as estações do dia
"as estações do dia"
o sono é outono
trocar as folhas, crescer, renovar
trocar a cor
primavera, acordar, ser flor
verão e inverno
o inferno do dia-a-dia
eis a vida
às vezes dor doída, dolorida
de suor insuportável
às vezes não
Declaração de humor para a pessoa amada
Declaração de humor para a pessoa amada
tô sem dinheiro mas o que tenho é para te dar, emprestar, ofertar... sei lar, entende?!
Declaração de humor para a pessoa armada
Declaração de humor para a pessoa armada
repetiu mais uma vez, antes de bater à porta: sabe? eu te... te... sorteio!
Declaração de humor para a pessoa bem/mal amada
Declaração de humor para a pessoa bem/mal amada
só não
me(n)tira você de minha vida!
inspiração vs. transpiração
"inspiração vs. transpiração"
escreve escreve escreve
rascunha risca rasura
reescreve
diz que dessa vez sai
diz que vem, diz que vai
mas aqui não, hai
cai
fuga da rima
"fuga da rima"
tento fugir da rima
mas não consigo
e quanto mais tento deixar
o verso solto no limbo
à meia-altura, um tanto abaixo
nem tanto assim acima
mais ele ganha gordura
e pesa, e pensa, e posa
como um seixo
lastro mal colocado
depois da vírgula, antes do ponto.
intento fugir da rima
mas sou impreciso
e quanto mais recorro aos recursos
mais o verso alaga
no álcool de um blues antigo
no improviso do jazz
no sangue de uma tragédia grega
ou brasileira, tanto faz.
eu tento tento tento fugir da rima
mas mal consigo sair do prumo
desabotoo
"desabotoo"
tantas maneiras de dizer te amo
e eu dizendo de todas as formas
até que a vida se farte
se complete de tanto tanto tanto
mesmo sabendo que amor nunca se farta
no máximo, infarta.
amor é tatuagem no peito
por isso desabotoo
rebelião
"rebelião"
trucidar a inveja que abala e abate
a morbidade humana
a deformidade das almas
chegou a hora de dar um basta
na violência da submissão
uns gritos ao pé do ouvido
dessa timidez mórbida
uns petelecos bem dados na cara
de quem ousar baixar a cabeça
na guerra crua e cruel
morre duas vezes aquele
que tem medo de mata
selvagem
"selvagem"
se me quer de presente
me doo
à venda? vendo
cego
sou mais
cara
poente
"poente"
quando acordei, de repente, hoje
já estava anoitecendo
o dia todo que poderia ter sido
e foi. e é
mas agora a vida retrocede
em marcha à ré, voraz
e a garagem é um túnel
de vaga incerta e sem luz
a língua magnética a
trai
com sua baba de magmas reluzentes
e dentes cariados
calmamente
mente
sobre
o que
se trata
acordei, hoje
saí do pesadelo
para o pesadelo