Lobices

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n. 1945 PT PT

n. 1945-12-08, Porto

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DIÁLOGO COM A SERENIDADE

"... a calma tinha-se aproximado de mim como não me conhecesse... eu já a conhecia há muito pese embora os grandes momentos em que não a via ou não me encontrava com ela... porém, naquela vez, ela fez de conta que não sabia quem eu era... aproximou-se mansamente e como quem não quer a coisa, saudou-me ao de leve com um leve acenar pela passagem, pelo encontro... não lhe liguei demasiada importãncia mas educadamente correspondi ao seu aceno e sorri-lhe... foi nesse momento que ela olhou para mim e, de chofre, me perguntou: - Porque sorris?... Naquele instante não encontrei resposta mas uns segundos após, saiu-me uma frase lenta e suave: - Porque não haveria de sorrir?... Acho estranho, disse ela: Estás sempre preocupado, cheio de problemas, a tua cabeça é um vulcão, a tua alma desespera, o teu coração bate e os teus olhos não choram... Pois, respondi eu, eu sei mas por vezes caio em mim e entendo que de nada me vale o lamento; por certo que estou errado quando desfaleço e sentado ou deitado me concentro nas agruras da vida; depois penso que a vida é apenas aquilo que dela fazemos, aquilo que dela queremos, aquilo que dela podemos tirar... a vida nada nos dá excepto ela mesma, ou seja, ela se nos entrega numa única vez e após instalada em nós, somos nós mesmos que a gerimos... temos esse poder, o poder de moldar os dias, as horas, os minutos e até mesmo os segundos dos nossos momentos aqui e agora, ontem e, quem sabe senão ela, também amanhã... somos nós que decidimos enfrentar ou não o momento que se nos depara, seja ele bom ou mau... é apenas uma questão de escolha... mas tu não eras asssim, disse-me ela, a calma... sim, eu sei... na verdade, a vida foi tão diversa e tão cheia de coisas e coisas que houve vezes em que não te consegui enfrentar ou mesmo aceitar e desesperei... porém, houve também momentos em que soube que me podias ajudar... por isso te sorri agora... sei que me podes inundar e tornar-me pleno de mim mesmo e conceder-me ainda mais a capacidade de me dar ainda mais do que já tentei... sei que me ajudarás... porque me trazes a sabedoria, a sensatez, a alegria, a ternura de me saber feliz ao sentir que amo, que o caminho que percorro é o único que me pode serenar, o único que me pode pacificar, a caminhada plena para amar... e, com amor, se ama e com amor se perpectua a nossa vida, mesmo para além da morte... por isso, hoje, te sorrio por saber o quanto amo quem amo, quem me dá a plenitude da serenidade, num amar terno e seguro, forte e puro, real que de tão real, a ti o juro..."
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Poemas

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PORQUE TE AMO ?

"...amo-te porque te amo... porque me sinto bem quanto te olho... quanto te toco... quando te beijo... quando sinto a tua pele perfumada junto da minha... quando te vejo sorrir para mim... quando ouço a tua voz... quando te ris... quando me tocas, me acaricias e me fazes sentir homem... amo-te quando me dizes que também me amas, quando me dizes gostar de mim, quando me olhas e vejo no teu olhar a tua alma e o reflexo da minha... quando sabemos que nada mais no mundo nos importa... quando sentimos que tudo o que gira à nossa volta está parado e somos o centro de tudo... amo-te quando te digo que te amo, quando te sussurro palavras ternas, quando ouço as que me dizes... amo-te quando me dás um mimo, um sabor, o roçar ao de leve ou mesmo forte... amo-te porque te amo... porque te sinto bem quando me olhas... quando me tocas... quando me beijas... quando sinto que sentes a minha pele... quando te sorrio... quando ouves a minha voz... quando me rio... quando te toco, quando te acaricio e te faço sentir voar... amo-te quando estou aqui ou aí... amo-te mesmo quando não estamos ou não somos... amo-te porque sei que te amo, porque sinto que te amo, porque vivo esse amor duma forma terna, doce, suave e pura mesmo quando os corpos se entrelaçam e vibram em loucura... amo-te assim, tão simples...tão tudo em ti e em mim..."
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LÁGRIMA

