mr_sergius

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n. 1955 BR BR

Sou uma pessoa que fez biologia, que fez direito, que se fez de pintor, que se aventurou a escrever e que alguma gentil alma leu e por empatia ou falta de definição melhor, chamou de poeta. Se não fosse a necessária modéstia quase acreditaria ser um. Escrevo do que vi e do que vivi.

n. 1955-05-18, São Paulo

Perfil
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Setembro à espera da Primavera

Quero de tudo para este setembro, do que seja encanto floral
Quero alucinar-me nas mãos juvenis dessa mulher e declarar
Meu amor, na presença matutina, como nunca tivesse amado
Quero amar nesta primavera, mais que em todos os invernos
Quero ouvir vozes e cantos dos pássaros pelos amanheceres
Pois essa é como a voz da paixão, que é delicada e complexa
Quero o teu corpo e braços, onde guardarei todos os abraços
Quero as ruas da cidade à beira mar iluminada ao sol poente
O vermelho tomar conta do azul, riscando uma linha no mar
Quero tudo invulgar para setembro, toda forma de ser gentil
Quero estar à luz da tarde ao lado da namorada perfumada
Pois o amor é a luz e a rosa, a rima que meus versos não têm
Ler poema completo
Biografia
Sergius Dizioli nasceu em São Paulo, neto de imigrantes italianos. A veia artistica proveio da família de seu pai, cuja irmã - a tia Yolanda, conhecida como Yole Meira que era atriz ligada a Cacilda Becker, Bibi Ferreira entre outros Sempre foi apaixonado pela leitura e pela língua portuguesa desde muito jovem. Se dependesse de seus pais, de um lado, seria uma pessoa ligada às ciências biológicas; de outro ao Direito. Foi os dois. Gostava de desenhar com grafite, todas as vistas que tinha de alguma janela das casas do amigos. O resultado foi uma série chamada "Vista pela janela afora" e tudo era retratado: outros prédios, ruas, praças, vistas da praia... O gosto de desenhar chamou a atenção de amigos que lhe presentearam com 3 telas, 3 pincéis e 6 tubos de tintas a óleo, além de acessórios. No mesmo instante pegou os pincéis e começou a deitar as tintas aleatóriamente o que resultou em um pássaro algo surrealista. Esse foi o marco de que se possa chamá-lo de artista. Sempre autodidata nunca fez um curso de pintura. Alguns quadros podem ser vistos em segundo plano na foto do perfil. Passou a pintar paisagens a partir de fotos. O gosto pela pintura cresceu muito quando ganhou um livro com uma coletânea de pinturas de Salvador Dalí. Apaixonou-se pelo surrealismo e passou fazer réplicas de quadros de Dalí. A influência do surrealismo também levou-o a escrever, e a poesia foi a forma escolhida. Leu Andrè Breton, Paul Éluard, Murilo Mendes e Jorge de Lima entre outros surrealistas. Nos tempos da escola já havia lido Augusto dos Anjos. Assim nasceu sua linha poética principal: versos construídos com um certo amargor vistos pela ótica do surreal. A esta altura já consegue compilar mais de 350 poemas. Veio há algum tempo planejando a edição de dois livros: um que reúne os poemas mais 'sombrios' reunídos sob o título "Cicatrizes" e outro que reúne temas mais diversos e leva o nome de "As Marcas do Tempo". Já tem o primeiro publicado e espera ainda este ano publicar o segundo. Leia e opine, sua opinião é valiosa. Temos certeza que vocês vão gostar.

