante
nos tira e nos da alegria


ANO: 1995
118

O PIANO (VERSÃO NOVA)

Todos os dias Eugênia sentava ao pinano e ficava horas tocando, até sentir-se pronta para enfrentar mais um dia pela frente.
         Era uma moça muito bonita, sonhadora e desligada.Morava,como quase todo estudante, com uma amiga com quem dividia as despesas.

         Romeu era um ladrão profissional. Não tinha rotina fixa e sempre viveu grandes aventuras.

         Aquela tarde Regina, que morava com Eugênia, saiu mais cedo e foi namorar.
         Romeu, sem perder oportunidades, entrou na casa. Estava arrumando seu prêmio quando ouviu uma doce melodia barroca. Seria um anjo sentado ao piano? Era, sem dúvida, a visão mais linda que ele já tinha tido. Em silêncio, ficou ali, ouvindo a música escondido.
        Por mais de uma hora Eugênia tocou e por mais de uma hora Romeu esperou. Já não pretendia levar nada, só queria ouvir tudo de novo e se entregar aos sonhos mais secretos que ela despertou nele. Então, por fim, deu conta do tempo que havia ficado ali e se retirou, mergulhando na solidão da cidade grande.
       
        Os dias foram passando e Romeu não queria mais nada.Não comia, não dormia, não roubava, só ficava parado, olhando para o nada.
        Todo anoitecer ia para a casa de Eugênia e passava horas escondido, ouvindo a musa tocar.
        Ele a observava de longe. Sentia suas dores e alegrias. A conhecia bem, ou pelo menos achava que sim.

        Certa noite, ao chegar, encontrou Eugênia sentada com um estranho. ELes riam e pareciam íntimos. Romeu sentiu ciúme e virou-se para ir embora. Entretanto, um grito chamou sua atenção e, ao olhar por entre as cortinas, viu Eugênia sendo atacada pelo homem ao seu lado.
       Sem pensar, Romeu pulou a janela e defendeu sua amada agredindo o outro rapaz.
       Ao término da luta, o moço constrangido levantou-se com dificuldades e fugiu. Eugênia estava encolhida em um canto da sala. A menina, ainda assustada, voltou-se para Romeu e o ajudou a se levantar. Agradeceu e pediu para ficar sozinha.
      Sem perder a oportunidade, ele confessou o que sentia. Ao ouvi-lo, a garota, arrogante, disse que jamais ficaria com um "vagabundo" como ele que, precipitadamente, tinha acabado de surrar o filho do mais nobre político da cidade. Ela queria dinheiro.

      Romeu, desapontado, decidiu ser fiel a seus sentimentos. Foi roubar algo de grande valor para sua querida. Conseguiu uma coroa única de diamantes, exposta em uma galeria de artes. Assalto ousado que lhe rendeu um confronto com a polícia.
      Romeu foi baleado mas ainda não morreu. Correu até os braços de sua amada e entregou-lhe a joia.
      Quando viu sangue, Eugênia o empurrou para a rua e gritou o mais alto que podia. Porém, agarrou-lhe a coroa e a escondeu na sua sala. 
      Romeu morreu, ali na calçada.

      Policiais chegaran e um circo midiático foi montado à sua porta.
      "Moça, você está bem?"
      "Sim, obrigada. Esse homem tentou me assaltar. Ele chegou ferido, quase arrombou a porta, anunciou o assalto e morreu."
      "A senhora encontrou algum objeto com ele?"
      "Não"
      E ela saiu daquele tumulto com um olhar de terror que foi se desfazendo a cada passada.


ANO: 1993

121

POEMA

Tive, um dia,
um poema
que falava de alegria
magia, sinfonia,
mas a nostalgia
de tudo que via
brilhava irritantemente
sem saber que a gente
quer muito mais


ANO: 1999
117

Comentários (6)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Ademir domingos zanotelli.
Ademir domingos zanotelli.

Minha cara poetiza Carol Ortiz - quanto tempo.... menina ... até que enfim nos conectamos... seu texto é maravilhosamente contundente... como esta você.... está bem de saúde... está viajando muito.... me visite menina... estava com saudade de você no Escrita . org. vê se faz alguns poemas para nós.... manina já estou com 1.840 textos escritos. fui indicado para compor o pessoal de Poesias para as escolas Br. em outubro do ano passado.... vamos ver o que vai dar. abraços. é bom saber que estas bem... me visite aqui no site... Ademir o poeta. rsrsrsrsrsr. até mais.

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli

Minha cara Poetisa. Carol Ortiz - teus texxtos poéticos , estou sempre a lelos - em lembranaças de Infância. e cheia de incertezas e de amores... cortados em pedaços certos e errados. a infância ainda é de lembranças alegres. mesmos com sonhos não realizados. a não ser é claro quando sofremos violencias intimas. abaços de seu seguidor ademir.

Olá Carol Poetisa... Boa noite, certamente este mundo não é tão banal... mas os anjos de Istambul ...voam em formas de arco-iris na plenitude de teu imaginário poético. felicidades.

Olá Carol Poetisa.... Boa noite.... certamente que marte é por aqui , seu jeito de esquecer e poético. abraços. de seu sempre admirador. ademir.

Minha Cara e Grande Poetisa.... seus contos e poesias, são deslumbrantes, menina você é demais , me sinto bem pequenino no que tuas mãos escrevem. felicidades. e muitos amores seus versos irão conquistar. abraços e sejas muito feliz.