Fayola Caucaia

Fayola Caucaia

n. 1998 BR BR

TransPOÉTICA que fala de amor, afeto e liberdade, a partir das minhas subjetividades.

n. 1998-04-08, São Paulo

Perfil
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ESTRELAR

O luar, o mar
O estrelar

A brisa, a vista
A sensação do mar
No luar

A possibilidade do momento
Torna único a vivência
Do ser e estar

Ser a lua
Estar com o mar
Juntos no estrelar
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Poemas

14

MEU BEM

São 10 horas da noite
E eu louca pra te ver
Te ter, meter
Agora tô mais blindada
Sua fuga não me abala
Já abalou as estruturas, aqui, ali
Só que isso me fez forte
Eu que controlo a estrutura aqui
Fiz meu cálculo estrutural
Depois de uns tapa na cara
Bem dado, vc que dava
Eu fiquei ligada
Na sua malandragem
Fiquei tranquila
Serena
Brevemente chorei
Gritei seu nome
Mas você não escutou
Talvez não deva escutar
Eu tô de amante
Isso, não tem vez
O pior que gosto dessa safadeza
Não acredito em monogamia forçada
Do nada
"Você é só meu!" Bota essa aliança
Falha
Desgasta
Na mentira que se cria ali
A gente sabe quando é de verdade
Não precisa de símbolo
Os signos falam, gritam
A presença completa

Sei que você não é pra mim
Mas eu quero um pedacinho
Do gozo, da foda
Será a última se vc não me levar ao ápice
Melhore, você não pode estar cansado aqui
Quero disposição
"TOMA UM ENERGÉTICO QUE A PUTA QUER GOZAR!"
Eu tô blindada, se é pra ser comida
Quero ser bem jantada
O banquete tá servido
Eu sei que você tá faminto
No cio
Eu tô igual cachorra, não tive você hoje
Posso chamar o J, o T… mas não quero esses outros FDP
A gente fez um pacto, lembra?
Sim foi naquela cena, o capítulo 4
Quando eu tava de quatro e vc não parava
Gritava, ecoava
Sabia que teria você quase aqui
Mas não teria, meu erro foi
Ter medo de amar, eu não vou ter medo de amar
Ninguém,
Nenhum
O outro
Aquele
Esse
O que estiver aqui
Cada foda, um amor, quero ver quem vai sair apaixonado
Eu sempre estou
Quando não estou, nem quero
É crime não amar?
Por que amar é crime
E eu tô fora da lei
Amando horrores
Quase me entendendo 
Que pra mim, o amor deve ser assim
Vários, cheios, gordos, magros, altos, baixos, tudo pra mim
Tudo, todos, amor que, quem estiver aqui

Sabe porque?
Por que no final, eu que fecho a porta
Eu que desligo a luz
Eu que acaricio
Eu que descanso
Eu que arrumo
Eu que grito
Eu, eu, aqui
Talvez contigo, mas a certeza é que é pra mim

Essa é uma certeza, a dádiva pode ser sina
Talvez seja isso
Eu, meu bem, eu sou assim.

46

Me despedi de você, pra me despedir de parte de mim que prefere você

Me sinto triste por isso
Mas já estava triste antes disso
Te bloqueei e apaguei seu número
Não quero mais falar de você
Não quero mais falar com você

Decidi me escolher e me acolher
Eu não vou ficar sofrendo por quem não me quer
Sofrendo por quem não me quer
Eu não vou sofrer por quem não me quer

Você só me consome
Só me consome, como um prato de comida
Depois de comer, descansa
Cansa e se vai

Eu não sou um prato de comida
Eu sou gostosa, mas não sou só gostosa

Eu exclui seu numero, pra não haver recaída 
Eu preciso me valorizar
Eu não quero migalhas

Quem chora depois sou eu
Que cuida e não é cuidada 
Que dar amor e não recebe

Eu já chorei por você
Eu chorei por ter você aqui e não ter
Te ter ao meu lado e você não estar
Aqui, comigo, por completo

Eu já chorei ao saber que não era a primeira opção
"Tudo bem" eu falei
Enquanto eu estava chorando
Por mais uma vez, mais uma desilusão
Eu não fui a primeira opção