Poemas

9

Mudança de Rumo

Dedique um pouco de tempo apenas para ouvir
Não adianta gritar mais e mais alto desse modo
Pois então existirão chances de você descobrir
Apenas se pergunte se isso é real ou se é comum
Dê uma olhada na distância, todo o desconforto
A necessidade de estar como numa corda bamba
E diga-me se isso é tudo que nós compartilhamos
Porque esse tudo é nada, assim é só a escuridão
O rato corre na roda atrás de nada, dia após dia
Sempre tive fé em nós, mas parece que fui só eu
Caminhei sobre caminhos de fogo, dor e silêncio
Tantas vezes te levei à terra firme, passo a passo
Eu era o cão correndo atrás do rabo e feliz por isso
Mas, muita coisa mudou e me vejo cavar o túmulo
Onde eu mesmo irei deitar se abandonar os sonhos
A morte chama meu nome e eu preso neste vazio
Você verá que agora, vou saltar no próximo sinal
E a vida antiga, será só sua, faça dela o que quiser
216

A Lenda do Alquimista e sua busca inquietadora.

Sou o poeta nascido nos céus, lançado ao inferno, que teu amor ressucitou
Quem, pelo sortilégio próprio da poesia, tem a chave das portas do tempo
Ora vem contar a lenda do peregrino que rompeu o vazio com seus passos

O alquimista faz seu sonho viajar por anos luz de distância, sem cessar
Num segredo que jaz oculto no vento, ele carrega o negrume nebuloso
O fogo dos lampejos, ao som dos trovões, risca o negro do céu da noite

São memórias em ouro que jamais serão perdidas no poço do oblívio
Todo acontecimento têm seu ritmo interior e vem cercado de mistério
Que à tênue, e tanto amarga, fábula da vida não é dado compreender

A tarde se foi carregando uma busca de respostas, um jogo de porquês
Em nossa voz há mil palavras impronunciadas num poema não escrito
Irá decompor o espelho metamorfo das nossas pretensas estabilidades

A real face de nosso desejo, ocultamos atrás das máscaras que vestimos
Contudo tentamos dar à trama vã um sentido, ontem se por vias paralelas
Hoje convergentes, quiçá a nos resgatar do lago das escassas conquistas

Anteponho-me aos obstáculos, luto contra o vácuo e o sonho irrealizado
Na minha luta me faço incansável no meu voo além dos nus horizontes
Voarei com o vento a abrir nos limbos caminhos de ausentes presenças

Abro os espaços em círculo, onde sou análogo à medida de teu corpo
Vou trocar as fechaduras, grilhões, correntes e tudo que negar a fábula
Ou nos ligue às convenções, pelo cheiro de terra úmida após a chuva
 
Assim te guardarei, de sorriso fácil e cabelos dourados num futuro melhor

Assim me acompanharás invisível, todo tempo, nessa busca inquietadora
Atravessando as inúmeras portas por onde só a palavra haverá de passar
204

Longe

De cabeça baixa estavas e parecia que me fitavas
Teus seios afloravam da renda do vestido de festa
Na parte entreaberta sobre o teu ombro esquerdo
Nessa última imagem que vi de ti já não tinhas vida
A dor me trespassa o peito, já nem consigo chorar
Estendo a mão com tremor, alcanço teu braço nu
Tento te imaginar como há horas atrás e te cobrir

Palavras tínhamos dito, decisões seguras e rápidas
Decidimos com leveza as direções de nossas vidas
Pois sabíamos toda luta que teríamos a enfrentar
Para reunir nossas vidas e esperanças num futuro
Volto a nossa noite passada. Foi algo inesquecível
Cada uma era sempre como se fora a primeira vez
Mas esta não. É a última vez, jamais vais retornar

Sinto-me em um deserto de areias negras sob o sol
Elevo os olhos aos céus para buscar por respostas
Mas não vejo nada, não há uma luz, não há nem ar
Privado de ti me quedo vencido em meio a sangue
Porque queria te seguir, te rever dizendo que sim
Mas não tenho essa graça. É só silêncio e angústia
Não há um mínimo alívio para aplacar essas dores
Já nem vejo mais, escurece, ouço sirenes ao longe

Sabes quanto eu queria te tirar dali, trocar contigo
Nas profundas chagas que eu mesmo abri em mim
Pensei que assim iria te seguir, te amar pelos céus
Estaríamos num espaço azul e anjos nos sorririam
Trazendo a ti de volta para meus braços refeitos
Mas tudo que encontrei foram somente sombras
De tanta tristeza esse meu coração quase morto
Vai revivendo solitário o ar quente daquela manhã


220

Fuga de um inverno revisitado quando se esperava poder ver as flores de uma nova primavera.


