Metáforas do descaso
Opressoras palavras
que mal (ditas)
reverberam falácias:
- quanto vale uma corrompida
metáfora?
Opressora desigualdade
estampada nas crônicas
dos viadutos
nos cárceres das calçadas:
- quem acalentará os sonhos
ah, inevitável alvorada!
Opressora discriminação
pelo silencioso véu legalizada:
- mas, noite e dia não são adornos
de um único céu?
"Não sou alegre
nem sou triste..."
E no deserto da indiferença
entre opressores e oprimidos
a poesia, simplesmente,
resiste...
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Valores
O meu pai foi meeiro
metade labuta, metade fé...
Amendoim, algodão
arroz...
de tudo ele plantou
e dividiu também
(estava no contrato verbal)
tempo de valores.
O meu pai foi meeiro
e nas partilhas de uma vida
simples
preservou-se íntegro
com suas alegrias e dores.
De onde a música?
Havia sorriso e luz
nas tardes brancas de outono
em que os meninos soltos
olvidando quaisquer conselhos
burlavam a vigilância das horas.
O mundo não era ainda
esse labirinto de espantos
e acrobatas por instinto
saltávamos o muro do encanto.
Hoje há essa encruzilhada
cravada no peito da noite
de onde virá a música
soando feito pranto?
Ritmo
Seta enviesada
contornando velas e barcos
o sol anestesia teiús
e trespassa do tempo as couraças.
Embalando a sesta diária
de preguiçosos e rotundos bagres
o canto intuitivo das cigarras
ocultas nas barras da tarde.
E se a queda absurda das águas
transmuta rumor em presságio
a noite silencia e devolve
à vida o seu ritmo estável.
Jornadas
Se a morte é o
reinício de tudo
ao expiro final
preparem as minhas
malas
que não ficarei inerte
no pedaço de chão
que acomodará
as minhas vestes.
Celebrem com versos
de um desconhecido poeta
(os famosos já foram homenageados)
o momento único
em que se rompe, afinal,
o mistério entre os mundos.
E se vos fizer bem,
cantai
que as longas jornadas
ficam mais alegres
e amenas
com a música
que emana das almas.
Vila Boa de Goiás
I
Quem toma pra si
as dores
que porventura são minhas:
- o rumor das ausências
que os telhados do tempo
visita?
Quem sobrevoa o cerrado
no estimulante voo guarida:
- o quero-quero solidário
que ao sinal de perigo avisa?
Quem resiste à aridez
no semblante do tépido dia:
- caviúnas e lobeiras
com seus braços retorcidos
simulando acrobacias?
Quem ilumina uma fatia
desse mundo submerso:
- a luz da poetisa
rompendo o prisma adverso?
Ah, Cora Coralina
como admitir tua partida
se em todos os recantos
do poema
te apresentas tão bela
quão viva?
II
As águas do Rio Vermelho
na antiga Vila Boa de Goiás
teus primeiros passos ainda vigiam
e as peregrinações em solo paulista
repletas estão
de poemas e simplicidade.
Tardiamente reconhecida
burlaste tempo e espaço
e, hoje, repousas tranqüila
na imortalidade.
Clube da esquina
("entidade imaginária, lúdica, composta
por pessoas que tiveram como amálgama
a música.
Murilo Antunes")
I
Em outras eras
caminhei pelas ruas
das cidades mineiras
aspirei o ar das montanhas
e a poesia que fluía
da garganta de suas
águas ternas.
Em outras vidas
dinamitei pedreiras
vasculhei garimpos
na busca incansável
de recônditos tesouros
que encontraria no riso
acolhedor da sua gente.
Em outros tempos
frequentei hipotética esquina
onde ensaiavam-se
os primeiros acordes
de uma música
bela e divina.
II
Nunca mais o encontro
de duas ruas trouxe
a inefável emoção
costurada no meio-fio
com letras e notas
em profusão.
Lô Borges, Márcio Borges, Beto Guedes, Fernando Brant,
Flávio Venturini, Milton Nascimento...
Imaginariam vocês
que no Trem Azul
fariam a travessia
ao ponto extremo
de imortalizadas canções?
Seguistes caminhos diversos
difundindo a ideia
de que a sensibilidade
ao mundo nos ensina
que ele, pequenino,
repousa em remota esquina.
Gota
Transcende a gota
à queda
e repousa calma
na folha que, solícita,
a recebe.
O solo há tempos espera
mas reluta a gota,
ante a acolhida da folha
a abandonar carícias certas.
Gota folha solo
triângulo inevitável
da chuva que é promessa.
Baú
A poesia foi quase tudo
em minha vida
e me basta para a eternidade.
Mas por precaução levarei
na inusitada viagem:
- a Antologia de Quintana
- teu sorriso inacabado
- meu baú de saudade.
Ausência
Abraça-me
como o brilho ao cristal
que guarda dos lábios
as marcas
a saliva ainda em ebulição.
Abraça-me
como órfão ao destino
o beco ao fugitivo
que desprovido de perspectivas
admite o precipício.
Compartilharemos
do barco à deriva as velas
qual andejo com o nada
observadores atentos
horas e sentinela.
Abraça-me infinda madrugada
como um pai que ao filho espera.