Himalayanpanda

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n. 1967 BR BR

Sou um Nepalês, mas moro no Bahia, Brasil há 12 anos. Sou estudante de antropologia e gosto muito de ler literatura variada, desde literatura até ciências. Ocasionalmente, também escrevo na minha língua materna, que não está listada no Google Tradutor. Alguns dos meus escritos já foram publicados. Estou aprendendo português (BR).

n. 1967-07-30, Nepal

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Viva em Qualquer Situação (Poema)

-Ranjan Lekhy
Saj, Bahia, Brasil
22 de agosto de 2025

Aconteça o que acontecer,
Viva — em qualquer situação.

Não morra antes da morte chegar.
Não desista antes do fôlego acabar.
Não perca pra si mesmo, não se traia.
Não mate o respeito próprio em vida.
Enquanto ainda respira — não caia.

Sem vício que te prenda a ilusão.
Sem dar morada à desesperação.
Não dependa de alguém pra te erguer.
Não solte a fé no que pode fazer.
Você — viva.
Você — viva.
Em qualquer situação — viva.

No coração ferido, rasgado em dor,
Passe em si mesmo o próprio curador.
Dos pensamentos quebrados, da visão escura,
Rasgue a tinta negra da noite dura.
Você carrega sementes de despertar —
Regue com luz que vem do seu olhar.
Reconheça direção, reconheça o chão.
Tempestades vêm e vão — é condição.
Mesmo com a água alta, continue a remar.
Em qualquer situação — saiba flutuar.
Em qualquer situação — viva.

Com você mesmo.
Com cada respiração.
Passo por passo.
Até o último chão.

Você — viva.
Você — viva.
Em qualquer situação — viva.

Você — viva.
Leia, escreva, estude sem cessar.
Pense o novo. Ouse criar.
Novo ofício, novo saber.
Veja sonhos novos nascer.
Pratique conforme o que sonhar.
Crie o novo.
Depois — deixe ir, deixe passar.

Teste outra vez.
Falhe outra vez.
Caminhe outra vez.
Se vier insulto — suporte.
Se vier perda — suporte.
Se vier dor, luto, ruína — suporte.
Mas procure outra estrada, outro lugar.
Crave sua estaca em solo por explorar.
Erga abrigo mais uma vez.

Mas acima de tudo —
Você — viva.
Em qualquer situação — viva.

Você — viva.
Vivo por fora. Vivo por dentro.
Nesse mundo barulhento e violento,
Escolha suas cores preferidas.
Preencha-se livre, sem medida.
Sem vergonha. Com coragem.

Preencha-se de calma.
Preencha-se de paz.
Encha seus sonhos de esperança eficaz.
Seja feliz. Permaneça vivo.
Preencha-se de compaixão e gozo compartilhado.
De amizade, equilíbrio, verdade enraizada.
De empatia e ética afinada.

Faça de cada fôlego um vaso sagrado.
A vida é remédio — inteiro, integrado.
Viva bem. Viva em fluidez.
Viva inteiro, contínuo outra vez.
Deixe o amor correr — simples, sem nó.
Um néctar eterno, livre, só.

Viva — em qualquer situação.

(Traduzido da composição Tharu)

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Poemas

2

As sementes de mostarda (Conto)

(A História de Kisa Gotami)

– Ranjan Lekhy 
SAJ, Bahia, Brasil 
16 de novembro de 2025 

 

Setecentos anos antes de Jesus Cristo, na antiga Índia, em uma favela da capital Shravasti, no Reino de Kosala, vivia uma família muito pobre. Apesar do trabalho esmagador do pai todos os dias, nunca conheciam uma alimentação equilibrada ou nutritiva. Nesse ambiente sufocado por preocupações e dificuldades nasceu uma menina. Deram-lhe o nome de Gotami. Com o passar dos anos, seu rosto continuou belíssimo, mas a desnutrição e o trabalho incessante reduziram seu corpo a pouco mais que um esqueleto coberto de pele. Era inocente, disciplinada e incansável. No mesmo bairro viviam várias outras meninas também chamadas Gotami, todas rechonchudas e graciosas. Para diferenciá-la, os vizinhos começaram a chamá-la de “Kisa Gotami” – Gotami Magrinha.

