Daniel Castro

Daniel Castro

n. 1976 BR BR

n. 1976-07-25, Atibaia

Perfil
8 743 Visualizações

Baptiste

Despeça guia
ao andar por Calcutá
que traço de poema sem reflexão
é sujeira de debaixo do tapete
para tristeza de qualquer ladrão.

Se me ponho à faxina e verbos
recupero, alegria é de dona de casa
divã de corpo e copo são.

Pessoa talvez heteronímia
a praga deite ao meu renego
de cansaço
furto de consciência e cangaço
de economia escrivã.

Desde voluntária servidão, mercê
ao coveiro de defuntas palavras
é requerer feitiço posto ao escovão

à memória de revólver na cintura,
sem conta alguma,
Maria Bonita sem Lampião.

Transcrevo de interrogação o ponto
à exaustão, de ouvido
sem ideia compreender
a alma, sequer sentido
de interrogação.

E desse mudo sentimento falo
pouco ou quase nada
sua prosa é contígua sorte
e morte de interdita cultura.

Oral procissão decifrando as alamedas
desce à praça, ode conversa
onde cantam sertanejas monções

às criaturas.

Faz-se chuva-canções de todo morto,
de mim faz porto, qual seguro e improvável canal
eu Suez

interliga desertos povos
sem comunicação, e de surdas divindades,
mote para cartas à mesa postas
e novo baralho às mãos.

Eu sofreguidão, serenata
de gente cuja inata noção é pouca
nenhuma

Ester a por dormir
noite, que sobre nós recai
carrossel de contradições
Jesus...

Faz-se mister
descê-lo da cruz.
Ler poema completo

Poemas

33

Cálculos Gaia

Vida
espelho e cachoeira
onde se contempla e
banha, Oxum

corre para o mar amar
as gentes, e terra,
que entranha adentro
somos mesmos um.

Estranha o pensamento e
vaga campinas
deste nosso sertão e mundo

amolando o fio que
o vento corta
quanto mais estou
de vocês
perto.

São
desertos que areia beija
esconde e enterra

segredos de peito
aberto, que se revelam
verso ao reverso

nesse ensejo e fevereiro de todo
domingo, estação
que bruxa sabá impõe
e reza

quaresma
rito pagão.

Destino da terra, que
quarentena sabiá canta
Cantão

não saberemos
quão longínquo, de antemão.
302

Essa má poesia

301

Recadinho de mim

Um recadinho pra quem me lê
ou depara com esses pensamentos soltos
que no Face eu vou botando

- na rima:


Eu cá escrevendo à toa
brincando com sérios versos
considere por provérbio, que
o que escrevo é inacabado.

Tudo está por revisar
caso nisso haja pretexto.

Porque escrever é nada mais, por hora
que minha escolha de solidão.

Como fazer bolo, por roupas pra secar
lavar banheiro e arear panelas...

Ou mesmo o gato por pra mijar
(eu, que nem gato tenho).

E que é contudo
melhor que pinga com limão
pelo menos pra mim
filho de um novo fevereiro.

Seja o que tiver que ser
estar, estou
vida irreversível
por se revisar e reconsiderar
sem que em momento algum
seja isso possível

315

Suspensas considerações

Uma coisa é certa
quanto ao não me haver dado
de antemão ou solução
vida feita cadeado.

Predicado,
descoberta rota
não mais que interpretação,

- de viver
não aprendo é nada.

Janeiro é todo mês
surpresa e prova
de nota nunca igual.

E a namorar Severina
que me deixei à estação
onde trem passa, também

prosa
rima qual converso,
ateu

flores muitas de açucena
Rosas, que recolhi
ao léu.

Sigo adiante brejo
adentro, beijo príncipes
sem cetro e coroa

recupero fôlego
limão
que me adoça a boca.

Tenho frágil a nuca
ao abraço desta vida inteira
e nua
que pelos meus
arrepia, ais ruas afora ecoa.
315

Que penso de ser

Jurado para morrer de amor, vivo
de amar o tanto que de mim resta
- que é festa

e no enquanto da banda que
passa, toca e dança.

E da sorte desejo apenas
que morte alguma me poupe a dor

que vive a morrer para a graça
de ser feliz em meu destemor
241

Vapor barato

De cima abaixo a me ver
olhos nos olhos, não

cá à parte

ter com o juízo das gentes
jamais me interessou.

Deitei a perder-me, pois

e, por princípio,
enveredar rota de fuga
a desviar de Carlo(s),
de olhos de boi

a ser ou não ser qualquer
você

quem foi

e dar-me a conselhos
de doutores.

Óh diamante, peço
tomar-me por sua, de luar
sem brilho ou fulgor

óh rua de um
dia que nunca
raiou.

Quisera-me destino e queda
infinda, que em
vão de ensaio serve
ao verde e adiado verão.

Será por viés
de todos por ninguém, em
desigual desacordo
à disposição
não sermos de nós o que
de si incapazes
formos.

Porque errantes, contraparte
prisioneira de toda opinião
houvéramos de seguir ocos
confeitos, bolos de televisão.

Invoco e conclamo
enluaradas almas
de jaula despir-se as grades
no mais das vezes
de amizades
amores
canções.

Carecemos é de escutar
distintas vozes,
idiomas interiores

de toda espécie.

Pastores
de nós mesmos
sim, reuniremos
rebanho próprio.

(quem dera por
sortilégio)

há de ser
por deveras consternação.|

Desceremos montes
serras
de deuses em seus caixões.

