joaquim cesario de mello

joaquim cesario de mello

Psicólogo, psicoterapeuta, professor universitário, escritor e poeta. Participou de várias antologias literárias no Brasil e exterior. Autor dos livros DIALÉTICA TERAPÊUTICA (2003), A ALMA HUMANA (2018), A PSICOLOGIA NOS DITADOS POPULARES (2020) e A VIDA COMO UM ESPANTO (no prelo).

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Perfil
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QUEIMADAS

Os mortos continuam morrendo

no apagar gradual dos meus dias

 

Há os que já se foram afogados

pelas inundações do tempo

tossidos das lembranças como se fossem

resfriados ou fumaças exaladas dos cigarros

 

Deles apenas lembro que os esqueci

no silêncio do interior fundo da não-memória

aquele lugar sem rosto rumor ou nome

onde habitam os sumidos abandonados

deixando em seus sítios agora vagos

velhas covas esperando novos apossados 

 

Em meus pretéritos mais antigos

não me cabem todos os finados

é preciso o cessar de alguns fios

para continuar fiando às lareiras

este tecido tão muito e tanto mal-usado 

 

Mas em mim ainda subsistem incêndios

e o cheiro das carnes queimadas

a me permanecer condenado às saudades

 

Quando por fim o último morto partir

não havendo ninguém mais a lembrar

é que vou então deixar de existir

no debelar das fogueiras

e no vanescer da minha história

Joaquim Cesário de Mello
Ler poema completo
Biografia
JOAQUIM CESÁRIO DE MELLO, natural de Recife (PE), psicólogo,
psicoterapeuta, bacharel em Direito e professor universitário. Sócio e membro
do CTCR – Centro de Terapia Clínica do Recife, foi também responsável pelo
Setor de Psicologia do CTP – Comunidade de Tratamento Psiquiátrico (PE) e
participante do IAF – Instituto de Apoio à Família (PE). Pós-graduado em
Pedagogia (UPE) e Mestre em Psicologia Social e da Personalidade (PUC/RS).
Manteve coluna literária no Encarte Cultural do Jornal do Commercio (1998 –
2001), e é autor do Blog Literalmente. Endereço eletrônico [email protected]

Escritor e poeta, em meados dos anos 80 integrou o Movimento de Escritores
Independentes, tendo participado de várias antologias literárias, entre elas
Ensaio V, Grupo Poeco Só Poesia (1981), Banco de Talentos (FEBRABAN,
1995) Poesia Viva do Recife (CEPE, 1996), Nouveaux Brésils Fin de Sciècle
(Caravelle nº 75, Universidade de Toulouse, França, 2000),) e Cronistas de
Pernambuco (Carpe Diem, 2010). Autor dos livros Dialética Terapeuta (Litoral,
2003), A Alma Humana (Labrador, 2018), A Psicologia nos Ditados Populares
(Labrador, 2020) e A Vida Como Um Espanto (no prelo).

Poemas

28

PREFERÊNCIAS

Prefiro a quiescência dos hormônios
ao inquietar das testosteronas e das adrenalinas

o estalar dos papéis dos livros
que o salivar estéril dos bares

descobrir um verso novo em mil palavras
que mil frases já conhecidas
 
o ziguezaguear excitante das curvas
que a monotonia sonolenta das retas
 
a hipertrofia dos neurônios
que os dos bíceps dos tríceps e do abdômen 

a introspecção das cobertas dos dias chuvosos
que a extroversão suada das manhãs de verão
 
o desassossego ansioso das perguntas
que o calar dócil das respostas fáceis
 
a polissemia ambígua dos deuses
que o monólogo tedioso de um deus solitário

 Nasci
como dizia Sartre
para satisfazer a necessidade de ser eu mesmo
e não para satisfazer a necessidade do ser dos outros

Eu sou minhas escolhas

Joaquim Cesário de Mello
154

TRINTA ANOS OU MAIS

Ele ainda a esperava
todas as tardes às 17 horas
na mesma pequena livraria
que já não existia mais

Em meio a livros imaginários
decifrava trovas de amor
no caçar dos versos perfeitos
que nenhum Dante
Camões ou Shakespeare 
jamais poderia ter feito

Leria quantidade maior de escritos e papiros
que sequer a Biblioteca de Alexandria possuía

Percorreria os imensos corredores dos anos
que nem o próprio Matusalém conseguiu 

Sobreviveria a imortalidade
mais que a soma de todos os deuses
que os milênios outrora soterraram

E ainda assim a esperaria
todas as tardes às 17 horas
na mesma pequena livraria
que já não existia mais 

Sentado no canto invisível
daquele lugar que o mundo esqueceu
aguardava o chegar inevitável da noite
folheando recentes obituários 
no encontrar dos nomes familiares 

Os ossos da eternidade já pesavam
em seus ombros levemente arqueados
enquanto presenciava sempre 
o extinguir das tardes mortas
no cerrar das luminosidades escassas
pelo despertar insone dos postes

E quando chegada às noites
voltava derrotado para a cama
com a confiança inabalável dos devotos
de que amanhã ainda a esperaria
pelos próximos trinta anos
ou mais

 
Joaquim Cesário de Mello
194

OUTRAS HISTÓRIAS

E se eu tivesse brotado na hora errada
na semana seguinte ou num minuto atrás
encontraria o mesmo leite que minha boca
amamentou às 6:47 do dia em que fui gerado? 

Poderia o seio estar mais cansado
de me esperar chegar atrasado
ou me sentiria de igual jeito
se chegasse um tanto antecipado? 

E se por quase pouco não houvesse
caído e nem quebrado o braço
como seria aquele final de tarde
em que passei hospitalizado? 

