I-LXX Jaezes de vida e morte
Privilegiado por um amor genuíno,
me entoleço para perder-me na noite seguinte.
A insegurança é o amante que leva meu tempo,
é o que faz de mim um infiel ingênuo.
Como é bom estar sentido no meio desta noite vazia,
onde a hora aponta as mentiras que virão com o próximo dia.
Se o destino permitir-me ir, eu me prenderia aqui.
Sofro por angustia por mais de uma vida,
já mal sinto-me com qualquer energia.
Lembro-me de meu primeiro dia no porão de Fritz,
estava reluzente de perseverança, tendo fé com besteiras mundanas.
Ansioso para o dia seguinte, mantive as paixões presas ao senso,
recordando ter menos que seis dias, pois perdi-me na luz do primeiro momento.
I-LXIX Jaezes de vida e morte
Tal azar que se apega aos homens que fazem de tudo ruim, sempre deu sorte a mim.
Temo ter que dizer o pouco que guardei, temo fracassar ao inventar o que não presenciei.
Cultuaria ter prazer no meu hábito de perder tantos negócios sujos que não sei manter.
Far-me-ia menos tolo, mais crente em gestos de outros.
Estive por baixo preparando algo profano,
devolvendo ao mundo o que me restou como humano.
Assim a realidade se esforça em levar-me embora,
tornando-me inabitável por tão quente estar lá fora.
Às besteiras que me fazem canalha,
pesando hoje sobre homens com esperanças frágeis como a alma,
dou-me sempre sem quaisquer lágrimas.
Sei que não sei, e jamais permitir-me-ei saber se nos tornamos algo além,
é esta a ideia que me faz temer o futuro com quem me tem.
I-LXVIII Jaezes de vida e morte
Levarão vossas almas aos porcos se aos amigos voltarem,
pois o mundo que carrega é o mesmo que pisa,
não faça por mim o que mal faz por tua vida:
Ambos viemos por péssimos motivos,
e nos afogaríamos se ao precipício resistirmos.
O fim se alastra por portas abertas
sem que mude a realidade de uma vida eterna.
Me perdi sabendo que venci,
já não vivo sem o inverno que me solidou aqui.
Doo ambas as mãos ao fogo se livrar-me do arroubo,
já não forço o ceticismo ao bom gosto dos outros.
E se já mal fascina-me dizer o privilégio que vivi,
temo resistir ao delírio de dar-me a ti.
É a sensatez que me tira a paz, pois sei que
de mim nada se faz, nem na terra, nem no céu,
nem nesta paixão que ameaça meu enfado cruel.
I-LXVII Jaezes de vida e morte
Outra vez chamado à vida,
diante de amigos que se tornam relíquias,
ajo feliz escrevendo aqui: Voltei para casa menos carente,
sorridente sobre caminhos que já me fizeram descontente.
Que a vida me dê mais dois ou três dias para ser esperto,
para que a noite explique melhor as verdades e o que é certo.
Não acreditaria se pudesse ver, não confiaria no que prometer,
pois já estou aqui a confessar receios inventados,
tenho o vício de fazer-me miserável.
Assim não menciono o que devia, não sinto o que vivia,
espero de coração que sejas minha última euforia.
E está tudo bem se o mundo está aquém,
pois é instintivo estar embaraçado, tudo está sempre ao acaso.
I-LXVI Jaezes de vida e morte
Nesta noite, ao ganhar o sono,
vi-me em sonhos que se guardam em cômodos.
Doo-me ao paraíso inabitado pelo prazer de nunca o alcançar
e me gabo ao falar: O prazer está no que encontro ao procurar.
Quebrar-me-ia em bilhões,
para ensinar a mim o prazer de sentir,
como vós sois do início ao fim.
Faria do mundo evidente e nunca compreendido,
dando ao povo do leste a chance do nada,
e ao norte, constantes dádivas.
Calaria quem fala, por ser eu quem explana mágicas,
por ser eu quem oriunda do nada e por alados se espalha,
afundando a alma de quem a evolução retarda.
Faria do meu gosto o bom gosto e do instinto um constante suplício,
tornando o fim, o único caminho a mim.