Capitão
Que você sinta fome
Mas, sempre de bola
Que você faça falta
Mas, nunca na escola
Que você coloque os adversários no bolso
Mas, nunca as coisas dos outros
Que você faça gols de placa
E, nunca desmanche um Gol sem placa
Que você seja o capitão
Nunca, o olheiro
Que a festa na favela acabe em gols
Nunca, em tiroteio
Que você seja quem quiser ser
Buarque com Luiz Gonzaga
Ataque com juíz com zaga
Que você frequente o campo e a concentração
Mas, nunca os dois juntos
Que você seja o primeiro na capital
No Brasil e no mundo
Que você seja o capitão
Nunca, o Nascimento
Tampouco do Mato
Que você fique livre
Da marcação
Da Fundação, da prisão
E do fardado
Que a única coisa que você precise roubar
Seja a bola do adversário
Que o seu esporte predileto
Seja o mesmo do Nazário
Que você molhe a camisa
De suor, nunca de sangue
Que a única coisa organizada que você veja
Seja a torcida
Que você seja artilheiro
Mas, nunca faça parte da artilharia
Que você fure bloqueios
Nunca moletons
Que você use colete
Nunca à prova de balas
Que você seja assunto na mesa redonda
Mas, nunca na quadrada
Que você seja o capitão
Nunca, o tenente
Que você arme jogadas
E, nunca as quebradas
Que você viva com a bola no pé
E, não morra com a bola no pé
Que você arraste as chuteiras no chão
Mas, nunca o grilhão
Que você bata tiros de meta
Mas, não tenha os tiros como meta
Tire-os da reta
A bola perdida...
A bala perdida…
Que você encontre a bola de bico
E, nunca receba a bala na bica
Ponte de safena
Interpolado coração, confuso raciocínio
São os cinco sentidos e suas sinestesias
Sonhando sem sono, encanto e fascínio
E a insônia me deu as melhores poesias
Romance epistolar ou um pot-pourri de gente bamba
Digital ou na caneta de nanquim, sem plataforma
Estou com uns versos que dariam um samba
Em letra de fôrma, pois o que menos importa é a forma
Você veio para irrigar meu coração
Desviou sangue e gerou confronto
Fiz uma nova bossa, outra canção
E a vida nunca foi a arte do encontro
Ponte de safena sem cicatriz
Ela me opera, marca meus passos e acha digno
Um mapa dizer o que faço e o que fiz
E eu já falei pra ela que não ligo pra signo
Viajei a prazo pro inferno por você e por amor
Réu confesso, longe de você já não sou mais nada
Talvez milhões de vasos sem nenhuma flor
Expliquem as mil rosas roubadas
O “se” que cê adora não é “Se” de Djavan
Você arrancou meu sono com sua incerteza
Como uma psicóloga, sinto sede de divã
Ao menos em meus pesadelos eu sinto sua frieza
Precipitação
Meus olhos se precipitaram achando que era você
Precipitaram-se fazendo pelo meu rosto chover
Já de saída, não basta fechar, mas tranca a porta
Tu não percebes que mesmo trancada ela transborda
Meus olhos, numa corrente de lágrimas, apagam nossa vela
Quem não arrisca molhar o próprio lar deixa fechada a janela
E de que adianta tê-la fechada se lá fora está sua faixa amarela
Encharcada e desbotada, sem mais bordado o nome dela
Tamanha arrogância achar que essa pessoa era o Mundo
Tamanho egoísmo crer que nessa garoa eu inundo
Tamanha precipitação que mal escoa e eu afundo
Você reta e eu curva
Você nítida e eu turva
Você guarda e eu chuva
Rei de Roma
Nunca vou decifrar os enigmas do universo
Tudo pode ser uma falácia
Nunca vou saber os motivos que unem versos
Por rimar em apenas uma galáxia
Se o mundo é redondo
O ultimo já está na frente do primeiro
E se o mundo dá voltas
A posição não importa
E não muda o roteiro
Sou a tempestade em copo d’água
Por ser um fenômeno intenso
Em um recipiente pequeno
Sou a hipérbole das minhas mágoas
Por escrever o que penso
