MariaManuelaFerreira

MariaManuelaFerreira

Residente em Ponte de Lima, Maria Manuela Ferreira é uma apaixonada pelas palavras e pelos seus múltiplos sentidos. Encontra na escrita uma forma de transformar o quotidiano, codificando emoções, pensamentos e experiências em linguagem poética e criativa. A sua escrita é, sem dúvida, uma busca constante por significados, onde cada termo ganha uma nova vida. A autora continua a trilhar um caminho onde a escrita é, acima de tudo, uma forma de revelação e uma alavanca para continuar a partilhar com o mundo o seu olhar singular sobre os dias.

n. 0000-00-00, 26-12-68

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Há saudades que ali ficam

Há saudades que ali ficam,

presas às tintas do muro.

São beijos cheios de frio

que anoitecem como bússolas

e moram dentro de tudo.

Há saudades que nos chamam

e nos param de repente,

que chegam como um combate

sem contornos definidos

e nos moldam lentamente.

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Poemas

4

Às vezes, com medo de deixar cair o poema

Às vezes, com medo de deixar cair o poema

fora do mapa,

cerro os dentes,

levo-o até casa na boca.

 

E enquanto ele se escoa lentamente

junto à porta de entrada,

abre ecos pelos degraus

e ganha formas ao fundo,

eu sonho em arrastá-lo

como um gato até

ao resto do mundo.

220

Enches o peito de vento

Enches o peito de vento

e a boca, da cidade.

Andas sem rosa dos ventos,

tão cheia de majestade!

 

E vais tão vazia de gente

no teu palácio fluído,

 que as portas só são detalhe

de arquiteto distraído.

 

242

Sacudo o vento das mãos, limpo

Sacudo o vento das mãos, limpo

as sombras dos pés, alago

os olhos de artérias

e o coração de marés.

E que haja mar à minha frente e

um barco que o desmonte, que eu

tenho sonhos e mãos

que agarrem o horizonte!

140

Quando eu morrer, Cecília.

Quando eu morrer, Cecília,

talvez os galos não cantem mais à minha volta,

talvez não haja brisa, nem mãos delicadas,

que já não é moderno,

só pilares de cimento e frases largadas

de valas, pedras, pó, pás

e larvas na boca.

 

Quando eu morrer, Cecília,

não quero as mãos cruzadas no peito,

um sorriso de seda

e um vestido de roda bordado inglês,

antes uma tigela de marmelada na boca

a desafiar as formigas,

um pregão nos olhos

e as mãos soltas

para coçar os pés.

 

 

Quando eu morrer, Cecília,

diz-lhes que não precisam de me medir os quadris

para ajustar o tecido.

Lembra-lhes ainda, Cecília,

(talvez eles não tenham dado por isso)

que eu morri tanta vez

dentro do mesmo vestido.

 

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Comentários (2)

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Manuela Ferreira
Manuela Ferreira

Obrigada. Abraço

Minha cara poetisa... bom dia... é um prazer ler teus poemas , principalmente este que diz que ficam presas ás tinta de um muro. e nos moldam lentamente , para um passado que nos parecem estar : neste momento presente. Parabéns.