Asas
As palavras vinham com asas. Eu as ouvia, mas passavam. Meu tempo de sorrir diminuiu e elas começaram a retornar sábias, precisas e experientes. Nas pedras da caminhada as ouço tão atuais, definitivas e confortantes! É de ti que me lembro, quando os contos de terror tornam-se reais: - Pai. Deus dos meus anseios, meu anjo eterno! (Do livro Abstratos poéticos)
Olhar
Olhei demoradamente para a foto da família. Rostos lindos, que meu coração vê. Dedicatória de algum ano em que o sol se punha, rindo. De lá para cá, eu a perdi, juventude! Agora, só a tenho retratada. Mas eu ainda a encontro na memória... Ficou longe a cor da infância! Silêncio é o que prende a garganta. Fecho os olhos. Saudade! (Do livro Abstratos poéticos)
Vontades
De onde virão essas vontades, que, vez ou outra, nos invadem, misteriosamente? - Nesses instantes, o mundo muda. Esses milagres, (Meu Deus!) nos fazem sensíveis e frágeis. Até o egoísmo voltar, a insensibilidade voltar e tudo virar realidade. Voltamos a ser tudo, menos gente. (Do livro Abstratos poéticos)
Relógios
Os relógios são severos e, as sombras, escassas. Diálogos sumiram, amordaçados pela tecnologia. Vivendo em si, angustiado, o homem se tornou isolado. Distraído, distante. com lobos na alma. (Do livro Abstratos poéticos)
Palavras
Se apontas em palavras, já é má língua. Se boa fosse, silenciaria. Se buscas a transparência, coloca o coração na mão e fita-o com olhos céticos. Verás absurdos ecléticos em sujeitos na primeira pessoa. Abras-te. Há outros. Inclua-as nas orações que entoas. (Do livro Abstratos poéticos)
A vida passou
A infância passou. Ficaram, no tempo, as vivências de palavras suaves, que preenchiam carências. Há a dor latente (morte natural), último toque dos ‘eus’. O tempo que traz também leva. A despedida não foge. Numa estação qualquer, alguém parte. É o inevitável adeus. (Do livro Abstratos poéticos)
É assim
Pouco adianta a mim conhecer teus anseios. Afinal, o mundo é cheio de perigos e ameaças. Por isso, sonhe o possível. Há presunção de culpa deliberada contra a liberdade. E somos só mais um, diante do fuzil municiado. Basta um disparo, nem tão raro, nem tão caro. (Do livro Abstratos poéticos)
Estranho meu
Sou ativista do inativo porque vibro com meus sonhos não vividos. Emociono-me com o que não tenho sentido. Lembro-me do que sempre foi esquecido. Sou o belo que não se viu. Juventude que do nada envelheceu, vida de quem nunca viveu, morte de quem sequer nasceu. Não me conheço. Sou o estranho meu, fé e crença de ateu. Prazer em não me conhecer! - É só o que posso dizer. (Do livro Abstratos poéticos)
Imagens fugazes
Primeiro, a boca, a fala, o encanto... Depois, o beijo. E depois, bem depois: - Os olhos: espelhos frios, fixos e sombrios. Imagens fugazes, detalhes sutis, um olhar... feliz. Como réstia de sol e cheiro de flor. Longe e visível, léguas de um girassol e o sol a acariciá-lo, - suavemente! Na memória, voltam versos, que o vento levou. Era intenso o brilho, mas a vida apagou. Da boca do beijo veio o silêncio que... Para sempre se calou. (Do livro Abstratos poéticos)
Ficou
Restou um rastro de poesia em folhas rabiscadas. Um rascunho de poema, uma caneta trincada e um caderno envelhecido com marcas de café. Tocos abundantes num cinzeiro enferrujado. Ficou a vida sem óculos: - O poeta foi cegado. (Do livro Abstratos poéticos)