Seria mais calvo se o espermatozoide
do meu pai atingisse o útero ao lado
e os olhos míopes que sempre trago
se tornariam castanhos claros ou azulados?

E se minha mãe preferisse o anterior namorado
tornar-me-ia comerciante, bancário ou advogado
e como ficariam minhas mãos e esta unha encravada?

E se meu avô não morresse nove meses
e alguns dias antes d’eu nascer
que nome me somaria aos sobrenomes
por ora já suficientemente herdados?

E se eu conhecesse Maria primeiro 
e com ela houvesse casado 
será que até agora estaria ao menos enlaçado
ou será que seria mais feliz divorciado?

Quanto netos hoje contaria
se não acontecesse da minha esposa
ter ficado doente e abortado
e o que teria me decorrido se minha mãe
soubesse nadar e não morresse afogada?

Quem seria hoje se meu pai não fosse poeta
e a casa não vivesse assim cheia de livros espalhados?

Será que eu existiria menos ou somente morreria
no dia em que me for determinado?


Joaquim Cesário de Mello
163

INFANTICÍDIO*

Na saliva da tua boca
um filho meu agoniza

(se fosse menina
podia ser Camila)

Joaquim Cesário de Mello


(*) originariamente publicado em 1983
166

ECLIPSE

Primeiro foram os pequenos detalhes
como aquele sinal da bochecha direita
e o arqueado triste das sobrancelhas

Depois foi o contorno e as sombras ao redor
seguido do desvanecer do nariz e dos lábios
logo após foram as pálpebras os cílios
o amendoado dos olhos até que me restou
somente o verde semelhante aos meus

Acaso não fosse o remanescente das fotos
para onde foi o rosto de minha mãe?

Joaquim Cesário de Mello
165

POST MORTEM

Não há além depois de mim
e minha alma é tão recente quanto eu.

Já são tantas e tamanhas as ardências
que trago no peito e no pulsar das veias
o que nenhum inferno me há de ter reservado.

Ninguém me esperará depois de mim
sequer meus mortos ou minhas lembranças
pois no despejado azul do céu
não habitam anjos ou querubins
apenas pássaros que voam
indiferentes e alheios
à romaria terrena dos homens vagos.

São muitos os abandonados
assim como muitos abandonarei
mas quando nada mais restar
exceto a mudez das minhas memórias
e o vácuo geométrico da ausência
estarei quem sabe escondido
do meu rosto e da minha face
em um lugar que não existe
a não ser na exaustão dos sonhos
jamais consumados

E por fim
quando o fim vier
no fechar derradeiro das pálpebras
não haverá o encerrar de cortinas
nem o silenciar surdo dos aplausos
mas tão somente e apenas
o fechar deste rápido e estreito parêntesis.

Não há além depois de mim
e a vida é tão precoce quanto eu
 

Joaquim Cesário de Mello
168

BELA ADORMECIDA

Um dia vou dormir
como uma Bela Adormecida
por mais de mil anos
em que tudo em mim vai passar
 
Ao meu redor edificar-se-á um castelo
que os séculos irão encobrir
de arbustos matos e espinhos
e toda uma floresta infinda me isolará
do mundo em que serei alheio
e ao qual já não mais irei pertencer
 
Nem sequer meu túmulo
resistirá a minha ausência
e tudo que uma vez conheci
desaparecerá até mesmo
depois do meu próprio esquecimento

Em breve vou jazer
muito mais que mil anos
e nenhum beijo poderá
voltar-me sequer a acordar

Um dia vou dormir
como uma bela adormecida

 
 Joaquim Cesário de Mello
162

POÉTICA 2

Sou um poeta avulso

muitas vezes afeito aos impulsos
 

Mas impulsos não fazem poemas

descobrem apenas o que nos afetam
 

Quem faz a poesia poema

são os versos

que métricos ou assimétricos 

são sempre palavras suadas de sentimentos
 

Um poeta não é um fingidor

ele está sempre a revelar 

o que verdadeiramente sente
 

O poeta é um tradutor

das coisas que passam desapercebidamente  

e a poesia nada mais é 

que depreender o que antes parecia ausente 
 

Sou um poeta avulso

que em princípio aceita seus impulsos


Joaquim Cesário de mello
166

LACUNAS

Fui feito de despedidas

de saudades me construí
 

Em cada perda ou partida

somou-se mais um vazio aqui em mim

 
Dos tantos buracos que ora trago

enormes corredores de memórias silenciadas

se interligam neste entrelaçar labiríntico

por onde percorro me perdendo

 
Somente eu escuto as vozes dos meus passados

nos tímpanos moucos dos neurônios

rachaduras discretas a transpirar

porções de inquietudes mal-entendidas 

 
E quando a última fenda em mim se abrir

vou desaparecer no fundo dos meus adeuses 

como palavras isoladas em um livro fechado

em uma prateleira incendiada 

debaixo do céu esfumaçado da Babilônia 

joaquim Cesário de Mello
174

ENQUANTO LEIO KEROUAC

A vida continua indo, amor
enquanto leio Kerouac
ou assisto filmes na televisão
esperando o salário ao final do mês.

Breve o que teremos
é este pouco de memória
e quem sabe se ainda der
uma casinha azul na praia
para vermos netos crescerem molhados.

A roupa e o carro novos não me calam o jovem
pois a minha juventude é feita de rebeliões
embora as revoluções que fiz de fato
fossem apenas mudar de bairro e de penteado.

A vida continua indo, amor
sem mim
sem você
sem ninguém
afinal é próprio da vida se ir
deixando aqui sempre nós
ou lendo livros ou vendo filmes
no aguardo do próximo final de mês.

                               (De onde vem este vento tão gelado
                                se todas as janelas estão fechadas?)

Evitemos ao menos hoje
olhar espelhos, amor


Joaquim Cesário de Mello
182

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