As ausências geram sons
As ausências geram
Sons
Que atravessam a linha
Do tempo.
As ausências geram
Sons
Acordes involuntários
Alheios ao diapasão.
As ausências geram
Sons
E perpetuam suas presenças
Sem alarde.
Oh, aromas da saudade
Visitando remota canção!
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Elementos
Finjo-me água
e transbordo noite em fora
invadindo sonhos alheios
no destempero das horas.
Finjo-me fogo
e na promiscuidade das intenções
revogo paradigmas
e seduzo inconsciente
o meu próprio destino.
Encontro-me ar
(não caibo em mim)
preencherei o universo
ou balões de festim?
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Quase luz
Cansei de chorar meus mortos
quero agora
o riso descabido das crianças
e o inusitado movimento das ondas
banhando um céu sem retoques.
Um poema de Drummond
uma canção de Lennon
que celebrem a alegria
como raios a iluminarem
da terra a face viva.
E se me perguntarem
por aqueles que já partiram
direi: estão presentes
em uma forma a qual não fazem jus
nossos parcos conhecimentos
meio espaço, meio fluido,
quase luz...
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Dar-te-ei todo o amor que tenho
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
posso resgatar todas
as noites de inverno
em que aportado
em uma aldeia qualquer
no tempo
sonhava o amor eterno.
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
multiplicá-lo-ei em versos
que tecerei madrugadas afora
degustando vinho ao relento.
Dar-te-ei
todo o amor que tenho
e se for pouco
(como penso)
talvez me reste cantar
com a voz desafinada, mas espontânea
dos apaixonados que esbanjam talento.
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Quando a lua caiu sobre a minha casa
I
Quando a lua caiu sobre a
minha casa
(num sítio entre o lá e o aqui)
as estruturas de tijolos e
barro
pareceram ruir.
Mas como poderiam
se do barro me fiz
de tijolo em tijolo
me edifiquei
e de luares sobrevivi...
II
Quando o sol afoito
deitou-se sobre os telhados
a lua havia partido
mas na pressa do recolhimento
esquecera sobre o leito ardente
pequenos fios prateados...
Poema mal (dito)
Já que o poema foi mal
Interpretado
Que fique o dito
Pelo não dito
E assim selamos um acordo
Sem máculas:
Bem dito, pois, fica desde já
Tudo o que outrora foi mal dito.
A embriaguez da rosa
O perfume
embriaga a rosa
que campeia atônita
pelos vales da poesia.
Lado a lado
a rosa com seu perfume
a poesia com seus desejos
imaturos
exalando enigmas.
A poesia completa a
rosa
ou a rosa desmistifica a
poesia?
Pétalas se entrelaçam
se entregam
mutuamente se abrigam.
O que embriaga a rosa
é o aroma da poesia.
Recolhimento
Muitas coisas cabem
no silêncio
até mesmo o recolhimento
dos ventos
nos batentes da memória
reinventando alentos,
e o trêmulo fio de voz
que se abriga
nos frágeis andaimes de um lamento!
O juramento de Odônio Tissé
Odônio jurou um dia
Olhos postos no poente
Que a morrer de saudade
Distante de amados entes
Preferia a poesia das águas
Da emoção que é dor presente.
Ah, se a aridez que aniquila
É o vazio que a alma pressente!
Último poema
O meu último poema
será breve
derradeiro suspiro do suicida...
ou alguém altercará o fato
de que o poeta se mata
e renasce em cada esquina...