marialuiza

marialuiza

n. 2002 BR BR

péssima em auto descrição mas ansiando ser menos autobiográfica. (normalmente é Malu)

n. 2002-05-06, Ceará

Perfil
10 338 Visualizações

terceiro andar

O beijo dessa tarde de domingo chegou gelado e ríspido, como quem vai dar um abraço e não sabe onde tocar primeiro.
E os olhinhos de janela são inúmeros, rodeiam a minha face, mas não sei se percebem nos meus olhos, quais são os olhos que eu quero olhar, ou se capturam, mesmo que ligeiramente, alguma fagulha da dor eminente desse terceiro andar. E se captam, deixam de lado, rapidamente, seguem exalando a solidez e indiferença dos prédios. Quase que arrogantes, por estarem tão perto das estrelas. Nenhuma proximidade ilusória dos astros os deixam menos irritantes, nem o reflexo dessa lua brilhosa em suas janelas me salva desses dias de tédio. Não tem pra vizinho charmoso que cruzou o olhar com o meu, e me perguntou se por acaso, aqui em casa a gente não viria a ter certo remédio… Absolutamente tudo aqui é um fardo, e saber que essa permanência no pagamento do aluguel é um fato, tornam a mim e meus objetos, meus objetivos, cada vez mais claustrofóbicos. E, cogito a tua visita nesse ambiente, quer dizer, se você, por uma sútil coincidência, passasse aqui durante um dia quente. Se tu por descuido deixasse os teus sentimentos em evidência, se no teu peito houvesse um lugarzinho pra mim rodopiar. Se você acordasse da inebriação dos teus pensamentos e afazeres, e puxasse a minha mão, me fizesse apalpar todo o relevo e inclinações que te moldam, desde o teu primeiro despertar, seja ele místico ou intelectual. Quero ver que gosto tem o que te nutre, e o que te devora a carne. E te ler sem sinopse, ver-te decepcionar todas as minhas hipóteses. Provar sem ter vontade de engolir, o teu lado ruim, enquanto toca a versão mais tosca possível de qualquer coisa que você insiste em chamar de samba. Mas, tudo isso ainda só seria se o sol não resolvesse deixar de bater mais cedo na minha varanda, se a gente tivesse urgentemente que salvar o planeta coreografando uma dança. Se os olhinhos de janela ficassem semicerrados, de levinho, pra ver, curiosamente, a gente namorar. 
Se o teu afago desconhecido e a tua presença terna me ajudasse com a mudança de sentimentos, me confortasse com a transição de lugar. Se a minha paisagem não fosse só concreto e cimento, se ainda houvesse um quintal e uma rede, e o teu tempo livre pra tu de mim se ocupar. Quem sabe com essas condições, o tormento cessaria, essa chatice cansaria da minha cara disfarçada, que parece nunca se afetar, e pousaria em outro andar.
Ler poema completo

Poemas

2

para Eliza

Eliza, voltei, mais teu e menos triste, 
Eliza, voltei, banhado e salgado das águas de Recife,
Eliza, sim, meu bem, eu voltei
pois viajei só pra voltar
e te afirmar que fui lá apenas tentar desfazer o nó
que teu rosto fizeste uma vez só
antes que meu corpo resistisse
mas, Eliza, escuta, voltei com ele maior, 
ainda lembrando da conclusão, os lábios molho
e agora, te escrevendo, os meus membros e o danado do amaranhado são um só
Eli, e você, você segue sendo diante dos meus olhos o recorte do mundo mais lindo que existe
267

silêncio

hoje eu passei uma hora exposta à luz solar matinal.
fiz aquela meditação de sete minutos que a minha amiga astróloga me recomendava.
passei a manhã vendo um desenho que aborda temas complexos de um jeito bobo enquanto comia a minha comida favorita pela terceira vez essa semana.
lixei o meu pé que não sabia qual era a sensação de se lixado faz um tempo.
ouvi um podcast sobre uma das minhas possíveis profissões. 
essa tarde eu quis fazer uma pesquisa grandiosa e sútil que mudasse alguma coisa no mundo.
essa tarde eu quis fazer uma pesquisa grandiosa e sútil que mudasse alguma coisa em mim.
também cochilei sem sentir nenhum alerta cognitivo ao acordar, aquele que nos diz que já dormimos demais.
eu flertei com as nuvens em formato de monstro, procurei um post no Instagram que me desse algo em que minha mente se fixasse, achei, durou quinze minutos esse aterramento.
esse seria um dia ideal e propício para descansar e optar por quase nenhuma interação.
uma atmosfera pra se desconectar.
mas por maior distante que eu me submeta a ficar
dos fatos,
dos outros, 
e de qualquer trilha que quisesse fazer hoje à tarde pelos morros, 
sou arrastada até um lugar de subjetiva distração maior.
os emaranhados sentimentais se fazem tímidos quando eu sento, encaro-os e digo: ok, ressoe, eu estou disposta a te ouvir.
209

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
jorgejacintojr

Parabéns pelas obras!