marialuiza

marialuiza

n. 2002 BR BR

péssima em auto descrição mas ansiando ser menos autobiográfica. (normalmente é Malu)

n. 2002-05-06, Ceará

Perfil
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terceiro andar

O beijo dessa tarde de domingo chegou gelado e ríspido, como quem vai dar um abraço e não sabe onde tocar primeiro.
E os olhinhos de janela são inúmeros, rodeiam a minha face, mas não sei se percebem nos meus olhos, quais são os olhos que eu quero olhar, ou se capturam, mesmo que ligeiramente, alguma fagulha da dor eminente desse terceiro andar. E se captam, deixam de lado, rapidamente, seguem exalando a solidez e indiferença dos prédios. Quase que arrogantes, por estarem tão perto das estrelas. Nenhuma proximidade ilusória dos astros os deixam menos irritantes, nem o reflexo dessa lua brilhosa em suas janelas me salva desses dias de tédio. Não tem pra vizinho charmoso que cruzou o olhar com o meu, e me perguntou se por acaso, aqui em casa a gente não viria a ter certo remédio… Absolutamente tudo aqui é um fardo, e saber que essa permanência no pagamento do aluguel é um fato, tornam a mim e meus objetos, meus objetivos, cada vez mais claustrofóbicos. E, cogito a tua visita nesse ambiente, quer dizer, se você, por uma sútil coincidência, passasse aqui durante um dia quente. Se tu por descuido deixasse os teus sentimentos em evidência, se no teu peito houvesse um lugarzinho pra mim rodopiar. Se você acordasse da inebriação dos teus pensamentos e afazeres, e puxasse a minha mão, me fizesse apalpar todo o relevo e inclinações que te moldam, desde o teu primeiro despertar, seja ele místico ou intelectual. Quero ver que gosto tem o que te nutre, e o que te devora a carne. E te ler sem sinopse, ver-te decepcionar todas as minhas hipóteses. Provar sem ter vontade de engolir, o teu lado ruim, enquanto toca a versão mais tosca possível de qualquer coisa que você insiste em chamar de samba. Mas, tudo isso ainda só seria se o sol não resolvesse deixar de bater mais cedo na minha varanda, se a gente tivesse urgentemente que salvar o planeta coreografando uma dança. Se os olhinhos de janela ficassem semicerrados, de levinho, pra ver, curiosamente, a gente namorar. 
Se o teu afago desconhecido e a tua presença terna me ajudasse com a mudança de sentimentos, me confortasse com a transição de lugar. Se a minha paisagem não fosse só concreto e cimento, se ainda houvesse um quintal e uma rede, e o teu tempo livre pra tu de mim se ocupar. Quem sabe com essas condições, o tormento cessaria, essa chatice cansaria da minha cara disfarçada, que parece nunca se afetar, e pousaria em outro andar.
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Poemas

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terceiro andar

O beijo dessa tarde de domingo chegou gelado e ríspido, como quem vai dar um abraço e não sabe onde tocar primeiro.
E os olhinhos de janela são inúmeros, rodeiam a minha face, mas não sei se percebem nos meus olhos, quais são os olhos que eu quero olhar, ou se capturam, mesmo que ligeiramente, alguma fagulha da dor eminente desse terceiro andar. E se captam, deixam de lado, rapidamente, seguem exalando a solidez e indiferença dos prédios. Quase que arrogantes, por estarem tão perto das estrelas. Nenhuma proximidade ilusória dos astros os deixam menos irritantes, nem o reflexo dessa lua brilhosa em suas janelas me salva desses dias de tédio. Não tem pra vizinho charmoso que cruzou o olhar com o meu, e me perguntou se por acaso, aqui em casa a gente não viria a ter certo remédio… Absolutamente tudo aqui é um fardo, e saber que essa permanência no pagamento do aluguel é um fato, tornam a mim e meus objetos, meus objetivos, cada vez mais claustrofóbicos. E, cogito a tua visita nesse ambiente, quer dizer, se você, por uma sútil coincidência, passasse aqui durante um dia quente. Se tu por descuido deixasse os teus sentimentos em evidência, se no teu peito houvesse um lugarzinho pra mim rodopiar. Se você acordasse da inebriação dos teus pensamentos e afazeres, e puxasse a minha mão, me fizesse apalpar todo o relevo e inclinações que te moldam, desde o teu primeiro despertar, seja ele místico ou intelectual. Quero ver que gosto tem o que te nutre, e o que te devora a carne. E te ler sem sinopse, ver-te decepcionar todas as minhas hipóteses. Provar sem ter vontade de engolir, o teu lado ruim, enquanto toca a versão mais tosca possível de qualquer coisa que você insiste em chamar de samba. Mas, tudo isso ainda só seria se o sol não resolvesse deixar de bater mais cedo na minha varanda, se a gente tivesse urgentemente que salvar o planeta coreografando uma dança. Se os olhinhos de janela ficassem semicerrados, de levinho, pra ver, curiosamente, a gente namorar. 
Se o teu afago desconhecido e a tua presença terna me ajudasse com a mudança de sentimentos, me confortasse com a transição de lugar. Se a minha paisagem não fosse só concreto e cimento, se ainda houvesse um quintal e uma rede, e o teu tempo livre pra tu de mim se ocupar. Quem sabe com essas condições, o tormento cessaria, essa chatice cansaria da minha cara disfarçada, que parece nunca se afetar, e pousaria em outro andar.
838