O tempo girou sua roda. Dizem que após toda noite escura, o amanhecer há de chegar. Um dia o destino, por um breve instante, mostrou piedade. Para guiá-la à felicidade, entregou-lhe o fio frágil que chamamos casamento. Aos dezoito anos casou-se com uma casa rica. No início parecia um paraíso: sogros bondosos, marido amoroso, cunhados carinhosos. Mas a ilusão rachou e desmoronou em poucos anos. Quando, apesar do tempo passar, nenhum filho veio, a língua da sogra afiou-se e o olhar do sogro esfriou. Os membros mais jovens da família passaram a tratá-la com desprezo aberto. Era tolerada apenas como esposa cumpridora. Em casa tornou-se menos que uma criada – acordada antes do amanhecer, só podia dormir depois da meia-noite.

Então, um dia, um milagre. Contra toda esperança, engravidou. Um dia deu à luz um menino perfeito, de termo completo, de membros dourados e sem defeito. Da noite para o dia a casa mudou. Os sorrisos voltaram, mãos se estendiam para ajudar, palavras doces enchiam novamente o ar. Ela viu a verdade amarga: não havia sido acolhida como ser humano, apenas como uma máquina – ou para gerar filhos ou para trabalhar dia e noite sem amor, carinho ou descanso.

Mas aquela criança era dela, um pedaço do seu próprio coração. Tornou-se a sombra fresca de uma figueira-da-índia imortal que lhe dava paz, alegria e segurança. Derramou nele tudo: cada momento de dor, cada gota de leite arrancada da fome, cada canção de ninar tirada de um coração exausto. Observava maravilhada enquanto ele descobria o mundo com olhos arregalados, enquanto seus bracinhos se moviam, enquanto dava os primeiros passos cambaleantes, ria sem medo, chorava quando tinha fome ou estava molhado. Ao ver o filho nascido do seu ventre, todos os longos anos de fome, humilhação e nojo da vida dissolveram-se como cânfora no ar. Agora tinha o sol da esperança, a lua que cantava canções de ninar, os olhos pelos quais via o mundo inteiro. Numa palavra, estava completamente feliz.

Então, num dia de festa, a desgraça caiu. Um mau-olhado atingiu sua alegria. Um raio de dor desabou. No mês frio de Aghan, seu filho de três anos pegou febre, tossiu sem parar, lutou para respirar. A pobre Gotami tentou todos os remédios caseiros. No terceiro dia a tosse parou. A criança ficou babando, inconsciente. Ela o pegou no colo e correu para o pátio gritando: “Acorda, meu principezinho, meu amor! Por que dormes tanto?” Sacudiu-o suavemente, esfregou calor nas bochechas frias, rezou desesperada ao deus da família. Mas os olhos dele permaneceram fechados para sempre. Para ela parecia apenas um sono profundo. Seu mundo desabou, mas coração e mente se recusavam a aceitar.

Os vizinhos se reuniram com o alvoroço. Ela implorou aos parentes: “Chamem um xamã, qualquer exorcista! Algum mantra, algum ritual – qualquer coisa para acordar meu filho!” Um ancião verificou o pulso, colocou o dedo sob o narizinho. Nada. Seu próprio coração se partiu. Com voz embargada de tristeza disse: “Minha querida, o menino se foi. A roda da vida dele parou para sempre.” Com essas palavras o coração dela disparou, a mente ficou dormente. A loucura a envolveu como um sudário. “Ninguém vai me ajudar! Eu mesma vou encontrar um curandeiro. Meu filho vai ficar bem!” Apertando o corpinho sem vida contra o peito, fugiu.

Correu pelas ruelas tortuosas – uma sombra negra de desespero. Em cada porta batia, suplicando com voz que rasgava o coração: “Me deem remédio, qualquer remédio para acordar meu filho deste sono profundo!” As pessoas viam o cadáver em seus braços e os olhos queimando de esperança impossível; seus corações se derretiam. Alguém a mandou a um curandeiro famoso em outra rua; ela foi a todos os nomes mencionados, mas todos se revelaram inúteis. Rituais sem fim, orações sem fim – a criança não se mexia. Os mortos só ressuscitam nas histórias e mitologias, nunca realmente na vida. Uma alma bondosa sussurrou: “Aceite a verdade da morte, filha querida. Volte a si.” Outros, assustados com sua loucura, batiam portas e janelas. Homens cruéis brandiam varas, atiravam pedras, gritavam: “Fora, louca! Leve sua maldição embora!” Mas ela seguia correndo, pés descalços sangrando, sari rasgado, ornamentos quebrados, ainda pedindo ajuda. Acreditava que na próxima esquina certamente havia alguém que poderia acordar seu filho e devolver-lhe a vida.

