Maria Tereza Armonia

Maria Tereza Armonia

n. , Belo Horizonte - MG

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Aconchego

(O estranho casulo que me envolve
e me mantém resguardada,
quer hoje se quebrar)...
... ... ... ... ... ...
Mas a larva não quer ser borboleta.
Paradoxalmente, ganhar o mundo
significa ousar... experimentar...
estar suscetível ao entorno do casulo...
ao lá fora... às intempéries...
Por que quebrar o manto que protege
sem saber o que irá encontrar?
Por que romper com o doce envolvimento
sem conhecer o ambiente a conquistar?
Por que se expor a ares desconhecidos
se o aconchego aqui dentro é salutar?
O risco de ter asas e voar
compensa o risco de tentar?...
A metamorfose do feio ao belo
compensa o risco de se entregar?
A conquista da liberdade
compensa o risco de ousar?
... ... ... ... ... ... ...
(A borboleta, embora já tenha asas,
está morrendo de medo de voar)...
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Poemas

4

Como-ser

Uma certa grande melancolia...
um enorme pesar por não-ser,
não-poder, não-querer, não sei!..
Há, por vezes, um distanciamento incômodo
entre o coração e a razão:
um diz que sim, a outra, não!...
Um sentimento atordoado e oco
rasgando o peito, querendo se expor...
uma tomada de consciência
que impede o coração demonstrar amor...
um vento rasgado impregnando o coração,
criando intenções...
uma pedra de gelo envolvendo a razão,
obedecendo convenções...
o sim e o não, o belo e o feio,
a mão que auxilia,
o coração que aconchega...
o ser e o não-ser, fogo e aço,
apenas negações...
e o arrependimento doído
por não entregar-se a mão...
um angustiante aperto no peito
a alimentar lamentos,
obscurecendo a razão.
Ser ou como-ser - esta é a questão!
605

Tudo bem!

 

De repente, me deu preguiça de falar
daquele amor doente, inconseqüente...
Desânimo em falar das dores, do fim,
dele, dos nossos planos, de mim...

Do nada, veio o desejo de fazer a paz
tão desejada, mesmo desencantada...
Buscar na vida e em meus momentos
a calma do coração, o esquecimento...

Sem lamentos, chegou a hora de mudar
o rumo do tempo, seguir o vento...
A seu prazer e gosto, me deixar levar,
ser feliz de novo, nas asas de quem me amar...

Segura, escrever nova história inteira
e sem rasura, acordar desta noite escura...
Sugar sem pressa do céu a claridade
e apagar da lembrança o que restou de saudade.

662

Soberano

 Habitas e conduzes, soberano e envolvente,
os meus sonhos mais loucos e coloridos.
Aprendi a desenhar teu rosto na lembrança,
a resvalar minha face na tua,
olhar docemente nos teus olhos,
beijar com urgência a tua boca,
aninhar-me em teus braços
e a dançar contigo a insana dança dos sentidos.
Faço-te meu e me entrego sem recato...
Sou o que queres e quero o que tu és.
Quero o teu corpo e a tua alma...
Esta, para abrandar a minha
eterna procura da delicadeza.
Aquele, para me sufocar de paixão.

610

O homem que eu amo

O homem que amo não tem rosto, cor ou tamanho.
Tem uma voz que sussurra em meus ouvidos
e sempre diz as coisas que quero escutar.
(Meu amado é luz em meu universo particular).  

Antes, ele é formatado por rostos aleatórios,
físicos escolhidos, temperamento invulgar.
É cria da minha imaginação, modelo ilusório
do meu coração sempre ávido por amar.  

O homem que eu amo, de mim é utopia.
Nobre príncipe devaneado em fantasias
que habita o castelo do meu âmago sonhador.  

A mim me basta que seja uma composição:
não há homem mais amado e mais amante
e sedimenta a essência da minha alma errante.

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