Moacir Luís Araldi

Moacir Luís Araldi

n. 1963 -- --

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n. 1963-09-18, Carazinho RS

Perfil
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Sereno

E para formar o rio
O sereno se consumiu
Em suas margens fez brotam árvores poéticas
Impregnando cheiro de poesia no ar
Que acorda, desperta e aguça, em nós, o poeta.

E o sabor da poesia
É saudável
Palatável
Colorido
Incomparável.
Ler poema completo
Biografia
Moacir Luís Araldi é gaúcho, residente em Passo Fundo- RS. Tem participações em várias antologias poéticas nacionais.
Autor do livro Cabernet - 2013, Interlúdios - 2014, Horizontes -2019 e Charnecas floridas - 2021. Premiado no concurso Literário Cidade de Passo Fundo em 2017 e 2019 na categoria poesia. Publica em vários sites literários nacionais.
Membro correspondente da ACL- Academia Carazinhense de Letras.
Membro fundador da Academia de literatura música e artes (ALMA)

Poemas

398

Festa do trabalhador

Quando recebeu o convite pelo correio eletrônico interno, nem leu.
Não iria. Nunca gostou das “festas da firma”.
Antes aproveitaria o feriado e faria um programa mais a seu estilo.
Achava muito estranho que no “Day after”, destas festas, sempre aparecia alguém, cabisbaixo, vindo dos recursos humano demitido e com a informação que a cerveja era para todos consumirem.
Só mudou de ideia quando os amigos mostraram a ele que aquela seria uma festa diferente.
Haveria um duelo imperdível. Uma atração muito especial. Quando, voltou ao convite para, de fato ler, confirmou presença na hora.
A chance de fazer uma grande descoberta se abriu ali, bem diante de seus olhos. Oportunidade imperdível pensou.
Dali pra frente foi um dos grandes entusiastas na divulgação do evento e ajudou a torná-lo o maior de todos.
Quando estacionou seu carro a duas quadras do local, por ter sido a única vaga que encontrou, sentiu que os objetivos de mobilização estavam amplamente atendidos.
Ao abrir a porta ouviu aquele barulho típico das grandes junções, dos grandes shows, dos grandes eventos. A música com volume exageradamente alto só aumentava esta certeza.
Adentrando o recinto acabou ficando mais ao fundo. Gostava de observar tudo. A música realmente era interessante e a iluminação apropriada tornava o ambiente festivo. Sem contar aquela algazarra típica. Ninguém entendia nada, contudo todos falavam ao mesmo tempo.
Como de costume, chegou o horário marcado e nada de começar. É incrível como sempre atrasa. Finalmente ás vinte duas hora e dezoito minutos a luz do salão foi diminuindo até apagar por completo. Apenas um canhão iluminava o palco. Rigorosamente vestido entra o apresentador.
Figura conhecida da mídia nacional contratado para o evento.
Após os tradicionais senhoras e senhores e vocês são os melhores do mundo e outros puxa-saquismos, anuncia a atração esperada para noite.
A minha direita, com toda a sua vivência e experiência Senhor Trabalho. Senhor work, brincou. O sujeito entra todo mascarado, em uma das mãos uma CLT na outra, processos trabalhistas, patrocínio abundante nos calções. A grande maioria de centrais sindicais. Músculos reluzentes. Aparentando agilidade, faz alguns movimentos no palco e recebe aplausos e gritos histéricos de algumas jovens mais saidinhas.
A minha esquerda... A dengosa. A imprevisível. A indesejada, Senhora Preguiça.
Ela entra lentamente sobre fortes vaias e assobios de desaprovação.
Ele ali firme em seu propósito de fazer a grande descoberta.
Ao final do embate, que mais pareceu um massacre se aproximou do Senhor trabalho para tentar seu objetivo. E conseguiu. Num descuido da segurança aproximou-se e perguntou:
-Senhor trabalho, quem é teu pai, quem te inventou?

Calma e educadamente ele respondeu. Uma pena que barulheira do ambiente não possibilitou entender a resposta.
Uma pena.
É muito azar.
357

Casual

A fidelidade jurada foi carnal.
Traio-te sem me por pecador.
Devaneios não causam mal.
Aventuro mais nego amor.

Pois se desejo, sou desejado.
Excetuando as trapalhadas
Não amo, nem sou amado.
Letais vivências das madrugadas.

Outro deleite bem casual.
Mero acaso, nada proposital.
Fitamos o perverso a procurar.

Seguimos indiferentes na condição
É carne, nunca será pão.
Não é amor, é um simples amar.
433

Certeza

Se um dia fiz amor, foi com você.
Se por vezes senti calor, foi o seu.
O ombro que te apoiou, foi o meu.
A magia do amor aconteceu.

No jardim desta lírica vida.
De primaveras imensamente coloridas.
Fostes a rosa escolhida
Perfumada e atrevida.

A respiração pulsante, própria dos amantes,
Sentimos bem abundante.
Na noite que foste minha.