Cicatriz

eu vomito nos seus sapatos todas aquelas palavras que eu ensaiei pra te dizer,
a vizinha dança ao som de um rock de vinil, no andar de cima. enquanto o céu parece desabar sobre a minha cabeça. eu não sou capaz de reparar se hoje está uma daquelas noites estreladas.
como se a minha frustração romântica fosse um quadro, eu te vejo de costas, com a pele desnuda, dando as primeiras pinceladas. mesmo com essa tela sendo preenchida por você, mesmo com essa expressão de sentimentos indigestos sujando os teus calçados, sinto que algo no teu dar de ombros te trai.
a mansidão das tuas palavras escorre agora pelas minhas mãos, passa por entre os meus dedos, e goteja sobre os meus pés, seguindo o seu fluxo no chão.
a hostilidade que essa cortesia exala, arranha a pele que outrora você quis sentir no paladar.
e eu insisto em deixar tuas marcas no meu corpo à a mostra, que o vento gelado as toquem, que os círculos sociais as comentem, e que o meu constrangimento me engula viva. que consuma a mim e as minhas entranhas o maldito carma que tanto me deseja, mas essa cicatriz ativa, baby, essa eu não vou esconder.
478

onda de dentro

sobre a cama com as pernas tensionadas,
depois de repetir o teu nome entre alguns suspiros breves, emanados de uma voz rouca.
onda de dentro, impulsionada por frenesis.
a força dessa maré sou eu
mas é o mesmo mar que te atrai, te arrasta, e incide que você navegue por aqui.
as minhas águas pintadas com o brilho do sol e o sal marinho, pra banhar-lhe o rosto e na tua boca calar, enquanto com o olhar, você percorre esse caminho. te devora pois também quer sentir o teu gosto, fazes sentir afogar, roubando-te o ar.
explora o que tu quer e se revitaliza nesse azul, permite que molhe teu corpo inteiro, lave-o por dentro.
se tem receios não entra, mas se for entrar, vai de corpo e coração nu.
505