Fome, sede e cansaço a esmagavam, mas a esperança queimava mais forte e feroz que tudo. Por fim chegou à casa de um velho cujo rosto trazia a calma de séculos. Ao ver a criança sem vida, o corpo quebrado da mãe, os olhos afogados em lágrimas, seu coração se derreteu. Pensou: “Nenhum remédio terreno pode reanimar este menino, mas o grande médico, o Tathāgata Buda, ainda pode acalmar o tormento desta mente perturbada.” Com voz suave de amor disse: “Nobre senhora, refugie-se no Buda, o supremo curador. O remédio que você procura está com ele.”

Ao ouvir o nome do Buda, um lampejo de memória iluminou sua mente. Há muito tempo ela havia vislumbrado de longe o brilho sereno do Senhor; já naquela época seu coração transbordara de fé. Nova força correu por seus membros. O mosteiro não ficava longe. Apertando o filho morto, correu em direção ao Mūlagandhakuti Vihāra.

O Senhor Buda estava sentado num divã, rodeado pela comunidade de monges. Milhares de fiéis leigos estavam ouvindo em silêncio absoluto seu sublime discurso. No instante em que Kisa Gotami chegou, prostrou-se aos pés dele, juntou as mãos, controlou a respiração ofegante e, com voz trêmula, implorou: “Senhor Buda! Dê-me o remédio que possa acordar meu querido deste sono profundo.”

O Tathāgata viu imediatamente a loucura em sua mente. Compaixão infinita brotou nele. Com voz suave disse: “Claro, filha. Tenho remédio para você. Mas para que funcione, você precisa me trazer um único punhado de sementes de mostarda pedidas como esmola na cidade.”

“Sim, Senhor!” Antes mesmo que ele terminasse, ela gritou, transbordando de alegria e esperança: “Eu trarei agora mesmo!” e levantou-se de um salto. Sementes de mostarda eram o tempero mais barato; certamente todas as casas tinham.

Mas o Buda ainda não havia terminado. “Há uma condição, filha. As sementes devem vir de uma casa na qual ninguém jamais tenha morrido.”

Kisa Gotami ainda não compreendeu o significado. Aceitando a ordem, saiu abraçando o cadáver do filho morto!

Na primeira casa bateu confiante, explicou que com aquelas sementes o Senhor Buda ressuscitaria seu filho. Os moradores, comovidos com sua situação, disseram generosamente: “Se sementes de mostarda podem trazê-lo de volta, leve não um punhado, mas um saco inteiro!” e encheram um saco para ela. Quando se virou para ir embora, lembrou-se da segunda condição do Buda. Perguntou: “Esqueci uma coisa – alguém já morreu nesta casa?”

“Sim, querida”, veio a resposta. “Há poucos meses meu pai faleceu; seus últimos ritos mal foram concluídos.” Seu rosto desabou. Devolveu as sementes: “Então seu presente não pode me ajudar. Preciso de sementes de uma casa que a morte nunca tenha tocado.”

Pensou: “Azar na primeira casa. A próxima certamente terá.”

A mesma cena se repetiu. Casa após casa tinha sementes em abundância, mas em todas as famílias alguém havia morrido – pai, mãe, filho, filha, avô, avó, tio, tia, irmão, irmã, servo, patroa. Depois de um tempo ela nem pedia mais as sementes; simplesmente batia e perguntava: “A morte já visitou esta casa?” Os moradores, assustados ao verem seu estado de loucura, respondiam rápido por piedade. Gotami seguia adiante.

