Sou quem talvez eu for
Futuro do pretérito
vista pelos olhos sentados na calçada
centavos de uma vida à escondida
Morte e Vida Severina, retirante.
Sorte truncada dias antes
revés de amante e sentinela
que é livre, embora cela
de vida próxima e distante.
Um cigarro solto e raro
provérbio que de mim faço sorteio
farto de si e de mim carente
talvez alegre, nunca somente.
Todo o itinerário
de viagem sem partida.
Foto sem dedicatória, antiga
cartão postal de terra à vista
casta meretriz de um libertino
que me deixa só, gemido vivo.
Nada disso sou e tudo
vida descida de um muro
erguido quando desmorona construção
sou seu e não o meu irmão.
Sou quem talvez eu for
sem jamais ter sido
morte de um domingo
quando não é sol, manhã
Mudo sentido e prosa
De razão bêbado e trôpego
recobro o juízo ao menos - minto
é a verdade o oposto de um domingo
onde alma se pinta de queda, ideais.
Ambíguo sol ilumina e cega
o abrigo, que de feras, toca
flauta música e hipnose
aquece e queima febre terçã.
Sempre amanhã em alma toda
cada segundo de passado surdo
que me escuta e sonha presente.
Parente, que de ancestral, é ponta
um iceberg de faz de conta
vara e cordão de irmão madrinha
véspera de Questão Coimbrã.
Põe-se mão à cabeça de telhado
e calha abaixo o suspiro terra freme,
zune chaminé diamante costume
e novo evoé o penar escreve.
Somos todos Salomé
quando alma alguma se atreve
questionar a Santa Sé.
Alma pois, almas, novas as mesmas
novenas se põe trabalhador
e pouco é dor que de si trata.
Barata a mão de obra
de autor fama conquista
será entanto nova a terra
que sambista sente e toca.
Eu hoje à luta vou
que muita roupa à linguagem se deu;
entanto a pena do corpo é morta
embora vivo o santo do ateu.
Onde eu volto é sempre
Um carretel de linha despenteia
uma trança de reflexões e sentimentos;
quem dera feições de primavera revolvesse
ainda que tessitura cobrasse depois.
Trama de fios, artérias a desconectar paixão
de um órgão qualquer ventríloquo
sem ideia de propagação, requer
interesse e desafio no palpitar do sono.
Sonho no dormir de abraço e nego
dia quem me desse pente escova
impossibilidades de malas postas
com as quais traços se remova.
Dia que noite fosse enfim luar
estrelas costuradas lantejoulas botões
matemática canção de firmamento
desconjuradas suas notas musicais, senões.
Que vida é silêncio e verbo
sorriso quando o chão nos falta
e beijo nos toma raro o momento
de luz e sombra, revelação e mistério.
Tudo o mais descondero e creio
de azul o céu reconfigurado
banidos os raios da manhã
em um sonho ensimesmado.
Tranca de penteado recomposta
espádua coxas costas
de volta o lugar quem mim se perde
portões puídos janelas de verão.
Nunca solidão se faz prosa contínua
de amiga de um instante sem concerto
que de amor jardim efeito avesso
onde almas se despem de joelhos.
Perdão que se reza a si mesmo
quando tudo é saudade e recomeço
espelho com o qual se fala por inteiro
a existência vivida aos pedaços.
E eu felino de garras pinto a canção
que fio de carretel põe-me a enrolar;
se tardo ou se é pobre sensação
olhar divaga recordação Niemeyer.
Sólida, corpos depois de embriagar
arquitetura quer a trama dos cabelos
de volta e de viés mesmo lugar.
Sempre seu colo, carretel novelo
nos quais debruço os cotovelos
e alma ponho alinhavar meu mar.
Retrocesso vitral
Às pressas, o cotidiano passa soberano
e cá dentro de nós se presta a trabalhar;
quantas vezes é entanto fadiga apenas - pranto
o crepitar da chama de um bico de gás
que acaba antes de feijão pronto estar?