Decidi hoje me escolher
Preciso aprender a me valorizar
Meu grande senso de empatia, às vezes me sabota
Eu dou demais de mim, e não exijo nada em troca
As vezes eu espero a troca, naturalmente
Mas não está havendo troca

'enquanto eu te tirei da bad, aumentei sua auto-estima'
Eu estava aqui sozinha
Ainda estou

Preciso estar bem sozinha

Eu te bloqueei por que te odeio
Mas na verdade
Queria dizer que te amo
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QUEM AMA AS TRAVA?

Eu queria falar de amor
Dizer que te amo
Queria dizer que te amo

Mas não existe amor
Amor é contexto, reciprocidade

Queria dizer que te amo
Mais que dizer, queria te dar amor
Receber amor
Fazer amor
Me realizar 
Te realizar

Mas não teve amor
Eu não posso amar só

Mesmo vendo a possibilidade do amor
A intensidade da troca
Da nossa troca

Eu não posso amar só
Não há amor só
Isso é só dor

Não há amor
Não há amor pra mim
Qualquer esperança morre
Como sina
Se repete
A dor
Sem amor
E euSó queria amor
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TE ODEIO

seu cheiro ainda tá aqui
a lembrança ainda fresca
aquela vontade
_______ eu te odeio!!!
e penso penso penso
em você
como faz pra desligar o sentimento?
se alguém tiver método
por favor, s.o.s
1 004

ELE ERA VENTO

Era vento, vento 
Daquele que entra sem pedir
Daquele que leva sem precisar
Invade, arromba todas as portas, num supero
Era vento, vento
Desses passageiros mas marcante
Entra, traz e leva tudo
Sem pedir sem necessidade
Vento que atinge todes
Sem pedir sem permissão
Desses que vira necessidade
Dia de sol, outro na laje o vento invade
Era vento, vento
A felicidade da sua presença
Vem vento vem vento
Ou a tristeza de sua partida
Leva vento leva vento
A confusão do seu retorno, poesia
Vira tornado confunde bagunça tudo
O vento vento
Arromba porta e vai entrando
Entra sem pedir
Mas na hora que eu quero o vento
Ele simplesmente não reage
Fica tudo parado
Era vento
Persistir
Sem apego
Vento traz vento leva
Totalmente egoísta
Vento traz por que quer e leva quando quer
Sem precisar sem precisar
Era vento
Esse
Às vezes não faz sentido
A instabilidade do vento me faz trancar a porta
Essa entreaberta, tantos ventos a aflorar
Essa confusão do retorno
Confusão total
Passou, de repente voltou
Eu queria o vento, solene, o dia tá sol
Eu queria apenas por querer
Já entendi que o vento leva e traz
Mas não tenho e ele não sai, esmo esmo
O retorno do vento
Leva e traz
78

SÁBADO COM CARA DE QUARTA-FEIRA

Tá chovendo muito em Salvador
Muito mesmo, chuvas intensas e já faz dias
Está chovendo desde o meu aniversário
Os dias estão tão brandos, que relaxa a alma
Parece que tudo vai melhorar
Tem menos pessoas nas ruas
O conforto da casa se torna mais presente
Quem não quer um cochilar?

Tá chovendo muito já faz uns 3 dias
Hoje é sábado, com cara de quarta-feira nublado
Os pingos do resto de chuva que acabou de passar
Caí sobre minha janela, constante, sereno e relaxante
Os pássaros cantam bem alto
Ainda estou na cama e consigo ouvi-los
Tão lindo, muito lindo
A favela aqui é imensidão
O canto do pássaro ecoa nessa vasta imensidão
Todos ouvem 
Um dia novo está raiando
Agora é 10:10
Estamos no caminho certo

Não tá mais chovendo agora
A água deu uma trégua
Restou apenas a gota, que persiste em cair 
Seu som relaxa, sua vontade de cair é inabalável 
Mas ela sabe o que faz
A hora, a gota e o pássaro vira sinfonia 
Queria muito descrever o som do pássaro 
É tão fofinho, tem som de alegria
O pássaro faz um esforço danado pra mostrar vida
Tão lindo, muito lindo 
Eu tô notando você

