dojja2020

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n. 1969 BR BR

Escritor e poeta brasileiro, nascido em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, aborda temas complexos existenciais, com lirismo contemporâneo, servindo-se de metáforas e de uma simbologia peculiar ao retratar pela palavra o sentir. Membro da Academia America de Poetas.

n. 1969-09-18, Porto Alegre

Perfil
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Brincadeira da Arvore

Brincadeira da Árvore

Certo dia, um menino perguntou-me,
Se eu sabia brincar de árvore.
E começou explicando-me:

- Primeiro a gente pinta nos galhos,
os nomes das pessoas que gosta.
Depois, escreve nas folhas palavras,
Como ternura, abraço, encantamento.

Também acrescentou que pode-se deixar água,
De cor amarela rio para que a árvore se descreva,
Mas nenhuma árvore é desigual a outra,
e todas sabem falar com a terra.

Contei para ele que eu brincava de estrela viva.
Era assim: Minha mãe desenhou uma estrela,
E colocou numa caixa alaranjada de madeira.
Ensinou-me que deveria toda noite,
Abanar com as mãos para que o brilho,
Não se perdesse no vir a ser do tempo.

Sem indagar-lhe qual era a língua das árvores,
Ele visivelmente empolgado me relatou:

- Quando eu crescer vou ser astrônomo,
Ou pirata do bem.
Isso para trabalhar.

Para viver, quero aprender a falar com as borboletas,
Dar um vagalume de presente para minha namorada,
Que ainda não sabe de nenhuma das duas coisas.

Também vou descobrir como se faz um poema.
Você pode me emprestar sua estrela,
Para eu colocar na minha árvore?

Carlos Daniel Dojja
In Poemas para Crianças Crescidas
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Biografia
Escritor e poeta brasileiro, nascido em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, aborda temas complexos existenciais, com lirismo contemporâneo, servindo-se de metáforas e de uma simbologia peculiar ao retratar pela palavra o sentir. Membro da Academia America de Poetas. Em sua página no Facebook o autor se declara: Tanto me nutro fora de mim, que me caminho em outros.

Poemas

3

LUZ DAS ESTRELAS

LUZ DAS ESTRELAS

Certa feita estive numa aldeia.
Lá me deparei com uma menina,
Sua fome me olhava atentamente.
Tinha o nome de luz das estrelas.

Seu pai não se sabia e sua mãe não vinha.
Perguntei-lhe se sonhava. Disse-me que não.
Mas que quando deixasse de ser miúda,
iria ser médica para cuidar das pessoas e dos que vão nascer.

Você sabe o que é poesia?
Não, não a conheço, interpelou-me rapidamente.
Poesia é feita pra gente?

Passei a visitá-la.
Numa manhã que chovia, nova indagação.
Do que você gosta? Prontamente me disse:

Gosto de comida, de escola e de brincar de casinha quando faz frio.
E vou lhe confessar algo.
- Também brinco de agarrar nuvens com as mãos

Carlos Daniel Dojja
Para Luz das Estrelas, em Angola.
 
 
 
 
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CHÁ COM OS POETAS E A MOÇA BONITA

Chá com os Poetas e a Moça Bonita

Quando ainda não vinha a noite,
Camões adentrou sobressaltado.
Tinha visto na Caravela,
O mar inteiro lamuriar-se.
Deixavam, pois, como aferira,
restos de tudo a enturvar as águas.

Logo em frente estava Quintana,
vindo de longe no vagão de um trem,
a confabular com uma andorinha,
que em frase pausada silabava:

- No ar há tanta fumaça,
que nem se pode mais voar sozinha.

Enquanto se aguardava o Mia
a descrever Um Rio Chamado Tempo,
perceberam Shakespeare acomodar-se,
frente ao sol que já não se via,
proclamando sem muito assombro:

- Falta humano no divino, mais virtude no humano.
O saber não deve destruir a vida,
feito punhal a ferir o coração dos homens.

Escutaram-se ruídos vários, ao ouvir-se o abrir de portas.
Era Pessoa com Ricardo junto com os demais heterônimos.
Todos apóstolos frente ao pão, resolveram recitar Drummond,
que bem se diga, já havia previamente antecipado:

- Saí cedo de Itabira, vou embora para Pasárgada.
Quem sabe acho Bandeira, coberto num trono de palavras.

Neste instante chegou Vinícius e sua elegante diplomacia.
Asseverou solenemente. Trouxe-lhes taças e o vinho.
Não lhes privei do chá inglês, mas devem considerar com atenção.
Melhor é sorver o sentir com um espumante entre as mãos.

Já não se sabia mais as horas. O ar estava em cantoria.
A moça junto à janela que as primeiras letras fazia,
das palavras guardava afeto para se doar em cada livro.
Foi dela a sugestão que cada um deixasse de si, apenas um verso transcrito.

Eu, mero assistente, por obra de atrevimento, também fiz provocação.
Por que não escrever os poemas em simples folhas de pipas.
Soltaríamos as Pandorgas em cada um dos cantos do mundo.
E poderiam as mesmas se irem a procurar um novo dia.

Prontamente Camões assinalou:

"...Da alma e de quanto tiver,
quero que me despojeis,
contanto que me deixeis,
os olhos para vos ver.."

Em seguida chegou-se Mia a sentenciar num repente:

"... Deixo a paciência dos rios,
mas não levo,
mapa nem bússola,
porque andei sempre,
sobre meus pés,
e doeu-me às vezes viver.
Hei de inventar,
um verso que vos faça justiça".

Quintana com seu sotaque ergueu-se com voz doce e macia, a reverberar clarividente:

" ... Porque o tempo é uma invenção da morte:
Não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia,
para nos dar a eternidade inteira..."

Vinicius após servir o vinho, pediu um aparte.
Moça com perfume de flor, por favor, escreva para mim:

"... A coisa mais bonita,
que há no mundo,
é viver cada segundo,
como se não fosse o fim..."

Alberto, ao lado de Pessoa, também se pronunciou:

"...Mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena,
sei que a vida vale a pena,
quando a alma não é pequena.."

Já se adentrava a noite alta e as pandorgas versos partiam.
Foi quando fitei a moça que de olhos gris se vestia.
Então clamei a ela, antes que também se retirasse:

Agora que a lua cheia chegou,
como teus olhos em ternura,
borda-me entre o céu e a tua boca,
numa indelével tecitura.

A moça nada me disse, repousou na minha face.
Por ali ficamos embebidos de poetamento,
como se por um breve instante,
tivéssemos tocado o infinito.

Carlos Daniel Dojja
In Poemas Para Crianças Crescidas
547

Alma das Árvores

A ALMA DAS ÁRVORES

São as árvores que sonorizam a língua das águas.
Que sabem respirar erguidas frente ao sol.

A noite se acariciam com as correntezas de vento
e se rejuvenescem na crescente da lua.

As árvores têm a paciência dos dias frios,
depois que colhem a chuva do rio.

Sabem perder suas partes sem viço,
para fortalecerem-se de caule.

Sempre me quis viver árvore.
Teria os olhos ramificados.
O corpo em tronco resistindo às marcas.

E se me perdesse a visível parte,
sobrar-me-ia as raízes rebrotadas.

São as árvores que entendem,
Como se nasce na alma do mundo.

Carlos Daniel Dojja
In Poemas para Crianças Crescidas.
525

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