martimzanatti

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tenho 23 anos e sou de Lisboa. Estudo engenharia informatica, mas tenho uma paixão por poesia, tanto como leitor e como escritor

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Experiência

Deixei as palavras!
Que as leve o Diabo, 
Que lhes há de dar maior proveito,
Nessa luta infindável entre o bem e o mal. 

Deixei as palavras!
Não quero cá sujeitos nem predicados.
Nem advérbios nem o raio que as parta!

Aqui já não existe o “Eu”,
Esse sujeito compulsivo, 
Que do Mundo se apropria 
Para a alimentar a sua razão. 

As palavras limitam-nos.
Quero o impessoal, 
O inumano no humano.
Quero algo que não tem nome, 
Mas que existe. 

Há quem lhe chame de alma
Ou até de essência. 
Não creio nesses nomes.
Esta nossa arrogância de dar nome
Ao que não o tem. 

Deixei as palavras! 
Elas que se danem! 

Nesta minha experiência, 
Nova, arrojada, 
Sou o que sobrou desse Eu sujeito. 
E tudo o que faço,
Não é mais que um resquício 
Do verbo que a suporta.

Para isso, 
Decidi que devia observar. 
Não interessa bem o quê,
Queria somente usar o menos possível 
As abstrações do Mundo,
E esquecer as palavras que o compõem.

Algures lá fora, 
Uns pássaros vagueavam 
Dumas árvores para as outras.
Achei um bom ponto de partida.
Podiam ter sido umas formigas, 
Que de palavras nada sabem também.

Para isso, despi-me, 
Não quero cá nomes de objectos 
A sujar-me a pele. 

Estou como vim ao Mundo.
Olhando pela janela, 
Observava algo que me identificava sem palavras.

Depois, tanto a pele
Como os músculos,
Como as articulações,
Como os órgãos,
E tudo o que de palpável 
Me constitui, 
Davam sinais de si. 

Sabia que tinha que me libertar deles.
Mas como? 
Sabia que esta outra roupa não se tira 
Pelo menos, literalmente. 

E eles gritavam!
Nomes estapafúrdios 
De objectos já em desuso,
Músicas que haviam causado uma reação  
A dada altura da minha vida. 
Gritavam nomes de mulheres 
Com quem já tivera e me esquecera. 

Portanto, 
Para que a experiência pudesse resultar,
Comecei por tirá-los um a um, 
A libertar-me do peso das palavras 
Que os tornavam reais e literais.

Mantive-me assim, 
Desconstruindo-me passo a passo, 
Durante noites e dias. 

Houve noites em que a experiência descambou.
Como me era necessário observar,
Para manter o processo de desconstrução,
Houve noites em que as palavras me engoliam,
E eu não era mais que nomes e definições. 

Até que me reduzi a algo que não tem expressão,
A partículas desconhecidas que vagueavam 
No inumano. 

Lembro-me, nascia o dia. 
Não o via, 
Nem tão pouco o ouvia. 
Mas ao perder estes sentidos,

Que me permitem situar no mundo,
Ganhei um outro, 
Inexplicável, sensitivo.

Lembro-me como se fosse hoje, 
Isto porque voltei a ganhar a forma humana, 
E tudo me é recordado tendo em conta o tempo e o espaço. 

Oh mas na altura, tudo me era descabido de sentido. 
Eu era um deles, tudo me era novo. 
Senti essa sensação de não nomear as coisas.
De não enumerar os dias e as horas e os meses e os anos. 

Também voei rente ao chão,
Descortinando novos aromas 
Com uma sensação de prazer que sufoca. 

Hoje, com o fim da experiência, 
Voltei a ser homem, 
Mas estou muito para além de mim. 

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Poemas

2

Deem-me a vossa loucura

Deem-me a vossa loucura
Pois estou sedento dela.
Sedento, como os Deuses estão
Das nossas desgraças.
Estes que nos perscrutam 
No cume da nossa consciência.
Sempre tão caricatos, 
Manejando-nos como fantoches. 

Ai! Estou ébrio da vossa loucura!
Como não? Para ser mais e melhor
O que resta ao humano senão ser louco.
Sinto ao tocar nesse cálice impuro 
Como se a existência ganhasse cor  
E me cercasse dos Deuses, 
Estando eu tão longe. 

