Lucas Menezes

Lucas Menezes

n. 1997 BR BR

n. 1997-03-01, SP

Perfil
12 154 Visualizações

Poema de catorze faces

Extravaso sangrias
Transbordo todas as margens
Se uma imagem vale mais que mil palavras
Eu faço uma palavra valer mais que mil imagens

Nasci em um mundo triste
Que coloca vidas em jogo
Os dentes são armas brancas
Que desarmam qualquer arma de fogo

Mas ninguém percebe
E eu não julgo quem julga o livro pela capa
Fomos educados assim
Méritos a quem dá a cara à tapa

Criei a minha própria licença poética
As replicas te imitam
As métricas te limitam
Então eu não devo nada à estética

Prefiro deixar meu povo rico
Fazendo rimas pobres
Do que fazer rimas ricas
E ver o povo dominado por nobres

Concordar nunca me fez gostar
Amar não quer dizer amor
Lamentar nunca me fez ganhar
Guardar nunca me fez rancor

Coma antes o salgado para dar valor ao doce
Repense todos os velhos ditados
Os sonhos parecem bem mais fáceis
Quando estamos deitados

E se os moinhos de Dom Quixote forem verdade?
E se eu tiver um dom que choque a sociedade?
Busco uma pseudoverdade que me empolgue
Faço minha arte e não dou ouvidos, igual Van Gogh

Jogue a rede para o outro lado e não pegarás um salmão
Serás apenas protagonista de um salmo
O bom marinheiro não vê a hora
De navegar em um mar calmo

Eu sou mais um heterônimo do Fernando Pessoa
Mais um sotaque de Caetano
Um pingo da garoa
Uma gota no oceano

Sou a volta da democracia
Mas também um país em crise
Eu sou a malandragem de um samba
Com a classe de Für Elise

Piso devagar, não porque já tive pressa,
Mas porque esse chão não é meu
Os apressados ainda vão olhar para mim
E falar “esse erro ele não cometeu”

Falo muito “Eu”, confesso
Não que eu seja a primeira pessoa
Nem que eu esteja cego
É só um manifesto
Do meu ID contra o Superego

Quando o contemporâneo virar clássico
Isso não será mais heresia
Referências são cortesias
Prende o poeta, mas não prende a poesia
Ler poema completo
Biografia
Redes Sociais: @dybaile

Talvez tenha nascido tarde demais, por não ter levado a antropofagia de seus versos à Semana de Arte Moderna, não ter vivido o folclore e a loucura de Macunaíma, não ter admirado Iracema, ou por não ter escrito um samba com Vinicius de Moraes. Talvez tenha nascido cedo demais, por ser à frente do tempo. Mas, nasceu na época certa. Trouxe a vanguarda de seus versos carregada de uma iconoclastia subversiva e, ao mesmo tempo, romântica.

Poemas

37

Tudo o que você é

O seu genoma
Com seus 3 bilhões de pares de bases
Que, escritos, dão 800 cópias da bíblia

As suas 37 trilhões de células
Com seu DNA em cada uma delas
Que, esticado, tem 2 metros
Estender-se-iam por todo o Sistema Solar e voltariam

Quem o faz se sentir uma gota no oceano
É a própria ciência
É a imprópria ausência

A fumaça nunca volta ao cigarro
É o princípio da entropia
Acho que é por isso que borboletas causam tornados

Dominó, trilho, estopim
O curso da vida
Um oceano na gota

Desde a sua primeira tomada de decisão
Um trem perdido
Uma aula matada
Um amor ignorado 
Um amor vivido

Há uma realidade em que você é atleta
Político, músico, artista, professor
O grande herói das estradas

Os destinos são magníloquos
São rios perenes
Não os fixe

Escolha entre cara ou coroa
Jogue a moeda ao ar
E estique-se
32

Alianças de Saturno

Os anéis nada mais são
Que fragmentos de duas luas colididas
Aventuradas nos limites da metafísica
Dançando a mesma órbita em atração
23

Descobrimento (com Fabio Brazza)

