I-LXXIV Jaezes de vida e morte
Com o mundo tirado de minhas costas, mal me movo ainda.
Com a minha verdade transformada em distância,
ainda perco-me sem esperança.
O fundo da realidade perfeita sem que me convença,
pois não necessita que funcione, nem que eu seja este com meu nome.
E quando, sobre a distância, me sinto cansado,
olho para trás e me sinto abalado.
Abandonei tudo para descobrir o que foi tudo,
e, talvez, se eu confiasse, ao invés de evoluir,
eu seria feliz, pois hoje sou corpo do que jaz aqui.
No fim, mantive minha idoneidade,
ansioso por quem me ame por esta verdade.
Em que parte da história eu seria, se não tenho sido e não serei?
Constranjo-me por mentiras que criei, temo ser responsável
por um futuro que matei.
I-LXXIII Jaezes de vida e morte
Motivação que me faz criar-te de novo,
para que me faça sempre de princípio do todo:
Esqueci-me dos que oram por minhas escolhas,
confundo-me com os rancores que me atoam.
Parte da alma esse lado que queima em brasa,
e parte de mim o instinto de ir ao fim.
Que haja quem faça o que o desespero para,
que vida surja pelos ódios que me franzem a cara.
E a todos os fins que aguardam algo de mim,
que eu os possa sentir como feitos de honra,
uma vida para criar-me e um dia para que me vá embora.
I-LXXII Jaezes de vida e morte
No fim dos tempos, procuro por quem
intente viver neste descontento.
Se há salvação no único mal do coração,
que eu caia em tentação, e perca-me neste abrigo
apertado e restrito, mas sem dimensão.
É loucura pensar na lonjura, pois perdemos vidas carregando repulsas,
e andamos de bom ou mau grado, e insistimos correr do acaso.
Como se a alguém a vida pendesse ao bem,
e à ventura, sobrasse o caos das dúvidas:
É genuíno o amor que sinto, é evidente que sou carente,
inevitável o fracasso dos bens escassos, e a morte de meu ente amado.
Então se por ventura livrar-me do paraíso, que eu esteja contigo.
Pois lembro-me das vezes que juraste ao infinito:
cada mal a mim, far-te-ias mais cravado ao canhoto amigo.
Amo-te com medo, e como já padeço,
resta-me o tempo que me arrasta ao desfecho.
I-LXXI Jaezes de vida e morte
Tantas cruzes decorrem esta mente, mas nada a protege de julgar,
ainda assim se entristece, se faz por calar.
Se importa com o que querem, mas há dinheiro a se considerar,
que o natal dê-me oportunidade de me ausentar.
Há muito cobram-me provas,
estar entre o carinho que recebo e o anseio por adeus,
faz de mim incoerente com as razões que recebi de Deus.
Nada nos protege de julgar, vir por amizade ou por rancor voltar,
vivo um presente conciso atrás do futuro que irá me privilegiar.
Então faz de ti embora, pois se com outros terei que lidar,
ao menos sei que meu mal perdeu-se em seu lugar.
Que venham os próximos direto ao peito,
sem que cogitem ao meu amor causar algum sofrimento.
Amo-te vida que me trouxe cura após a ferida,
amo-te razão que faz minha vida ser vivida.