Telhados de vidro 1
I
Em terrível bombardeio
inquiriu-se o soldado:
- que valia tem o meio
se a dor já é prévio saldo?
II
Jovens: pueris sois vós
(retruca "o experiente")
não é prudente "ter voz"
(nem se apercebe que mente).
III
A velhice é coisa bela
que deve ser respeitada
pois revela sapiência
na calmaria da estrada.
Através do olho mágico
Através do olho
Mágico
Que instalei no portal
Dos meus temores
Seleciono as visitas
Que dividem comigo
Alegrias e dores.
São poucas:
um amigo cronista
(idealista)
Os familliares que não
Entram nas estatísticas
E festivas borboletas
Desprendendo cores.
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Tríades
O riso forçado
O gesto traído
O silêncio no lustre
A tristeza na perda
Uma flor sem perfume
Uma gaivota áptera
Um rio sem nascente
O homem sem história
Um artesão às escuras
A palavra pensada
A poesia no amigo
A paixão que cura.
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Cais
Como voltar ao porto
se o mar me atrai?
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Haikai
Desafia o frio
O passarinho entre os galhos
Desassossegado.
Mandaria flores
Mandaria flores
para Adalgisa -
"fosse ela a mulher
da minha vida".
Recitaria para Lina,
Pessoa -
"aprecisasse ela quem voa".
Faria uma canção para Cristina,
singela -
"qual Chico para Florbela".
Mas envio flores
para Anelise
funcionária da loja
de discos
com poemas de
Quintana -
"Ah, aqueles olhos doidivanas...".
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O lado côncavo do espelho
Sobre tênue fio
o equilibrista se
concentra
e já em terra firme
da queda se alimenta.
Sob o estigma
envolvente
de alterar padrões de
comportamento
impotente sente-se o domador
ante a sua intrínseca dor.
O desenhista se
esmera
em concluir seu
melhor traço:
da sua concreta solidão
construir poema abstrato.
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No lixo, o luxo
A franzina menina interrompeu,
bruscamente, a tarefa a qual,
atenciosamente executava, ao
deparar-se com um belo par de
brincos.
Demasiadamente grandes para o seu
tamanho, mas belos.
Colocou-os e verificou, num pedaço
de espelho, o resultado.
Sorriu satisfeita e por instantes foi
diva na fétida madrugada já que, subitamente.
como se lhe espetassem agulhas na consciência,
voltou à realidade.
O lixo, com seus restos de víveres e objetos
que vendidos permitiam a sobrevivência da
família era mais importante do que seu estúpido arroubo de vaidade.
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O lustre
Um silêncio de algas
Na garganta da madrugada
O morto contempla o lustre:
Seria a luz almejada?
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Cenário
Escrevo como quem ama
por isso os meus versos
preparam a cama
Alvos lençóis
protegem nossos corpos
(versos exangues)
e os cobertores
(no frio)
são sonetos infames
que complementam o terceto
eu - tu - acalanto.
Escrevo como quem ama
e amando se descobre tantos
para uma única alma
revisitada com encanto.
Amo como quem escreve
as mesmas estórias
tantas vezes...
o cenário causando espanto.
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