251

Dia, se houver, espere-o para depois

Sonho de ontem
lembrarei anos adiante
do esquecimento
de viver em paz.

Recordação assaz
presente
sentimento que
ao braço traz

memória

de obra por se construir
de si, mentora.

Desprovida de
parafusos porcas, tarraxas
de graça duvidosa

obra sem idade, de
felicidade torta.

Ressente, jamais
hora alguma
do viver que está por vir

lacuna entre mim
e ti de tudo que é
sem o ter sido dia
sequer.

Que à cada hora faz
reclame de dias
antes, mendicante de
afago.

E qual por trago
sorvido
recorda
porque entre
estar, partir
preferiu apenas
ser, não mais
ter sentido.

Nunca pertencente
desde ventre antes
prosa

dentro de coliseu

que de nossa feita
história mal
contada
arrefece.

Que verso algum
do que lhe sucede
ostenta.

Filha que cedo levanta
e quando dorme, a sonham
Deuses de Atlanta.

Cinquenta talvez
ou dois menores.

Quem saberá?

Você, não eu.

Terra me leve primeiro
e não permita de letras
degredo, premido sono

que é desassossego
do povo que não tem
própria palavra
com a qual se identifique.

Morto pela cega
cultura que à altura
eleva néscio

e coroa sandeus.

 

 

256

Poesia, que é afinal?

Por fora estou
o que sou por dentro

incompreensão.

Poesia é
maneira de estar comigo
o mundo inteiro


solidão.

Sem rima
ou artifício que de si construa

poesia que não é
de qualquer um
rouquidão
crua.

Poesia que para o ego
é prego posto no caixão

aos permanentes
ébrios, desfeita métrica vida.

A poesia, se a quis mais
querida companheira
desilusão

foi
palma primeira, pois.


Namorada que não
se esquece, beijo
vil

paixão


que terra
deste gentio, a cova
deste por sertão.


Poesia sempre silêncio
boca de Latrão.

274

Segredo de nossas preces

O segredo da prece, verdade é
Deus condena quem
assina divisão da cruz às
costas.

Perdoa a quem dá
outrem a coça

pois que em cada qual é
sina, aprender por erro
experiência e fadiga

– vaga e extensa insolação.

Você, à volta com novena, ponha
fé na tabuada que lhe
consome, mal completa
jornada, irreal o real.

Peça nada ao santo; orçamento
de milagre, é faltar-lhe com
respeito.

Fica a cachaça ao balcão de
sonhos fins, e dos
pulmões tosse pigarro, presságio
ruim.

(você ainda à volta da tarde, noite
infinda, rouca de saudades de
menina, que é João).

Seja a sorte se não
for, nada a ver com lance
algum; crédito à mão
de vista grossa o
desjejum, benzido amor
pagão.

Há de oculto em toda prece
mentira que a gente nega.

Cicatriz da carne fraca, que
feliz guarda Araci, porque mulher
consorte de homem que
a maltrata, diz assim é
o macho

ela condiz.

Talvez passado
humano, de tempos
costume vassalo; em dia
de hoje sem
poder de prece

leão à cova ausente
a regurgitar
preceitos de bem querer:

Daniel:

– segredo da prece, não sei
decerto a alma conta;
sejam lágrimas do rosário, ou
reza de Francisca à mesa
posta

quando ainda é madrugada, e
filho quer café mais
palavra à entrevista

e hora já cadente,
deseja espaldar o
firmamento não, quer
estrelas pelo chão vir
semear.

Pressa antiga, prece nova
queira de mim seu duvidar.

Importa que
deidades mundanas ouçam
cantiga de língua morta?

Lendas que se confrontam
e desamor de quem um
dia fez-te mar?

Segredo e prece é
de avó; sequer o
Padre Nosso – cuja
grandeza é maior – se vasculha
aos cabelos seus; preceitos
quais piolhos da trama
esconde-esconde
mandinga, que a
terra parasita descorçoa

à prazo, à vista, que
diferença tem?

Quer anciã, escuta
atenta dos versos, nada
além.

Pois prece nenhuma recupera
gênio bom.

Prece perdida é
aquela feita, ingratidão.

Profanar deidades assentadas
à guisa de encosto, que de
Cafarnaum à Santa Sé
fez desgosto só

dessa fé trabalhadeira.

Pois que cuíca
de santos filha
ginga-gingante à ladeira
venha me condecorar
sorrindo.

Oremos, rezemos mundos
desdigamos enfim, anos
passados, porvir
Serafins.

Sejam preces de contas, de faz
de conta, de cor, de
sermão

bem-vindas serão todas

que segredo de prece
existe, às vezes não.

Afinal, Deus se fazer ouvir por
todas, quer saiba sua
religião, quer não

exista Deus, se desista em
vão do mistério – ateu (!)

O segredo da
prece, quem tiver o
traga à pele esfolada,
seja ou não Bartolomeu.

E prece será fé que
ditará, cantará
espanto assombro
devoção.

Da roseira, segredo
espinho que a
proteja contra
o que a per-rodeia
oração;

mistério que alma
traz consigo, e quer
batam os sinos,
direi sempre comigo

– não morreu.
336

Consternação de Sorrento

Mundo visto inteiro
sem nunca o desejar
vistas cerradas à janela
pretérito passar

quando dia não dormiu
embora lua sol risonha
faça companhia Dalva,
estranha porcelana.

Sim, a essa primeira que
cintila manhã noitinha,
a mucama pisca-piscar

à toa – teorema, moça ainda;

Pasolini, monumento catedral
a ninguém oferecer culto (réquiem).
293

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.