leal maria

leal maria

n. , Águeda

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sonho amputado

quando se cruza com o meu…
o teu olhar…
já nada sei que lhe dizer!
de peito transbordando de o sonhar,
vejo-o, triste, agora em mim morrer.

sigo o caminho adiante…
para trás, 
deixo ficar fragmentos de um emaranhado nó.
e as mãos; suspensas por um instante,
nesse desejo, 
que o tempo vai cobrindo com o seu pó... 

impacientes; esperam-me outros desejos.
inconsequentes,
na efemeridade dos seus caprichos.
ao longe, vislumbro promessas de novos beijos;
e aos meus instintos, 
reconheço-lhes a natureza dos bichos.

sim! um bicho é aquilo que eu sou!
animalesco predador…
tortura-me cada corpo que com o meu não suou;
e só num corpo saciado faço nascer o amor…

nas mãos; trago esculpida a forma imperfeita,
de um prazer que se promete eterno.
e o destino, que aos solavancos se ajeita;
alterna-me entre o paraíso e o inferno.

mas… 
na esconsa memória dos muitos que sou,
não esqueço o afecto nos teus gestos dissimulado.
breves momentos que tempo já dissipou;
deixando-me o amargo sabor dum sonho amputado. 




leal maria (todos os direitos reservados)

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Poemas

31

fisionomias da memória

os rostos

que perante mim vão desfilando

(há-os para todos os gostos)

cada qual

com as singularidades com que a minha má memória os foi dotando

ser-me-iam anónimos e impessoais

nada tendo diferente dos demais

não fora dar-se o caso

de serem a cronologia dos meus afectos

uma medida de tempo que criei para espíritos como o meu

um tudo nada circunspectos

fantasmas que habitam sonhos que o tempo quase desvaneceu

a nenhum posso chamar

porque a todos esqueci o nome

somente me perdurou aquela sufocante ansiedade

em que tudo à nossa volta se some

e de livre vontade
abdicamos da liberdade

deixamo-nos imolar num fogo que violentamente nos consome

pergunto-me por vezes

o que aconteceu ao corpo que a cada rosto sustinha

que destino lhe cabe cumprir

(e esta é uma pergunta muito minha)

quando à memória convocada é somente o rosto a surgir

amputado abaixo do pescoço

ao rosto

facilmente se lhe apreende a mais íntima fisionomia

saboreamo-lo como delicado mosto

reconhecemos-lhe sem esforço a forte possibilidade de poesia

mas é somente agora

extemporaneamente

que tenho essa suficiente sensibilidade

e urge ir-me embora

que saudade sentida tão intensamente

abala até as fundações da mais convicta probidade

leal maria

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