Guimandro

Guimandro

n. 0000-00-00

Perfil
1 217 Visualizações

NPC de mercado


Gerson se sentia como um NPC, um personagem de jogos que só é ativado quando alguém chega perto, então ele automaticamente recitava o seu script sem nem pensar nas palavras. O balcão de atendimento era o seu mundo, e ali ele desempenhava o seu papel com precisão quase robótica de segunda a sábado. 

Pedro, entrou com seu gingado característico, Gerson já sabia que ele estava a caminho. Poderia identificá-lo até o corredor de laticínios, que era o sexto corredor na frente de seu balcão de atendimento. Já tinha testado isso várias vezes; após o sétimo corredor, ele já não sabia se era Pedro ou não, pois todos no mercado usavam o mesmo uniforme, máscara e rede nos cabelos, como exigia o protocolo.

Pedro entrou rapidinho, sem dar motivos para o supervisor notar sua presença. Ele sempre dava um jeito de parar no balcão de atendimento do Gerson para fazer uma gracinha. Chegava com um sorriso escondido sob a máscara, mas visível nos olhos.

— E aí big G? Como vai a vida de NPC? — perguntou Pedro, enquanto se escorava no balcão.

Gerson esboçou um sorriso que ele guardava só para Pedro

— Bem-vindo ao nosso balcão de atendimento, em que posso ajudar? — respondeu Gerson, em um tom exageradamente formal. — Ops, script errado! — 

— Palhacinho. — Pedro respondeu, dando um leve toque na mão de Gerson e fazendo seu coração disparar, Pedro estava tão próximo que dava pra sentir o calor do seu corpo e o cheiro do perfume cítrico que ele sempre usava.

— A mesma de sempre. Esperando os jogadores interagirem comigo — respondeu Gerson um pouco desconcertado.

Pedro riu, um som abafado pela máscara, mas que ainda assim aquecia o coração de Gerson.

— Um dia você vai sair desse jogo, GG. Vai ver só — disse Pedro, te encontro no intervalo daqui a dez minutinhos, piscando um olho e seguindo seu caminho antes que o supervisor notasse.

Gerson observou Pedro se afastar, seu perfume ainda estava no ar, o gingado característico desaparecendo na multidão de uniformes idênticos e clientes que perambulavam pelo mercado. 

Ler poema completo

Poemas

4

NPC de mercado


Gerson se sentia como um NPC, um personagem de jogos que só é ativado quando alguém chega perto, então ele automaticamente recitava o seu script sem nem pensar nas palavras. O balcão de atendimento era o seu mundo, e ali ele desempenhava o seu papel com precisão quase robótica de segunda a sábado. 

Pedro, entrou com seu gingado característico, Gerson já sabia que ele estava a caminho. Poderia identificá-lo até o corredor de laticínios, que era o sexto corredor na frente de seu balcão de atendimento. Já tinha testado isso várias vezes; após o sétimo corredor, ele já não sabia se era Pedro ou não, pois todos no mercado usavam o mesmo uniforme, máscara e rede nos cabelos, como exigia o protocolo.

Pedro entrou rapidinho, sem dar motivos para o supervisor notar sua presença. Ele sempre dava um jeito de parar no balcão de atendimento do Gerson para fazer uma gracinha. Chegava com um sorriso escondido sob a máscara, mas visível nos olhos.

— E aí big G? Como vai a vida de NPC? — perguntou Pedro, enquanto se escorava no balcão.

Gerson esboçou um sorriso que ele guardava só para Pedro

— Bem-vindo ao nosso balcão de atendimento, em que posso ajudar? — respondeu Gerson, em um tom exageradamente formal. — Ops, script errado! — 

— Palhacinho. — Pedro respondeu, dando um leve toque na mão de Gerson e fazendo seu coração disparar, Pedro estava tão próximo que dava pra sentir o calor do seu corpo e o cheiro do perfume cítrico que ele sempre usava.

— A mesma de sempre. Esperando os jogadores interagirem comigo — respondeu Gerson um pouco desconcertado.

Pedro riu, um som abafado pela máscara, mas que ainda assim aquecia o coração de Gerson.

— Um dia você vai sair desse jogo, GG. Vai ver só — disse Pedro, te encontro no intervalo daqui a dez minutinhos, piscando um olho e seguindo seu caminho antes que o supervisor notasse.

Gerson observou Pedro se afastar, seu perfume ainda estava no ar, o gingado característico desaparecendo na multidão de uniformes idênticos e clientes que perambulavam pelo mercado. 

139

TEMPO PARA AMAR


Cinco e quarenta

Minha boca está seca

Olho o relógio compulsivamente

Me forço a focar no que estou fazendo

Cinco e quarenta e cinco

Mordo meus lábios

Olho o relógio compulsivamente

Já parei de fazer o que deveria estar fazendo

Faço cálculos de quanto tempo estarei em casa

Aperto a caneta sem parar

 

Cinco 

cinquenta

 

Meu coração está disparado

A ansiedade está me consumindo

Mexo a perna no mesmo ritmo que aperto a caneta

Tomo um gole de água

 

Cinco e 

cinquenta e 

cinco

 

Não escuto mais meu coração

A agonia tomou conta de mim

Mexo a perna, os dedos, os pés em uma sinfonia doentia

Um sorriso escapa

Falta pouco

 

Cinco

 

cinquenta

 e 

oito

 