Nunca me esquecerei
Do dia em que descobri que as cores da nossa bandeira
São homenagens de pura governança
E que nada tenho a ver
Com Dinastia Habsburgo e Família Bragança

Do dia em que me contaram
Que “Brasil” significa “vermelho”
Brasa, carvão ardente
Que deveríamos ser brasilianos 
O “eiro” vem da labuta da gente

Do pedreiro, do banqueiro, do carpinteiro
Feitoria, extrativista, Pau-brasil
Serviço para ser visto
Êta povo pra lutar e ser bem-quisto

Minha seleção jogaria de vermelho
E até já joga, no tupi-guarani Maracanã
Mas, esse rubro-apreço é questão de gosto
O Brasil, não; é questão de povo

Lamento aos que confundem
Esse verde e amarelo coxo
Com Stars and Stripes
Que trocam suas damas por baralhos
Corações por naipes

Lamento aos que não se descobrem tão cedo
Lamento Pedro
Ao português primeiro
Pois, nunca me esquecerei
De quando me descobri
Brasileiro
44

Esquina

Em qual esquina você conta alegre
Entre uma cerveja e outra
A nossa história de amor tão breve?
23

Pólis

O bom dia é político 
Deus é político 
Ateus? Idem
Anárquicos e democratas nisso coincidem

É política a polícia
A granada, lágrima e gás
O governante que jura não praticar
Já o faz

Motos, mortos
Tráfego, tráfico
Obras do passado
Obras para o futuro
Política é àgora
E sempre foi tudo

Primaveras e estações inauguradas
Até o leite com café
O meu candidato é político 
O seu também é

A nota de dois reais
E a cédula de cem
Quando há mais tensão
E na abstenção também

Sufrágio universal
Ao naufrágio social
Tribulação crítica
Não há como fugir
Até porque, a fuga é política
34

Em verso inverso (amor)

Vamos?
Nos deixar
Sem a necessidade de
Relembrar aquilo que nos uniu
Que tal, quitar
O ninho de amor está vazio
Como diria Cartola
Acontece
Pelo amor…
Vamos substituir logo
Essa indiferença
Sem rancor
Cada um pro seu lado
Não quero mais
Estar enamorado
Ou… só estar!
Agora, prometo seguir
Sem você
Não quero mais ficar

(Agora, leia de baixo para cima)
22

14 sonhos

Você não vai acreditar
E nem espero que acredite
As últimas duas semanas sem falar
Foram repletas de sonhos ao seu lado
(Em nenhum deles você estava triste)
24

Imbrochável

Defloração inconstitucional
No desabrochar da flor da democracia
Da carne, do pescoço, resta osso ao povo
Imputável

O que cada metalúrgico
Conseguiu conquistar com aço forte
Faz de vosso impávido colosso
Inoxidável

Parece-me a derrocada
A cracia voltando ao demo
A queda de um tenente
Inevitável

A filosofia de Hegel
Que rege os botões, flores, plantas e frutos
Não rega nem meio do seu ambiente
Insustentável

Quantas rosas o governo já deteve
Pela lascívia em bradar o seu másculo azul
Fazendo da bíblia um inferno
Inaceitável

200 anos, independente, vulnerável
Mas, a primavera…
A que sobrevém o seu inverno
É imbrochável
31

Até caixa de fósforo

Eu toco
Tantã
Reco reco
Cavaquinho
Banjo
Violão
Até caixa de fósforo
Mas, o seu coração…
Essa mistura de corda e percussão…
Instrumento tão notório
E não tenho em repertório
26

Em nome do Amor

Como eu me chamo?
Do mesmo jeito que me amo
Ontem Lucas, hoje Dybaile… 
Amanhã nem sei

Amo meus caninos grandes
Meu nariz longo
E as marcas de expressão que expressei

Nasci assim
E aprendi que o amor próprio é como um nome
Que você aceita e cria apelidos
Com o intuito de se qualificar

Eu me amando
Fica mais fácil de você me amar
Ame-se também e verá!
21

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Thaís Fontenele

Quem é Lucas menezes? o pouco que li, me deixou em frenesi, poesia branda, estou em êxtase. Abraços!