Hoje é sábado com cara de quarta-feira
Vou acordar para fazer o que deve ser feito
O dia precisa ser
+1dia
149

DOR

Nem tudo são flores
E as flores murcham
Na espera da próxima primavera 
Pra se reerguer, como fênix 

Vida, morte
São apenas metáfora de um ciclo continuo 
Não há morte sem vida
Não há vida sem a morte
Não vivo de morte, mas ela habita em mim
Vivo de vida, buscando sempre reviver 
como uma fênix

Ter a dor, e não tê-la mais 
Buscar a cura como saída
Não há saída sem a cura
A dor não pode ser naturaliza
A dor é a metáfora do caos

O caos que habita aqui, aí e que generalizou 
Tentando ser perda total

O toque, os cacos, personificam a ressurreição 
Diante de tantas dores, metafóricas psíquicas 
A cura é a única saída

Mais uma vez emerge
O toque na carne 
A dor anestesia 
Com tantas dores
A dor não pode ser naturalizada

Mais uma vez emerge
Revolta
Quebro o caos
Na tentativa de romper com a dor

Os símbolos emergem 
Uma saída
Tentativa contínua
Morte, morte, morte
DEPOIS VIDA

[processo_matar o colonizador]
1 090

O DIA QUE EU QUASE MORRI POR GEMER ALTO

Foi gostoso, o boy me deixava louca 
a ponto de perder o limite
e gemer bem alto 

Gemia tão alto que se tornava gritos
frenético,
uma foda alucinante 
que me fazia ficar maluca

O boy sabia fazer
empurrava com força
um beijo gostoso 
que me deixava louca

Eu gemia, e gemia
o boy não cansava
não para, sem parar

Até incomodar os vizinhos com essa foda
extraordinária 
uma batida no teto 
eu até pedi desculpa, desculpa se minha foda te encomoda
e voltava

Dessa vez o gemido era mais brando
vamos pra cozinha pra ver se não incomoda
me bota no paredão e mete bronca
me joga na mesa e me faz de puta

Pá, pá, pá
a mesa fazendo barulho na parede
não para, não para
empurra sem parar

A vizinha grita, olha as horas
eu digo, hoje é sábado, não posso transar?

Acho que não, minha foda incomoda

Pá, pá, pá
dessa vez é a porta
eu já tava no chuveiro 
já tinha parado 

Dessa vez eu grito e não gemo
já paramos, desculpa, tô no banho
já paramos

Pá, pá, pá
desculpa gente, parei
eu estou no banho

Um voz de homem, atrás da porta
abre aqui, quero conversar 
eu na inocência abro uma fresta
vejo que não são os vizinhos, mas um homem com uma camisa no rosto

Fecho de imediato, 
ele não conseguiu empurrar
vai embora, já paramos
insisto em dispensar 

Meu medo era ser estuprada
sei lá, vai que eles querem calar minha boca
por gemer demais

Ele insiste atrás da porta, 
abre, você sabe quem é?

É claro que eu não sabia, 
mas encapuzado não é sinal bom
eu puxo a faca de imediato 

O boy com medo, diz que ele é de boa
insiste que acabamos 
e diz que foi mal 

Eu vejo o desespero em seus olhos
meu deus, isso nunca tinha acontecido
“saudade da melhor época do vila floresta <3”

Abre a porta se não eu arrombo
os caras atrás da porta insiste
eu ciente que se abrir a cobra vai fumar pro meu lado 
meu medo era ser estuprada 

Eu digo, não!
a casa é minha, desculpa pelo inconveniente
é minha segurança não vou abrir

Ele, se eu quiser te dar um tiro já tinha dado 
abre a porta
antes que piore

De repente, uma arma na janela
nem era possível alguém lá 
abre a porta se não é bala

Eu logo penso, fudeu
jogo a faca na parede
que fica atrás da porta, quando se abre

O boy nervoso, tenta abrir a porta
não consegue, de nervoso
a porta abre o contrário

Eu abro a porta
o boy leva um chute
eu fico ao lado da porta

Vai vai, afasta
dois homens enormes entram na minha casa
traficantes, um retinto e o outro não

Eu fico parada na porta
ainda imóvel 
o que vai acontecer?