O inverno reassoma intempestivo
e ficam na memória dias mais cálidos
O por do sol ardendo em brilhos
Tal qual a forja de uma ferraria
Acaso fosse verão, com o sol poente
Sentar-me-ia a olhá-lo, deslocado
das correntes do tempo cotidiano
Sumiriam as distâncias em minha mente
onde imperariam as transparências
Passado e futuro - conceitos fugidios
da consciência, submersa no irreal
Libertar-me-ia dos cordões umbilicais
que a vida insistiu em me atar
Os signos se apresentam sucessivos
os vejo, abismado, repletos de sentidos
Ocupando as faces lógicas dos losangos
com a precisão geométrica da luz
A luz me devolve ao real indesejado
Retorno ao presente de frios cortantes
Abrigo as mãos no calor dos bolsos
Retiro-me, irresignado, ao abrigo de casa.


243

Partida

O frio austral revisita o poema perdido na tarde à beira mar
O poeta eterniza a palavra lançada sobre a calma do papel
Que auscultou dos lábios da aragem, sua tristeza silenciosa
Grito teu nome talhado em minha pele como antiga cicatriz
Para te dizer da imensa mudança a qual ainda não acreditas
Carrego secretos sonhos infantis em navegares intermináveis
Trago sons de flauta e perfume de flores à procura do gesto
Que possa afastar os fantasmas febris e secar tuas lágrimas
Pois jamais se restabelecerá o abandono, o vazio da solidão
Para que só o verbo amar, presente e futuro seja conjugado
Escuta meu coração como fosse a última badalada da tarde
Encontra-me onde a paixão se recolhe, deita no meu ombro
E eu te pronuncio as sonoras sílabas do amor entre a bruma
Para que me escales agreste tatuando marcas em meu peito
E quando amanhecer reste um tanto de ti além deste desejo
Pois terás partido com as estrelas que se vão ao fim da noite
Nos meus ouvidos ainda ecoam teus gemidos entre os lençóis
Deixe-me num último sorriso nesta madrugada que emerge
Deixe-me mais: um doce suspiro antes que tenhas que partir
Da janela, nos dias distantes, em vão choraremos sob o gris
Volto ao silêncio antes que acordem os dolorosos fantasmas
Pois nada existe do outro lado mar a não ser o que sonhamos
262

Distância

Foram numerosos silêncios tão crus quanto ásperos
Uma fome insaciada, uma névoa de muito desalento
Mãos distantes a se buscar ébrias em meio ao sonho
Foram tempos de um nó insano a arder na garganta
Foi o frio da vida seguindo numa angústia sem saída
Foi a dor da perda num reencontro de cartão postal
Tal a dor que dói à terra a flor que se lhe desenraiza
Onde restam cicatrizes que nem o tempo vai apagar

Mas a mão do destino esconde segredos em silêncio
Mantém em si todas razões que a razão desconhece
Com esmero de reduzir a nada todas as construções
no que seja improvável; Romper as impossibilidades
de tudo aquilo que se pudesse nomear de impossível
No ventre que gera a vida está o germe da renovação
Para se fazer tempo de reencontro, de reaproximação
Acalmar as dores, angústias, dúvidas e hipertensões

Enfim uma flor se desabrocha, é a vida reeditando-se
Nos portais do espaço e tempo semeamos esperança
Para reaprender que distância é apenas uma ficção
Chegas no sonho, mas és corpo, és carne e realidade
Cada vez que nossas almas se encontram no infinito
As memórias de vida se refazem na energia ancestral
O nosso tempo já não é como nos relógios sonolentos
Não haverá monumentos ou heranças de nosso viver

