Michel Gailard

Michel Gailard

n. 1957 BR BR

Sou um apaixonado por Literatura brasileira.

n. 1957-08-09, Lion - França

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ABRAÇOS



Àquela hora da manhã a igreja estava praticamente vazia. Apenas alguns fiéis, lá adiante junto ao altar, silenciosamente faziam suas costumeiras orações.

Sentei-me em um dos últimos bancos e pus-me, à minha maneira, a conversar com Deus.

De repente vi que por uma das portas laterais do templo acabara de entrar uma jovem senhora. Pela aparência, percebi que se tratava de uma mulher de pouco mais de trinta anos. Estranhei quando ela se aproximou de uma pessoa sentada junto à porta e deu-lhe um abraço demorado. Por certo a recém-chegada havia encontrado ali alguém de seu conhecimento, provavelmente uma amiga que não via há muito tempo.

Não dei atenção ao que estava acontecendo. Apenas baixei os olhos e voltei ao meu monólogo com o "Dono da casa".

Entretanto, movido por uma curiosidade quase instintiva, tornei a olhar para a frente e me deparei com a mesma mulher abrindo os braços para abraçar outra pessoa, desta vez um homem já idoso, acompanhado provavelmente pela esposa. Em segundos os dois haviam sido abraçados, e a partir dali outros tantos receberam aquele mesmo gesto de carinho.

Por alguns instantes imaginei que por certo aquela mulher seria uma das pessoas responsáveis pelos cuidados da igreja. E por isso mesmo deveria conhecer todos aqueles aos quais dispensava tamanha cortesia e afeição.

Todavia, ao ver que aquele gesto se repetia com quase todos ali presentes, por um momento imaginei tratar-se de uma pessoa com problemas psíquicos. Afinal, somente uma louca se predisporia a abraçar tantos quantos encontrasse pela frente.

Tentei voltar ao que anteriormente fazia, mas não consegui por perceber que a mulher seguia naquele momento em minha direção. Olhei à minha volta tentando encontrar alguém que pudesse ser o seu próximo alvo. Ali, nos últimos bancos da igreja, não havia pessoa alguma além de mim.

Por um momento pensei em deixar aquele lugar, mas não houve tempo. Como num passe de mágica a mulher se postou diante de mim. Tinha já os braços abertos e um sorriso que deitou por terra todas as minhas supostas pretensões de ir embora.

Percebi então que não havia como escapar do que estava por vir. Pus-me de pé e deixei-me também abraçar como tantas outras pessoas assim o fizeram.

Aquele abraço, afetuoso, livre de qualquer interesse, expressão máxima de um amor profundo por outro ser humano, remeteu-me a tantos abraços que não tive oportunidade de dar ou receber.

De imediato lembrei-me do dia da partida de meu amado filho. Ia embora de casa o meu menino.

Abracei-o na porta e fiquei por alguns instantes agarrado a ele. Queria alongar aquele abraço até fazer com que ele perdesse o horário de tomar o ônibus... e não partisse. Claro que no dia seguinte ele seguiria o seu destino.

Entretanto, teria valido a pena. Pelo menos mais um dia eu seria feliz junto dele.

Ainda nos braços daquela mulher, pessoa que por certo nunca mais veria, ouvi as seguintes palavras:

- Para mim esta é a melhor hora do dia.

Mas afinal o que queria dizer ela com aquela frase?

Só depois de ter deixado aquele lugar, pude compreender ao que ela estava se referindo.

A melhor hora do dia será sempre aquela quando abrimos os nossos braços e aproximamos os nossos corações uns dos outros.







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Poemas

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ABRAÇOS



Àquela hora da manhã a igreja estava praticamente vazia. Apenas alguns fiéis, lá adiante junto ao altar, silenciosamente faziam suas costumeiras orações.

Sentei-me em um dos últimos bancos e pus-me, à minha maneira, a conversar com Deus.

De repente vi que por uma das portas laterais do templo acabara de entrar uma jovem senhora. Pela aparência, percebi que se tratava de uma mulher de pouco mais de trinta anos. Estranhei quando ela se aproximou de uma pessoa sentada junto à porta e deu-lhe um abraço demorado. Por certo a recém-chegada havia encontrado ali alguém de seu conhecimento, provavelmente uma amiga que não via há muito tempo.

Não dei atenção ao que estava acontecendo. Apenas baixei os olhos e voltei ao meu monólogo com o "Dono da casa".

Entretanto, movido por uma curiosidade quase instintiva, tornei a olhar para a frente e me deparei com a mesma mulher abrindo os braços para abraçar outra pessoa, desta vez um homem já idoso, acompanhado provavelmente pela esposa. Em segundos os dois haviam sido abraçados, e a partir dali outros tantos receberam aquele mesmo gesto de carinho.

Por alguns instantes imaginei que por certo aquela mulher seria uma das pessoas responsáveis pelos cuidados da igreja. E por isso mesmo deveria conhecer todos aqueles aos quais dispensava tamanha cortesia e afeição.

