I-XCVI Jaezes de vida e morte
Ao cairmos no mundo passado, onde nos fez vítimas ao acaso,
pisamos e criamos laços, que, mais longe do que vi,
serviram de apoio ao alvoroço dos outros:
Queriam ter-nos separados! Parte exilada aos muros,
ao outro coração, cuidariam os corruptos.
Alegrei-me por momentos quando vivíamos às espreitas.
Era pelo reflexo do rosto, pelo jeito e afeição,
nos inspiravam sermos vítimas da paixão que,
de imediato, senti-me afim, sendo tudo por mim:
Era minha a cova e a carcaça, a lona de sangue encharcada,
a esperança já fragilizada, a vontade de ser nada.
Era cada vento algum pranto, todos vamos perdendo alguns planos.
Queria ter na vida mais vergonha fundamentada,
mais cautela entre as falas, pois perdi-me nas palavras.
I-XCV Jaezes de vida e morte
E como fez-me mais do que são,
continuei a procura do que me devolva à ilusão.
É fácil perder-me no dia sem que sinta algum calor,
reencontro-me sob sete palmos do mal e do rancor:
O que fez da vida imperfeição, que leva quem nos dá a mão,
que escuta o anseio e ri do nosso louvor,
que ouve as preces e nos impede de ver quem nos matou.
Assim pago por o que não sei, privilégios ostento sem ser alguém,
sou tão grato ao acaso que o dei o nome de "ninguém".
Que seja assim, então, a vida, sem critérios mas com contextos,
com deveres velados e razões em segredo.
À fina alma que me alegrou um dia:
Lembro-me da euforia sem que eu sinta alegria,
como disse sobre os saltos do amor,
que, com um belo passado, ainda se tranca
no futuro sem esperança.
Vivo o fascínio por ter alguém, e sofro
por temer quem mais o tem, pois as promessas
vêm com rumores, para que sobreviva a paz
sem que revele meus temores.
Não é escolha viver como um tolo,
é consequência de ser-me ao todo.
I-XCIV Jaezes de vida e morte
Pobres folhas pardas, onde a tinta se derrama,
pintando loucura com drama.
São portas para um cenário funesto, onde estive desde a infância,
até me tornar vivido e sem esperança.
Fundamentais à minha obra, são consequências de mim,
nada é sombra, e luz não me inspira assim.
O silêncio de hoje não é em vão,
veio para ver quanto guardei:
Inventando e multiplicando o que sei,
dei-me a muito mais do que realmente amei.
Lírico é o pranto, vivo do sono, efeito do ronco,
sempre alérgico, sendo enérgico, estando exausto,
é demais para um homem tão calmo.
Um dia contarei histórias, trarei a bobagem de outrora,
quebrarei conversas com poesias metódicas,
mas, por enquanto, obceco-me nesta obra.
I-XCIII Jaezes de vida e morte
De uma população que não se acaba,
tenho minha arte exilada,
e mais minha vergonha por não ser nada.
Quão fútil é meus afazeres que,
de tanto fazer, alucino sobre algo ser.
Desencarno dos sonhos que outrora nutria,
abandonando-os como folhas que o vento impelia.
Me desprendo do mundo terreno,
em busca de um lugar além, do eterno sereno.
Apesar de viver da ânsia, a cicatriz da dor,
declamo diariamente meu amor e fervor,
quase como obrigação, se tornou saudação.
É prece a Deus, minha afeição.
É meu túmulo, no vazio, próximo ao rio.
Semeia má poesia para perder a alegria,
e cubro-nos de letras e versos,
até perdermos o eco, os olhares dispersos.
E, sob silente oração, a alma volta à expansão.
I-XCII Jaezes de vida e morte
Os perigos da ambição vêm sem que a arte cale,
como se o valor deste mundo fosse a realização das vontades.
Minha casa vazia ecoa mais histórias que Lemúria afundou,
fazendo-me eterno fantasma sem trégua no amor.
Vivo amado, cuidado, como filho e como marido,
por meu Pai, pela família e amigos,
por desconhecidos, vivos ou escondidos.
Digo todos os dias sobre meu amor,
escondendo o anseio, sequela da dor.
Privilegiado recebo em dobro, e mais durmo
com um olho. E sem que eu perca alguma coisa,
já sinto-me sozinho sobre os ombros de meu Pai,
sob o destino resguardado e garantido,
e enlouqueço sem que algo faça sentido.
E diante de centenas de palavras, finjo não ouvir respostas,
forçando um instinto de prever o que não conta.
Assim vivo exausto na ciência,
rodeado de quem, prega a mim, carência.
São sacrifícios que eu quis, mas finjo ser indícios de um fim.
São consequências das vontades que, de longe, mais
me causam alacridade.
Que Deus tire de mim, até esta última palavra,
o anseio de criar conclusões precipitadas.