Gotículas de sangue trespassam a pele 
E padecem junto aos murmúrios de outrora.
Bebo vagarosamente o líquido ébrio desse cálice, 
E sinto passar essa linha entre a vida e a morte.
Não que a morte se encontre ao virar da esquina, 
Mas sim que atinjo o apogeu da vida 
E o mais que se segue é a morte.

Deem-me a vossa loucura
Que eu bebo-a de um trago,
Porque que caminho há a seguir, 
Senão os trilhos dos Deuses,
Estes que habitam a nossa consciência
E que portadores são das maiores loucuras. 

Eu sigo os loucos
Quer sejam homens ou não-homens,
Quer sejam Deuses ou não-Deuses.
Eu sigo-os porque eles convivem na minha consciência 
E não há maneira de não beber a sua loucura.
158

O dia em que Borges leu de novo

Acordei deitado num chão frio. 
Ao olhar para cima
Avistam-se infinitas divisões,
Que ao primeiro relance 
Não me foi possível descortinar. 

Mas julgo que o reconhecimento foi imediato, 
Um clique na consciência.
Havia lido sobre este mundo 
Muitos anos antes, 
Numa terra longínqua a esta,
Num outro mundo.

Eu próprio era tão só
Uma projeção fantástica deste.
A divisão em que me encontrava, 
Era exatamente igual às restantes.

Consistia num hexágono, 
Que por uma escadaria,
Dava acesso aos hexágonos 
Superiores e inferiores,
E assim sucessivamente.

O nome deste lugar, 
Que nunca deixara de me pertencer, 
Era simples e impetuoso.
Biblioteca de Babel. 

Nas várias prateleiras
Avistam-se livros e livros 
De uma simetria divina. 

Tudo o que queria, 
Era pegar no máximo números de livros
E desvendar os mistérios da existência.
Neste lugar, onde tudo está escrito. 

Contudo, uma força maior
(Que também estará explicada num destes infinitos livros)
Lançou-me a subir para o hexágono 93,
Estando eu no 70. 

Não foi pouco o meu espanto
Ao descobrir que este em questão, 
Não se encontrava desabitado.

Quem o habitava,
Faz parecer qualquer noção do fantástico desenxabida.
Folheava um livro, sem o ler. 
Isto, porque era cego. 
Mas nada o proibia 
De gozar a sensação 
ao tactear o papel 
Das 410 páginas a que todos obedeciam.  

Parecia querer penetrar no livro,
Como tudo o que restasse dele 
Fossem histórias. 
Histórias de países inexistentes,
De homens sonhados, 
De escritores reproduzidos.

Pedi-lhe que me deixasse ler em voz alta. 
Sei que era seu costume 
Ouvir alguém narrar-lhe uma história.
O dhcmrlchtdk (nome do livro) 
Nada me dizia sobre o seu conteúdo, 
Nem tinha qualquer significado 
Na nossa língua corrente.     

O tema podia ser sobre qualquer coisa.
Coisas quotidianas, 
Como coisas nunca antes sonhadas. 
Livros teóricos, 
Como romances epistolares.

Não contive um enorme sorriso 
Ao aperceber-me do seu conteúdo.
É dito que Deus escreve direito
Por linhas tortas. 
Muito resumidamente, 
Eram várias dissertações 
Sobre como podem os cegos ler,
Os infinitos livros desta biblioteca.

Chamou-nos à atenção 
Uma teoria avançada
Pelo senhor Cai Lun, 
Sobre o material mágico deste papel. 
A teoria afirmava 
Que este papel não ardia ante o fogo 
E que as letras com o aumento da temperatura 
Tendiam a subir, 
Criando assim relevo. 

É certo que é uma hipótese rebuscada,
Mas feitas as experimentações,
Correta. 

Agora esta Biblioteca, 
Ilimitada e Periódica,
Terá para sempre 
O seu Criador e Viajante Leitor
ab aeterno.
149

Comentários (2)

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fernandoarroz

esse ficou brabo em

fernandoarroz

ve o meu poema ai mano