Repouso
Quando o lusco-fusco
envolve os portais
dos casarões adormecidos
caída de algum cometa
a paz ausculta os meninos,
imersos em brandos sonhos
guardados pelo destino.
Oh, silêncio que inebria
ouçamos a canção do ir e vir
que o vento ao longe anuncia,
despencando pelas encostas
em vendavais de calmaria.
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Noturna paisagem
Na ânsia louca de
se banhar
a lua arrebenta no
penhasco
e num ponto distante
e insondável
o suicídio coletivo e
silencioso
de estrelas bebendo
o mar.
Desertos
Devorei a manhã
Com a sede dos desertos
E,afoito. descurei sabores
E poemas que do teto vazavam...
Só mais tarde
Alijado da minha
Pretensão de pássaro
Em voos cúmplices descobri
A diversidade de oásis
Que os teus sentimentos guardavam.
Abrigo
Nossa mãe
fazia bolinhos de chuva
e não entendíamos
por que nessas ocasiões,
geralmente, o sol irradiava
festivo...
Nossa mãe fazia
curau
com o milho colhido na hora
nas plantações ao lado da casa
no pacato sítio.
Nossa mãe
cosia roupas
em sua máquina antiga
estrategicamente posicionada
próxima à janela
com vista para prováveis peraltices.
Nem sequer imaginávamos
que entre um afazer e outro
em nós procurava abrigo.
Luares
Os poemas são construídos
com a musicalidade da alma
é prudente, pois,
engravidar notas
multiplicar luares...
A visita
A visita interroga
Os labirintos
Do meu olhar vazio.
Habitualmente permanece
Quieta
Há anos têm sido assim...
E sempre parte
Quando adormeço
Deixando suspenso
Nos vendavais das indagações
Um tênue fio...
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O relógio
O relógio já não acompanha
os meus movimentos
antecipa-se, veloz,
e posta-se à frente
dos meus calculados propósitos.
Se girasse os seus ponteiros
no sentido anti-horário
(dezenas de vezes, centenas, milhares...)
convidá-lo-ia para uma
caminhada matinal
pelo parque.
À tarde
faríamos a sesta
no avarandado do sítio
com vista para o fazer
nada.
Conversaríamos sobre:
- o amor estampado no acasalamento dos pássaros
em festa pelos pomares
- a chuva que, eventualmente, caindo lavasse as nossas almas
- o odor de terra molhada, a indelével esperança, a renovação do afago
- meu cão amigo que, certamente, vigiaria
nossos olhares
- música leve, paixões ardentes, entregas desmedidas
versos inacabados...
Tê-lo-ia ia como amigo
primeiro
mesmo ciente de que , ele,
em sua missão inadiável
jamais pararia
e, ao meu descuido,
todos aqueles bons momentos
seriam, certamente, tragados.
À mesa (gran finale)
À mesa
reverberam os talheres
esgares de lassidão
ausência de palavras,
e através das frestas
do silêncio
desabam do sótão
maquiadas mágoas.
As virtudes
pela rotina sobrepujadas
agonizam
no cenário onde das emoções
restaram vestígios,
e os idílios
sobreviventes da devassa
perscrutam no relógio imaginário
um alvo indefinido.
Reverberam os talheres
e o silêncio fere mais
que quaisquer palavras.
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Espelhos do tempo
O rumor das ausências
visitando os espelhos do tempo
alimenta a sede do poema
embriaga o silêncio.
Estéreis acordes
já não convidam à dança
às festividades da alma
à emoção do acalanto,
e uma invasora saudade
arranha as entranhas das
possibilidades.
Melodia encerrada?
Não. A vida faz apenas
uma pausa
e crava nas folhagens dos fatos
as suas irretocáveis verdades.
do livro "Espelhos do Tempo"
1a edição - setembro/2010
O lado obscuro do poema
O lado obscuro da vida
não é a morte
- de todas as partidas
a mais importante,
tampouco a lua
a todos revela o seu encanto.
O lado obscuro do poema
é luz
que aos cegos empresta seu canto.