garciamateus1955

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n. 1955 PT PT

Cinco sentidos à minha volta. Gente, Natureza e Versos à solta

n. 1955-10-04

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PERGUNTAS DE S. VALENTIM



Dos amores que tiveste

Que destino é que lhes deste?

Porque ficaste com alibis

Nas memórias do inconsciente

Se o que interessa é o presente?

O acaso da vida assim o quis

Uns, imperfeitos, ficaram na paragem

Outros, poucos, fizeram uma travagem

E só um, corajoso, seguiu viagem!
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Poemas

11

ANESTESIA



Cartas abertas, envelopes fechados

serão alertas sempre negados

Desligamos a radio vemos TV,

aparece um estádio, isto é o quê?

Dão-nos as delícias do passatempo

dão-nos notícias a todo o momento.

Mesas redondas, círculos quadrados

navegamos as ondas, somos embalados.

Mudamos o canal que é pornográfico,

vemos o banal em forma de gráfico.

Lemos jornais? Não sabemos ler!

Palavras banais?  Não vamos escrever!

Fartos de tretas e de projeções

não temos metas só ilusões.

E desiludidos ficaremos pasmados,

lentamente anestesiados.
209

TRISTEZA



Os meus olhos entristecem-me de negro

No meu rosto me revejo e me integro.

 

A tristeza de um mar profundo de solidão

Em que mergulho só, naquela vastidão

Lembra um vago e triste olhar na escuridão.

 

Triste fica o meu coração quase parado

Por amor do que nunca foi amado

Por paixão do que nunca foi apaixonado.

 

Não quero mais viver nesta tristeza vivida

Neste mar atormentado que me convida

A navegar numa dura melancolia descabida.
179

TRÊS QUADRAS SOLTAS


O poeta que nunca fui

Nem pró ser o quero

O poeta que vier a ser

Nem em sonhos o recupero.

 

O coração faz a rima

Que a boca irá declamar

Quando a mente desatina

Fica tudo a rimar

 

A palavra é pensamento

Com ela se escreve o verso

Mas sem rima também penso

Os poemas do universo
235

LONGO INVERNO


Nestes húmidos dias de inverno

Que mais parecem um inferno

 

Ponho as mãos no chão encharcado

Mondo a erva verde com o meu arado

E penso na cor do mundo transformado.

 

Lembro-me então que uma doença maldita

Vinda de longe, ficou, ninguém a evita

Obriga-nos a viver solitários como o ermita.

 

A erva colorida continuarei a mondar

Como não sei nada, ir-me-ei calar

Até ver se, como e quando isto vai acabar.
236

NOVOS ESCRAVOS


Estes seres que de humanos se orgulham

Passam pelo mundo sem sequer pensar

Que outros semelhantes vão escravizar

No consumo em que os mergulham

 

Se escravos somos de olhos vendados

Com vida miserável de consumistas

Estamos pacificamente paralisados,

Parecemos alienados e comodistas.

 

Mas se de repente a nobre mente,

De milhões que somos no consumo viciados,

Pensar que mudar é muito urgente

 

Teremos então esses vilões erradicados

Os nossos hábitos radicalmente alterados

Ficaremos felizes com um novo ambiente.
213

BICHOS DO JARDIM

O grilo furou

Fez um furinho

E no fim do furo

Fez o seu ninho

 

O trilho da minhoca

É dentro da terra

Quanto mais fura

Mais se enterra

 

Joaninha que voa

Põe os teus ovos

Vai para Lisboa

Ter filhos novos

 

Lagarta verdinha

Peste vedeta

Comes a couve

Serás borboleta

 

O bicho da conta

Te vai enganar

Menina tonta

Fica a chorar

 

Lagartixa marota

Sempre à espreita

Se o gaio te topa

Serás desfeita

 

Rã que saltas

Quando o vês

De botas altas

O gato maltês

 

Pirilampo na noite

Luzinha que brilha

Quando te apagas

Falha-te a pilha

 

Gafanhoto saltitão

Sempre a saltar

Salta-me para a mão

Aqui vais ficar

 

