E para formar o rio O sereno se consumiu Em suas margens fez brotam árvores poéticas Impregnando cheiro de poesia no ar Que acorda, desperta e aguça, em nós, o poeta.
E o sabor da poesia É saudável Palatável Colorido Incomparável.
Moacir Luís Araldi é gaúcho, residente em Passo Fundo- RS. Tem participações em várias antologias poéticas nacionais. Autor do livro Cabernet - 2013, Interlúdios - 2014, Horizontes -2019 e Charnecas floridas - 2021. Premiado no concurso Literário Cidade de Passo Fundo em 2017 e 2019 na categoria poesia. Publica em vários sites literários nacionais. Membro correspondente da ACL- Academia Carazinhense de Letras. Membro fundador da Academia de literatura música e artes (ALMA)
Tie-break Chegamos ao destino já no final de um dia de muito calor. De cara já percebi certo aspecto medieval na região. Maria Luiza que dominava espanhol e se aventurava no inglês se encarregava de pedir informações. De Francês nenhuma palavra. Nem ela nem eu. A ideia era vencer o percurso em trinta dias. Mas já no primeiro dia de caminhada sentimos que seria preciso muita resistência para buscar este objetivo. À medida que subíamos em relação ao nível do mar parecia que ficava mais cansativo. Eu olhava para a Malu, e lembrava-me dela reclamando do ponto que eu perdi no tie-break da final do campeonato de vôlei da liga. Há muito nos tornamos amigos. E nesta condição viajamos juntos. Mas nunca deixei de ter uma forte atração por ela. Morena alta, cabelos longos, olhos claros e com a pele bronzeada chamava ainda mais minha atenção. Falávamos para todos que éramos irmãos para facilitar as coisas. E, convenientemente, nos comportávamos. Encontramos, naturalmente, gente de todas as partes do mundo. A cada um dávamos a atenção possível. Era meio desconfortável ver as insinuações e os olhares pra cima da Malu. Mas ela sempre foi desenvolta e tirava até uma onda com os mais abusados. Mulher decidida, bem resolvida, sabia que estávamos ali para fazer o percurso que dois anos antes começamos a planejar. Jogávamos na mesma equipe e trabalhávamos na mesma empresa isso tornou possível este planejamento sem muitos atropelos. Negociamos férias no mesmo mês. Verdade que não foi fácil à negociação, pois o setor ficou meio desguarnecido nestes dias. Agora ali, vendo as paisagens lindas, apoiado pelo cajado e suportando a mochila nas costas estávamos felizes. Nestas horas percebe-se que dá pra viver apenas com o essencial. Era o que carregávamos nas mochilas, pois quanto mais leves melhor se suporta. Questão de resistência mesmo. Terrível são as bolhas que se formam nos pés. Tínhamos esta informação e tomamos todos os cuidados, mas ainda assim não conseguimos evitar. O jeito era medicar sempre que estávamos nos albergues. Aliás, ficávamos nos públicos por uma questão de custos. Ainda assim eram melhores do que se podia imaginar. A diversidade de cultura acaba ajudando na aceitação de situações diferentes a cada dia, a cada hospedagem, a cada conversa. Tudo muito diverso que chega a encantar. É preciso despir-se de valores preconcebidos para poder entender a grandeza deste momento que também é cultural. Tinha dias que eu via a Malu meio cansada. Olhar contemplativo. Olheiras enormes, contudo sempre bem humorada. Ela conseguia me manter equilibrado emocionalmente. Um feito para poucos em situações assim. O mais interessante é que a cada momento eu me sentia mais atraído por ela. Às vezes parecia que ela também estava gostando um pouco mais do que só estar comigo e da minha companhia. Por outro lado a insegurança me impedia de tentar qualquer aproximação amorosa. Afinal éramos amigos que agora se apresentavam como irmãos. Uma coisa meio embaraçosa. No final do primeiro dia, em St Jean Pied e Poit, ainda na França, ela tinha me dado um beijo no rosto que me marcou muito. Era um agradecimento por estarmos ali. Uma retribuição pelo carinho e atenção que eu dedicava a ela nesta viagem. Mas confesso: Não esqueci o beijo. O perfume dela me enchia de desejos. Mas nunca externei. Melhor não colocar em risco tudo o que projetamos curtir. Trinta e cinco dias e oitocentos quilômetros depois, emagrecidos e meio exausto, finalmente avistamos a chegada. A ansiedade que aumentava a cada dia ficou ainda maior. Foram incontáveis passos irmanados nestes dias. Visivelmente emocionada, Malu se aproximou e estendeu-me os braços e eu perguntei a ela com lágrimas nos olhos e voz embargada: Quanto vale a realização deste sonho? Chorando ela me abraçou e respondeu: - Não sei, mas muito mais do que o ponto que você desperdiçou no tie-break. Risos e choros se misturaram. Ela me apertava cada vez mais forte e gostosamente senti um arrepio percorrendo o meu corpo todo. Inesperadamente beijou-me a boca. Foi apenas o primeiro, mas entendi que valeu a pena cada metro feito no cansativo caminho de Santiago de Compostela.
394
Fácil
Fácil Amar é fácil. Qualquer um pode. Mágico, no entanto, é receber amor. Isso é pra poucos.
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Excluir
Excluir: Expulsar, retirar, rejeitar. Ações que humilham e acabam com a autoestima. Deixe de lado o orgulho e pratique a inclusão. Todos serão mais felizes, principalmente você.
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Águas
Águas nascidas na mesma fonte, invariavelmente chegam ao mesmo destino.
