felipemattos

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Eu sou...e quem não é?

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Sobre refletir o meu jogo

Fico tentando entender esse jogo criado,
onde as regras mudam conforme o vento — ou a saudade.
Um dia, já fui dona de bons troféus,
Mas hoje coleciono boas derrotas por WO.
Talvez a vida e a paixão sejam isso:
uma maratona onde todos correm mais rápido,
e a gente ainda se pergunta por que não chega nem na metade.
Mas quem se importa? Nem eu, agora.

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Poemas

4

Sobre a partida da mesma parada

Aqui estou eu,
sentado,
naquela mesma
parada.
Recordo-me do dia
que me despedi
de vocês dois.
Duas das melhores
pessoas que já conheci.
Porque eu não tive
coragem
de convidá-los para irem
comigo de volta pra casa.
É triste saber
que vocês ficaram
e viraram minha assombração,
o meu medo, a minha culpa.
Porque eu não tive
a decência
de dizer que amá-os
e que deveria
ter aceitado eles
em mim.

102

Sobre a minha identidade

Já fui a pessoa mais corajosa,
Quando eu estava em outras almas.
Sob nomes inventados,
Escrevia sob corpos, desejos, pele
Sem medo de ser lido.
A poesia me dava abrigo
- ou talvez desculpa.
Hoje, com o meu nome e assinatura, tremo.
Há um silêncio que pesa
Mais que qualquer metáfora.
Tenho medo de me revelar,
Mesmo quando grito por entre versos.
Parte de minha vida
Escorre pelas entrelinhas,
Tímida, contida.
Tentar me assumir na autoria
É como caminhar nu em praça pública.
O passado era liberdade disfarçada;
O presente é prisão com rosto.
Ainda escrevo.
Mas agora cada palavra
Pede desculpas antes de nascer.

97

Sobre um certo vizinho...

Era uma manhã qualquer quando um novo vizinho chegou, com sorrisos tímidos e uma bagagem cheia de livros. Em um cochicho rápido, a outra vizinha me confidenciou que ele era um contador de histórias – o mesmo ofício que um dia já foi o meu. Da minha casa, a janela virou palco, e a dele, plateia silenciosa. Eu recitava meus versos em voz alta, enquanto ele, do jardim, se perdia na contemplação das flores.
Ao início da tarde, um simples aceno do meu jardim, e lá de longe, eu lhe mostrava os versos que habitavam minha casa: as rimas nos telhados, a poesia que se escondia nas sombras. Você olhou, viu de leve, mas logo voltou para dentro. No entardecer, sua casa permanecia fechada. Do meu quarto, peguei um espelho, lancei feixes de luz e criei uma constelação de metáforas, naquele crepúsculo que se despedia. Nenhuma porta se abriu. Nenhuma janela. Minha poesia, aquela que mora nas sombras do meu lar, não o alcançou.
Ele, que não ouve os ecos da minha prosa, parece não perceber. Onde estava você naquela noite? Pergunto em silêncio. E, aqui, sigo escrevendo.

129

Sobre um alguém que a paixão não foi pra frente

Havia um jardim, de terra seca,
Regado por desejos que eu guardava em mim.
Onde cada gota era um instante de você,
Dentro de um cenário que não lhe incluía.
Refletindo uma paixão que só eu sentia,
Ignorando o fato que você jamais me olharia,
Com os olhos que eu queria que me vissem.
 

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