Gabriela Lages Veloso

Gabriela Lages Veloso

n. 1997 BR BR

Autora de contos, crônicas e poemas. Colaboradora da Revista Literatura Errante.

n. 1997-11-24, São Luís - MA

Perfil
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Aster

Com o correr do tempo,
a humanidade fez grandes descobertas.
Aprendeu a dominar a arte
da linguagem, dos números e do fogo.
Porém, no meio do caminho,
em sua sede inesgotável pelo poder,
se esqueceu da simples essência da vida.

É preciso enxergar a vida com lentes de aumento
para compreender as suas miudezas.
Somos seres finitos, e esse é um fato.
Mas é necessário perceber que a
verdadeira morte é fruto do esquecimento.

Enquanto restarem lembranças,
as pessoas continuarão vivas,
como o brilho eterno das estrelas.
E, o que realmente permanecerá serão
os momentos vividos ao acaso,
a bondade sem holofotes,
as amizades sinceras e desinteressadas
e uma compreensão mais profunda de si e do outro.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema Aster. Revista Literatura Errante - Memória, p. 28, 22 jun. 2021.
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Biografia
Contista, cronista, poetisa e ensaísta. Em 2021, foi membro da Revista Literatura Errante. Atualmente, é Colunista da Revista Sucuru e Editora da Sociedade Carolina.

Poemas

15

À própria sorte

In memorian às vítimas da COVID-19

“Ei, hoje eu tô aqui, porque preciso da ajuda de ocês. Eu sô pobre, eu passo nicissidade. Eu e minha filha precisamu de dinhero pra comprá carvão, farinha e arroz. Eu só tô pedindo aqui, porque passo nicissidade” – na porta de uma agência bancária, gritava, cada vez mais alto, a velha senhora, em uma espécie de monólogo. Aparentemente, esse é somente um dia comum. Quantas pessoas como ela não vivem  mendigando para sobreviver? Porém, estamos bem distantes do que antes era conhecido como normalidade. Um ano já se passou. Tantos entes queridos partiram. Em média, estamos perdendo 4.000 brasileiros, diariamente, para a COVID-19.

Lembro-me bem, em um dia todos estávamos trabalhando, estudando, caminhando... vivendo. No instante seguinte, fomos bombardeados com a notícia de que deveríamos ficar em casa por apenas 15 dias, mas disseram que não deveríamos entrar em pânico. O tempo passou e os dias foram multiplicando-se. Nas ruas, nas casas, nos estabelecimentos, o medo se instalou permanentemente, pois a morte, com seu vento devastador, passou a levar a cada dia mais vítimas. Agora estamos nas trincheiras dessa guerra invisível, lutando pela vida, com armas simples, mas eficazes – higiene, máscaras e distanciamento social.

Entretanto, a negligência seletiva, aprendida desde o início dos tempos, tem prevalecido. E, agora, não somente as súplicas dos necessitados tem sido ignoradas, mas também a dos governadores, médicos e cientistas. Apesar das milhares de mortes, para muitos o negacionismo impera. “Nada está acontecendo, isso é só uma gripezinha, vai passar logo logo” – em uma esquina, dois amigos conversam, rindo da preocupação mundial. E, assim, a pandemia tem se agravado e prolongado. Até quando essa situação irá perdurar? Somente o tempo dirá.

VELOSO, Gabriela Lages. Crônica À própria sorte. In: Revista Minerva, 26 abr. 2021.
553

Dilema

Pessoas. Animais. Plantas.

Somos a natureza.

Então, por que ferimos a nós mesmos?

Para que tanta violência?

Fome é violência.

Desmatamento é violência.

Cárcere é violência.

Ser ou não ser? Essa é a questão.


Contra quem lutamos?

O que queremos?

Dinheiro, fama ou destruição?

Miséria é violência.

Egoísmo é violência.

Poluição é violência.

Ser ou não ser?


VELOSO, Gabriela Lages. Poema Dilema. In: Revista Literatura Errante, 28 abr. 2021.
548

Chuva

Existe algo de mágico
Na chuva.
Algo místico
Que desperta as memórias
Mais profundas.

Essas nuvens pesadas
Nos transportam
Para outros tempos e lugares,
Revivem momentos
Que fazem morada
Na intimidade da alma.

Para alguns,
Trazem boas lembranças.
Para outros,
Saudades incuráveis.
Mas, certo é que não se pode
Sair o mesmo de um dia como esse.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema Chuva. In: Revista Sucuru, 08 abr. 2021.
577

A grande ilha

Ao atravessar o exato ponto entre céu e mar,
a tênue linha do horizonte
envolta no ir e vir das ondas,
se pode avistar a grande ilha.

Assim, ao longe, sendo constantemente
ofuscado pelos raios solares,
não se consegue ter uma imagem nítida,
somente os esboços de uma cidade.
Pouco a pouco, a ilha se mostra.

Ao chegar em terra firme,
já com os pés calcados na areia,
se pode ter um vislumbre do lugar.
O vento sopra forte e a praia parece deserta,
há somente alguns transeuntes na calçada
e, vez por outra, algum automóvel.

Muitos prédios de luxo compõem a paisagem,
imponentes e frios,
indiferentes à natureza que os cerca,
ou o que dela restou.

Na faixa de areia, o esgoto segue o seu caminho para o mar
sempre em frente,
esse é o preço do progresso.

Mas o coração dessa cidade não se encontra aqui,
é preciso ir além, até as ruínas sobreviventes ao tempo.
Há uma beleza única nessas ruas de cantaria
e nesses antigos casarões, com seus azulejos partidos.