E destilar meu veneno
Desconfie de tudo
Até a palavra “oxítona” é proparoxítona
Desconfio de todos
Mesmo que a reverência soe uníssona
“Em cima do muro” já não é mais o termo
Pois não sabem se constroem ou se destroem
Indeciso, sem partido e sem governo
Vendo reinos em ruínas de ratos que se roem
É preciso choro para ter vela
É preciso ter muita boca para ser o rei de Roma
O rei do morro tem todas e não saiu da favela
E o rato roendo a roupa de quem não tem diploma
A carne tem papelão
Mas não é o mesmo do morador de rua
Pois ele dorme no chão
E a verdade nunca foi tão carne crua
Falsos ativistas atravancando caminhos
São cordeiros em pele de lobo
Mostrando ser o que não são para a mídia
Mais falso que carta arrependida de ator da Globo
Passo por passo, marcha a opressão
Eles andarão, nós Andorinha
Adoraria que a minoria fizesse verão
Só para o inverno sair de linha
Harmonia em acrasia
Éramos Portela e Mangueira
Passarela e bandeira
Mestre sala, quarto, porta e banheira
Eu, súdito como as nuvens para o céu
Ela, Independente como Padre Miguel
O Tom foi menor do que eu esperava
Mas, bastou
O olhar X9 me dedurou
E, se chove no sambódromo,
Deus quem regou
O jardim de minha escola é só amor
Desde Nenê que eu sou assim (e quem sofre é o tamborim)
Gosto do sereno, da roda a cantar
Planta do pé no asfalto, Partido Alto
Então, aproveite o recuo da bateria e Vai-Vai Vadiar
Quem ama, seus males espanta
Na Flor da Mocidade, bem Jovelina
A ladra que guarda a minha quadra
Minha Pérola Negra, minha sina
Foi um rio que passou na avenida
O “quaiscalingudum” de um coração partido faz cavaco chorar
É a comissão de frente com missão urgente
De concentrar e dispersar
Quando as platinelas do pandeiro entortarem
E o gorgurão da cuíca secar
Ela talvez perceba
Que eu era pimenta demais pro seu vatapá
Sonho de bamba, pesadelo de valsa
Brisa boa, ar lindo, cruz, luz e vela
Colore meu pavilhão
Mancha a minha faixa amarela
Somos Portela e Mangueira
Alegria na quarta-feira
Mas, não a faço carnaval
Pois carnaval é fevereiro
Faço-a pagode para o ano inteiro
Quando ela diz que essa pulga aí é Sapucaí
Que Samba é o meu único assunto
Respondo quaisquer quais quais, chego junto
E firmo sem medo:
“Você é minha escola, minha fantasia e meu enredo”
Menino de prata
Purpurina, glitter e pó alemão
Todo dia assim, pra chamar atenção
Com os bilhetes de um texto na mão
Pedindo ajuda pro arroz e feijão
Qualquer centavo já é agradecido
Uma moeda, mais que merecido
Tem três irmãos, um desaparecido
Mãe desempregada e o pai falecido
Ô menino de prata, vai baldear
Tem urubu aqui pra te pegar
É que nessa estação não pode mendigar
Hoje não tem prata pra se alimentar
Pro moço de terno e gravata
Dez centavos a menos não mata
Pois ele tem dinheiro pra catraca
Mas ele não quer se sujar de prata
Ele sabe que nem tem idade
Pra se pintar da cor da cidade
Próxima estação já é Liberdade
Pelo lado direito é o desembarque
Ô menino de prata, vai baldear
Tem urubu aqui pra te pegar
É que nessa estação não pode mendigar
Hoje não tem prata pra se alimentar
À mesma
À mesa uma taça e ao lado o barril
Dois corpos se amando e se protegendo do frio
No inverno é sereno, diferente do verão
Junto ao calor, foi-se a paixão
À mesa o jantar e no centro um queijo
Um corpo se lembrando do primeiro beijo
Ele tinha o véu, mas ele tem o inverno
Tradicional sommelier a sós com seu terno
Na adega o tinto francês, o branco e a esperança
No coração invernal a eterna lembrança
Mais uma dose, observando Marseille pela janela
Olha para a porta, mas nunca vinha ela
Ele relação com seu interior