Vai, vai, afasta
o boy vai pro canto da parede
eu fico em frente da mesa

Eles vem no esculacho
diz que não vai atirar e guarda a arma na cintura
eles dizem que eu sou maluca por acordar todo mundo assim

Eu peço desculpa novamente, digo que isso não vai mais acontecer
um esculacho enorme, diz que atira por menos
eu fixa, estática, apenas de toalha, com o celular no peito

Logo notam, e pergunta se estamos gravando 
eu digo que não, eles verificam
o esculacho foi maior, porque eu disse na porta 
vou chamar a polícia, na favela a regra é não envolver polícia

Ele me chama de louca
diz que se eu chamar a polícia, eles me jogam da minha janela
eu pergunto se eles querem que eu vá embora

O boy diz pra eu calar a boca
eu insisto e digo, se você quiser eu vou embora mês que vem
ele pega e me empurra, 
eu saquei que tinha que calar a boca

Vejo ali que algo pode acontecer
não tiro os meus olhos do olhos dilatado dele 
digo, eu estava tentando me defender, não chamei ninguém

Ele pergunta, se eu sei quem ele é
eu digo que não, 
ele pergunta da onde sou, logo penso, vou me fuder mais

Estudo na UFBA, faço arquitetura, sou de São Paulo 
grande São Paulo, Barueri
estou aqui estudando 

Ele pergunta de onde é o boy
desconfia, o boy diz que é daqui
conhece os caras e os caras o conhece

O traficante saca seu Iphone X
tira foto do boy
e pergunta na rede

Por sorte, o boy era conhecido
diz que seu primo é um dos gerentes
isso talvez fez toda diferença

Ele diz que isso não é pra fazer aqui
não tem problema um comer o cu do outro
mas fala pro boy calar minha boca com o pano

Eu nada digo
peço desculpa novamente
e digo que o boy vai embora

Os traficantes diz que não precisa
que ele pode dormir aqui
e que é pra não fazer barulho

De repente saem 
Pedem desculpa pelo ocorrido
e vão embora

Eu fico de cara, fecho a porta em seguida
o boy tá tremendo
eu ainda cheia de ódio

Hoje é sábado
sou tranquila a semana toda
precisa disso?

O boy senta, dá pra ver o desespero em seus olhos
eu me sinto extremamente culpada pelo ocorrido
isso nunca tinha acontecido

Toma uma água, 
ele diz que eu sou muito afrontosa
não se pode peitar traficante

Eu digo que não peitei
apenas, me coloquei
a casa é minha e não precisava daquela cena 

Quase morri

No final, conversamos um pouco
tentei distrair sua mente 
o clima tava trexi

Eu dei uma massagem nele
ele se acalmou mais
conversamos mais um pouco 

Ninguém morreu
ninguém gozou 
ninguém mais gemeu

O boy foi embora
eu fiquei aqui
escrevendo esse texto

03:30 da manhã
176

TEM QUE TER SAÍDA

toda dor deve ser curada
todo machucado deve ser cicatrizado
tada perda deve ser superada

não há saída, se não a cura
117

FACE ABUSADORA

Me sentindo estranha, eu que me sinto estranha e incomodada após revelar o abuso que sofri, dentro da casa que eu chamava de minha, que foi me dado como minha e me fez tão mal. Eu que estou me sentindo mal com a abusadora aqui do lado, me sinto jogada, não pertencente a esse lugar, com vontade de correr, fugir pra nunca mais voltar. 

Quem me abusou dorme ao lado, não é homem. Quem me abusou acha que eu tinha esquecido e dorme tranquilo, como se nada importasse. Como uma doença na memória que invalida e apaga, não vou naturalizar apagamento ou naturalizar abuso, ela é um monstro para além desse abuso que findou aparecer agora, me sinto perdida para lidar com essa situação, pensei que algo iria mudar depois disso. Sabe quando você está num jogo de guerra, e sente que conseguiu atacar seu adversário, mas ele não tem alma, nenhum ataque mais o afeta, me sinto no esmo, não cheguei lá.  

