AUTOPSICOGRAFIA
Cansado de sonhar, acordei!
Mas o sono, este que um dia amei,
Ainda cospe em meus olhos
Fantasias maravilhosas, amores,
Daqueles que amamos, senhores;
Desses, trancados em ferrolhos.
Quis eu não sonhar por amor!
Por amor a mim, pobre sofredor,
Que cego dormia, mas agora vê
Essa ilusão mundana que é sonhar.
Que utopia desleal é se ufanar
Das alegorias que criamos... por quê!?
Quem poderia saber!? Ninguém o sabe...
A realidade é dura, mas é a verdade.
Não há mais lugar para fugir de mim!
Itamar FS
MEU INFERNO
Pelas janelas oculares do meu crânio,
Percebo contos, desencontros e encontros.
Pelas veredas de saudades que eu ando,
Deixo pra trás, poemas, versos e encantos.
Só não persisto em entender esse meu pranto,
O qual me fez acreditar num céu bonito.
Sem harmonia e com tristeza leve, canto:
- Eu vou fazer do meu inferno um paraíso!
Itamar FS
ESPELHO
Ao ver-te assentar em minha porta,Com essas penas e dessa forma,Animo-me em receber tua visita.Não penses que não sei de tua história,És só mais um, que na memóriaSentiu o horror da despedida.Entra, assenta perto desse louco,Diz se o que vês é só agouroOu se é só mal da solidão.Nota que o teu medo não é novo,Também sou eu, um mesmo entojo,Não és tu, só, a Escuridão.Então, o que viestes aqui fazer;Viestes pra me ver morrerOu só pra não ficar sozinho?Conheço bem esse desejo de quererOlhar nos outros o sofrerE aliviar o próprio caminho...Quando o nosso Pai te disse: filho,Guarda o teu mal ao teu juízo -O que levou a tua queda?Foi o segredo que devera não ser dito;O querer mais descabido;Ou estava cheio aquela terra?Ó, inquilino miserável, vens a mimComo um culpado, assim,Querendo meu conselho!?Nunca o terás, Hediondo Querubim,Somos um só, e pronto, em fim:Duas faces, um espelho...Logo tu, que em cima d'uma macieiraFez-nos saber da verdadeiraRazão de nossa existência;Por que, Diabo, tua sina derradeiraÉ tão igual a nossa, e deixa-Nos iguais na penitencia!?Dúvida minha, é apenas parcimônia Que teima queimar, ness'acrimônia - Doudo desejo. Fomos vencidos...Tu és meu sono e eu tua insônia,Festins d'antiga Babilônia:No fim, seremos esquecidosEm tão cruel tentação de'star feridoE agonizar, cego, perdidoÀ procurar um céu aberto...Por isso tudo que eu sou levo comigo,Somos um só, e, igual, Amigo:Ardemo-nos no mesmo inferno! Itamar FS

AO SERVIÇAL ABUTRE
Voa, mesquinho serviçal de asa umbrosa!
Segue o destino tão banal de tua sina,
Banqueteando-se em vil carnificina,
Desse entulho bestial que decompora.
Chama o rebanho esfomeado, dá seus gritos
Para pousar com frêmito arquejo gutural;
Põe-me as entranhas estendidas, invital,
Há de servir de inspiração para teus filhos!
Ave negreira, irrevogável pestilenta,
Vem espalhar o teu turíbulo necroso,
Fazer do ar nossa memória agourenta...
Mostra a brancura desse ser choruminoso
Sobre o contraste sepulcral de tua pena,
E dá-lhe a chance de brilhar ao sol, de novo!
Itamar FS
INSÔNIA
Grita ao meu ouvido esse monstro -
Me desperto; é noite, já é tarde,
Algo me observa, então, covarde,
Eu finjo sono, mas não o encontro.
Cubro-me, e agora estando absconso
Penso: fora só sonho que agora evade,
Não há segredos, nem há conclave;
Somente eu, sorrindo insonso...
Em vão, me deito... Vou refletir:
Que besta é essa, sempre a surgir
Quand’olhos fecho, quando descanso?!
Porque que o sono eu não alcanço?!
E a besta sempre a me exaurir...
Aconteceu que amanheceu e eu não dormi!
Itamar FS
ULTIMA DEIXA
Um dia, quando minh'alma decidir morrer,
Assim, um pouco mais do que já morri... ,
Que as pedras da infância, onde eu corri,
Permaneçam pra outros também correr.
E quando esses meus passos nunca dados
Percorrer aquelas ruas num cortejo,
Que as saudades guiem todo o solfejo
Dos choros sobejais dos encarnados.
Por fim, quando me porem no estrado
Para velar-me, à beira da velha capela,
E Chárõn ressurtir pra ser meu guia;
Que o Nada que eu tenho seja o pago;
Que eu fique para trás e, ao pé da vela,
Encontre meu final na lousa fria.
Itamar FS
MEU AMOR É COMO UMA SOMBRA
Meu amor é como uma sombra,Preenche tudo o que não toca;Refém do mar que os olhos chora;Chama cruel que me assombra;Vício imortal sem álcool ou ópio;Venda que cega a alma e a luz;Falta que abrasa, corrompe, seduz;Cela que prende a dor e o ódio. Como pudera, ser eu, condenado,Se antes de mim tantos outros houveraFalado de amor, fui eu enganado?!Agora, perdido, a minh'alma se quebra!_ Meu Deus! Antes fosse pecado:Quem for amar tornar-se poeta!Itamar FS

LÁGRIMA
Derrama-se densa, em lenta pena,Nas maçãs tão claras, vis e pecadoras.Outrora à âncora, comprimida e alenta,Demorava-se a brilhar encantadora.Vai-se à beira do torpor da rubra face,Maviosa, fenecida e sem alarde,Salgar-te à memória, à dor do encrave,Com seus fúnebres contos de saudade.Embora tu, ausente do infirme eco do engano,Possas pensar que basta a ti, um simples pano,Para que o orvalho trivial possas secar; _Vais abrandar, frigidamente, somente o tantoQue tuas mãos tão decadentes em seu prantoPoderiam tenuemente alcançar.Itamar FS
MORTE
Como ousas invadir a minha história,
Gentileza dos vadios? Me encontrasse
Desprezível, e com terra amordaçasse
O meu amor, meu vazio e minha glória.
Majestosa orquestra rubra, Natureza,
Porque devora-me a mão e minha alma
Se tua sede não sacia e nem acalma
Tua fome, tua dor, tua tristeza?
Quantos amantes o teu peito inda corteja,
Ó criatura espantosa, carniceira;
Para ser pai de tua cria verminal?
Quantos ainda arrastarás para igreja
Para ouvir teus votos, dama derradeira,
E decompor em tua cama nupcial?
Itamar FS
EXÍLIO
Quando eu estou trancado,
Sou apenas um homem,
Preso em seu próprio mundo.
Quando eu abro a porta,
Sou apenas um homem em um mundo
Ocupado demais para ser livre...
Itamar FS