"...ele olhou-a nos olhos e viu uma tristeza profunda na alma ou lá onde é que a tristeza ou a alegria se instalam às vezes em nós... ele olhou-a nos olhos e viu o que ainda não tinha visto: a mágoa de não ser o que queria ser, a dor de não poder, o sofrimento do desejo insatisfeito ou ainda do satisfeito não desejado... olhou-a bem nos olhos e viu-a chorar por dentro sem que uma lágrima bailasse nas pálpebras tão serenamente abertas... olhou-a uma vez mais, sem pressas (ou altivez como quem percebe o que está a fazer, ou a sentir ou ainda a ver), com vagar, com doçura, com precisão... sentiu-lhe a pulsação acelerada quando lhe pegou na mão... tinha-a fria, quase gelada e aquele olhar tão triste ainda mais fria tornava aquela mão... pegou nela e levou-a até ao seu peito... espalmou-a bem de encontro à sua pele em peito nu e com a outra mão cobriu as costas dela forçando-a a ficar ali para que o calor a invadisse... não, nada lhe disse... ficou assim, olhando bem fundo dentro dela... aproximou a sua boca da boca dela, muito lentamente, e muito ao de leve pousou lá um beijo... nesse momento, sentiu nos seus lábios o sabor salgado de uma lágrima... saboreou o gosto e pousou-lhe a cabeça pendida no ombro... apertou-a contra ele e deixou-se ficar assim, juntos... um momento eterno para lembrar se tivesse sido filmado naquele momento... seria uma pose a lembrar para o resto da eternidade... sentiu a mão dela a aquecer e a sua face enrubescer num lento esgar de um sorriso... viu então o seu olhar, até ali perdido, encontrar-se em algum lugar... talvez dentro de si mesma, talvez dentro dele, talvez na fusão dos dois, não interessava, mas ele, o sorriso, ali se encontrava, um sorriso que brotava do calor dos corpos ou do bater de dois corações que se amam e tudo entendem... ele sorriu também, os corpos se moveram e se convulsionaram num espasmo de espanto e de sabor a tudo e a tanto... o doce sabor do perdão... o doce sabor da gratidão... o doce paladar do encontro, do confronto, do calor do ombro deixado de ser almofada para se tornar parte do abraço... e o riso se instalou num suave embalar dos dois ao mesmo tempo que aquela lágrima ficara lá, em lugar distante, perdida, a secar..."
517

ADORMECENDO

"... deixa enroscar-me nos teus braços... coloca tua mão na minha cabeça e enrola os teus dedos nos meus raros cabelos... baixa um pouco a tua fronte e beija a minha boca... deixa enroscar-me no teu colo... sentir a tua maciez e ver de baixo para cima o teu sorriso... ver-te junto a mim e saber-te ali comigo... de tal forma que quando olhas eu sou o teu olhar... de tal forma que quando sorris eu sou os teus lábios... de tal forma que quando me afagas eu sou a tua mão... de tal forma que quando me tocas eu sou o teu corpo... de tal forma que quando me olhas eu sou o teu olhar... deixa pousar o meu cansaço na tua serenidade e sentir a tua paz na minha guerra... baixar as armas e sentir a trégua na tenda que se ergue no deserto da batalha... humedecer as mãos na brisa da água que corre no ribeiro que nos circunda... lavar a cara na frescura do vento que nos embala... sentir que nem tudo é real mas que o sonho nos preenche... sentir que, por vezes, só o desejo chega, só o querer basta, só o pensar nos satisfaz... deixa-me ser não só a realidade mas também o que não somos... deixa-me olhar para dentro de ti e ver-me inteiro... deixa-me tocar-te com o sonho e saber-me parte dele como sei que ele é uma parte do meu eu verdadeiro..."
527