pássaro cansado

Com repouso ou não, permanece pássaro cansado.
Com um ninho substituído, por esses ferros frios, um tanto enferrujados.
Sem o canto de outras aves no seu ouvido, muito menos a disputa pra quem vai por o primeiro bicho minúsculo e rastejante que vacilar, no seu bico.
Aqui se tem apenas um pássaro, que por acaso está cansado, com horas e horas pela frente para descansar.
Nesse novo habitat não há insetos? só o que faltava a esse bicho com penas... sementes feias pra descascar.
Os mesmos cenários pra ver e
rever.
Meu Deus! sera que ele ainda sabe fazer aquele negócio todo de voar?
Não cantou o dia inteirinho, anda deprimido, coitado! deve tá precisando acasalar.
Agora, pássaros cansados
dividindo espaço na gaiola.
Ela é uma fêmea selvagem e expansiva,
"descascar semente não rola, abre isso aqui, que eu quero o que tá lá!"
Olha! batendo as asas, que bonitinha, acho que essa aí gosta de conversar, hein?
Bom, acho que eles vão se entender, e se não,
pelo amor de Deus, são pássaros.
Pássaros cansados
que escolhas lhe convém?
o descanso é um presente!
olha lá fora, que dia quente,
buscar por agua em passaredo e esperar uma formiguinha dá bobeira por aí?
que vida é essa? sem gracejo
aqui vocês até fazem o meu pequeno sorrir.
Agora façam-me um favor e durmam, afinal, estão cansados.
Vou até por uma toalhinha por cima aqui,
e, se não for pedir muito, tentem ser menos bagunceiros.
O tempo é escasso... tenho uns compromissos marcados e, bom, não dá pra limpar a sujeira de pássaro folgado, digo, pássaro cansado, quando ele bem decidir. É só tentar passar mais tempo descansando, sabe? vai evitar essa sujeira toda. E a água, acho que a água pode ficar uns dois ou três dias até trocar, isso deve dar certo, mas vocês me falam durante.
E, só mais uma coisa, por favor evitem cantar quando aquela minha expressão de dia-de-cão estiver presente, naqueles momentos eu não faço ideia da razão de eu ter animais por perto. Acho que é só isso, vocês entendem, não é? Criando-os aqui em casa, eu arrisco desperdiçar meu tempo, meio que adoro vocês também, aliás, quando cantam (e estou nos meus dias estáveis) eu reafirmo para mim mesmo que é inconcebível não telos como parte da casa. São como pequenos detalhes coloridinhos na dacoração (falar nisso até me lembra o dia em que a minha esposa queria que eu os trocasse, por conta do contraste que a cor das suas penas exibe, e, que, sem querer ofender vocês, ela não cai muito bem com o nosso carpete). Mas convenci-a de que a idéia era absurda, acho que ali já ficou claro o meu apreço por bichinhos, principalmente esses assim, que exigem bem pouquinho da gente. Mas, independente de qualquer afeição, vocês são apenas bichos, e eu, homem saudável que sou, me certifico de que não atrapalhem o meu descanso ativo ou minha lista de afazeres dentro da minha rotina rítmica, que olha, não é fácil de mudar, ela é intrínseca...E não há espaços para qualquer afeto animalesco intervir. Mas esse tempo de descanso aí pra vocês deve servir, não é?
vejam como uma experiência nova,
não sei,
inventem um romance aí, finja que a suporta
ou simplesmente interpretem dois animais domésticos bonzinhos, sei lá, quem sabe a gente não solta? É só enquanto o moleque cresce... eu vejo que ele adora, se diverte e acho que até o acalma. Mas se eu soubesse do trabalho que dava, esperava mais para passar essa fase aqui de criançola, pra ver se ele, sendo mais velho, cuidava. Eu estava contando com que vocês exigissem o mínimo.
Só que a gente nem pensa direito, ne? ainda mais quando se trata da alegria do nosso menino. Além do que, presente é presente,
como esse descanso daqui que dou a vocês.
Volto a dizer, podiam estar vivendo como ratos!
ratos voadores cansados. Neste lugar vocês são pássaros! com tempo e comida de sobra,
pássaros com toda a licença e disponibilidade para serem pássaros.
Não, pelo amor de Deus, falta de perspectiva não! por favor não sejam ingratos,
aqui vocês são livres do peso de ser ágil, do peso de ser um pássaro,
aqui vocês apenas descansam,
descansam pois ao que me parece, pássaros, ao que me parece vocês andam cansados.
505