Tudo é breu

Silêncio

O tempo parou

Seis horas

Saio correndo

Não me despeço de ninguém

Segurando a mochila muito forte

Suor

Coração acelerado

Penso que vou entrar em colapso

Entro na condução

Uma eternidade dolorosa se arrasta

Tenho vontade de arrancar o motorista da direção

E acelerar até minha casa

Mas não sei dirigir

E o Sr. Antônio não tem culpa

Seis e vinte

Chego em casa

A porta demora pra abrir

Me sinto naquelas gincanas que o participante tem um molho de chaves e procura a chave correta que abre o cadeado, mesmo meu chaveiro tendo apenas uma chave

A porta abre

Corro pro meu quarto

Tropeçando em tudo

Jogo a mochila que bate em algo e quebra, mas não me importo

O computador já está ligado pra evitar mais demora

Entro no seu perfil

Torcendo pra que esteja lá

E está

Um lindo-radiante-maravilhoso-caloroso "Estou aqui"

Uma mensagem sua

Que esperei o dia inteiro

Que pareceu um ano

E agora nada mais importa

Nada mais existe

Só você em letras

110

Tudo muda

As coisas não duram para sempre. Soa até infantil falar isso. É claro que nada dura para sempre, mas a gente esquece ou finge esquecer. Pessoas, coisas, aquele bichinho de estimação, tudo tem um fim. Aquela tão esperada viagem, o final de semana de folga prolongada, o filme que você esperou ansioso para estrear, aquela roupa favorita, aquela comida gostosa que você preparou para comer com alguém especial, o trabalho chato, a dor de cabeça, o dinheiro, a falta de dinheiro, a dor nas costas, o relacionamento.

O tênis novo fica velho, a flor do vaso morre, a criança cresce, o celular dá pau, a tinta seca, o livro rasga, as folhas da árvore caem, a água evapora, a música acaba. Tudo muda, tudo sempre muda. Eu sei, você sabe, todo mundo sabe, mas como num pacto secreto, ninguém fala sobre isso. É estritamente proibido falar da morte, do fim, da separação, dos desencontros, da finitude. Não pode falar do azar, é tabu, como se não falando fosse alterar essa que é uma das maiores, senão a maior, verdade imutável de toda nossa existência. Tudo acaba, tudo muda, tudo morre. Tudo, todos.

E isso não necessariamente é ruim, não precisa ser triste. Tendo consciência de que tudo é impermanente, temos a oportunidade de aproveitar com intensidade os momentos: ouvir com atenção as pessoas, dizer como você se sente estando com a pessoa amada, degustar com calma a comida preparada por seu amor, escutar com atenção cada palavra daquela música favorita, captar cada detalhe da cena do filme, estar no presente, aqui e agora. Foda-se o depois. Não vai ter um depois em algum momento.

"Não deixe nada para depois, não deixe o tempo passar." 

O tempo passa. 

As coisas mudam. 

As pessoas mudam. 

As pessoas morrem. 

Eu, você, o seu cachorro, o seu Antônio motorista do ônibus, todo mundo vai deixar de existir em algum momento. 

Então, por que deixar de aproveitar o momento de agora? 

Até quando você vai ficar aí parado, hein?

120

Carta Aberta a Um Quase Amor


Acordei com a imagem do seu rosto ainda nítida na minha mente. Sonhei com você. Mas não tenho coragem de te contar. No sonho, você me convidava para ir ao cinema. Era um convite simples, mas carregado de uma ternura que eu ansiava experimentar no mundo acordado. Seria maravilhoso receber essa mensagem, ver seu nome brilhando na tela do meu celular. Tenho a sensação de que nos encontramos em momentos da vida que não se alinharam por um triz. Nossos caminhos se cruzaram, mas nunca conseguiram se entrelaçar completamente. Foi gostoso, carinhoso, cheio de tesão. Mas, na época, eu estava preso em raízes profundas dentro de mim.

Quando finalmente aparei essas raízes, você já não estava mais tão perto. Te vejo de longe agora, observando seu jeito de ser, admirando suas conquistas e seus gestos. Te quero de uma forma insistente dentro de mim.

Adoraria passar manhãs, tardes e noites com você, ouvindo sua voz grave e doce sussurrando no meu ouvido ao acordar. Tocar sua pele, sentir sua presença ao meu lado. Dormir de conchinha, como fizemos ao menos uma vez, é uma lembrança que guardo com carinho.

Mas as coisas mudam muito rápido. Acredito que você perdeu o interesse. Talvez eu tenha passado uma imagem de não ser verdadeiro, eu acho. Escondi que estava saindo de uma relação porque, para mim, já não estava. Era mais sobre afastar os corpos do que os corações.

Sonho acordado com você em alguns momentos, permitindo-me ser levado por fantasias que pintam um futuro em que estamos vivendo momentos juntos. Não que minha vida esteja parada por sua causa. Eu me relaciono com outras pessoas muito queridas, e até com um amigo seu — algo que juro ser obra do roteirista celestial. Quando te vejo nas redes sociais, o desejo ressurge. Te quero, mas você não me dá mais bola. Me chama de amigo e não retribui minhas investidas, nem responde às mensagens. É como se eu fosse invisível, uma sombra do que poderia ter sido.

Mas acho que mereço isso. As consequências das minhas ações e das minhas omissões. Te vejo de longe, e por enquanto, isso me basta. Aceito esse papel de espectador da sua vida, ainda nutrindo um carinho que talvez nunca morra completamente.

Foi uma quase relação, um quase amor. Algo que tinha todos os ingredientes para ser pleno, mas que nunca se concretizou. E assim, vivo com a lembrança do que quase foi, do que poderia ter sido. Um quase amor

125

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.