Noites de tormentas
No leito do meu mar
Tento dormir, não consigo
Os lençóis são águas profundas
À frente e atrás de mim
Nadar não sei, e água sufoca-me
Ir adiante não consigo
Voltar já não posso mais
Escuridão, nada vejo
Tenho sede, bebo dessa água
Que apenas faz-me mais sedenta ainda
Numa prece peço ao Senhor
Que me mande uma ilha
Preciso de terra firme
Que meus pés toquem o chão
Pois em águas tão profundas
Não sei até quando aguentarei...
Metamorfose
Sinto-me qual lagarta
Dentro do seu casulo
Pobre lagarta sem forma
Sem liberdade, sem brilho
Sente muita dor em seu aperto
Não conhece o mundo
Não sabe o que a espera
Uma hora de uma forma
Outra hora de outra
Qualquer tentativa de ajudá-la
Apenas causaria mais sofriemento
Trata-se de um processo natural
Repentinamente sente uma profunda dor
Chega a imaginar que não mais viverá
E no clímax do seu sofrimento
Algo maravilhoso acontece
Uma frecha de luz
Ameniza-lhe a dor
A brecha abre-se mais e mais
Sua dor esvai-se lentamente
Mas ainda sente-se fraca
Não reconhece seu corpo
Percebe asas brilhantes
Ainda tímida esboça voo
E num súbito ato de coragem
Abre suas asas e voa
Voa, voa, voa
NÃO É O POETA
Ao poeta Deus deu o dom
De falar de tudo
Do mar, do céu, do sol, da terra
De tocar corações, falar de amor
Um ser tão sensível ouve
O som calamante dos seres atormentados
E transforma em versos
O que aos olhos é invisível
Se a linda donzela espera o amor
o poeta escreve
Com suas belas palavras
Tudo o que lhe causa dor
Se o cavalheiro perde
Sua amada dama
O poeta transforma em versos
Todo o seu grande drama
O poeta também fala de suas dores
de seus dramas, de seus caminhos
Admiração, ilusão
E também fala de seus amores
Mas o poeta tem faces mil
Pode ser feliz, triste, melancólico
Traduz em palavras
O que nos olhos não se viu
No momento mágico da poesia
O poeta sofre, geme, sente agonia
Pois deseja transparecer palavras
Tão claras quanto a luz do dia
Toma o meu silêncio
Minha voz enfraqueceu, apenas tenho este último fio
Para dizer-te estas últimas palavras
Já dissestes todas as palavras, todo meu amor, toda minhavontade
Apenas o nada me destes como resposta
Então perdi a voz, que antes ecoara tão graciosamente
Em amor, em esperança, em ilusão, em desilusão, em pranto,em arrasto
Mas agora nada tenho a dizer, somente que deixarei meu silencio
falar por mim
O mesmo silêncio que me das agora, será o que te darei de hoje em diante
Mas meu silêncio não será calar por calar
Será um silêncio de quem já dera todas as palavras e nada mais tem a dizer
O silêncio que quem já falou muito
Um silêncio de quem após muito lutar, entrega as armas erende-se
Conformando-se com a perda, com a partida, com a ausência
Tu calastes por calar
Eu agora calo de tristeza conformada e depois passada
Calo, porque apenas isso tenho a lhe dizer agora
Para ti, não tenho mais voz
Intuição
Os céus deram-me um dom
De ler as mil faces
Que as pessoas emitem
Sem fazer nenhum som
Sensibilidade na pele
Pra descobrir as antíteses
De felicidades por razões
Que mais doem e ferem
Os olhos não mentem
Deixam sempre impressão
Que mesmo em silêncio
As pessoas mais sentem
Não sei se isso é bom ou ruim
Pois por isso as pessoas
Muitas vezes se assustam
E se afastam de mim
Não queria ouvir
A voz da minha intuição
Pois também casa medo