Quando na areia você escreveu.
O recado que me deu.
Tirou a dúvida que eu não tinha.
442

Reflexões

Do nada, chegou á conta.
E a informação que vence agora.
Porque não foi paga?
Pode até ser cedo.
Contudo a hora é esta.
No horizonte ficou a onda de expectativas chamada vida.
E agora? É permitido abandonar a festa assim bruscamente?
Não fiz tudo o pensava fazer.
Não sonhei tudo o que pretendia sonhar,
Não amei tudo o que queria amar.
Não contei todas as histórias que sabia.
Não transmiti toda a experiência acumulada.
Não chorei todas as lágrimas.
Não dei todos os abraços.
Não disse todos os “eu te amo”
Não escrevi as últimas poesias.
Não pedi todos os perdões que precisava.
Não surpreendi nem inovei o bastante.
Sequer esqueci a fórmula de Báscara.
Em quantas chuvas deixei de brincar.
Tive a humildade suficiente para ser entendido?
Fui sempre fiel aos meus conceitos e valores?
Fiz sempre o meu melhor a ponto de não me envergonhar?
Unifiquei discurso e prática?
Apenas dei conselhos ou fui exemplo?

E os amigos que não visitei?
E as tarefas que não conclui?
E os amores que não vivi?
E a despedida que não houve?
E meus perfumes?
A comida que eu mais gostava?
E a minha música preferida?
A fé que não externei?
O café que não tomei?
E a pintura que deixei inacabada?

Eu já sabia que você viria. Mas sem aviso.
E isso são horas? Não vivi tudo ainda.
Eu preciso desocupar a mesa.
Eliminar pista.
Destruir provas.
Organizar meus trecos.

Justo agora que pretendia mudar alguns conceitos.
Queria encontrar o ponto de equilíbrio.
Queria amolecer comigo mesmo.
Queria dar mais “bolas fora”
Arriscar e, se preciso fosse, errar.
Errar muito, errar mais.
437

Luz acesa

Desta busca ao impossível
É que sou sobrevivente.
Tantas faces insensíveis.
No caminho estão presente.

Desta busca a felicidade
É que rondo de luz acesa.
Busco todas as possibilidades
Se não as encontro abasteço de tristezas.

Desta busca ao verso inexistente
Escrito com alma latente.
É que perdi os melhores poemas.

Buscando a rima rica
Que pra mim pouco se aplica.
Fui tropeçando em pobres fonemas.
344

Se é amor

Se é amor...
É natural.
Nasceu sem semear.
No inverno não vai murchar.

Se é amor...
Tem seu sabor.
E ninguém conseguirá comparar.

Se é amor...
Basta um olhar. Palavras podem atrapalhar.
Mantenha segredo, nem precisa contar.

Se é amor...
Diga baixinho.
Ninguém mais precisa saber,
Só eu.
E talvez você.
381

Travesseiros II

O dia se fez as onze.
Um travesseiro sem cheiro
Feito medalha de bronze
Ao lado da cama, ainda inteiro.

A sinfonia vinha de dentro.
A luz ganhou foco exuberante.
Num único travesseiro,
Duas marcas e o cheiro dos amantes.

A noite foi de magia
Como a muito não se via.
Minha deusa da alegria.
Dona das minhas fantasias.

O cabelo desalinhado.
Agora um velho jeans desbotado.
Um perfume desodorizado,
E um sonho de amor realizado.

O champanhe abandonado
Por água de coco trocado.
Os desejos retomados.
Ela feliz ao meu lado.
367

Travesseiros

Num devaneio alvissareiro
Na cama coloquei dois travesseiros.
Quiçá amanhã um terá teu cheiro
Ou repousará ainda inteiro.

Sinfonia, bem baixinha, de Chopin.
Foco de luz no quadro de veleiros.
Pra lembra-te amanhã
Ou esquecer-te por inteiro.

Perfume pra deixar em você o meu cheiro,
Roupa de grife parecendo natural.
Peças pensadas no tabuleiro
E uma ansiedade sem igual.

Poderá ser um fato magistral
Ou afundar em ilusão.
Vejo-te deusa colossal
Imagino-te em extrema excitação.

Encanto-me ao vê-la se aproximar
Meu desejo haverá de se realizar.
Champanhe e taças pra brindar.
Um deslumbre! Ela acaba de entrar.
333

Amor sentinela

O meu amor não se mede
Não tem tamanho.
O meu amor faz
Todas cheias minhas luas.
O meu amor não tem físico.
Mora em mim.
Dorme em mim.
Belo, intenso, ausente.
O meu amor sentinela.
As vinte e quatro horas é dela.
Você sabe como deste amor esquecer?
Guarde pra você
Eu não quero apreender.
442

Amigos para amar

Procuro amigos.
Amores não mais.
Em toda vida busquei. Desisti.
Procuro só amigos que não tenham que partir.

Amigos podem ter defeitos.
Gordos. Feios. Mal acabados.
Amores não.
Amor tem que ser perfeito.

Amigos podem ser desengonçados,
Basta que sejam leais e esforçados.
Ao contrário da amizade
O amor te faz enciumado.

Amigos que me recebam sorrindo.
Que me incluam em seus programas.
Que não permitam que eu dirija embriagado.
Mas que nas minhas recaídas estejam ao meu lado.

Que deem abraços.
Que entrem sem pedir licença.
Que peçam meu terno emprestado.
Que transmitam a certeza de muitas presenças.

Amigos de qualquer idade.
Que respeitem minhas vaidades.
Que zombem sem ter maldade.
Mas que admitam sentir saudade.
347

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