Ter o que conversar consigo temos todos
embora não nos concedamos ocasião
quando de ouvir internas contraindicações
calamos possível condenação ao céu da boca.
Que íntimo labor custa alpendre e precipício
sobre os quais debruçar e por à prosa vertigem,
alpiste a espalhar aos passarinhos à espreita
que de vegetação humana espera frutos granjear.
Sou acometido de toda sorte de bichos, é verdade
e possibilidade de grilagem faz-se sempre
se me sucedem enchentes à paisagem interior.
Itinerante, a vida surge de repente
em espaçadas tentativas de aproximação sútil
desfere-me uma bofetada à cara
que me acorda de anos inteiros sem dormir.
Dormindo, posso contemplar-me o infinito
ter conversa com o Deus que me permito
exista ou não este eu superior.
Cerro as persianas da vidraça
minha vista embaça a alma
enxergo-me senão desforra.
Veleidades postas à parte
fica do mundo então saudades
dos dias tantas vezes de mim banido.
Eu, este livro de recusa e comunhão
faz-se de assombro e luz
abertas portas ao hospício.
E que desmente insana realidade
seduz e ama a mais disparatada
contraparte, despojada de serviço.
É sapatada essa vida cotidiana
que nos levanta ao deitar-se em nossa cama
recolhendo-se para se cobrir de nosso sonhos
e desesperos, com chute nos traseiros
obrigando-nos a empreitada.
E sempre madrugada, de um maio mês
e noiva - essa hora faceira, cuja aliança
nos cobra , diz que nos ama, e desarma.
Vim ter-lhe com a família, desposar
a sua gente e dela fazer minha consorte
felizmente antes me deteve a enfermidade
a tempo de conhecer-lhe vaidade insã
de astúcia e melindres, ressentimentos.
Nunca me quisera por companheiro
eu que de mim propus casamento
perante um altar que guardei na memória.
Pois daqui vou-me embora
eu que nasci para ser de fevereiro
a aleluia de todo Judas de sorte barata.
Vou-me e será para a glória
de quem se retira dessa terra
e se recolhe em paranoias.
Parto contente e agradecido
os revezes de amigo de muita gente
poucas sérias.
Serão férias para meu ano derradeiro
o primeiro de um terço
que houvera esquecido
e ao relento despertou-me.
Vou com Deus
tarde, é certeza
vou por toda a vida
ser de mim minha comida
café sobremesa.
Constelação de nós e de estrelas da manhã, passados
Enredo pouco compreendo
com os quais nesses retratos me encontro
seja o mesmo ou outro de mim
que os configura
pois meus já eram os sapatos calçados
quando me pus a caminhar
e rica a favela e pintura
que tomou minha alma por esposa.
Novela de assunto estéril
personagem dúbia e protagonista
faz de nós caricatura
e põe a acordar os pesadelos
ao que se contenta com perdão ligeiro
às confissões precárias de terço à mão
e muito cartucho à cintura.
Trazemos o olhar afora
no receio de que à volta estejam os demais
testemunha do todo que se mente e embota
aos parcos sentidos de tudo, e de ninguém.
Assim se expõe nessa galeria, pinturas não
confeitarias, que a gula faz comer
ainda que se tenha medo
de ser envenenado por instantes de prazer.
Absurdo é ter por merecer (confesso)
a reputação à prova
de todo o que tem somente a esconder
de si e do outro.
Nunca fui de guardar segredo
tenho feridas em relevo
que me orgulho de as ver sorrir.
Vida mesma é candelabro
velas postas em circunflexo acento
pastel de vento, maçã.
Visa sempre o amanhã
sem cuidar do dia de hoje
a enterrar os dias que se recusou viver.
É uma espécie de oratório
oferenda ou velório
de gente que dorme no quando
sono não lhe pertence mais.