pia entupida, ralo obstruído

As confissões insensatas feitas no interior de uma janela, que costuma ser banhada pela radiação solar da luz do dia, agora se cobrem, enroladas em um manto maracujá. A chamada acabou, meu adultozinho, emissor digital de suas emoções confusas. Agora, traga-às de volta para gruta. Não deixe mais ninguém de fora olhar. Sinta o alívio de ter vivido mais uma exposição, e o conforto silencioso e merecido após as interações difíceis. O quê? Você continua triste? aí, mas você não vai me dizer que acreditou naquelas promessas vagas de que "vai passar!", não é? acho que isso aí não é muito adulto da sua parte. Sabe, tem uns poemas, eu andei vendo umas esculturas e quadros…Enfim, já ouviu falar na conversão de tristeza aguda em arte, loucura inóspita em arte, do seu desespero pouco profundo em arte, do amor palpável em arte? Acho que, pelo que te conheço, esse você converteria ao contrário.
E, bom, ainda são 17 horas da tarde, não me venha com essa angústia fora de horário. O que você queria, não era movimento? pois então, o universo mais uma vez te ouviu e te presenteou com um arsenal de sentimentos embaralhados que te rebolam daqui pra lá, não vá cometer o desdém de olhar com expressão de dúvida aos céus, enquanto carrega toda essa confusão debaixo do braço. Faça um mapa mental, passe a frequentar a casa de uma daquelas moças, as senhoritas que leem Tarot. Meu Deus, é a sua, e, unicamente sua, dor. Inventa um personagem aleatório aí dentro da sua cabeça, pra te dar os sermões que você odiaria ouvir, e que se viessem de alguém orgânico e real, resultaria em uma discussão sem fim. Olha, até pra mim, você exala estar timidamente na defensiva. Mas, eu nem existo sem a tua ajuda, sou apenas um lado seu, querida. A mudança de esquina que você faz pra evitar lidar com os seus pedacinhos, ela te dar uma pilha nova deles. E, eu juro, que notei, que já faz uns meses, desde o último descanso, que o tempo passa e as coisas giram como se alguém te rodasse intensamente e contra a sua vontade em um balanço que tem o assento desconfortável, e as respostas ainda continuam completamente encobertas, por essa cobertura gelatinosa de alguma coisa, que parece deixar um rastro pouco agradável aos olhos, em todas as pessoas que você cruza.
Que grande parte de tudo de mais terno que a gente sente, eventualmente se transforma em uma amontoado gigante de louças sujas, e, ninguém te avisou antes, mas inusitadamente também, você descobriu que apenas você mesmo podia lavar. E a única informação antecipada que te dão é que a probabilidade desse ralo entupir com os restos de comida da tua louça, são enormes.
Ah, mas também não precisa hiperventilar assim, que cara é essa? eu não te dei nenhuma notícia catastrófica. Começa a contar as respirações e chama aquele encanador, o que é conhecido da família, se algo der errado, ele resolve. E, evita esses afetos súbitos, também. Eu sei, você sabe, acho que o encanador que a sua mãe indicou deve ter conhecimento também, que muito antes da hora marcada, eles se dissolvem, antes mesmo que a sujeira da pia (sem querer duvidar da competência de quem a limpou.)
516

acontecimentos pontiagudos

alguém mordeu um pedacinho da lua hoje, dois gatos brincam no calçamento deserto agora, um casal degusta vinho em uma varanda ambientada sonoramente por música ruim, alguém do andar de cima escreve sem disposição e ânimo pra tal coisa, uma (não) mãe cochila com fome enquanto os filhos completamente adormecidos tem os seus estômagos minimamente alimentados e o pai sei lá o quê.
os fatos do mundo, sendo tenros ou malditos, se expõem a mim, se colocam sobre os meus olhos, se espalham dentro dos meus ouvidos, irritam o meu nariz com o seu odor, amargam minha língua por terem um sabor hostil, amassam a minha pele, quase lembrando um toque viril (rude)
e o meu dar de ombros pra todos eles contrasta com a vontade de adentra-los, o que me faz não descer as escadas e ir até a rua gélida fazer carinho nos felinos? que impedimento prudente não me deixa entrar no grupo de Whatsapp do condomínio e postar a playlist das cinco melhores músicas para ouvir enquanto se experimenta vinhos romanticamente, pra que indiretamente aquele vizinho veja e passe a duvidar da musicalidade dos seus hits preferidos, e que tipo de pudor me censura e influi pra que eu não confesse o quanto os escritos desse cara me tocam? em que parte da confissão eu deixo escapar que não é só na produção literária que ele faz surtir efeitos-fagulhas em mim? como eu desfaço o nó que fica na minha garganta quando eu durmo de barriga cheia, ouvindo ruídos do estômago alheio ecoando na minha cabeça, deixando um vazio no meu coração, e ainda...trazendo-me inúmeras vezes o valor exato da quantidade de dinheiro que eu guardo em minha carteira. com que Deus eu grito enquanto culpo-o por um filho da puta simplesmente conseguir morder a lua no tempo em que essa família segue dias sem comer? cerrar os punhos enquanto eu me refiro à uma divindade vai me mandar direto pro inferno? qual é a cor da caneta celestial que me darão pra eu assinar minha penitência de permanecer aqui e seguir vendo o que eu já vi, dormir novamente sabendo do que eu sei, olhar no espelho mais uma vez e ver a insignificância que eu sou diante dos acontecimentos pontiagudos que me perfuram o peito todos os dias?
528