A cidade conta a sua história
em cada pedra, rosto e som.

Na ânsia de viver permanentemente no presente,
o passado está sendo apagado.
Muitas construções foram jogadas às traças.
Algumas foram demolidas,
Outras se tornaram estacionamentos,
pois as ruas estreitas já não comportam
tamanho fluxo de pessoas, insetos e veículos.

O esgoto segue seu caminho para o mar.
Aqui se pode vê-lo por toda a parte,
em poças nas praças,
escorrendo pelas ladeiras
e disputando as calçadas com os mendigos.

Há muitos deles por toda a parte,
mas ninguém parece notá-los,
são deixados ali, para depois,
mas esse tempo nunca chega.

Após atravessar a ponte
e deixar a cidade velha para trás,
surgem novas construções,
cada vez mais altas e luxuosas.
Curiosamente os construtores desses prédios
jamais poderão, ao menos, visitá-los.
Esse mundo não os comporta.

A grande ilha continua se expandindo,
ocupando novos espaços,
poluindo os olhos d´água remanescentes,
desmatando e destruindo a natureza,
repetindo os mesmos erros de seus exploradores.

Agora, o que nos resta ver nessa cidade são as suas margens,
os lugares negligenciados por todos.

VELOSO, Gabriela Lages. Poema A grande ilha. In: Revista Granuja, México, 05 abr. 2021.
583

eScrEveR

Escrever é libertar-se de si mesmo.

É poder recriar o mundo com o poder da palavra.

 

Escrever é dar asas à imaginação.

É contemplar o mundo com outros olhos.

 

Escrever é ora um alento, ora um desconsolo.

É transitar entre mundos, eras e seres.


VELOSO, Gabriela Lages. Poema eScrEveR. Ser MulherArte - Revista Feminina de Arte Contemporânea, 15 mar. 2021.
636

Pôr do sol

Dia.

Noite.

Caminho entre a luz e a sombra.


Excesso.

Ausência.

Procuro o entrelugar.


Direita.

Esquerda.

Habito a terceira margem.


Vivo na linha tênue do horizonte.

Nem isto, nem aquilo.


VELOSO, Gabriela Lages. Poema Pôr do sol. Ser MulherArte - Revista Feminina de Arte Contemporânea, 15 mar. 2021.
630

Involução

Uma chance.

Um legado.

Duas faces de uma mesma moeda.

A educação mantém sua marcha.



Luta.

Indiferença.

Pratos de uma mesma balança.

A educação resiste.



Leis. Avanços. Retrocessos.

De repente, o mundo parou.

As diferenças se acentuaram.



Evasão.

Tecnologia.

Os adaptados sobrevivem?

A educação se perdeu no caminho.


VELOSO, Gabriela Lages. Poema Involução. Ser MulherArte - Revista Feminina de Arte Contemporânea, 15 mar. 2021.
465

O maquinário

De Mão em Mão,

Peça por peça,

Tudo é padrão.

Produtos. Palavras. Pessoas.

Tudo é instantâneo.



Em um piscar de olhos,

Tudo é lixo.

E as Mãos recomeçam a sua árdua tarefa,

Peça por peça,

Tudo é eternamente novo.



Velocidade. Padrão. Lixo.

Antigo ciclo da novidade.

De Mão em Mão,

Peça por peça,

Tudo é insuficiente.


VELOSO, Gabriela Lages. Poema O maquinário. Ser MulherArte - Revista Feminina de Arte Contemporânea, 15 mar. 2021.
499

Vênus

Folheando uma revista,

Deparo com um rosto, uma história.

Uma mulher impecável,

A beleza personificada.

Mas, ao observar atentamente

Sua face, vejo apenas uma forma,

Um esboço de vida.



Folheando o grande livro da história,

Deparo com uma luta ancestral

Pelo pomo da discórdia.



Muitos sóis e luas se passaram,

E a pergunta permanece:

Quem é a mais bela?



Com o passar das estações,

Em um giro pelo globo,

As formas mudaram,

Sempre mais apertadas,

Inalcançáveis

E cruéis.



Talvez, em um futuro distante,

Alguém compreenda que

A beleza é um espelho de muitas faces.


VELOSO, Gabriela Lages. Poema Vênus. Ser MulherArte - Revista Feminina de Arte Contemporânea, 15 mar. 2021.
479

Gaia

A cada volta, um novo ciclo.
Estou presa nas areias do tempo.
Passam-se dias, meses, anos,
E aqui estou eu.

Já presenciei muitas histórias,
Desse ser, que em mim habita.
Como mãe, que sou,
Contemplei todos os passos de meus filhos,
Em cavernas, aldeias, reinos, impérios, metrópoles
E no que ainda está por vir,
Nessa longa estrada.

Presa nos ponteiros do relógio,
Observei guerras intermináveis,
O passar de incontáveis estações.
Flor, folha, neve e sol.
Vi a vida ressurgir,
O amor permanecer,
Um novo ciclo começar,
Sonho ou liberdade?

VELOSO, Gabriela Lages. Poema Gaia. In: Antologia Poética Elas, a poesia, o indescritível. Florianópolis: Editora Expressividade, 2021.
441

Comentários (4)

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Gabriela Lages Veloso
Gabriela Lages Veloso

Luana, minha amiga, obrigada!

Luana Kerly
Luana Kerly

Perfeitos!! ????

Gabriela Lages Veloso
Gabriela Lages Veloso

Muito obrigada pela leitura, João Euzébio!

joaoeuzebio

COMO AS PALAVRAS FLUEM EM UM JEITO MAGICO DE POEMA ÉLINDO UM ABRAÇO