Contenta-se com pouco e canta
vitórias com tanto encanto
a deixar-se enganar o santo
que a reza crer, satisfaz.
Sem paciência, e desespero
na gana de verdadeiro desejo
de ser tudo e capaz.
Tem desprezo por inteiro
de todo quem se expõe receios
que alma vã atrai.
Sou diferente em nada
um desses e todos juntos
que bate atrás de si a porta
e segue adiante, vagabundo.
Contudo às vezes consciente
bato e bato contente
portas que não quero ver abertas.
Pois que dão em salas antevistas
de mesmas caras e sentimentos
com deméritos e unguentos
desvelados de paixão.
Prefiro dessa maneira
não os ter à cabeceira
a guisa de ostentação.
E à vida itinerante
sempre esboço e avante
de cada um de nós
é que me faz de
gato e sapato
põe-me a lavar pratos
sem me dar água ou sabão.
Essa louça rude e precária
dessa fome temerária que faz
de mim e de você
entidades esfomeadas
de pernas cruzadas à beira da estrada
quando o sol levante e chama
- venham gente
venham agora e sem demora
façam valer a escolha e história
que de si vantagens conta
e as contas façam todos
se há razão ou distorção
na soma e subtração
do que se apaga ou pinta.
Sejam as cores dessa paisagem
vida nova ou tempestade
de outro inverno, verão.
Mas sejam cores intensas
com as quais se reclama verossimilhança
à cama posta na varanda
quando brisa morna agita
folhas dessa vegetação agreste
que vem o sol, a peste
de bichas cobrir-lhe
a pintura e restinga.
Mofina escultura de povo
sem opinião ou identidade
que faz de tudo espetáculo
haja graça, drama ou seja
banalidade.
Nada além de tédio da existência
quando se tem noventa aos vinte e sete
e muita virilidade na velhice
que mal dá conta da sandice
de o próprio nome esquecer.
Nós que de viver nos cansamos
mal saídos da infância
amamos e casamos, por dinheiro
importa se para o mundo inteiro, pouco
ou pra se dividir o desgosto
e somar as prestações.
Somos nós sempre os mesmos
desejosos de ser diferente
toda e qualquer gente
que não seja eu ou você.
Pomos vistas aos retratos
de barões calçamos os sapatos
e o resto fica para depois.
Diamantes, palavras e cascalhos
Que dia será, poeta
pergunta à beira do riacho,
lavadeira de tacho na cabaça,
muitas as roupas,
e pouco o sabão nas mãos.
Pergunta que me desata
às palavras desditas, o incerto nó
empregado, quando imprevista é a hora
e certeira a dúvida do vocábulo só.
Eu, que das palavras desejo ser
lavrador, temo a dó
e arada terra semear com deserta
flor - sob gorjeio de rouxinóis
- e que é saudade,
uma caduca, já murcha flor em botão.
Palavras requisitam quarar,
decifrar-lhe sentidos ocultos
de corações vagabundos
que o mundo guarda para si.
São pequenas palavras apenas,
entre as quais se esconde
mudo e grande sentimento
que a felicidade se pôs a extorquir.
Essa arte e pormenor, pensamentos
dispersos e cisma com os quais
canções se criam, bordadeiras
tecem confissões
compõe-se de instantes fúlgidos,
os quais, de manhã, vidraça de janela
embaçam
quando tudo é ainda sonho
fantasia idem
com outrora rua do Ouvidor,
que é a mesma e não mais existe.
De hiatos é feita a empreitada
cujo destino de mim se esqueceu,
qual pena indistinta imposta aos lábios
por beijos que não serão meus.
Segue trabalhadeira a sua rotina
e traz as águas dos rios ao ofício cotidiano.
E a resposta para sua pergunta calou-me, sabe;
e não se sabe por onde ou quantos anos.
Evoé de primavera
Legado de minha alma e chiste
de forma dura, prosódia ideia
pôs-se ao quintal da cultura
fez-se ouvir às galeras.