A noite caiu. Ela havia batido em centenas de portas. Finalmente a compreensão atravessou sua mente: não existe no mundo uma casa que a morte não tenha tocado. Começou a aceitar que não era a única a perder um filho, que essa dor não era única nem injusta. O destino não a havia amaldiçoado só a ela. A morte do filho não significava que o universo tivesse se tornado cruel. Era simplesmente o curso natural das coisas – como uma lamparina a óleo que se apaga silenciosamente quando o óleo acaba, a morte vem sem ser chamada e leva o que é seu. Depois de percorrer a cidade e ouvir a dor de centenas de famílias, viu claramente: a morte prematura é comum. Ela era apenas uma entre incontáveis pais que perderam um filho cedo demais. Agora também ela precisava fazer o que os pais fazem – levar o corpo ao local de cremação e realizar os últimos ritos com amor.

Ainda dilacerada pela dor de mãe, mas liberta do peso da ignorância e do apego, Kisa Gotami aceitou a verdade no fundo do coração. Com amor terno levou o filho em sua última jornada e o cremou.

Então, com a mente angustiada acalmada, voltou ao Mūlagandhakuti Vihāra. Ao chegar diante do Abençoado, prostrou-se com plena reverência, recompôs-se e sentou-se em atenção plena. Pela postura dela o Buda soube que uma transformação profunda havia ocorrido, mas com um sorriso afetuoso perguntou: “Filha, você trouxe as sementes de mostarda?”

“Não, Senhor”, respondeu ela. “Sementes de mostarda havia em toda parte, e todos estavam prontos a dar, mas não encontrei uma única casa onde a morte nunca tivesse entrado.”

O Tathāgata sorriu suavemente. “Quando eu disse que tinha remédio para você, talvez tenha pensado que eu ressuscitaria seu filho. Mas a verdade é que o remédio nunca foi para ele – foi para você. Vejo que já começou a fazer efeito.”

Gotami curvou a cabeça em gratidão. “Sim, Senhor. Agora estou livre da ignorância e do desejo. Agora vejo claramente: ninguém escapa da velhice, da doença e da morte. Esta é a verdade inescapável para todo ser vivo.”

O Senhor Buda disse: “Muito bem, filha. Você realizou diretamente a Primeira Nobre Verdade: o nascimento é sofrimento, a velhice é sofrimento, a doença é sofrimento, a morte é sofrimento; a união com o desagradável é sofrimento, a separação do amado é sofrimento, não conseguir o que se deseja é sofrimento; em resumo, os cinco agregados sujeitos ao apego são sofrimento.”

Então Gotami disse: “Venerável Senhor, nasci numa família pobre e nada tive. Fui doente por desnutrição. Casei-me numa família egoísta e sem amor, e naquele ambiente tóxico tive que viver uma vida cheia de miséria e frustração. Quando nasceu meu filho amado, pensei que finalmente havia encontrado apoio para minha vida. Mas quando ele morreu, enlouqueci com a dor insuportável da perda. Porém, pela compaixão do Senhor, agora ganhei o olho da sabedoria. Já não sofro mais no delírio da dor; ao contrário, reflito e analiso com clareza.”

O Abençoado elogiou-a: “Excelente, filha. Agora aprenda as três Nobres Verdades restantes.”

Ao ouvir isso, Gotami pediu a ordenação e tornou-se bhikkhuni (uma freira). Anos depois, numa noite em sua cabana, contemplou a chama de uma pequena lamparina – tão frágil que a menor brisa poderia apagá-la. Naquele instante realizou profundamente a natureza fugaz da vida e atingiu o estado de arahant. Sua mente fundiu-se à mente do Senhor. O Buda soube que Kisa Gotami havia alcançado o Imortal. No salão da assembleia, para acender a diligência na Sangha meditante, anunciou a notícia alegre e recitou este verso:

Ainda que alguém vivesse cem anos
sem ver o estado a liberdade,
melhor é um único dia de vida
para quem vê o a liberdade.

Ainda hoje Kisa Gotami é honrada como uma das principais entre as grandes discípulas mulheres do Buda. Ela não apenas continuou a linhagem das bhikkhunis, mas, ao alcançar o fruto supremo do ensinamento, tornou-se uma fonte inesgotável de inspiração.

Após toda noite escura, o amanhecer chega mesmo. 

