ANESTESIA
Cartas abertas, envelopes fechados
serão alertas sempre negados
Desligamos a radio vemos TV,
aparece um estádio, isto é o quê?
Dão-nos as delícias do passatempo
dão-nos notícias a todo o momento.
Mesas redondas, círculos quadrados
navegamos as ondas, somos embalados.
Mudamos o canal que é pornográfico,
vemos o banal em forma de gráfico.
Lemos jornais? Não sabemos ler!
Palavras banais? Não vamos escrever!
Fartos de tretas e de projeções
não temos metas só ilusões.
E desiludidos ficaremos pasmados,
lentamente anestesiados.
TRISTEZA
Os meus olhos entristecem-me de negro
No meu rosto me revejo e me integro.
A tristeza de um mar profundo de solidão
Em que mergulho só, naquela vastidão
Lembra um vago e triste olhar na escuridão.
Triste fica o meu coração quase parado
Por amor do que nunca foi amado
Por paixão do que nunca foi apaixonado.
Não quero mais viver nesta tristeza vivida
Neste mar atormentado que me convida
A navegar numa dura melancolia descabida.
TRÊS QUADRAS SOLTAS
O poeta que nunca fui
Nem pró ser o quero
O poeta que vier a ser
Nem em sonhos o recupero.
O coração faz a rima
Que a boca irá declamar
Quando a mente desatina
Fica tudo a rimar
A palavra é pensamento
Com ela se escreve o verso
Mas sem rima também penso
Os poemas do universo
LONGO INVERNO
Nestes húmidos dias de inverno
Que mais parecem um inferno
Ponho as mãos no chão encharcado
Mondo a erva verde com o meu arado
E penso na cor do mundo transformado.
Lembro-me então que uma doença maldita
Vinda de longe, ficou, ninguém a evita
Obriga-nos a viver solitários como o ermita.
A erva colorida continuarei a mondar
Como não sei nada, ir-me-ei calar
Até ver se, como e quando isto vai acabar.
NOVOS ESCRAVOS
Estes seres que de humanos se orgulham
Passam pelo mundo sem sequer pensar
Que outros semelhantes vão escravizar
No consumo em que os mergulham
Se escravos somos de olhos vendados
Com vida miserável de consumistas
Estamos pacificamente paralisados,
Parecemos alienados e comodistas.
Mas se de repente a nobre mente,
De milhões que somos no consumo viciados,
Pensar que mudar é muito urgente
Teremos então esses vilões erradicados
Os nossos hábitos radicalmente alterados
Ficaremos felizes com um novo ambiente.
BICHOS DO JARDIM
O grilo furou
Fez um furinho
E no fim do furo
Fez o seu ninho
O trilho da minhoca
É dentro da terra
Quanto mais fura
Mais se enterra
Joaninha que voa
Põe os teus ovos
Vai para Lisboa
Ter filhos novos
Lagarta verdinha
Peste vedeta
Comes a couve
Serás borboleta
O bicho da conta
Te vai enganar
Menina tonta
Fica a chorar
Lagartixa marota
Sempre à espreita
Se o gaio te topa
Serás desfeita
Rã que saltas
Quando o vês
De botas altas
O gato maltês
Pirilampo na noite
Luzinha que brilha
Quando te apagas
Falha-te a pilha
Gafanhoto saltitão
Sempre a saltar
Salta-me para a mão
Aqui vais ficar
Libelinha colorida
Quatro asas tens
És muito atrevida
Enquanto vais e vens
Ratinho do campo
Anda ligeiro
Sai do buraco
Chama o parceiro
Vespa que picas
O teu ninho já vi
Se aqui ficas
Não gosto de ti
Milhares de formigas
No formigueiro
Vão pró trabalho
No seu carreiro
Abelha obreira
Trabalha o mel
A rainha põe ovos
Está num hotel
Borboleta bailarina
Vem até mim
Tens como sina
Pintar o jardim
Oh! sua lesma
Vais na alface
Esconde-te bem
Antes que te cace
Verde é o Sapo
O meu jardineiro
Come os bichinhos
Do meu canteiro
Bicho pau fininho
Quem é você
És tão magrinho
Ninguém te vê
Ralos ralinhos
O canto repicam
Quantos mais morrem
Mais ralos ficam
Por fim o caracol
Chama os vizinhos
E lá vão pró sol
Pôr os pauzinhos.
CORPOS FUNDIDOS
Com os corpos estremecidos no chão
As mentes fundem-se em infinita paixão.
Nos olhos olhamos uma luz verdadeira
E nos vemos como chamas de fogueira.
Pelos lábios trocamos líquidos ardentes
Os olhos fechamos e viramos videntes.
Com as mãos macias os corpos tocamos
Ao ouvido dizemos que nos amamos.
E no meio de tamanha confusão
Somos dois seres em perfeita comunhão.
É então que os corpos se libertam
E em festa duradoura se penetram.
E depois de orgasmos compulsivos
Parecemos mortos, mas estamos vivos.
17 fevereiro 2021
Garcia Mateus
DICIONARIO COVID
Covid
Que me agride
Doença má que não regride.
Zaragatoa
Lançada á toa
Em narina não magoa.
Contágio
É um plágio
E muito mau presságio.
Infeção
Pois então
Espalhada na população.
Curva exponencial
Que mal
Achatar é crucial.
Isolamento
No aposento
Durante muito tempo.
Quarentena
Que pena
A autoridade ordena.
Hospital
Não é um mal
É um tratamento especial.
Ventilador
Que horror
Que tortura e que terror!
Emergência
Com urgência
É um estado da consciência.
Distanciamento
Eu bem tento
A quantos metros me aguento?
Máscara
Na cara
Tapa tudo e o vírus trava
Confinamento
Que tormento
Ficar em casa eu bem tento.
Vacina
Que sina
O chico-esperto não atina.
Pandemia
Que mania
Ataca todos sem terapia.
Imunidade
Sem idade
E para toda a Humanidade!
VIDA E MORTE
A enxada a terra corta
A pá pesada a transporta.
Cova aberta em terra leve
Raiz profunda a fura em breve
Para que a copa alta se eleve.
Também pela mesma razão
Contrariado lá vai o caixão
Alimentar-se do mesmo chão.
E sem medos nem intrigas
Sendo ambas muito antigas
Vida e morte são sempre amigas.
OS 5 SENTIDOS
De olhos bem abertos
Perco a visão do interior que me inquieta
Do vício que me afeta e do medo de ser poeta.
Mas de olhos fechados
Encerro-me dentro de mim
E verei as cores dos defeitos sem fim.
De ouvidos à escuta
Não ouço o vento que bate na minha mente
Nem o grito que dei quando fui gente.
Mas de ouvidos tapados
Irei com atenção ouvir
As incertezas do futuro que há de vir.
E com eles bem despertos
O cheiro e o sabor voam à distância,
Para longe, para os lugares da infância.
Mas se por algum motivo os não sentir
Meterei a boca e o nariz
No caldeirão de tudo o que não fiz.
Com o tato vou palpar
As formas desta vida deformada
Mas com este sentido afetado
Apalparei o vazio em forma de nada.