conversa imaginária

o diálogo que a gente não teve
ficou retido dentro da minha cabeça.
e, nas terças feiras de manhã ele ainda me faz vagar nas tuas possíveis e remotas palavras. como um corpo boiando em uma represa cheia de uma água que não existe.
eu, deselegantemente sentada em uma cadeira plástica, espero por um sol mesquinho que não me queima, enquanto sinto que já passei do ponto nesse hobby idílio que é imaginar você referindo-se a mim.
529

corrida

Enquanto a mente busca um equilíbrio estável sobre os acontecimentos recentes, separar a vontade de tudo, ou quase tudo que sente.
Não é ardendo de vontade que a gente consegue o que quer.. E muito menos se o seu querer for aquele papel, que te promete, te engana e depois desmente.
Dá pra esperar pra ver quem ganha uma corrida, onde todas as apostas são um tiro no escuro? Será que é assim que se tornam atrativos os jogos de azar? em quem você apostaria?
Um coração acelerado
atropelando tudo, correndo com seus pés descalços, acho que nem lembra o porquê de estar aqui. Corre com os olhos baixos, cansados, parece viver constantemente com uma necessidade de dormir. No entanto, é um competidor ágil, tem os seus joelhos ralados, mas corre rápido como ninguém, a sua distração possui uma dualidade, fica quase que hipnotizado com a aglomeração de pessoas, agitadas, eufóricas e, claro, torcendo pelo miocárdio. O que quase lhe faz parar de bater, por alucinar diante de tanta vaidade, também impulsiona a ganhar essa afobada competição. Não vai querer fazer feio em meio a tanta torcida. E dessa maneira, com essas pretensões, ele corre, corre atropelando pernas e bandeirinhas do caminho. Todo mundo ver na pista um coração correndo, com seus repetidos passos rápidos, excêntricos, que ameaçam lhe partir.
528