 

Fim

177

Manteiga Ghee e Pedrinhas (Conto)

—Ranjan Lekhy
Saj, Bahia, Brasil 
Quinta-feira, 12 de junho de 2025

Um dia, um jovem, chorando amargamente, veio buscar refúgio com Gautama Buda. Lágrimas escorriam de seus olhos, e ele soluçava incontrolavelmente, o rosto refletindo profunda tristeza, desamparo e desespero. O Senhor Buda olhou para ele com compaixão e perguntou em voz calma: “O que aconteceu, filho? Por que você está tão aflito?”

O jovem, com voz trêmula, respondeu: “Ó desperto, ontem meu venerado pai faleceu.” Sua voz estava cheia de dor. Soluçando, continuou: “É por isso que meu coração está profundamente angustiado. Eu o amava muito. Sua partida é a maior perda da minha vida. Agora me sinto destruído.”

O Senhor Buda, tentando acalmar sua mente, disse: “Querido filho, o que aconteceu faz parte do ciclo natural da vida. Todo ser que nasce deve enfrentar a morte. Seu choro não pode trazer seu pai de volta. Nem mesmo deuses e deusas têm o poder de deter a morte.”

O jovem assentiu. “Sim, Senhor, eu sei que a morte é inevitável. Mas vim com um humilde pedido.”

“Qual é o seu pedido, filho?”, perguntou Buda gentilmente.

“Ó Senhor, por favor, faça algo pela libertação da alma do meu pai. O Senhor possui poderes maravilhosos. Quando outros brâmanes, sadhus, sacerdotes, monges e sábios realizam rituais, as pessoas dizem que a alma do falecido atinge a libertação ou chega ao céu. Eu sei que o Senhor é muito mais poderoso do que todos eles. Se o Senhor fizer algo pelo meu pai, ele não vai ganhar apenas um visto de entrada para o céu — vai ganhar um green card para residência permanente! Por favor, encontre uma maneira para ele.”

A mente do jovem estava tão perturbada que ele não estava em condições de ouvir ou entender raciocínios lógicos. Seus pensamentos ainda estavam enredados em crenças populares e tradições supersticiosas. Buda viu que um ensinamento direto não funcionaria naquele momento. Ele decidiu usar um experimento simbólico para ajudar o jovem a perceber a verdade.

Consolando-o externamente, Buda disse: “Filho, eu entendo o seu apelo. Venha, vamos realizar um ritual. Vá ao mercado e compre dois vasos de barro e um pedaço de tecido musseline vermelho.”

O rosto do jovem se iluminou de alegria. Ele pensou que o Senhor estava prestes a realizar algum ritual divino para facilitar a jornada do pai no além. Ele correu até o Mangal Hatiya (Mercado), comprou dois belos vasos de barro pretos (pequenos) do oleiro e um tecido musseline vermelho, e então voltou. A notícia se espalhou pela vila de que o Senhor Buda estava conduzindo uma grande cerimônia fúnebre. Logo, todos se reuniram na casa do jovem.

No devido tempo, o Senhor Buda chegou com cinco discípulos. Os aldeões prestaram homenagem à Sangha e sentaram-se em silêncio, observando com curiosidade.

Buda então disse ao jovem: “Encha um vaso com um quilo de ghee.”

O jovem assim o fez.

“Agora encha o outro vaso com dez ou quinze pedrinhas pequenas.”

Sem questionar, o jovem fez isso também.

“Agora sele bem os dois vasos de barro pela parte de cima e amarre-os com o tecido vermelho para que as bocas fiquem completamente fechadas.”

Cuidadosamente, o jovem selou e amarrou os dois vasos conforme instruído.

“Faça duas placas com folhas limpas e coloque nelas arroz inteiro, folha de betel, noz de areca, folhas de tulsi, uma lâmpada de ghee e incenso para adoração.”

“Um bastão de bambu para cajado.”

O cajado foi rapidamente preparado conforme ordenado.

“Agora vamos ao lago para o ritual.”

O jovem, vestido com um dhoti limpo e pano superior, segurava o cajado de bambu verde na mão. Um a um, as pessoas carregaram os dois potes em uma corrente em direção ao lago da vila. O Senhor Buda e a comunidade monástica seguiam atrás. As mulheres da casa, chorando, carregavam os materiais de adoração. Uma multidão de aldeões se reuniu na margem do lago.

