jlsilva

jlsilva

n. 1959 -- --

n. 1959-08-23

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Estrangeiro

e agora
que a vida lá fora
se compõe de palavras longas e vazias
e o tempo é só mais uma estória na estória dos dias
guardo o nada que me diz respeito
estremeço com as manhãs nascendo em meu peito
penhoro o que me restou da vida
o poema fica
fica por inteiro
o poema
o papel
e esta sensação de eu ser em mim um estrangeiro
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Poemas

91

Nas horas de solidão

O tempo passa por nós
Como as folhas ao vento
Às vezes passa tão lento
Às vezes nos deixa tão sós

Traduz em si as saudades
Momentos que não se vão
Promete outras verdades
Momentos que ainda virão

Vai do passado ao futuro
Realizando o presente
Num gotejar firme e duro
Encobrindo a vida da gente

O tempo se diz exato
Hora, minuto, segundo
Tudo irreal, não é fato
É só um sonho no mundo

No palco a trupe de atores
Onde tudo é tão passageiro
Se nem nasceram as flores
Como é de novo janeiro?

Se o tempo existe, é real
Se o tempo não é ilusão
Por que o tempo não é igual
Nas longas horas de solidão?
133

Eu quero um amor

Eu quero um amor que me leve
Por lugares que nunca andei
Que me ame com alma e pele
Que me ensine o que eu não sei
Que traga no beijo o gosto
Da fruta que não provei

Eu quero um amor que chegue
Suave, devagarinho
Trazendo em sua chegada
O toque, o gesto, o carinho
Que saiba brincar com sonhos
Que voe feito passarinho

Eu quero um amor que seja
Desejo, afeto, paixão
Que seja amante da lua
Que já sentiu solidão
Que compreenda que a vida
É feita de luz e escuridão

Eu quero um amor que tenha
Um traço de nostalgia
Que converse com as estrelas
Contando seu dia-a-dia
E que nas noites escuras
Entoe cantos à alegria
 
Eu quero um amor que faça
Morada em meu coração
Que me acenda a saudade
De entrelaçar sua mão
Me recostar em seu ombro
E me esquecer na paixão.

 

173

Te espero

Te espero

Em cada amanhecer
No primeiro raio de sol
No orvalho que cai da folha
Nas luzes do arrebol

Te espero

Em cada final de tarde
Na primeira estrela brilhando
No sol se deitando ao longe
Na brisa do mar soprando

Te espero

Em cada anoitecer
Em cada estrela que brilha
Nos astros do firmamento
Distantes milhas e milhas

Te espero

Nas madrugadas
No silêncio que inquiri a vida
Nas sensações que sufocam
Na tua ausência doída
 
Te espero

Nas entrelinhas
Da tua carta sincera
Nas tuas palavras que falam
De sonho, ilusão e quimera

Te  espero

Em meio às saudades
No lume da solidão
No desejo que vai na alma
Na ânsia do coração
 
Te espero

Sempre esperei
Por ti a cada momento
Meus sonhos falam de ti
É teu o meu sentimento.

 

157

O que eu fiz das minhas dores

O que eu fiz das minhas dores?
Com as lágrimas que derramei
Reguei jardins, cultivei flores
Plantei rosas lindas, cravos singelos
Lírios branquinhos, girassóis belos
Que quando a brisa sopra
É lindo vê-los bailar
Sussurrando ao passar o vento
“Quem não amou, deve amar”
E as pétalas que vão voando
Levadas sem mais porquê
Levadas, entregues ao vento,
Naus sem rumo, barcos sem rotas
Levam consigo as saudades
Que sinto de um bem querer
São flores lindas, singelas
Que antes de ir pro jardim
Brotaram em minha alma
Floresceram só para mim
E quando chega a tardinha
Os girassóis se fechando
Eu colho das flores o sol
Sorvo da luz se apagando
A avistar a noite que vem
No perfume que se exalou
E nas manhãs de sereno
Bebo em cálice pequeno
O orvalho que se formou


 

157

Eu te desejo

Eu te desejo
Em todos os tempos do verbo
Em todas as fases da lua
Em todos os cinco sentidos
Te desejo lânguida e nua

Eu te desejo
Em todas as noites lascivas
Em todo o fogo que chama
Em todo o amor que consome
Te desejo lânguida e nua na cama

Eu te desejo
Em todo o teu corpo suado
Em toda a ânsia lanhada
Em toda a tua flor entreaberta
Te desejo na cama deitada