Claras de Candeia, é Portela
de samba sambista e passarela bamba
que cantam e pedem passagem
versos sem alma e gana.
Sai às ruas e põe afora goela
já é vinda a manhã
de novo setembro.
Descuido algum faz panela
de Amélia que à cozinha
trouxe novos mundos
Baptiste
Despeça guia
ao andar por Calcutá
que traço de poema sem reflexão
é sujeira de debaixo do tapete
para tristeza de qualquer ladrão.
Se me ponho à faxina e verbos
recupero, alegria é de dona de casa
divã de corpo e copo são.
Pessoa talvez heteronímia
a praga deite ao meu renego
de cansaço
furto de consciência e cangaço
de economia escrivã.
Desde voluntária servidão, mercê
ao coveiro de defuntas palavras
é requerer feitiço posto ao escovão
à memória de revólver na cintura,
sem conta alguma,
Maria Bonita sem Lampião.
Transcrevo de interrogação o ponto
à exaustão, de ouvido
sem ideia compreender
a alma, sequer sentido
de interrogação.
E desse mudo sentimento falo
pouco ou quase nada
sua prosa é contígua sorte
e morte de interdita cultura.
Oral procissão decifrando as alamedas
desce à praça, ode conversa
onde cantam sertanejas monções
às criaturas.
Faz-se chuva-canções de todo morto,
de mim faz porto, qual seguro e improvável canal
eu Suez
interliga desertos povos
sem comunicação, e de surdas divindades,
mote para cartas à mesa postas
e novo baralho às mãos.
Eu sofreguidão, serenata
de gente cuja inata noção é pouca
nenhuma
Ester a por dormir
noite, que sobre nós recai
carrossel de contradições
Jesus...
Faz-se mister
descê-lo da cruz.
Lesa religiosa e moral, que se chama?
Um camarada, cujo espanto carece de
juízo e entendimento
chama obra de pomba gira
os versos dispostos em assentamento
Pois lhe apresento:
Dona pomba gira letrada!
Recebe na encruzilhada
Neruda oferenda
Rosas e Guimarães, Noel.
Não fuma cigarro
ou bebe champanhe
porque faz do turíbulo, cigarro
Notre-Dame, catedral;
e do mar de flutuante espuma
mata a sede ancestral.
Vem por sal grosso (assunto)
à porta de casa, é pedido
que a Iemanjá em mim, defunto
sob o mar suas lágrimas (jazigo)
- boiadeiro o sal, o churrasco
têmpera ao som de Antero e Fundo de Quintal.
Frango com farofa
seja bom ou não (despacho)
é souvenir; de eixo poema
e tira-teima.
Desgosto que seja próxima
rodada a sua, da próxima... em diante.
Suas as cadeiras, cansadas
rezam mendicantes
a ranger mais que
as portas do inferno, às caveiras
Dante.
Não lhe direi, ôh pobre...
chega nunca sua vez,
não é verdade?
Ambos louvaremos um depois
seja qual for, sorte ou sortilégio
armagedom de núpcias
com o cemitério.
E à madrugada, notívago
orvalho de sua gente me espanta
quando mundo, mundo gira
evoé e prece que
língua enrola na garganta,
dança a pomba gira, e canta.
Creio em Deus Pai!
Toma e lê, compadre - a dica
é antiga, e voz que Augustinho,
quando veio a conversão, ouviu.
Bom proveito,
tens de bandeja o prato feito!
Pomba gira letrada faz
companhia à refeição.
Seu ponto de força finca
à biblioteca,
embora seja analfabeta,
e à estrada muitas se encontram.
Estejam suas portas cerradas,
não cisme:
há download em PDF
siga firme.
Se há religião?
Se ateu ou Prometeu qualquer
no quando fogo?
Toma e lê com que
o espírito aquecer, quiçá
alumiar quebranto.