O Senhor Buda disse ao jovem: “Agora fique com a água na cintura e coloque os dois vasos e os materiais de adoração ali para o ritual.”

O jovem entrou na água, colocou os dois vasos e as placas de folhas com os materiais. Todos os itens flutuaram como esperado. De frente para o leste, ele realizou a adoração de coração. Todos sentaram-se em silêncio na margem.

Após a adoração, Buda disse: “Agora pegue o cajado de bambu.”

Todos estavam curiosos sobre o próximo passo.

“Agora quebre os dois vasos, um de cada vez, com o cajado.”

O jovem golpeou com força, e os dois vasos de barro se despedaçaram. O ghee de um vaso se espalhou e flutuou na água, enquanto as pedrinhas do outro vaso tilintaram e afundaram no fundo.

Buda sorriu e disse: “Filho, agora vamos todos juntos orar com corações puros — ‘Ó pedras, subam! Ó ghee, desçam!’”

O jovem ficou atônito. Após um momento de silêncio, ele disse: “Senhor, isso é impossível. As pedras são mais pesadas que a água, por isso afundam. O ghee é leve e escorregadio, por isso flutua na superfície. Essa é a lei da natureza. Nenhum mantra ou oração pode mudar essa lei.”

Buda sorriu, olhou para ele e disse: “Filho, assim como há leis da natureza física — que objetos pesados afundam e objetos leves flutuam —, também há leis da vida. A virtude é leve, o pecado é pesado; a felicidade é leve, a tristeza é pesada. O que uma pessoa faz determina se ela sobe ou desce, na vida e após a morte.”

“Se seu pai cumprisse seus deveres em vida, servisse aos outros e trilhasse o caminho da verdade, da compaixão e da bondade, suas ações virtuosas seriam leves como ghee. Ele ascenderia, alcançaria um bom renascimento e nada poderia derrubá-lo. Mas se sua vida tivesse sido gasta em egoísmo, ódio, ganância e violência, ele afundaria como uma pedra. Nenhum deus, deusa, ritual ou cerimônia poderia elevá-lo ou conceder-lhe a libertação. ”

Ao ouvir as palavras de Buda, todos reunidos na margem do lago caíram em profunda reflexão. O jovem ficou em silêncio, atordoado com esse choque intelectual. Logo, uma faísca de compreensão começou a brilhar dentro dele. Ele agora percebia que boas ações são muito mais importantes do que qualquer ritual externo.

Buda olhou para ele com terna compaixão. “Filho, libere sua preocupação pela alma do seu pai. Se o karma dele foi saudável, ele alcançou seu destino merecido. Se não, seu dever agora é viver de tal maneira que, quando chegar a sua hora, você também suba. Ações feitas pelos mortos não geram mérito. No entanto, realizar boas ações em nome do seu pai — isso é a verdadeira homenagem.”

Uma nova luz brilhou nos olhos do jovem. Ele caiu aos pés de Buda com os aldeões e disse: “Ó desperto! Hoje, com a luz da sua sabedoria, o Senhor dissipou as trevas da nossa ignorância. Agora entendemos que, para mudar a direção da vida, devemos mudar nossas ações. Nós nos esforçaremos para tornar nossas vidas leves como o ghee, não pesadas como pedrinhas.”

Buda, com uma voz cheia de tranquilidade e compaixão, disse: “Filho, esta é a verdade, este é o Dharma, este é o caminho para a libertação.”

Uma criança na margem perguntou: “Senhor, o Senhor falou de boas ações. Quais são elas?” Buda respondeu: “Observar a conduta moral, praticar a meditação e desenvolver a sabedoria são boas ações.” Ele então explicou o Nobre Caminho Óctuplo em linguagem simples:  
·      Moralidade: Fala Correta, Ação Correta, Meio de Vida Correto  
·      Meditação: Esforço Correto, Atenção Plena Correta, Concentração Correta  
·      Sabedoria: Visão Correta, Intenção Correta  

Todos entoaram “Sadhu, sadhu, sadhu” em gratidão ao Senhor. Começaram os preparativos para oferecer comida à comunidade monástica.

(Fim)

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