Devo falar do que há muito tenho guardado em mim
Já devia ter te dito: dá-me a tua mão e fecha os olhos
Aconchega tua cabeça sobre meu peito neste abraço
Sem imaginar se é possível ou distante, sem projetos
Apenas fica. Seja para sempre ou apenas um instante
Mas que tenha a duração da eternidade dos amantes
Sempre me pertencerás na minha ilusão de nós dois
O existir não tem outro sentido senão o que criamos
242

Perfeição

Neste teu dia, queria escrever um poema que te descrevesse
Mas, temo não atinar palavras tão belas que te façam justiça
Para que estes versos não pareçam desertos diante do que és
Pois és a semente de tudo que germina, és a fonte que inspira
Porque tens os olhos profundos que versam mesmo que cales
Mas se não calas, tua voz é o alento que já gravei nos ouvidos
E se te faço sorrir, sinto-me como Deus na sua melhor criação
Pois teu sorriso ilumina as trevas da angústia e restaura a vida
Hoje sei que quando as flores foram criadas, pensaram em ti
Mas não sei fazer flores e tão menos descrever a flor que és
Contudo, posso reconhecer teu perfume em qualquer jardim
Se pudesse te escrever um poema, poderia recriar o mundo
O ouro imitaria a cor de teus cabelos que eu quero acariciar
Eu inventaria a brisa nas tardes de verão para vê-los esvoaçar
Inventaria também o céu e colocaria estrelas pra te ver sorrir
A lua não, pois viveria escondida nas nuvens, com inveja de ti
Deitaria ao teu lado para contar as estrelas e histórias da vida
Porém não sei escrever um poema que te seja justo, bem o sei
Mas, sei que te amo e que te desejo tão feliz qual sonho bom
Quero estar ao teu lado e cada ano constatar que vales mais
E dizer apenas teu nome, quando quiser explicar a perfeição
228

Das faces de carvão

Chega a noite com suas faces ocultas de carvão a difundir o negrume
Espalha-se no ar, entre signos de um sonho azul, uma música perdida
Que ecoa pelo concreto da selva urbana, onde agora é tudo apartado
No silêncio do meu quarto, é tanta a solidão que sua sombra faz ruído
Ouço o mover do seus passos ausentes, sinto-lhe o calor da ausência
Por todas as indagações irrespondidas destes caminhos mal traçados
No espelho baço das indesejadas memórias de um adeus que não dei
A ventania dos tempos a bater seus cascos pelos desertos anunciados
Os trens do isolamento carregam as dores da tristeza que viaja em nós
O grito súbito da noite remonta para a faina diária, a lâmina viva do dia
A geometria silenciosa das madrugadas traça a parábola da escuridão
Nas dobras da palavra, o poema frágil e transitório, enfim se recompõe
As linhas que o destino captou para nos confinar em verdades relativas
Qual pássaro com suas asas em chamas a sobrevoar o pó dessas vias
Recolho as tempestades em som e cores na perpétua roda dos tempos
Conquanto a cegueira dos que nos têm julgado, mais um dia renascerá
Com a luz do dia tudo irá renascer no sonho límpido da nova primavera
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Setembro à espera da Primavera

Quero de tudo para este setembro, do que seja encanto floral
Quero alucinar-me nas mãos juvenis dessa mulher e declarar
Meu amor, na presença matutina, como nunca tivesse amado
Quero amar nesta primavera, mais que em todos os invernos
Quero ouvir vozes e cantos dos pássaros pelos amanheceres
Pois essa é como a voz da paixão, que é delicada e complexa
Quero o teu corpo e braços, onde guardarei todos os abraços
Quero as ruas da cidade à beira mar iluminada ao sol poente
O vermelho tomar conta do azul, riscando uma linha no mar
Quero tudo invulgar para setembro, toda forma de ser gentil
Quero estar à luz da tarde ao lado da namorada perfumada
Pois o amor é a luz e a rosa, a rima que meus versos não têm
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