Vapor barato
De cima abaixo a me ver
olhos nos olhos, não
cá à parte
ter com o juízo das gentes
jamais me interessou.
Deitei a perder-me, pois
e, por princípio,
enveredar rota de fuga
a desviar de Carlo(s),
de olhos de boi
a ser ou não ser qualquer
você
quem foi
e dar-me a conselhos
de doutores.
Óh diamante, peço
tomar-me por sua, de luar
sem brilho ou fulgor
óh rua de um
dia que nunca
raiou.
Quisera-me destino e queda
infinda, que em
vão de ensaio serve
ao verde e adiado verão.
Será por viés
de todos por ninguém, em
desigual desacordo
à disposição
não sermos de nós o que
de si incapazes
formos.
Porque errantes, contraparte
prisioneira de toda opinião
houvéramos de seguir ocos
confeitos, bolos de televisão.
Invoco e conclamo
enluaradas almas
de jaula despir-se as grades
no mais das vezes
de amizades
amores
canções.
Carecemos é de escutar
distintas vozes,
idiomas interiores
de toda espécie.
Pastores
de nós mesmos
sim, reuniremos
rebanho próprio.
(quem dera por
sortilégio)
há de ser
por deveras consternação.|
Desceremos montes
serras
de deuses em seus caixões.
Dia, se houver, espere-o para depois
Sonho de ontem
lembrarei anos adiante
do esquecimento
de viver em paz.
Recordação assaz
presente
sentimento que
ao braço traz
memória
de obra por se construir
de si, mentora.
Desprovida de
parafusos porcas, tarraxas
de graça duvidosa
obra sem idade, de
felicidade torta.
Ressente, jamais
hora alguma
do viver que está por vir
lacuna entre mim
e ti de tudo que é
sem o ter sido dia
sequer.
Que à cada hora faz
reclame de dias
antes, mendicante de
afago.
E qual por trago
sorvido
recorda
porque entre
estar, partir
preferiu apenas
ser, não mais
ter sentido.
Nunca pertencente
desde ventre antes
prosa
dentro de coliseu
que de nossa feita
história mal
contada
arrefece.
Que verso algum
do que lhe sucede
ostenta.
Filha que cedo levanta
e quando dorme, a sonham
Deuses de Atlanta.
Cinquenta talvez
ou dois menores.
Quem saberá?
Você, não eu.
Terra me leve primeiro
e não permita de letras
degredo, premido sono
que é desassossego
do povo que não tem
própria palavra
com a qual se identifique.
Morto pela cega
cultura que à altura
eleva néscio
e coroa sandeus.
Poesia, que é afinal?
Por fora estou
o que sou por dentro
incompreensão.
Poesia é
maneira de estar comigo
o mundo inteiro
solidão.
Sem rima
ou artifício que de si construa
poesia que não é
de qualquer um
rouquidão
crua.
Poesia que para o ego
é prego posto no caixão
aos permanentes
ébrios, desfeita métrica vida.
A poesia, se a quis mais
querida companheira
desilusão
foi
palma primeira, pois.
Namorada que não
se esquece, beijo
vil
paixão
que terra
deste gentio, a cova
deste por sertão.
Poesia sempre silêncio
boca de Latrão.
Segredo de nossas preces
O segredo da prece, verdade é
Deus condena quem
assina divisão da cruz às
costas.
Perdoa a quem dá
outrem a coça
pois que em cada qual é
sina, aprender por erro
experiência e fadiga
– vaga e extensa insolação.
Você, à volta com novena, ponha
fé na tabuada que lhe
consome, mal completa
jornada, irreal o real.
Peça nada ao santo; orçamento
de milagre, é faltar-lhe com
respeito.
Fica a cachaça ao balcão de
sonhos fins, e dos
pulmões tosse pigarro, presságio
ruim.
(você ainda à volta da tarde, noite
infinda, rouca de saudades de
menina, que é João).
Seja a sorte se não
for, nada a ver com lance
algum; crédito à mão
de vista grossa o
desjejum, benzido amor
pagão.
Há de oculto em toda prece
mentira que a gente nega.
Cicatriz da carne fraca, que
feliz guarda Araci, porque mulher
consorte de homem que
a maltrata, diz assim é
o macho
ela condiz.
Talvez passado
humano, de tempos
costume vassalo; em dia
de hoje sem
poder de prece
leão à cova ausente
a regurgitar
preceitos de bem querer:
Daniel:
– segredo da prece, não sei
decerto a alma conta;
sejam lágrimas do rosário, ou
reza de Francisca à mesa
posta
quando ainda é madrugada, e
filho quer café mais
palavra à entrevista
e hora já cadente,
deseja espaldar o
firmamento não, quer
estrelas pelo chão vir
semear.
Pressa antiga, prece nova
queira de mim seu duvidar.
Importa que
deidades mundanas ouçam
cantiga de língua morta?
Lendas que se confrontam
e desamor de quem um
dia fez-te mar?
Segredo e prece é
de avó; sequer o
Padre Nosso – cuja
grandeza é maior – se vasculha
aos cabelos seus; preceitos
quais piolhos da trama
esconde-esconde
mandinga, que a
terra parasita descorçoa
à prazo, à vista, que
diferença tem?