Todavia, ao ver que aquele gesto se repetia com quase todos ali presentes, por um momento imaginei tratar-se de uma pessoa com problemas psíquicos. Afinal, somente uma louca se predisporia a abraçar tantos quantos encontrasse pela frente.

Tentei voltar ao que anteriormente fazia, mas não consegui por perceber que a mulher seguia naquele momento em minha direção. Olhei à minha volta tentando encontrar alguém que pudesse ser o seu próximo alvo. Ali, nos últimos bancos da igreja, não havia pessoa alguma além de mim.

Por um momento pensei em deixar aquele lugar, mas não houve tempo. Como num passe de mágica a mulher se postou diante de mim. Tinha já os braços abertos e um sorriso que deitou por terra todas as minhas supostas pretensões de ir embora.

Percebi então que não havia como escapar do que estava por vir. Pus-me de pé e deixei-me também abraçar como tantas outras pessoas assim o fizeram.

Aquele abraço, afetuoso, livre de qualquer interesse, expressão máxima de um amor profundo por outro ser humano, remeteu-me a tantos abraços que não tive oportunidade de dar ou receber.

De imediato lembrei-me do dia da partida de meu amado filho. Ia embora de casa o meu menino.

Abracei-o na porta e fiquei por alguns instantes agarrado a ele. Queria alongar aquele abraço até fazer com que ele perdesse o horário de tomar o ônibus... e não partisse. Claro que no dia seguinte ele seguiria o seu destino.

Entretanto, teria valido a pena. Pelo menos mais um dia eu seria feliz junto dele.

Ainda nos braços daquela mulher, pessoa que por certo nunca mais veria, ouvi as seguintes palavras:

- Para mim esta é a melhor hora do dia.

Mas afinal o que queria dizer ela com aquela frase?

Só depois de ter deixado aquele lugar, pude compreender ao que ela estava se referindo.

A melhor hora do dia será sempre aquela quando abrimos os nossos braços e aproximamos os nossos corações uns dos outros.







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POESIA: A ARTE DE REVELAR O MUNDO

A poesia tem uma estreita relação com a arte e, essencialmente com a beleza. Ela é, em si, a síntese de todas as demais manifestações de ordem estética ou comunicativa. Sem ela de que nos serviria a pintura, a escultura, a música, a dança...?
O texto poético é, por isso mesmo, revelação de sentimento que vem da alma, é inspiração e o resultado de uma visão única do mundo. O poeta é o grande mestre das artes. É ele que nos apresenta o universo como definitivamente se descortina diante dos nossos olhos, mas que nem sempre temos a sensibilidade para percebê-lo.
Martin Heidegger, filósofo alemão, dizia que os filósofos são os "pastores do ser".
Mas e os poetas?
Segundo H. Peterson, os poetas são os "pastores das palavras". São os poetas que velam por elas, que as assistem quando se ferem, indo em busca delas quando se perdem, conhecendo-as por nome e principalmente pelas imagens que simbolizam.
Seus textos ampliam o nosso mundo, dão formas diversas às coisas, assim como novas e surpreendentes matizes às cores. E em um cotidiano tão apressado como este em que vivemos, a poesia diminui o nosso ritmo e o ritmo do mundo.
Não podemos ler um poema celeremente. Se assim o fizermos, a poesia não tocará profundamente os nossos corações e nossas almas como se espera.
Diferentemente da prosa que enche a página com palavras, os poemas têm espaços em branco, o que significa que o silêncio tem o seu lugar ao lado do som como algo significativo, essencial à apreensão dessas palavras.
E o silêncio não se apercebe na celeridade do tempo nem das ações. Portanto, não podemos mesmo ter pressa ao ler um poema. Precisamos observar as conexões, sentir a cadência, ouvir as ressonâncias.
Os poemas precisam ser lidos, relidos e relidos...
Li centenas de vezes o poema "Carta", de Drummond de Andrade. São apenas três estrofes, quatorze versos, mas um mundo inteiro de sentimentos coube ali dentro.
É preciso que nos sentemos diante de um poema da mesma maneira que nos sentamos diante de uma flor, do mar que se quebra na praia, ou de um ocaso de colorido impressionante. Dessa forma, a poesia contribui para explorar o real e o imaginário, permitindo transformações naquilo que aparentemente é real.
A poesia nada mais é, portanto, que o retrato da nossa imaginação, da nossa autenticidade, beleza e emoção.
Não são poucas as vezes que o poeta necessita ser pessimista na razão para ser otimista na ação.
Ao longo da história as ações humanas passaram, passam e sempre passarão pela poesia, pois esta é simplesmente a mais livre de todas as liberdades.
Ao longo do tempo a poesia jamais se abateu diante do obscurantismo, do terror ou silêncio impostos.
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Comentários (1)

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anjodanoite

Sua forma de expressão é de encher os olhos e me agrada.