Ao meu pobre coração
Ela nunca se engana
É sempre muito certeira
E me ajuda também
A fazer menos besteira
Conhecer o outro
Conhecer a mim
Espero minha intuição
Que nunca te tenhas fim
Permita-se
Eu lamento muito
Não que tenhas errado
Mas porque não se tenha permitido
Sentir o calor do sol
A brisa no rosto
O perfume das rosas
O toque na pele
Não, não quisestes ao menos ouvir
O canto dos pássaros
Que tanto insitiam em cantar para ti
Tu tapastes os ouvidos
Cerrastes os olhos
Calastes a boca
Ignorastes
Entristeci, não porque te fechastes
Espero que te arrependas
E que não te tardes
Pois antes que te apercebas
As nuvens encobrem o sol
A chuva impede a brisa
As pétalas caem ao chão
Os calos insensíbilizam o toque
Os pássaros migram pro sul
Espero que não te tardes
Não me incomodes mais
Não me procures mais
Já não quero olhar teus olhos
Nem ouvir tuas palavras
O som da tua voz irrita-me
Não me culpes por nada
Não pedi o teu amor
Tu mesma te iludistes
Também não te usei
Foi uma troca
Mas agora passou
Siga tua vida como sempre fizestes
Não te preocupes com meu caminho
Apenas a mim pertence
Não me incomodes mais com o teu amor
Entregue-o a outro alguém
Pensando bem, não o faças tão rápido
Espera um pouco, se quiseres, é claro
Deixa apenas eu olhar-te
Antes que te vás
Por favor, não chores
Pra não apagar o brilho dos teus olhos
Boas lembranças guardarei de ti
Não vires-me as costas
Não te vás ainda
Espere por mim
Teu caminho me pertence, lembras?
E o meu pertence a ti
Fiques, eu imploro
Não abandones-me aqui, volte atrás
Por que ficastes muda?
Já não me amas mais?
Já me esquecestes
Tarde demais
LAVAR A ALMA
Mais uma vez o mesmo amargor
A mesma sensação
De estar a um passo do rio
E não poder saciar a sede
Meus olhos secaram
Como chuva que já molhou a terra
Mas não renovou a relva
A seca persiste
Sem chuva, sem renovação
Mais uma vez a mesma instabilidade
A sensação de impotência
Como a do sertanejo
Que não sabe se a terra brotará amanhã
E por mais que ele are, regue, cultive
Precisa que a chuva cumpra seu papel
Sou como o sertanejo
Mesmo os céus dizendo que não
Espera que ela venha amanhã
Lavar a terra
Brotar semente
Crescer o fruto
Matar a sede
Lavar a alma
Brotar o sorriso
Crescer o amor
Matar a sede
Meu amor foi embora
Meu amor me falou
Te amo, minha paixão
Mas depois foi embora
Arrasou meu coração
Ele também me falou
Te quero, minha querida
Mas depois foi embora
Balançou minha vida
Disse também para mim
Você é especial
Mas depois foi embora
Me deixou muito mal
Ele disse-me ainda
Nunca vou te deixar
Mas depois foi embora
Esqueceu de me amar
Disse me que eu era
A sua única amada
Mas depois foi embora
Achou outra morada
Não sei o que pensar
Acho que ele mentiu
Roubou meu coração
Sem demora fugiu
Poesia e Canção
Ai de mim se não fosse poesia e canção
As noites seriam mais longas
As dores seriam mais fortes
As desilusões seriam cruéis
Quando me sinto esmagada
Pela circular rotina
Elas são refrigério
Quando amores de mim se esquecem
Quando me esqueço dos amores
Elas sempre amenizam minhas dores
Por meio delas faço viagens interplanetárias
Sem ao menos sair do lugar
Não conheço solidão
Porque fazem-me companhia
Poesia e canção
O que meus olhos não falam
As palavras não calam
Com elas expresso emoção
Porque deixo falar
A voz do meu coração