Quer anciã, escuta
atenta dos versos, nada
além.
Pois prece nenhuma recupera
gênio bom.
Prece perdida é
aquela feita, ingratidão.
Profanar deidades assentadas
à guisa de encosto, que de
Cafarnaum à Santa Sé
fez desgosto só
dessa fé trabalhadeira.
Pois que cuíca
de santos filha
ginga-gingante à ladeira
venha me condecorar
sorrindo.
Oremos, rezemos mundos
desdigamos enfim, anos
passados, porvir
Serafins.
Sejam preces de contas, de faz
de conta, de cor, de
sermão
bem-vindas serão todas
que segredo de prece
existe, às vezes não.
Afinal, Deus se fazer ouvir por
todas, quer saiba sua
religião, quer não
exista Deus, se desista em
vão do mistério – ateu (!)
O segredo da
prece, quem tiver o
traga à pele esfolada,
seja ou não Bartolomeu.
E prece será fé que
ditará, cantará
espanto assombro
devoção.
Da roseira, segredo
espinho que a
proteja contra
o que a per-rodeia
oração;
mistério que alma
traz consigo, e quer
batam os sinos,
direi sempre comigo
– não morreu.
Consternação de Sorrento
Mundo visto inteiro
sem nunca o desejar
vistas cerradas à janela
pretérito passar
quando dia não dormiu
embora lua sol risonha
faça companhia Dalva,
estranha porcelana.
Sim, a essa primeira que
cintila manhã noitinha,
a mucama pisca-piscar
à toa – teorema, moça ainda;
Pasolini, monumento catedral
a ninguém oferecer culto (réquiem).
Que é feito de nós?
Janelas quero para divisa,
e concessão ao espírito,
por quais, íntimo de si,
o céu alcance.
E que por instantes aí
debruce, e
grassem à sua vista
saudades; ou quiçá
se despeça, e não recupere
memória de outrem.
Destarte, nesse vaivém
não me maltrate, e antes comigo
repita provérbios de bem querença.
Porque carece
por mundos quais forem
de alavancas, o ser de nós,
senão enguiça, perde-se enfim
em cobiças sem termo, ou
espelho com o qual
refletir.
É, afinal, construção, a
obra do espírito; de portas
não se salvará, fechadas ou
abertas, conforme a necessidade.
Assoalho, telhado por qual andar e
cobrir-se, quando a mente de
sustentação... (o corpo
de abrigo) reclamem,
e minh'alma, em
zigue-zague, desça as escadas
a podar as avencas
que ornam o saguão, pois
chuva vem.
E depois voltará o sol, demais
estrelas que trará, a noite,
se a poluição da São Paulo de meus dias
permitir, e quiser delas me enamorar.
À bem da verdade, nem da metrópole, ou
do interior (céu), depende
alçar aos astros:
quer perto, distante de
nós se encontrem
conforme o caso de
nossas persianas particulares fecharmos, ou
visão lhe concedermos.
Assim é que é, foi e será - penso
e não nego.
Um brinde, portanto, àquele chegado
que não vejo há tempos, e
agora é vindo.
Sobrou prosa de nós, assunto
no entanto, jamais.
Nós, que de nós somos por
vezes, todos queridos;
por outras prisão
Alcatraz.
Quisera saber que é, paixão
Paixão recolhida, feito semente
que a terra acolhe,
desabrocha em flor (se bem nutrida)
para, quem sabe, colibri
roubar-lhe o beijo, que
noivo além-mar deseja.
Quem sabe - eu não sei.
Maligno, o renegado sentimento
retorna à face; petrifica quem
seus olhos cruze; Medusa
amante de carente espírito
qualquer, que pelo mundo, vivo
vaga errante e
moribundo.
Predileto, sim, tem sido
o declarado amor que,
de rubor, cobre o
semblante de amantes despudorados,
ciosos de sua inocente
vaidade, flagrada.
Seja como for, imortais serão (para sempre)
os desejos múltiplos que vêm
assaltar
os incautos heróis do mundo
ordinário
onde tudo é senão,
pois sim, ou
quem sabe, moça,
rapazes
mulheres, homens.
- A nós todos que, embora
mal resolvidos abdome acima,
no mais das vezes, cá estamos dispostos ao
efeito de toda a
causa, cintura abaixo.
E eu continuo sem saber
quem o sabe - e
não me importa; é certo
para quem me conhece e crê.
Bastam-me apenas os
sentimentos que
meu mundo, de toda cor
a realidade plasmam, quando a noite já
é vinda, ainda à
tarde; ou se
amanhece sem me deixarem
vivas
alegorias com as quais pernoitei
mais uma vez.
Grata constatação
Sim, eu não pertenço a esse mundo que,
desvirtuado pela banalidade ébria
das razões de não ser mais
perfaz-se nas desrazões das gentes - que,
de tanto querer, podem com nada
- quando ainda é madrugada
e não sonham, mas
se agitam - como quem trabalha,
- se acordados dormem
a vida débia, dias sem fim.
Sou esse que deu pra ruim
e se alegra por nada ser, e que,
porém, está em todo lugar,
sem precisar sair ou entrar.