essa peste que tu é

os pelos do meu corpo sentem o âmago da tua ausência.
a vontade de ter-te tende a consumir-me das entranhas até a superfície da pele, me devorando aos pouquinhos, e, ao fim do dia, tem me engolido inteira.
você nada em crawl dentro da minha garrafa de água.
dorme sereno, enquanto é amassado pelas páginas do meu livro de cabeceira.
se molha despido no leite da minha tigela de cereal.
com o seu cabelo longo embebecido, você pequenininho, sorrir com uma confiança irritante, dizendo que eu me alimento muito mal.
minha boca de Sucrilhos não deixa que eu te conte alguns aspectos da minha rica dieta
mas olha, eu como bem,
apenas cometo alguns erros com as quantidades.
eu nunca sei a dose certa,
do que me devia ser balsâmico.
tem remédio na cidade,
que cure o excesso de algo que deveria curar?
que amenize um pouco esse querer, desesperado e ansioso de te ver repetidamente por aí, dos nossos corpos se esbarrando por acaso.
ou de simplesmente irmos um até ao outro, materializar um encontro detalhadamente planejado. apesar do almejo pela tua resposta, por uma interação intensa entre as nossas vozes e peles, também mora em mim uma necessidade de te olhar sem ser percebida, te fitar como um desconhecido, que cruza, sozinho, essas ruas asfaltadas. com os seus olhos ambíguos que não me vêem, não me dizem absolutamente nada.
a junção de você dentro desse cenário que são as ruas me trazem uma sensação breve de lar.
saber que o orvalho das dezoito horas sente a tua pele, que toda a umidade da noite está te tocando, e da relação química entre a sua respiração e a vegetalidade do lugar naquele exato momento.
imaginar qual ângulo bonito do céu
te aconselha a esquecer o contexto (que é um insulto) em que foi dado esse nosso laço, e a vir correndo...ok, pedalando, até a mim. pedindo-te, como um favor aos astros, pra que se torne impossível de negar, que tu deixe do lado de fora da cabeça
qualquer possibilidade de não ouvir um "sim"
da minha boca.
essa tua cautela tímida me contraria inteiramente, questiona todos os meus silêncios gritantes, e se eu ouso vocalizar alguma coisa...ela me desmente. e eu sigo contida, cansada, casmurra. esperando a hora em que a tua saudade muda, aprenda de novo a falar, mesmo que seja com uma tonalidade rouca, sabe? não quero os gritos eufóricos das paixões loucas, dos romances alarde. meu espírito sacia-se com os sussurros teus, meus tímpanos descansam no breu reconfortante da tua voz ecoando baixinha.
e apago daqui, quase que completamente, os dias excessivamente claros, em que ela não quis espalhar seu timbre escuro pra que o mesmo chegasse até mim. eu tô agora mesmo tentando unir as pontas de todos (ou pelo menos dos que deixaram rastro recente na minha memória) os ardores sentimentais que tu introduziu imperceptivelmente no meu peito, pois, com os efeitos unicamente físicos, eu já gastei tempo demais, mas ainda é válido dizer que sobre estes eu me debruço, eu me deito...
detesto admitir fraquezas sobre a minha destreza em certas produções literárias, mas a pluralidade que tu é e causa me deixou pontas soltas e qualquer meio de unir forma a escrita hilária. nada rima, nada acaba e nada dá o teu ar de esfinge que me encara. nada, nada.
nem essa lua brilhosa, que paira, olhando ofensivamente irônica pro tanto de horas que eu já gastei escrevendo sobre você. escrevendo pra quem ler? pode ser que leia, viu. digo que essa rispidez não combina com quem tem a luz emprestada, haha. ela vira a face, ilumina outra janela e outra sala. mas eu estou no quintal. com o olhar um tanto relapso em um ambiente que não está inteiramente mal. confesso, que esperava terminar mais cedo, e não me perder das emoções intrínsecas definitivamente. me controlando bastante pra que não termine com qualquer rima tosca que descreva alguma vagueza de sensações nos sentidos, transmitindo uma simplicidade inerente dos amores-bálsamos. você não é o meu amor-bálsamo, nem mesmo chega a ser o meu amor cármico. na verdade, você não pode se dar ao deleite de ser chamado de amor. esse líquidozinho que encharca os corações, ele não me remete o teu gosto. não me faz lembrar o teu rosto, (apesar de às vezes encontrar em mim uma leve, bem leve, vontade de te oferecer esse enfeite) pra mim a sua composição é mais complexa,
e tem um sabor memorável e ameno.
se tudo que tu tem pra me dar és veneno
a minha boca amarga e falece, antecipadamente,
por desse não beber.
pela manhã estar esbranquiçadamente nublada.
pelo os pingos da tua saliva doce permanecerem deitados nas calçadas.
por você ser a roupa que me veste e toca as partes mais sensíveis do meu corpo e nem ao menos ousa se permitir a acariciar.
por ver-te seguir sendo essa peste,
que me arrasta como uma ressaca litorânea,
e inverte até a mínima bobagem que eu já tive a certeza de acreditar.
por ter habitando em mim a convicção sólida, de que preciso roubar os teus olhos.
só pra deixa-los assim, vidrados e inquietos, investigando a mim.
sentir no fundo da minha derme a tua íris que me percorre e me arranha.
sigo encontrando justificativas, pra não dar lugar pra sentar aos conceitos inexplicáveis dos sentimentos. pra que, daqui a pouco, eu não tenha um rótulo pra chamar essa coisa que me empurra constantemente a sentir raiva da ternura que você acorda no meu ser.
511

paleta de cores

Olhando as telas quase quadradas,
esperando ver mais uma vez por um chamado teu que, mesmo tão elaborado, ensaiado, talvez não me queira dizer nada. Mas quando presentes são escaldos
ardentes, aonde eu junto os teus traços e idealizo cada expressão do seu rosto contida no que você diz
e sinto em mim os teus dentes, num mastigar quente que faz aguçar todas as outras sensações que você trás ao meu ventre. Me deixando sem norte pra ir, boquiaberta diante de um estremecer frio que vai das coxas até a nuca. Já não me surpreende me deparar com a minha aquarela interna de sensações, pintando personagens, atores, dores fracas de nuances facilmente apagadas. O que me assombra é a infinidade de tons que a tua aura trás, deixando um aviso, um breve cartaz, que diz-me claro e intenso como do teu feitio, que há grandes possibilidades dessa tinta respingar em mim. De serem espalhadas sobre a minha pele, como uma paleta de cores quebrada em um chão de cerâmica.
578

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jorgejacintojr

Parabéns pelas obras!