TELA

"...gosto de desenhar no meu corpo a pura entrega de quem ama... gosto de desenhar na minha alma a luz dessa verdade... escrever com os meus olhos a leitura da saudade... garatujar nos sons as palavras sussurradas... saborear na boca, nos lábios a doçura do mel do teu beijo desenhado desejo de quem procura o abraço esperado... gosto de desenhar nos teus ouvidos as letras que formam os sentidos... desenhar, por fim, já por sobre o esboço da obra final de quem no auge do encontro sente-se sonho sabendo ser real... pairar na tela do teu corpo e desenhar as cores do amor que num todo se move completo no ser que temos por modelo... e sendo-o, tê-lo, possuí-lo e transformar a obra num plano final que dá ao desenho o toque especial como que uma assinatura sobre a obra acabada... depois, ficar a mirar tudo o que havia sido feito para ter ali, na minha frente, a concretização do sonho e saber que todas as palavras ditas ou as desenhadas ou as escritas houveram sido assimiladas, saboreadas e entendidas como brotadas de dentro do meu ser... gosto de desenhar sim, no teu corpo, o meu eu e no fim ao olhar a tela preenchida em ti soubesse ali ter tudo o que havias querido da presença do meu amor..."
535

DESEJO

"...te vejo ali, parada, me olhando só... não há palavras, nem medos, nem lágrimas... há apenas um olhar profundo e um toque suave como se fosse o toque mais importante deste mundo... te olho e te fixo a alma... te possuo mesmo antes de te tocar, de te amar, até mesmo antes de te olhar... é tudo muito mais forte do que o meu querer... olhar-te bem dentro mesmo sem te ver... sentir-te só de te desejar, ali, parada numa pose linda, somente a me olhar... fixo tua boca e te sorvo completa... te abraço sem te abraçar... te afago sem afagar... te penetro sem te penetrar... está tudo ali, em ti, a meu lado... basta te desejar... e meus olhos já te possuíram... e teus olhos já me abraçaram... e teus olhos já me sentiram... ali, sem questionar, me estendes a mão... vejo teu corpo a arfar.... e sentes minhas garras te tocar... e teu corpo em minha alma se entregar... tudo tão simples: apenas o desejo de te desejar..."
570

TRAGO COMIGO

"...trago comigo a seda do teu cabelo, a maciez do teu beijo, a doçura do teu toque, o brilho do teu olhar, a atenção do teu escutar... trago comigo, na minha pele, na minha alma, no meu coração, a tua essência aqui brotada em mim durante os momentos da fruição dos seres que se tomam serenos mesmo num simples abraço... é apenas um hiato de tempo este espaço que nos separa... de resto, tudo está aí como tudo está aqui... um saber de um sabor a sentidos vividos em amor..."
559

O DELEITE DO AMOR

"... o teu corpo doce, deitado no leito, de pura seda acetinada feito, exalava o perfume perfeito... deixava antever, sem te tocar nem sentir, o esbelto prazer de olhar para ele e bastar sorrir... mais não seria necessário se a força do desejo se quedasse por ali... mas a languidez da libido perfurava todo o sentido em te possuir... aproximei-me de ti sem te olhar e sem que me visses... era apenas um desejo que bastava que sorrisses para que eu parasse e não prosseguisse... mas os teus lábios carnudos abriram-se em pétalas desnudos e me sorriram num convite perfeito... o ardor estava ali, a teus pés e meu corpo teceu o desejado amor de tudo o que depois aconteceu... volteámos a alma, os sentidos, a voz rouca, o arfar da pele, o toque no teu mar e o saboroso doce a mel... perfurei tuas entranhas em doces movimentos com forças tamanhas que te fizeram sugar teus próprios gemidos... a doçura perdura dentro de nós e antevê-se nos nossos olhos o desejo de, novamente, a sós, voltarmos a ser um só corpo e um só desejo num derradeiro lampejo de profunda paz... o deleite do amor que ele nos traz..."
555