Libelinha colorida

Quatro asas tens

És muito atrevida

Enquanto vais e vens

 

Ratinho do campo

Anda ligeiro

Sai do buraco

Chama o parceiro

 

Vespa que picas

O teu ninho já vi

Se aqui ficas

Não gosto de ti

 
Milhares de formigas

No formigueiro

Vão pró trabalho

No seu carreiro

 

Abelha obreira

Trabalha o mel

A rainha põe ovos

Está num hotel

 

Borboleta bailarina

Vem até mim

Tens como sina

Pintar o jardim

 

Oh! sua lesma

Vais na alface

Esconde-te bem

Antes que te cace

 
Verde é o Sapo

O meu jardineiro

Come os bichinhos

Do meu canteiro

 

Bicho pau fininho

Quem é você

És tão magrinho

Ninguém te vê

 

Ralos ralinhos

O canto repicam

Quantos mais morrem

Mais ralos ficam

 

Por fim o caracol

Chama os vizinhos

E lá vão pró sol

Pôr os pauzinhos.

 

237

CORPOS FUNDIDOS



Com os corpos estremecidos no chão

As mentes fundem-se em infinita paixão.

Nos olhos olhamos uma luz verdadeira

E nos vemos como chamas de fogueira.

Pelos lábios trocamos líquidos ardentes

Os olhos fechamos e viramos videntes.

Com as mãos macias os corpos tocamos

Ao ouvido dizemos que nos amamos.

E no meio de tamanha confusão

Somos dois seres em perfeita comunhão.

É então que os corpos se libertam

E em festa duradoura se penetram.

E depois de orgasmos compulsivos

Parecemos mortos, mas estamos vivos.

 

 
17 fevereiro 2021

Garcia Mateus
181

DICIONARIO COVID

Covid

Que me agride

Doença má que não regride.

 

Zaragatoa

Lançada á toa

Em narina não magoa.

 

Contágio

É um plágio

E muito mau presságio.

 

Infeção

Pois então

Espalhada na população.

 

Curva exponencial

Que mal

Achatar é crucial.

 

Isolamento

No aposento

Durante muito tempo.

 

Quarentena

Que pena

A autoridade ordena.

 

Hospital

Não é um mal

É um tratamento especial.

  

Ventilador

Que horror

Que tortura e que terror!

 

Emergência

Com urgência

É um estado da consciência.

 

Distanciamento

Eu bem tento

A quantos metros me aguento?

 

Máscara

Na cara

Tapa tudo e o vírus trava

 

Confinamento

Que tormento

Ficar em casa eu bem tento.

 

Vacina

Que sina

O chico-esperto não atina.

 

Pandemia

Que mania

Ataca todos sem terapia.

 

Imunidade

Sem idade

E para toda a Humanidade!
206

VIDA E MORTE



A enxada a terra corta

A pá pesada a transporta.

 

Cova aberta em terra leve

Raiz profunda a fura em breve

Para que a copa alta se eleve.

 

Também pela mesma razão

Contrariado lá vai o caixão

Alimentar-se do mesmo chão.

 

E sem medos nem intrigas

Sendo ambas muito antigas

Vida e morte são sempre amigas.
224

OS 5 SENTIDOS



De olhos bem abertos

Perco a visão do interior que me inquieta

Do vício que me afeta e do medo de ser poeta.

Mas de olhos fechados

Encerro-me dentro de mim

E verei as cores dos defeitos sem fim.

 

De ouvidos à escuta

Não ouço o vento que bate na minha mente

Nem o grito que dei quando fui gente.

Mas de ouvidos tapados

Irei com atenção ouvir

As incertezas do futuro que há de vir.

 

E com eles bem despertos

O cheiro e o sabor voam à distância,

Para longe, para os lugares da infância.

Mas se por algum motivo os não sentir

Meterei a boca e o nariz

No caldeirão de tudo o que não fiz.

 

Com o tato vou palpar

As formas desta vida deformada

Mas com este sentido afetado

Apalparei o vazio em forma de nada.
237

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