Ela relações internacionais
Ele escrevendo sobre amor
Ela escrevendo jornais
Ele saúde, ela santé
Ele tinto, ela rosé
Ela mal acompanhada, ele sozinho
Ela vinha, ele vinho
Pablo Escolar
O menor com seu sonho de quebrada
Condição com adição de uma mão armada
Trocou a caneta pela beretta carregada
Conspirando seu futuro não faz mais lição de casa
Com a ponto 30 é mais fácil de alcançar e assim vai
Pra ele uma hornet e um i30 pro seu pai
Pra sua mãe o prédio mais alto de Xangai
E o seu sonho de quebrada cai
Trocando escola por cola, matemática violenta
Tres oitão mais doze, colar com a bala ponto 50
O sistema deixou na margem mais um pivete
Que não sabe usar artigo, mas já é 157
Que podia estar andando com caderno
E não uma peça embaixo da blusa
Deixaram o menor interpretar errado
“carreira, dinheiro e canudo” do Cazuza
Quer ser Tony Montana porque viu no supercine
Envolvido e refém da face oculta do crime
Deu all in com um full house e o rebuy já não mais vale
Mas não teve a mesma sorte do Casino Royale
Correu pelo errado e sua mãe não se orgulha
O camelo não passou pelo buraco da agulha
Deixa ele ir quem não é visto não é lembrado
Outro assassinato, outro sonho acordado
E dele nem já não estão mais lembrando
Achou uma luz no fim túnel
Mas era o Giroflex piscando
Isca da faísca entre sistema e milícia
Eu não dou mais pé pra essa fé que eu ponho
Um governo que vende estilo de vida
Mas a realidade é a prima pobre do sonho
Em cada esquina eu vejo mais um motivo
A polícia é ouro em tiro esportivo
Quero ver o Brasil campeão e incentivo pras crianças estudarem
E a volta olímpica pras olimpíadas nunca mais voltarem
Rounds e rendas
Eu vi a desistência de vários
Ouvi cofres, gavetas, salários
E a ignorância que era uma dádiva
Dá devagar a voz ao necessário
Funcionário sem empresa e contrato
Como que pensa em buscar sindicato?
Como compensa a mistura no prato?
E o patrão na ganância morrendo engasgado
Motivos de sobra pra jogar a toalha
Motivos que dobram o peso da falha
Mas se desistir, pendurar suas luvas
Aposenta de vez essa luta diária
Rotina que cobra, que mata
Cidade de homens de lata
Vaselina que não estanca o sangue
Lembrando: “Não apanhe antes que cê bata”
Quantos Robson Conceição
Acordam as 4, pegam lotação
Esquivam, batem, apanham, ganham
E a medalha não é nem de latão
Mais um assalto no ringue
Nenhum pouco motivado
Mais um assalto nas ruas
Que podia ser evitado
Jab, cruzado, contagem até 10
Job afastado, cuide de seus pés
Bilhete sem saldo transporte ta caro
Jornada e trabalho de azar ou revés
Surreal igual David Lynch
Apanha sozinho se prende no clinch
Luva pendurada mão já calejada
Floyd Mayweather sem nenhum requinte
Um dia frio um bom lugar pra ter um oficio
Mas aguentar todos os rounds ta difícil
É que a conta que não fecha no fim do mês
Tira de um bolso que não tem benefício
E o bom é que esse vale tudo não vale nada
O boxe diz tudo na metáfora e no trauma
Nocautes que derrubam sua alma
Nem sempre o gongo te salva
Sonestações
Eu e eu e este Agosto
Meu amor só a sol posto
Você e você meu coração sentiu
Meu amor caído no outono de Abril
Eu Junho por deus que toda noite eu lembro
Do dia em que te vi com Julho naquele Setembro
E agora com meu alanceado coração vermelho rubro
Não posso mais lhe amar na primavera de Outubro
Nas minhas memórias remanescentes todo dia eu caço
A lembrança apagada de um verão sem mormaço
O sol desvanecido à transpor Janeiro, Fevereiro e Março
Metaforicamente, perder você é perder um membro
Amorosamente amputado, no calendário eu desenho
Eu e eu e este solitário Dezembro.