Borboletas no aquário III
Uma chuva fina e persistente
Visitava os alicerces do passado
Quando fez o que, há tempos, cogitava:
- Mirou o ponto luminoso no teto de tudo
- Guardou os álbuns de todas as renúncias
Na gaveta do armário
- Fez par com a vida, num beijo inusitado
- E, finalmente, convicto, quebrou o aquário.
Borboletas no aquário
Lançamento: dia 07 de setembro
9ª Feira do Livro de Sertãozinho/SP
Borboletas no aquário II
Mantinha borboletas
No aquário
O silêncio a balbuciar-lhe
Regozijos de naufrágios...
Mas, quando as mãos violáceas
Não pressentiram mais as cores
E a visão turva admitiu
Guelras na fala
Ao fio partido
Gritou
Ah, gritou!
Suspensos ao eco
Todos os mares não desbravados!
do livro "Borboletas no aquário"
lançamento 7 de setembro
9ª Feira do Livro de Sertãozinho/SP
Borboletas no aquário I
Mantinha borboletas
No aquário.
Sentado à mesa
Com as mãos no rosto
Espalmadas
Tecia um fio de tempo
(Só seu)
A observar, em voos suicidas,
Um submerso calendário.
do livro "Borboletas no aquário"
lançamento 7 de setembro
9ª Feira do Livro de Sertãozinho/SP
O grito III
Já me fiz pausa
Num compasso de espera.
Tantos sonhos ao vento...
às vezes a vida soa
no contratempo.
Supérfluos
Meio aos "supérfluos objetos"
Armazenados sem lógica
No quartinho a eles destinado
Encontrei uma fosca folha
(Dessas de embalar pão)
Onde o meu pai exercitara,
Exaustivamente, a sua assinatura.
Percebia-se, claramente,
Através dos traços nítidos e fortes
Que a mão que conduzira "a pena"
O fizera qual fosse arado
Que rudemente desbravasse o chão.
O grito II
Todo grito
é um refúgio.
Às vezes o silêncio
deixa de ser acolhe (dor).
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Pai
O teu sorriso era lindo
água de cachoeira
deslizando límpida
entre pedras e limo.
A tua alegria era infinda
e nem os dissabores
de tua árdua lida
(a infância pelo trabalho
fora tolhida)
a arrefecia.
Genúina era a tua poesia
lapidada com a rusticidade
de mãos e alma "caipiras"
(às vezes fugia-lhe a rima).
Ah, velho amigo,
tivesse eu a consciência
de que teu abraço
um dia me faltaria...
O preço do poema II
Quanto nos cobra o poema:
- por uma sinfonia de metáforas
- por uma visitação à alma
- por um deslumbre de voos?
Ou desapegado da matéria
doa-nos, ele, complacente
as suas inefáveis asas?
O preço do poema, senhores,
é o poeta quem paga!
O preço do poema I
Quanto vale o poema:
- nas frentes de batalha
- nas perdas irreparáveis
- na solidão que a alma talha?
Quanto vale o poema:
- aos nossos filhos drogados
- aos órfãos do destino
- aos desenganados?
O poema faz seu preço
ou o preço do poema
pelo tamanho da fome
é estipulado?
Quanto vale o poema:
- nas filas dos hospitais
- nas mutilações dos sonhos
- nas nossas guerras pessoais?
Quanto vale o poema:
- aos idosos desrespeitados
- às minorias esquecidas
- aos amantes desregrados?
O poema faz seu preço
ou deveras
estou enganado?