Eu te desejo
Em todo o tesão proibido
Em todos os teus soluços
Em todo o teu sexo molhado
Te desejo deitada de bruços

Eu te desejo
Em todas as posições
Em todas as fantasias
Em todo amor lancinante
Te desejo todos os dias

Eu te quero e te desejo
No mordiscar do teu beijo

176

Por que havia o amor

E por que havia o Amor
Nada era em demasia
Tudo tinha o seu valor
Nada, nada se excedia

A mão estendida ao homem
O abraço dado no amigo
O pão para quem tem fome
O que é joio, o que é trigo

A canção vinda da alma
O óbulo do fariseu
A doce música que acalma
O que é meu, o que é teu

O sonho sonhado só
A vida vivida junto
A estreiteza da mó
A força de um conjunto

O nascimento da flor
A correnteza do rio
O surgimento da dor
As ondas no mar bravio

A estrela a brilhar no céu
O vento em torvelinho
O artista com seu pincel
A singeleza de um carinho
 
A mão que cuida da chaga
A rosa com seu espinho
O doce olhar que afaga
A ave a cuidar do ninho

 O inefável som de um canto
A tarde beijando o dia
O triste ouvir de um pranto
O tempo de uma agonia

A chuva roçando a terra
A ave em migração
A estupidez da guerra
A frieza do canhão

O vigoroso toque do sino
A luz na escuridão
O orvalho matutino
O estrondo do trovão

A semente que cai na terra
A ternura do luar
O vento abraçando a serra
A flor na brisa a bailar

Tudo tinha tempo certo
Tudo tinha sua medida
Quando o amor redescoberto
Regia tudo na vida

147

Queria ser teu amor

Queria ser teu amor
Ainda que por um dia
Cantar risos de alegria
Sentindo o teu coração
Sussurrando junto ao meu peito
A nossa doce canção
Ah! Meu amor, como eu queria
Trançar minhas pernas nas tuas
Beijar tuas costas nuas
E com os dedos, sutis
Ir acariciando a tua pele
Com meus sonhos pueris
Beijar-te o ventre e o colo
Fazendo o tempo parar
Te acolher em meus braços
Te dar beijinhos, abraços
Quando o cansaço chegar
Quando o cansaço surgir
Me aninho em teu corpo quente
E entre beijinhos frementes
Me deito em ti pra dormir
182

Primeiro beijo

Na primeira vez que te beijei
O amor era longe e o sonho imenso
Aos teus lábios o meu amor eu sussurrei
Aos  meus  lábios  tu  dissestes  amor  intenso
E ao brilho da manhã de um céu despido
A  luz  nos  espiava  pelas  frestas
De um fevereiro enternecido
177

Noites de chuva

Por entre as chuvas te amar
Sonhando o sonho  do  beijo
Sonho teu corpo ao meu lado
Nas minhas  noites te vejo
 
Nas nossas noites de chuva
Abraço o teu corpo macio
O teu  desejo   crescente
Ronronando,  gata no cio
 
Teus sussurros escorregando
Em  nossos  corpos molhados
Nosso  amor  dançando à luz
Das  velas  nos candelabros
 
Minha  boca  procura a tua
Num  procurar  indecente
Nas noites de chuva caindo
Falando  do  amor da gente
  
Roçando  sua  língua na minha
Nossos  gostos  se misturando
Sabor das frutas de fevereiro
No  céu da minha boca ficando
 
O  nosso amor se embalando
Pela chuva chovendo lá fora
Pela  tua  chuva escorrendo
Pelo tempo que não tem hora
 
Por entre as chuvas te amo
Nas noites de chuva caindo
Depois do nosso amor... Te
beijo em meu colo dormindo
166

Último grito

Ah! Se é de saudade que eu vou morrer
Que a noite me traga o teu perfume
Que a lembrança dos olhos teus
Nos meus olhos eu possa ver
Que a noite seja pra mim o último lume
Do teu beijo a molhar os beijos meus 
 
Ah! Se vou morrer desta saudade
Que vai e volta e diz teu nome sem sentir
Que olha os astros procurando por você
E sem te ter dói e massacra e invade
E na distância eu já não sei como fugir
Do sentimento que te toca e não te vê
 
Ah! Se é na saudade onde mora o meu fim
Se é no teu corpo que meu desejo quer viver
Se o nosso amor tem este gosto de infinito
Se a tua pele e o teu cheiro vivem em mim
Quando a saudade me levar pra eu morrer
É do teu nome que falará meu último grito
219

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