I-LXXII Jaezes de vida e morte
No fim dos tempos, procuro por quem
intente viver neste descontento.
Se há salvação no único mal do coração,
que eu caia em tentação, e perca-me neste abrigo
apertado e restrito, mas sem dimensão.
É loucura pensar na lonjura, pois perdemos vidas carregando repulsas,
e andamos de bom ou mau grado, e insistimos correr do acaso.
Como se a alguém a vida pendesse ao bem,
e à ventura, sobrasse o caos das dúvidas:
É genuíno o amor que sinto, é evidente que sou carente,
inevitável o fracasso dos bens escassos, e a morte de meu ente amado.
Então se por ventura livrar-me do paraíso, que eu esteja contigo.
Pois lembro-me das vezes que juraste ao infinito:
cada mal a mim, far-te-ias mais cravado ao canhoto amigo.
Amo-te com medo, e como já padeço,
resta-me o tempo que me arrasta ao desfecho.
I-LXXI Jaezes de vida e morte
Tantas cruzes decorrem esta mente, mas nada a protege de julgar,
ainda assim se entristece, se faz por calar.
Se importa com o que querem, mas há dinheiro a se considerar,
que o natal dê-me oportunidade de me ausentar.
Há muito cobram-me provas,
estar entre o carinho que recebo e o anseio por adeus,
faz de mim incoerente com as razões que recebi de Deus.
Nada nos protege de julgar, vir por amizade ou por rancor voltar,
vivo um presente conciso atrás do futuro que irá me privilegiar.
Então faz de ti embora, pois se com outros terei que lidar,
ao menos sei que meu mal perdeu-se em seu lugar.
Que venham os próximos direto ao peito,
sem que cogitem ao meu amor causar algum sofrimento.
Amo-te vida que me trouxe cura após a ferida,
amo-te razão que faz minha vida ser vivida.
I-LXX Jaezes de vida e morte
Privilegiado por um amor genuíno,
me entoleço para perder-me na noite seguinte.
A insegurança é o amante que leva meu tempo,
é o que faz de mim um infiel ingênuo.
Como é bom estar sentido no meio desta noite vazia,
onde a hora aponta as mentiras que virão com o próximo dia.
Se o destino permitir-me ir, eu me prenderia aqui.
Sofro por angustia por mais de uma vida,
já mal sinto-me com qualquer energia.
Lembro-me de meu primeiro dia no porão de Fritz,
estava reluzente de perseverança, tendo fé com besteiras mundanas.
Ansioso para o dia seguinte, mantive as paixões presas ao senso,
recordando ter menos que seis dias, pois perdi-me na luz do primeiro momento.
I-LXIX Jaezes de vida e morte
Tal azar que se apega aos homens que fazem de tudo ruim, sempre deu sorte a mim.
Temo ter que dizer o pouco que guardei, temo fracassar ao inventar o que não presenciei.
Cultuaria ter prazer no meu hábito de perder tantos negócios sujos que não sei manter.
Far-me-ia menos tolo, mais crente em gestos de outros.
Estive por baixo preparando algo profano,
devolvendo ao mundo o que me restou como humano.
Assim a realidade se esforça em levar-me embora,
tornando-me inabitável por tão quente estar lá fora.
Às besteiras que me fazem canalha,
pesando hoje sobre homens com esperanças frágeis como a alma,
dou-me sempre sem quaisquer lágrimas.
Sei que não sei, e jamais permitir-me-ei saber se nos tornamos algo além,
é esta a ideia que me faz temer o futuro com quem me tem.
I-LXVIII Jaezes de vida e morte
Levarão vossas almas aos porcos se aos amigos voltarem,
pois o mundo que carrega é o mesmo que pisa,
não faça por mim o que mal faz por tua vida:
Ambos viemos por péssimos motivos,
e nos afogaríamos se ao precipício resistirmos.
O fim se alastra por portas abertas
sem que mude a realidade de uma vida eterna.
Me perdi sabendo que venci,
já não vivo sem o inverno que me solidou aqui.
Doo ambas as mãos ao fogo se livrar-me do arroubo,
já não forço o ceticismo ao bom gosto dos outros.