PLENA ENTREGA

"... abre-me os teus olhos e deixa-me mergulhar no teu olhar... abre-me os teus braços e deixa-me enlaçar no calor de um abraço... abre-me os teus lábios e deixa-me sentir o mel do teu beijo... abre-me o teu corpo e deixa-me ser possuído pelo desejo... abre-me a tua alma e deixa-me penetrar o teu ser... sentir tudo o que sei teres para me dar... amor de tanto amar... abre-me os teus ouvidos e deixa-me sussurrar as meigas palavras que tanto gostas de ouvir... e pele com pele sabermos que somos e sentirmos o doce aroma do mar que nos embala no cheiro da maresia que de nós mesmos exala... olharmos o interior do sermos apenas um acto de amor... mergulhar na seiva que a pele produz no sabor pleno em que tudo se transforma em luz... e o sol nos sorri, numa conspiração mútua do que ele sabe sobre mim e sobre ti... e o calor que nos abrasa arrefece-o porque mais forte que ele... e o amor preenche o momento em que nada mais somos do que pétalas suaves vogando nos ares como as asas das aves... e o seu planar, em pleno voo, de tanto sentirmos, tu te me entregas e eu a ti me doo..."
522

SENTIR

"... és sinónimo de paz, na palavra que me dás... és sinónimo de beleza nesse olhar profundo sem mácula de tristeza... és sinónimo de alegria no toque suave que em mim um teu sorriso cria... és sinónimo de paixão quando disfruto o bater mais forte do meu coração... és sinónimo de harmonia quando me beijas enlaçados em sintonia... és sinónimo de luz quando no escuro da noite teu amor me seduz... és sinónimo de serenidade quando no abraço matamos a saudade... és sinónimo de ternura quando na partida o teu olhar em meus olhos perdura... és sinónimo de puro amor quando nos afagamos com a alma e os corpos sem pudor... és saudável loucura quando sinto a nossa mútua procura e nos afogamos no delirar de um sentir que tudo é tão simples quando sabemos porque é que nos estamos a amar... és tudo o que um simples mortal busca na imortalidade que a qualquer um ofusca no silêncio do grito que amaina a febre do ruído que quebra tudo mesmo que fosse granito... és tudo o que o amor busca no olhar, no toque, no beijo que de momento em momento se reduz ao desejo, trazendo como prenda, tecido em flocos de doce renda, o caminho percorrido como sempre desejado, obtido e que a luz em nossos corações se acenda para num florir matinal ou num anoitecer normal, o doce sabor nos acorde ou nos adormeça em profunda certeza que o dia seguinte mais não será do que um novo fruir do amor que nos envolve e a cada momento nos devolve na mais plena pureza do aceno tão natural como há pouco sobre nós desceu... porque se te sinto minha, sei que me sentes teu..."
569

ESPELHO

"...torno-me espelho de mim mesmo e a luz que em mim me toca, se reflecte no exterior do meu ser... espalho o que sou no espaço em meu redor... vejo-me diverso e dividido em milhares de partículas de luz, facto que tanto me seduz... porém, receio quebrar-me em mil pedaços e perder a magia destes meus ténues passos pelo mundo da fantasia... elejo-me mentor de mim mesmo e, sereno, torno-me pleno daquilo que sou: uma partícula apenas no meio do nada que me rodeia... mas a minha imagem, por todos os lados dividida, semeia no espaço em que me insiro tudo o que tenho por pouco que seja e eu sinto que a verdade deste louco imaginar, mais não é do que o desejo de o ser, de em mil imagens me tornar e... me dar..."
540

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