Quem me abusou vive do fracasso, nada na vida deu certo. Vive da miséria sugando da mãe de 56 anos empregada doméstica que, conseguiu a trancos e barrancos conquistar sua casa, sua liberdade, sua independência, suga do irmão de 18 anos que está iniciando a vida agora e o que mais precisa é de referência para ser guiado na vida adulta, de responsabilidade. Vive como um parasita, um carrapato, num lugar onde ninguém mais quer, ou nunca quis. 

Quem me abusou não sabe o que é amor, tentou, mas fracassou, pois só o ódio impera em todas as gerações que vieram e findam de ir em sua vida, não sabe a diferença entre comunicação e deboche, não sabe conversar, nem sociabilizar. Quem me abusou, parece que vive o próprio inferno, o problema é que torna a vida de outrem em um inferno igual. 

Revelei, como uma lembrança que nunca deveria ser revelada, mas a sujeira debaixo do tapete incomoda demais, aprendi com a minha mãe a nunca viver na sujeira, a sujeira se espalhou, o ventilador ajudou no estrago, esqueci de sair da frente do ventilador, a sujeira caiu em mim também. Mas tudo bem, nada que uma limpeza não resolva, o que eu preciso é saber como limpar tudo isso, como desinfectar essa casa das pragas impregnadas, como limpar meu corpo dessas dores, como fazer todes entender que abuso é um problema, como retirar a merda por toda parede, preciso aprender. Estou procurando respostas e caminhos, isso não pode mais continuar.  

A merda foi feita, e tá longe de um simples pedido de perdão, resolver qualquer uma dessas questões, é necessário ação! Já foi, a merda foi jogada no ventilador, espalhou por todo lugar, está fedendo, eu não quero mais ficar embaixo dessa nuvem pesada de tristeza e infelicidade, não quero que minha mãe e meu irmão fiquem embaixo dessa sujeira também, preciso encontrar um jeito de tirar essa merda toda.  

Não bastou falar do abuso para minha mãe, eu não sei se ela me escultou, quando falei, a reação dela não foi boa, foi como um inacreditável, não acreditou, sua reação atrás do celular, numa vídeo chamada interestadual, foi chamar a abusadora para em frente a tela, no esmo, sem chegar lá, desliguei pra me proteger, nada se falou desde então, nada, silêncio, o silêncio é conivente. Decidi depois de meses longe da família, longe da mãe, me reaproximar, por que sempre são as vítimas que perdem sua casa? Decidi reivindicar, mas descobri que não sou forte o suficiente, olhar para a cara da sua abusadora, depois de tudo revelado, me mostrou que eu sou frágil e que devo assim, me fortalecer, ser minha própria fortaleza, aprender assim a viver só. Eu não vou naturalizar abuso, o silencio é conivente.  

Olhei todos os problemas em volta desse inferno que se foi criado, minha mãe está sendo abusada, meu irmão está sendo abusado, a abusadora está vivendo na esbornia, não tem amigos, não tem felicidade, mas fica em casa materializando as conquistas desses abusos em seu corpo, com dores, gorduras e infelicidade, não há nenhum problema em ser gordo, mas ela me dá nojo, nojo em ver todos os abusos crescerem em seu corpo e a abusadora sair plena, e nada acontecer com ela, nada! Continua no trono, abusando psicologicamente, economicamente e motivacionalmente outrem que moram aqui, como pode deitar sua cabeça a noite e dormir sossegada depois de tantos abusos.  

Questiono a abusadora, sobre todos os abusos, como pode ver a mãe trabalhar, ainda no mesmo emprego de anos, sabendo das dificuldades que tem por não ter escolaridade e ver a garra que a mãe tem por ter feito nós chegarmos até lá, nos formar para termos uma vida melhor. Como pode ver a mãe trabalhar, se expor em uma quarentena, com um vírus mortal para seu corpo, que é grupo de risco, como pode não se esforçar para colocar “frutas" na mesa de casa, como pode ficar tão bem vendo que a mãe continua a lutar? Questionei, e fui pega de surpresa, ela não liga, acho que nem me escutou, nesse momento estava tentando, com toda calma, segurando todas as dores que me causou, na tentativa de fazer com que tivesse uma epifania, despertasse desse abuso toda que a cerca, e nada! 

