Sereno
O sereno se consumiu
Em suas margens fez brotam árvores poéticas
Impregnando cheiro de poesia no ar
Que acorda, desperta e aguça, em nós, o poeta.
E o sabor da poesia
É saudável
Palatável
Colorido
Incomparável.
O reflexo formava um rosto,
era o teu, por pressuposto,
e a chuva gota a gota
clamava tua voz.
No soprar do vento amargo
a nuvem foi afastada
e a luz se apagou.
Sem reflexo e sem voz
Pensei o que será de nós
se a presença não existe
sem a ilusão é ainda mais triste
não há no mundo quem resiste
se o sonho não dá palpite
a vida é só um despiste.
Sonhando com um pouso leve,
Percebeque seus pés nunca saíram do chão.
Inquietaé somente sua alma,
Que quersobrevoar o mundo
Levitandosua fértil criação.
Nos aresa liberdade pra recriar num segundo
Um poemafeito balão,
Pois opoeta fica imóvel,
Decolasomente sua imaginação.
No meio da noite a vida se ativa.
Nos dedos perfume de rosas.
Agora repousam no vaso cristalino.
Ao menos assim imagino.
Aproxima-se delas para cheirá-las,
odor nostálgico dali exala
eu sinto, eu toco, inspiro,
invisível como o ar que respiro.
Menino de pés descalços,
Que sua voz empresta ao ronco
de seus tratores e caminhões.
De estilingue inseparável,
e arapucas traiçoeiras.
Imitações selvagens quase perfeitas
desagradando pássaros
nos esconderijos nas capoeiras.
Menino de anzóis e rios,
de solidão memoriadas em imagens
em noites tremidas de frio.
A geada da madrugada
em partes que congelava
a vida se enroscava
no clarear de um novo dia.
Pra ser feliz na existência
bastava sol e comida
escola e carinhos só da vida.
Quando pra cidade veio
com a pele quase nua
renda só de latinhas
sentiu que o bicho era mais feio,
cama de papelão na rua
acordava dolorido
inconformado roubou
uma bala o atingiu em cheio
coração partiu ao meio
indigente foi chamado
lá onde esta sepultado.
Hoje Deus tá orgulhoso
por tê-lo em seu reino.
Agora bem protegido,
sem os perigos por perto,
sente que só depois de ter morrido
é que foi acolhido
agora sim se sente amado.
Minha poesia é nada do que sou,
é noite desgostosa de bebedeiras
é escrita em lugares que não vou
é delírio inocente antes da saideira.
Minha poesia mergulha no seco
ardente como pés no chão quente
sombreada com a ausência sentida
é vazio que ainda assim me dá vida.
Minha poesia intimista é chata,
penso que poucos a admiram,
minha inspiração pode ser ingrata,
mas ainda assim é por ela que respiro.
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