E se já mal fascina-me dizer o privilégio que vivi,
temo resistir ao delírio de dar-me a ti.
É a sensatez que me tira a paz, pois sei que
de mim nada se faz, nem na terra, nem no céu,
nem nesta paixão que ameaça meu enfado cruel.
I-LXVII Jaezes de vida e morte
Outra vez chamado à vida,
diante de amigos que se tornam relíquias,
ajo feliz escrevendo aqui: Voltei para casa menos carente,
sorridente sobre caminhos que já me fizeram descontente.
Que a vida me dê mais dois ou três dias para ser esperto,
para que a noite explique melhor as verdades e o que é certo.
Não acreditaria se pudesse ver, não confiaria no que prometer,
pois já estou aqui a confessar receios inventados,
tenho o vício de fazer-me miserável.
Assim não menciono o que devia, não sinto o que vivia,
espero de coração que sejas minha última euforia.
E está tudo bem se o mundo está aquém,
pois é instintivo estar embaraçado, tudo está sempre ao acaso.
I-LXVI Jaezes de vida e morte
Nesta noite, ao ganhar o sono,
vi-me em sonhos que se guardam em cômodos.
Doo-me ao paraíso inabitado pelo prazer de nunca o alcançar
e me gabo ao falar: O prazer está no que encontro ao procurar.
Quebrar-me-ia em bilhões,
para ensinar a mim o prazer de sentir,
como vós sois do início ao fim.
Faria do mundo evidente e nunca compreendido,
dando ao povo do leste a chance do nada,
e ao norte, constantes dádivas.
Calaria quem fala, por ser eu quem explana mágicas,
por ser eu quem oriunda do nada e por alados se espalha,
afundando a alma de quem a evolução retarda.
Faria do meu gosto o bom gosto e do instinto um constante suplício,
tornando o fim, o único caminho a mim.
I-LXV Jaezes de vida e morte
Tempo indomesticável sob céus superestimados,
que diz me ver sem que eu queira saber,
no que me esforço humilha-me por ter que crer.
Crente na igreja que se fecha por não ter o que presta,
vejo por vocês quando não há o que resta,
sob um futuro que nos leva sem trégua.
Apressados, disseram-me ir construir seus lares,
a noite está perfeita, mas temem presságios de maus olhares.
Os disse ser eu o último visto por Deus,
e que nenhum traço de desagrado ouvi sobre o que os envolveu.
Mas crianças são sempre espantadas temendo dias que se acabam,
me pergunto ser esta a razão dos cruéis castigos que as matam.
Partilharia minha mente com quem queira,
se, dado a mim, fosse um corpo que me deleita.
Não sei o que fazer, mas é instintivo querer,
é sofrer por tentar ser, e perder por simplesmente viver.
Fascinado, perco-me na época das poucas coisas que me agradam.
I-LXIV Jaezes de vida e morte
Paixão infame que em círculo corre para me deixar,
procuro tal grego que venha a me presentear.
O levaria para sempre, temendo o amanhã que chega,
fazendo de mim a descoberta de quem salvação anseia.
Em um mundo que se expande e nunca cresce,
meus sonhos morrem e prevalecem.
São como as almas sem rancor, que nos
ensinam perder e viver por amor.
Assim sinto-me no fundo do discreto,
pensando em quem padece sob juízos incertos:
Se os anjos se extinguem quando a mente definha,
e se é azar a âncora à vida sofrida.
I-LXIII Jaezes de vida e morte
Se coragem teve, aposto esta alma sobre
o que contou aos teus pais: vida e vida.
Acredito, então, que ouviste o que ouvi,
que sucumbiste pelo que me leva aqui.
Descreva-me, Pai, a sensação de quem
guarda os mesmos segredos que eu,
e de quem emerge, tão lento, que
o derrotismo perde seu eixo, e se encontra,
neste dia, livre de falsos conceitos.
Queres levar-me a estorvar as rodovias novamente.
É mais uma da mesma oportunidade de vida que,
todas as vezes que digo não, soo em vão.
Me irrito por pressupor o que anseio fazer,
me ira acreditar me conhecer.