482
Adornos
Você, Corpo... Em deleite. Perfume de estrelas Em adornos de enfeite. Eu, Espádice, Copo-de-leite. Dependente do teu aceite.
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Inesquecível mamãe
Nem sei como começar. Não tenho prática. Nestes quarenta anos nunca te escrevi. A senhora sabe como é: correria, muito trabalho, compromissos diversos e afinal, ninguém é de ferro né mãe. Mas hoje, parei de encontrar desculpas e resolvi te escrever. Talvez eu tenha algumas novidades pra te contar. Saiba a senhora que já não sou mais aquele menino que tinha vergonha de te beijar, de te abraçar, que não sabia o quanto é maravilhoso dizer e ouvir um “eu te amo”. Cresci mãe, passei e passo meus momentos de dificuldades. Não só eu, os irmãos também. Pena que não te abracei mais, que não te beijei mais, que não demonstrei mais o meu amor por você. Eu não sabia que você partiria tão rápido. Talvez se soubesse teria feito diferente ou morreria antes para não sofrer esta perda. Mas estou sobrevivendo, lutando, buscando sempre acertar. Você sabe o quanto é difícil tocar em frente. Eu tento facilitar, pode acreditar, mas ás vezes desabo. Não vou negar que tenho minhas fraquezas e culpas, mas também vivo momentos ótimos, inesquecíveis e lindos. Puxa! Estou escrevendo e me dou conta que até meus cabelos estão parcialmente brancos. Lembro como se fosse hoje o dia que você teve que ir. Nossa. Tanto tempo, mas a memória não se esquece de nada. Todos me deram uma especial atenção, tentaram me distrair. Eu era tão menino, tão inocente, mas sabia o que significava aquele momento. Eu sabia que meu melhor pedaço de doce ficava ali. Por muitos anos não consegui falar em você sem chorar. Agora também estou em lágrimas. De saudades, de vontade de te ver, de saber que se você estivesse comigo poderia ser mais fácil. De saber que no caminho, por vezes, encontramos mais espinhos do que flores. Naquele inicio de ano de setenta e dois, nos afastamos para nunca mais eu ver teu rosto. Não sei se, em algum momento, viste o meu. Estou diferente agora. Perdi aquele sorriso, perdi parte do brilho dos olhos desde aquele dia e agora ainda mais. Acho que pra aliviar um pouco comecei a escrever. Assim, despretensiosamente. Nos anos 80 fiz algumas crônicas para jornais. Depois fui escrevendo algumas poesias. Em 87 participei da primeira antologia. Hoje são várias participações. Participo de um site literário, tenho recebido até elogios. Acredita mãe? Verdade. Pena que você não pode ver. Este ano tenho um projeto mais ousado, conto com teu apoio materno para que dê tudo certo. Confio no teu amor. Confio na tua intercessão. A parte triste é que não poderei te enviar, sequer, esta cata. Você promete me ajudar mesmo assim? Saiba que eu escrevo com o coração, com a sensibilidade e a saudade de um filho que não te esquecerá jamais. Quem sabe você, com teus poderes de mãe consiga ler. Tomara. Tomara mesmo. Se não for possível me deixa, ao menos, sonhar que lerá. Por hoje era isso mãezinha. Beijos. Ainda amo você muito mais do que a mim mesmo. Feliz ano novo pra você. Feliz ano novo para todos.
372
Vidraça
Estraçalhado. É tempo de vidraça. Felizmente o tempo passa...
374
Gota de mundo
O calor do sol aos poucos desmancha A gota de mundo pingada em meus cabelos. E provoca no couro uma nova mancha Onde não cresce novos pelos.
Que motivos temos para viver, Se a frieza mata a esperança. Se os sonhos cultivados tentam se esconder E de tolice destruímos as marcas da presença.
Dentro de mim cultivo tudo com o mesmo ardor Mas isso quem vai querer saber? Morro, mas não mato o amor, Um dia quem sabe o mundo possa entender.
Aos que dizem que de amor não se morre, Quero um desafio proclamar, Certamente suplantam o amor que nas veias corre, Não sabem a intensa maneira que tenho de amar.
330
Cabernet.
Li no sorriso que pulsava em você. A alegria de sentir-me chegar. O brilhante olho denunciava teu querer. Exalava de você o sinônimo de amar. Atravessei teu olhar mapeei tua alma Com calma fui despindo teus desejos, No mesmo instante que me cobria de você Laçamos nossos instintos anoitecidos E o brinde feito para podermos nos entender. Que vibrante é sonhar colorido, Sem pensar se um dia vai amanhecer. Brindamos as horas que de tão nossas Acabamos delas esquecendo. Nossas vidas misturadas Em meio a elas nos perdemos. Do vinho vertia o cheiro do amor, Dos corpos a vontade de ser Embriagante sensação no corredor Dois copos em um único prazer. Tão doce momento vivemos Eu você e um delicioso tinto Cabernet.
372
Criminal
Se maduro ou imaturo Se te faz santificar ou pecar, Ainda assim eleva-te e te sinta seguro. Em nenhuma circunstância se permita errar.
Se o amor um dia nos matar, Ele é que vai ficar mal. Poucos irão tolerar. Ele é que será criminal.
Suspenda o que te faz impuro. Abrace, beije se entregue. Não adianta socar o muro. Só com o ódio pegue leve.
A mente que te movimenta Controla-te sem cessar Não leve tudo tão a sério, não esquenta, Só não deixe, de aos outros, amar.