Questiono mais uma vez, na tentativa de ver alguma mudança, o que você conquistou em seus 30 anos de vida? Você não paga aluguel e não há nenhum problema em morar com a mãe, mas qual a dificuldade de manter uma casa sem transformar isso em um grande problema, por que desses abusos todos, por que dá manutenção desses abusos todos? 
 
O problema era o pai alcoólatra? Ele saiu. Hoje tá bem, apesar de não procurar mais os filhos para saber se tá bem, mas saiu porque era um problema, gerou um problema enorme que explodiu, ele saiu, ele se casou, posso ver sorriso em seu rosto, vi que sofreu igual, não entendíamos todo sofrimento, não havia cumplicidade, hoje fico feliz que ele está bem, ele saiu. 

O problema era eu, a bicha que agora é travesti, a “sodomita”, a perdida? Eu saí. Saí de casa porque a abusadora me humilhava, quando eu mais estava fragilizada, saí em busca de paz pro meu corpo, pra minha mente e pro meu coração, fui pra Salvador, estou lá, é minha casa, cheguei na universidade federal como forma de ascender e mudar a narrativa falida da minha família que sofreu com tantos abusos coloniais e finda sofre com abusos internos, dentro da própria casa, saí do ninho para buscar uma vida melhor, minha ajuda por hora para a minha mãe é não ser mais uma boca para ela sustentar, enquanto eu não conseguir retornar todo apoio que ela me deu.  

Mesmo com tudo isso transformado, mudado. Nada mudou, a casa não melhorou, minha mãe continua a trabalhar, a abusadora continua mal humorada, com a cara fechada, penando na infelicidade, reflete nos sobrinhos os problemas agora, fala que o barulho deles é um problema, não consegue ver a felicidade que é uma casa com crianças e a vida que se tem. Acho que ela não gosta de vida. Continua com as mesmas reclamações, enche de placas a casa toda, com frases que não te faz refletir, mas te faz mal, faz isso porque é a única forma de se sentir pertencente e por não saber se comunicar. A infelicidade impera.  

Eu estou aqui, mas não queria estar.  

Cheguei em dezembro, afim de passar um mês com a mãe, na parceria com o irmão e minha irmã favorita, dus sobrinhes e cunhado, na parceria e consegui, me reestabeleci com todes, acabei ficando mais do que o planejado, continuo aqui e acabo não me sentindo tão bem. Tinha me programado para ter essa conversa só no final da minha estadia, mas acabou acontecendo já, numa tentativa de diálogo para mudar a situação, disse que a atitude dela não estava boa, ela não me escutou, eu disse que ela estava vivendo dos abusos e não estava fazendo bem para nossa família, nada, disse que ela só sabe abusar e que me abusou na infância sexualmente, ela nada disse, ficou me olhando, eu disse que não tinha esquecido, apesar de ter tentado por muito tempo e até pensar que tinha esquecido, me lembrando, na tentativa de ficar bem comigo mesma e na convivência “harmoniosa” com a abusadora, revelei que eu não esqueci e que ela só abusava, não consegue ver quanto abuso você faz? Fazendo mal todes ao seu redor, usando a palavra Deus, como forma de invalidar toda a responsabilidade para os problemas que gera, como pode dizer que segue Deus, sendo que faz tudo ao contrário à sua ideologia, atacando a própria família, vivendo na própria merda a fim de nos aborrecer, como pode viver assim? 

Acredito que dores devem ser curadas, procurando os problemas que a geram na tentativa de resolve-las. Acredito que mudanças são necessárias na tentativa de crescermos. Acredito que abusos não podem ser naturalizadas, porque ela fede e ficamos podre com ela dentro de nós, não podemos naturalizar os abusos. 

Eu estou aqui e quero continuar.
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Nelson
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